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Valiler Döneminde Arap – Berberî Çatışması

Belgede Endülüs'te asabiyet (711-929) (sayfa 98-102)

2. ENDÜLÜS’TE VALİLER DÖNEMİNDE ARAP – BERBERÎ ÇATIŞMASI (711-756)

2.3. Valiler Döneminde Arap – Berberî Çatışması

2.1 - As origens e a natureza do projeto Eixo Tamanduatehy

A emergência da crise e das alternativas de reestruturação do capitalismo que avançou a partir dos anos 1970 nos países centrais e, mais acentuadamente, nos anos 1980 e 1990 nos periféricos, tomaram expressão também como uma crise da cidade, especialmente daquelas que concentravam infra-estrutura, grandes unidades produtivas do chamado período fordista, e forte concentração populacional e operária. Nos discursos políticos, nos meios de comunicação, e mesmo no meio acadêmico, a problemática colocada sobre tal crise girava, fundamentalmente, em torno das perdas econômicas, expressas em índices de produção, faturamento, arrecadação, emprego. De forma que ora foi tratada enquanto crise econômica financeira, ora de gestão política, ora dos serviços públicos prestados (saúde, educação, transportes), ora de emprego e renda. A instabilidade da arrecadação gerada pelos movimentos de capitais, pela reorganização do padrão produtivo, pela queda do nível de emprego e do consumo; a paulatina necessidade de assumir encargos e serviços antes realizados pelos estados nacionais, e a possibilidade de buscar recursos diretamente nas agências de fomento internacionais, ou negociar diretamente os investimentos estrangeiros, levou uma parcela dos governos locais66 a assumir, no discurso e nas ações, o papel de ‘protagonistas

da reversão da crise’.

Neste sentido, emergiu a valorização do ‘desenvolvimento local’, como se o mesmo representasse um antídoto natural, uma espécie de contraposição às conseqüências nefastas da globalização. Conseqüentemente, as cidades tornaram-se o principal foco de discussão e de ações no sentido de torná-las mais preparadas para esta ‘nova etapa’ de desenvolvimento.

Chama a atenção, pelo caráter de fomentador das políticas urbanas dos anos 1990, documento publicado pelo Banco Mundial de 1991, intitulado

Política urbana y desarrollo económico: um programa para el decenio 1990,

que salienta a relação entre as políticas macroeconômicas e a economia

urbana. Qualifica as cidades como o centro do desenvolvimento, faz uma avaliação das políticas do Banco Mundial para os anos 1970 e 1980 e aponta para a necessidade de uma nova estratégia de intervenção nas cidades, de modo a garantir que os efeitos de uma política de investimentos locais pudessem alcançar maior durabilidade e resultados mais efetivos. Neste sentido, indica que as ações do poder público, da iniciativa privada, das agências de fomento e da sociedade civil deveriam convergir para a melhoria da produtividade econômica das mesmas, como estratégia principal para garantir a melhoria das condições de vida. A mitigação da pobreza permeia o conjunto de diretrizes apontadas no documento, bem como uma mudança no campo político institucional que viabilizasse a produção de políticas integradas (produção de moradias, regularização fundiária, redução dos danos ambientais, geração de emprego e renda) e maior vínculo direto entre o poder local e as agências financiadoras destas políticas, entre as quais o próprio Banco Mundial, que ampliaria em 45% o total de recursos destinados a investimentos urbanos, só no período 1991-1993.

O programa do Banco Mundial para a década de 1990 concentrava-se em quatro grandes eixos, articulados: a) melhoramento da produtividade urbana; b) alívio da pobreza urbana; c) criação de respostas mais eficazes à crise cada vez mais grave do meio ambiente urbano e d) aumento das pesquisas urbanas.

Duas questões centrais atravessam o desenvolvimento destes eixos: a preocupação em melhorar a produtividade urbana, e a adoção de mudanças no campo político institucional, como: a descentralização financeira e de prestação de serviços entre o nível nacional e o local e a adoção de medidas e de políticas que racionalizassem os gastos públicos e garantissem a liquidez fiscal do Estado.

A implantação de infra-estrutura é um dos elementos centrais para o alcance da produtividade econômica das cidades e, portanto, do desenvolvimento macroeconômico. Ainda que neste aspecto o documento trate da expansão de rede de água e esgoto e provimento de energia e habitações ao conjunto dos cidadãos, o programa enfatiza a necessidade de reduzir ao máximo os obstáculos que dificultam o aumento da produtividade urbana, através de uma reforma política que transferisse a administração da infra-

estrutura urbana aos governos locais, produzindo-se um conjunto de leis e mecanismos de arrecadação que favorecesse a agilidade do provimento desta infra-estrutura, uma vez que:

Esses serviços públicos de infra-estrutura constituem insumos intermediários necessários para a atividade econômica. Caso não estejam disponíveis, as empresas privadas se vêem obrigadas a proporcioná-los por conta própria, fato que aumenta o total de investimentos requeridos e que por sua vez limitam a produtividade destes investimentos, pois reduz o incremento de bens e serviços, do emprego, e provoca ainda uma alta nos preços (BANCO MUNDIAL: 1991, p.8)

O documento salienta, no entanto, que o Estado pode deixar de ser o provedor destes serviços para tornar-se ‘habilitador’, criando normas legais e instrumentos financeiros “propícios para que empresas privadas, as unidades familiares e as associações comunitárias cumpram um papel cada vez mais importante na satisfação de suas necessidades” (idem, p. 10). Deste modo, preparava-se o caminho para a privatização dos serviços públicos e ainda, colocava-se, sobre os indivíduos e ’comunidades’, a responsabilidade pela melhoria de sua própria condição de vida.

A preocupação com a melhoria da produtividade urbana não se circunscreve à implantação de infra-estrutura adequada ao desenvolvimento, mas também se revela na definição da estratégia do programa para a mitigação da pobreza:

(...) [a estratégia] requer atacar os aspectos tanto econômicos como sociais da pobreza e inclui o aumento da produtividade do trabalho dos pobres através dos incentivos, da infra- estrutura e da tecnologia, assim como o aumento de gastos do setor social para o desenvolvimento dos recursos humanos. (BANCO MUNDIAL: 1991, p.80)

Assim, afinado com as políticas neoliberais de ajustamento político e econômico67, o programa sugeria o fim do protecionismo comercial e a abertura dos países a indústrias estrangeiras, investimentos em infra-estrutura urbana, fornecimento de capacitação para melhoria da produtividade e desregulamentação de normas e leis que, por excesso de burocracia ou rigidez de parâmetros, dificultassem a expansão da atividade econômica, além de propor retirar os obstáculos que impedem o acesso ao crédito e mercados aos pequenos empresários. Ainda na avaliação do programa, ’é necessário aumentar o acesso dos pobres à infra-estrutura básica e à moradia, fatores determinantes de um meio propício para uma melhor saúde e produtividade’ (idem, p. 84)

Também no que se refere às ações relativas ao que qualifica como meio ambiente urbano, o programa ressalta a falta de pesquisas para orientar ações específicas, mas adianta que seria necessário controlar o consumo dos recursos e produzir normas legais que fossem de fácil compreensão e avaliação, e que protegessem a água, o solo e o ar. Sugere a criação de uma política de preços para o solo, o ar, a água, os recursos minerais, de modo a conter o consumo. Em certo momento, alerta que: ‘... os problemas ambientais urbanos têm efeito a curto prazo. São percebidos de imediato na saúde e produtividade das pessoas, famílias e comunidades. (idem p. 13)

Vê-se, pelo exposto, que a cidade e o urbano foram reduzidos a meros suportes do crescimento econômico, este sim o centro de toda a política formulada. Em poucas palavras, na visão do Banco Mundial (1991), os obstáculos a superar para uma nova onda de crescimento:

Do ponto de vista operacional, a dificuldade se assenta em formular políticas e medidas que abordem os três problemas centrais do crescimento urbano: a redução dos obstáculos à

67 A crise de acumulação a partir dos anos 1970 também se revelou como uma crise do modelo político,

suscitando a emergência no âmbito das corporações, dos líderes políticos e, em parte da academia, de discurso que propagava a necessidade de ações de âmbito liberal, em contraposição ao modelo keynesiano de Estado que fundamentou a expansão capitalista no pós-guerra, principalmente nos países centrais. Apregoando a necessidade de garantir total liberdade às forças de mercado, o chamado neoliberalismo foi o fundamento político-ideológico que orientou as ações dos Estados nacionais, ao longo das décadas de 1980 e 1990 e que resultou na redução de investimentos sociais, privatizações e liberalização dos bens, serviços e capitais. A ação política realizou-se, contudo, de modo diferenciado, tanto do ponto de vista da execução quanto dos resultados alcançados. Para mais detalhes, ver: Anderson (1995 e 2005).

produtividade urbana, o alívio da pobreza e a ordenação do meio ambiente. (idem, p. 67)

A melhoria das condições de vida, na ótica do documento, derivaria da capacidade produtiva da cidade e significaria a possibilidade de incorporar os pobres ao circuito econômico. De modo que o verniz da ‘redução da pobreza’ mal esconde o caráter intrínseco de definir políticas urbanas que pudessem ancorar o crescimento econômico e, portanto, o processo de valorização do capital. A cidade emerge, neste documento, como o lugar próprio da realização do valor, agora não mais restrito à produção de mercadorias no interior das fábricas, mas açambarcando o conjunto das práticas sócio-espaciais, sujeitando os diferentes planos da vida à lógica da reprodução. Coisificada, reduzida, a cidade aparece como um instrumento, que deve funcionar eficientemente, garantindo o crescimento econômico.

A compreensão de que as cidades seriam o epicentro da crise e, ao mesmo tempo, a possibilidade de sua reconversão, não ganhou terreno apenas no plano político, mas também, em parte, na produção do conhecimento.

Observa-se, por exemplo, que Castells e Borja (1996), apontam as cidades como protagonistas do atual período histórico, fundamentais tanto para o desenho das relações internacionais, quanto para a vida cotidiana de seus cidadãos. A visão de que as cidades são atores políticos foi abordada por ambos em relatório apresentado na Conferência das Nações Unidas Sobre

Assentamentos Humanos, mais conhecida como Habitat II68, do qual uma parte foi publicada, concomitantemente, no Brasil em 1996.

Os autores partem de uma concepção do papel fundamental das cidades diante do processo de globalização, apontam as potencialidades que

68 Conferência promovida pela agência da ONU (Organização das Nações Unidas) a UN-Habitat,

realizada em Istambul em julho de 1996. Nesta, participaram não apenas chefes de estado ou seus representantes, mas líderes políticos locais (prefeitos), representantes de entidades da sociedade civil. Na declaração final produzida como resultado da conferência, os presentes firmaram o compromisso com a necessidade de melhorar a qualidade de vida de toda a humanidade, estabelecendo políticas e ações com vistas a dotar as cidades e também as áreas rurais, de moradias dignas, salubres e sustentáveis, especialmente nos países não desenvolvidos. A solidariedade através da troca de experiências, tecnologia e financiamento é ressaltada, no documento, como necessidade para o cumprimento do programa. Para conhecimento do documento completo, acessar: http://www.unhabitat.org. Em 2001, foi realizada a reunião Istambul +5, na cidade de Nova Iorque, com o objetivo de avaliar os resultados obtidos pelo programa até aquele momento.

este novo momento carrega no que diz respeito às cidades, avaliam brevemente a situação da Europa e América Latina, e então destacam a necessidade de maior autonomia aos governos locais (tanto de recursos como de decisões) na emergência do que chamam de protagonismo de cidades, sugerindo o papel promotor destes governos, bem como a necessidade de um planejamento estratégico para garantir que todos os atores da cidade fossem beneficiados com as ações elaboradas.

Embora não tenha um viés tão economicista quanto o apresentado no documento do Banco Mundial, do nosso ponto de vista, as concepções postuladas pelos autores revelam que a crise se explicita, também, enquanto uma crise teórica do pensamento sobre a cidade. Em primeiro lugar, porque o acento sobre a crise está no econômico e não no social; na cotidianidade que se fragmenta cada vez mais, sob o domínio da efemeridade e do valor de troca. Mesmo o econômico é reduzido à perda de eficácia nos processos de produção e circulação. Assim, a suposta dialética de ver a positividade na negatividade da crise é utilizada apenas para escamotear os processos reais que acompanham a trajetória da acumulação. E, neste sentido, a crise não é desvendada; ao contrário, é concebida como um ‘fenômeno’, decorrente da globalização, mas que pode ser superada pelo papel ativo dos governos e instituições locais, transformando as cidades em locais solventes, eficazes e capazes de atrair novos investimentos.

As cidades transformam-se em ‘entes’, acima das relações sociais, das condições gerais de produção, como se fossem sujeitos do processo de transformação. Reconhece-se a existência de agentes econômicos, políticos e sociais, mas não há sociedade de classes e os conflitos e contradições poderiam ser absorvidas pela cidade, considerada ela própria um ator político. Como os diferentes sujeitos da produção social são entendidos enquanto atores, a cidade é concebida como cenário e, por isto, o crescimento econômico parece ser o enredo que norteia ‘o próximo episódio’:

As grandes cidades devem responder a cinco tipos de objetivos: nova base econômica, infra-estrutura urbana, qualidade de vida, integração social e governabilidade. Somente gerando uma capacidade de resposta a estes

propósitos poderão, por um lado ser competitivas para o exterior e inserir-se nos espaços econômicos globais, por outro, dar garantias a sua população de um mínimo de bem- estar para que a convivência democrática possa se consolidar. (Castells e Borja: 1996, p.155)

Para alcançar estes propósitos, os autores propuseram a execução de um projeto futuro de cidade, construído nos moldes de um planejamento estratégico, reunindo os diferentes atores e promovido pelo poder local, em busca de um consenso. Enfatizaram a necessidade de que os governos locais deveriam ser os promotores das mudanças, buscando novas articulações entre os poderes e entre o setor público e o privado e apontam concretamente as ações a serem realizadas, como: promover a cidade para o exterior, com uma imagem forte e positiva, visitando atrair ‘usuários solventes’; promover a cidade internamente, visando ‘dotar seus habitantes de patriotismo cívico’; promover maior participação democrática, entre outros.

Há, portanto, certas correspondências entre o documento do Banco Mundial e as concepções e propostas dos autores; notadamente, a percepção de que as cidades seriam os motores do crescimento do capitalismo globalizado, e que embora se busque a mitigação da pobreza ou a melhoria do bem-estar, eles aparecem como resultado ou derivativo da economia. Borja e Castells acentuaram a necessidade de um novo arranjo institucional, apregoando o papel decisivo do poder local e da necessidade de envolver um conjunto amplo de segmentos da sociedade neste processo, em torno da criação de um projeto de cidade. Ambos os documentos sinalizam para a necessidade tornar as cidades mais competitivas e, supostamente, com maior qualidade de vida. No entanto, o Banco Mundial aponta para políticas que minimizem a pobreza, tornando, como conseqüência, as cidades mais justas e mais produtivas. Já Castells e Borja centralizam a discussão no importante papel do poder local, do planejamento estratégico e das intervenções urbanas como elementos estruturantes de um projeto de cidade que almeje ser protagonista num mundo globalizado.

Não se trata de negar a necessidade de investir na melhoria de infra- estrutura e nos assentamentos precários e irregulares, nem tampouco de

desconsiderar a importância das atividades econômicas, mas o que estas diretrizes e políticas, inclusive as que visam propiciar a suavização da pobreza revelam, é que vivenciamos um novo momento da reprodução social, no qual a incorporação dos mais pobres ao circuito econômico transforma-se em política definida globalmente, articulando-os diretamente às fontes de financiamento internacional69, ainda que pela mediação do Estado em diferentes níveis (local

ou nacional). Garantir acesso a serviços de saúde e educação, produzir habitações populares, regularizar e urbanizar favelas, representam, é claro, avanços no que diz respeito à melhoria das condições físicas do morar de milhares ou centenas de milhares de pessoas, mas elas não significam o fim da pobreza e, muitas vezes nem mesmo melhoria das condições gerais de vida. Mas, o que o programa de políticas urbanas do Banco Mundial parece anunciar é que, no atual momento histórico, os investimentos em serviços de transporte, saúde, educação (especialmente os chamados cursos de capacitação e qualificação) e, principalmente em habitações, que não eram priorizados nas agendas de investimentos econômicos porque eram considerados ‘marginais’ à estrutura econômica70, atualmente parecem estar plenamente inseridos na lógica da reprodução, seja através da privatização destes serviços, seja como condição geral da produção.

Com o processo de reestruturação produtiva, a produção tende a se capilarizar pela cidade, a adoção do modelo “just in time” requer a plena articulação de tempos de produção e circulação entre inúmeros fornecedores e fabricantes, e os planos urbanos funcionais e rígidos cederam lugar à mistura de usos (como veremos adiante mais detalhadamente). Neste sentido, a cidade como um todo se transformou em condição da reprodução e, por isto, os investimentos em melhorias urbanas aparecem como condição essencial da competitividade. Uma pequena amostra deste fato é o uso que Prefeituras

69 Ver, por exemplo, o programa de financiamento, assessoria técnica e cooperação, denominado Cities

Alliance, que envolve alianças ou parcerias entre: governos locais, governos nacionais e organizações

multilaterais como o Banco Mundial. A aliança trabalha fundamentalmente em dois programas: Urbanização de favelas e Estratégias de desenvolvimento de cidades. Para maiores informações e referências: www.citiesalliance.org

70 Embora não seja consenso, Lojkine (1981), por exemplo, classificou as atividades relacionadas à saúde,

educação e pesquisa como meios de consumo coletivo e desconsiderou-as como condições gerais da produção, na medida em que não acrescentam nenhum valor àquele que é criado no processo de produção.

municipais brasileiras fazem do índice de IDH (índice de Desenvolvimento Humano) nas publicidades oficiais, vendendo a ‘qualidade de vida’ como um atributo especial para atrair novos investimentos. Assim, estas políticas revelam que o espaço transforma-se cada vez mais em condição, meio e produto da reprodução. Também é importante considerar que, nos países periféricos, grande parte da população vive em situação de pobreza e, através das políticas das agências multilaterais como o Banco Mundial, parte do capital financeiro que circula globalmente, encontra, através destes programas, a possibilidade de se reproduzir e valorizar, inserindo-se no circuito produtivo71.

O que parece estar posto é que a crise de acumulação (e a reestruturação produtiva e a financeirização) foi ‘traduzida’ como crise da cidade, num discurso que buscava eliminar as contradições e impasses da reprodução, ao mesmo tempo em que veiculava as possibilidades positivas de transformação, dadas pelo papel fomentador do poder local, pelas intervenções diretas no espaço urbano, pelas tecnologias de informação, comunicação e produção, e também pela incorporação definitiva da cultura, dos serviços públicos, da moradia, do lazer e da preservação da natureza, à lógica da reprodução.

Neste sentido, a captura de tempos e espaços urbanos não se restringe ao plano da produção “stricto sensu”, portanto, não se limita à ordenação da fábrica ou de outros locais de trabalho. A reprodução se viabiliza cada vez mais com a extensão da forma mercadoria e do valor de troca ao plano da vida, através de uma cotidianidade programada, o que coloca a cidade como mediação necessária a esta realização. Estas considerações iluminam a percepção de que as políticas urbanas chamadas, muitas vezes inclusivas, e desenvolvidas a partir dos anos 1990, têm um claro limite porque não apontam a superação da contradição que fundamenta a produção do espaço urbano, que é a da produção socializada e apropriação privada, pouco

71 Além disso, as agências multilaterais e, notadamente o Banco Mundial e o BID representam os

interesses políticos e hegemônicos do capitalismo global, definindo políticas macroeconômicas que, contraditoriamente, alimentam as desigualdades sócio-espaciais e subordinam politicamente os estados nacionais dos países periféricos. Sobre as políticas destas agências para o Brasil nos anos 1990 e seus efeitos, ver: Vianna Jr. (1998).

interferindo na hierarquização, fragmentação e funcionalização da cidade72.

Deste modo, pode-se afirmar que estas políticas apontam, no mínimo, para contradições, uma vez que representam a possibilidade de transformar a cidade como um todo num espaço solvente, produtivo, capaz de viabilizar novos investimentos73. Ao mesmo tempo, podem possibilitar avanços no que

diz respeito às condições de moradia, acesso a serviços básicos de saúde, e programas de geração de renda para centenas de milhares de pessoas, o que não é pouco, considerando-se o abismo social existente na sociedade brasileira, por exemplo. Mas, está longe de significar uma ruptura com os processos que fundamentam a produção da cidade capitalista (a propriedade

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