D. İLAHİYAT ( METAFİZİK)
7- VACİBÜ’L-VÜCÛD’UN ÖZELLİKLERİ
No decorrer dos Métodos e em outras produções de Edgar Morin, é possível encontrar referências diretas e indiretas à comunicação. Quando se refere à compressão da natureza complexa do mundo, que se sustenta em um grande jogo entre ordem/desordem/interações/organização, ou quando retoma a essência dos seres uni/pluricelulares, dos indivíduos/sujeitos e lembra que o
87 homem faz-se na linguagem que o faz. Não seria equivocado dizer que é possível (re)pensar a comunicação a partir das reflexões que Morin faz acerca de temas como cultura, mito, narrativa, rede, tessitura, sistema, linguagem, sociedade, comunhão.
Nas suas palavras, “comunicação, comunhão, comunidade são aspectos
que se encontram, de modo diverso, em todo organismo e em toda sociedade”
(MORIN, 2002, p. 231). São expressões que têm origem etimológica próximas do latim Communis, que quer dizer comum, geral, compartilhado por muitos e communicare, que significa ter e tornar comum. O ato de compartilhar, de tornar comum, de interagir e dialogar, logo, de comunicar, estão, eminentemente, em todo ser humano, em toda sociedade, em toda organização.
Vale lembrar que a comunicação não foi, desde sempre, concebida como um processo de transmissão, entendimento que se firmou no decorrer da modernidade. Em sua origem, até por volta do século XVI, o termo estava bastante próximo da sua origem etimológica, tendo relação com as expressões “comunhão”, “comungar” e, claro, “tornar comum”, todas com a mesma raiz communicare, communis. Foi na modernidade, especialmente com o desenvolvimento dos meios de transporte e a ampliação do “mundo conhecido”, como define França (2010), que o sentido de partilhar tornou-se secundário e o de transmitir se impôs. Época em que os meios de comunicação tinham influência decisiva na disseminação do conhecimento por meio do tempo e do espaço (INNIS, 2011).
Pensar a comunicação na contemporaneidade nos parece significar um movimento de retorno às origens. O século XXI, afirma Wolton (2010), não é o da informação, mas da relação, da negociação, da convivência, do compartilhamento. Embora tenhamos avançado significativamente com relação aos aportes tecnológicos, aos meios, às mídias, as necessidades fundamentais do homem permanecem, a busca pelos laços afetivos e sociais, a realização de trocas, a necessidade de estar em relação. O desafio atual é menos o de transmitir informações, mas sim de negociar as diferenças, de alcançar o Outro, de constituir vínculos, de produzir sentido.
88 Morin deixa claro que seu modo de entender a comunicação não se limita aos modelos clássicos, matemáticos, lineares:
[…] não se trata de uma comunicação entre emissores/receptores abstratos, como na teoria shannoniana, mas de uma comunicação determinada pela natureza de indivíduos-sujeitos dos comunicantes, e esta comunicação não pode limitar-se ou reduzir-se às trocas de informações (MORIN, 2002, p. 228).
O ser comunicante é, antes de tudo, ser social e não ser de informação, conforme adverte Wolton (2010). É ser de relações, enredado nelas cotidianamente, no decorrer de sua existência. Sujeito em/de comunicação, que vive em meio às tramas (in)visíveis e é constituído por elas, nas relações com o Outro, com a linguagem e com o simbólico (FRANÇA, 2002), mediadas social, cultural, discursiva e tecnicamente.
Falar em relações discursivas nos faz recorrer à dimensão da linguagem que, para Morin (2002, 2007), é parte da totalidade humana ao mesmo tempo em que a totalidade está contida na linguagem. É ela a encruzilhada essencial do biológico, do humano, do cultural, do social, que nos abre ao outro e ao mundo e pode também nos expulsar dele. “Somos, conforme o nosso destino, fechados pelo que nos abre e abertos pelo que nos fecha”, conclui Morin (2007, p. 37), conferindo à linguagem a condição de fronteira entre o sujeito e os sentidos do mundo.
Por outro lado, cabe também lembrarmos que a comunicação se dá para além da linguagem, no silêncio, nos não ditos (ROMAN, 2009), no que nos provocam os ambientes, a tatilidade, os sentidos. Para Marcondes Filho (2004), a comunicação transcende as formas convencionais de linguagem, pois se dá além dela, além do signo, além da significação, construindo sentidos infinitos e imprevisíveis, únicos, “irrepetíveis”, inesperados, na presença muda, nos olhares e no contato dos corpos. A linguagem está no nível da expressão e nem sempre dá conta do que o ser humano elabora internamente, do que não é dito ou capaz de ser expresso, escrito, falado, simbolizado.
Morin (2002), em outra perspectiva de análise da comunicação, aborda
as comunicações “frias” e “quentes”. As frias se limitam a trocas de
89 comunicação quente vai além da tradução de signos e sinais, colocam em comunicação dois ou mais sujeitos.
Ora, são as estruturas próprias do ser-sujeito que abrem e permitem a comunicação entre dois seres: é porque o computo comporta simultaneamente a auto-exo-referência (capacidade de distinguir e identificar o objetivo e o subjetivo) e a alteridade (autorreflexão e desdobramento reprodutor) que o individuo- sujeito dispõe em princípio da capacidade de considerar objetivamente o outro como ser-sujeito semelhante/estranho, e que pode subjetivamente identificar-se com ele na comunicação (MORIN, 2002, p. 229).
Para Morin (2001, 2002), o sujeito é compreendido como um centro gerador/receptor de comunicações, um sujeito comunicante por natureza, e toda associação entre organismos, pessoas, comporta e se realiza pelo que o autor denomina de intercomunicação entre congêneres. Na linguagem biológica, quer dizer interação entre organismos do mesmo gênero, da mesma espécie. Ou seja, seres humanos, congêneres, únicos e múltiplos, entram em relação por meio da comunicação mútua, da interação entre si.
A noção de tecido comunicacional da eco-organização também nos oferece possibilidades de reflexões sobre o ambiente organizacional. De acordo com Morin (2002), seres vivos emissores/receptores tecem uma rede de comunicações e de um em um, do próximo ao distante, as redes
sobrepõem-se, recobrem-se, interferem umas nas outras, “encontram-se,
ramificam-se em profusão, numa espécie de polirrede, sempre recomeçada
que constitui, em suma, a teia, o tecido comunicacional da eco-organização”
(2002, p. 55).
A eco-organização é como uma máquina viva
computacional/comunicacional, pois dispõe de recursos da computação, da informação, da comunicação para garantir sua própria produção, regeneração e regulação.
Chegamos à ideia de que a eco-organização funciona não somente com mortes e nascimentos, transformações tróficas e fágicas, mas também com interações que comportam sempre um aspecto informacional/comunicacional e nas quais cada ser vivo opera as suas computações (MORIN, 2002, p. 56).
90 A compreensão de ecocomunicação de Morin nasce da observação das redes de comunicação das sociedades animais (insetos, peixes, pássaros, mamíferos). Cada uma dessas sociedades dispõe de um vocabulário por vezes inteligível, repleto de signos e sinais. As abelhas, por exemplo, possuem uma linguagem tão própria que se torna incompreensível para todos os animais que não pertencem a esse grupo. A regra é a não comunicabilidade do ecossistema, que garante a proteção de cada espécie, cujo código permanece secreto para o inimigo e/ou o predador.
Nessa rede, a comunicação não emana de um único posto emissor, mas de toda a parte, de todos os emissores/receptores. Não se trata, então, de uma
rede unificada; ao contrário, existem “enormes buracos negros entre essas
redes cada vez mais confusas, emaranhadas, parasitadas por enormes quantidades de erros, de ‘ruídos’” (MORIN, 2001, p. 55). Contudo, os espaços de ambiguidade, as oscilações de incerteza, a onipresença do erro não impedem a comunicação; ao contrário, favorecem também o seu desenvolvimento, assim como a desordem que se faz necessária para gerar a ordem.
Há muito da eco-organização nas organizações contemporâneas. Assim como na natureza, as organizações desenvolvem uma linguagem própria, discursos institucionais, posturas, posicionamentos que as caracterizam. São sistemas vivos/computacionais/comunicacionais, com processos próprios de armazenamento e produção de informação, com tramas comunicacionais que se ramificam em profusão, eternamente. Também nelas há buracos negros, incertezas e ambiguidades.
Embora, à primeira vista, as incertezas nos levem a pensar que sejam limites e lacunas na comunicação, na verdade, acredita Morin, são atores de complexidade, de refinamento e de sutileza. Para Grant (2007), citado por Santaella (2010), não há como ignorar as incertezas fundamentais da comunicação. Elas se expressam de múltiplas formas, em torno das mídias, dos sujeitos, das linguagens, dos contextos, contudo, lembra o referido autor, as incertezas não são fruto do advento midiático, mas provém da natureza mesma da comunicação.
91 Comunicar é admitir a incerteza de ser compreendido, ressalta Wolton
(2006, 2010) e também reconhecer a importância do Outro38 e nossa
dependência em relação a ele. O sociólogo coloca o receptor como dimensão central dos processos comunicativos contemporâneos.
A revolução da comunicação – o que faz toda a diferença em relação à informação – diz respeito ao levar em conta o receptor. Por isso a comunicação traz um duplo desafio: aceitar o outro e defender sua identidade própria (WOLTON, 2006, p. 14).
De acordo com Morin (2005), o Outro significa, ao mesmo tempo, o semelhante e o dessemelhante. Semelhante pelos traços humanos e/ou culturais comuns, dessemelhante pela singularidade individual e/ou pelas
diferenças étnicas. O outro, ressalta, “comporta, efetivamente, a estranheza e a
similitude” (2005, p. 77). Nessa perspectiva, a comunicação é mais um processo de confiança, um jogo simbólico e de negociação, que uma realidade técnica concreta e, por isso, permeada pela incerteza. E não há como evitá-la, assim como não há como escapar do horizonte da incomunicação (WOLTON, 2006, 2010).
Reconhecer a importância da comunicação é, ao mesmo tempo, reconhecer o lugar da incomunicação, defende Wolton. A expressão criada pelo sociólogo refere-se não à ausência da comunicação, mas ao reflexo da ausência do Outro, para quem a comunicação é dirigida que, por sua vez,
inviabiliza a comunicação, como o prefixo in sugere. “O Outro simplesmente
não está ali, não responde, não escuta, opõe-se ou foge”, explica Wolton
(2006, p. 148), e por isso pensar a incomunicação é respeitar o Outro e compreender em que repousa a alteridade.
A comunicação, nesse contexto, é dificultada se o Outro não estiver no horizonte do pensamento, das ações e das estratégias. E é fundamental
também reconhecer que os “Outros”, contemporâneos, já não são também os
38
O lugar desse Outro no processo comunicativo começou a ser (re)pensado nos estudos comunicacionais latino-americanos, ao longo dos anos 80, especialmente no âmbito dos Estudos Culturais e de Recepção (AMORIM, 2009). Momento em que o modelo de mão única e da lógica de estímulo-resposta que mantinha os sujeitos do processo em lados opostos, com foco claramente voltado para a emissão, abriu caminho para uma compreensão que percebe os sujeitos de modo mais amplo e complexo, admitindo a natureza dinâmica e incerta da comunicação, na qual o Outro (receptor) é parte fundamental.
92 mesmos de outrora. Mais exigentes, seletivos, enigmáticos, empoderados, são
eles a “caixa-preta” da comunicação, enfatiza o sociólogo francês, e é o desafio
de ir ao seu encontro e alcançar a intercompreensão que torna a comunicação desafiadora, complexa e apaixonante.
Sendo assim, o horizonte da incomunicação se concretiza na contramão da comunicação. Nem mesmo a evolução das técnicas conduz ao avanço da compreensão, das práticas, dos usos das novas possibilidades tecnológicas e da importância da alteridade. Expressar-se, adverte Wolton (2006, 2010), não basta para garantir a comunicação quando se deixa de lado a dimensão do Outro, o respeito, a atenção, a tolerância, a escuta, o cuidado. É por isso que, em um mundo repleto de possibilidades técnicas, ainda presenciamos a intolerância e a incompreensão. As tecnologias de informação e comunicação podem diminuir distâncias geográficas, mas não as sociais, culturais, identitárias, pessoais.
Encontramos esse mesmo posicionamento em um texto de Morin (2003, p.8) sobre comunicação:
[...] quanto mais desenvolvidos são os meios de comunicação, menos há compreensão entre as pessoas. A compreensão não está ligada à materialidade da comunicação, mas ao social, ao político, ao existencial, a outras coisas.
Ambos os pensadores convergem para a ideia de que a compreensão humana, a qualidade das relações e da comunicação não evoluem de forma diretamente proporcional às possibilidades tecnológicas. Para Morin (idem), a compreensão humana é um tipo de conhecimento que necessita essencialmente da relação subjetiva com o outro. No seu entendimento, talvez mais do que a comunicação, ou em consequência dela, a compreensão é o grande desafio atual da humanidade. A nosso ver, esse mesmo desafio está presente no universo organizacional contemporâneo, em que a constante evolução das máquinas, dos sistemas e dos processos não anula a necessidade vital da compreensão entre os sujeitos, que é perpassada essencialmente pela comunicação entre eles. Para tornar-se lugar, as organizações dependem mais das dimensões relacionais e orgânicas, por
93 tantas vezes esquecidas (CHANLAT, 2010), do que das materiais e técnicas, que normalmente fascinam e atraem mais atenção.
Quando essa inversão acontece, as organizações correm o risco de tornarem-se não lugares, habitadas por indivíduos indiferentes uns aos outros, rodeados de sistemas e um maquinário de última geração. Mas ali apenas coexistem, não coabitam (WOLTON, 2006, 2010). Um não lugar organizacional é um espaço ausente de socialidade (MAFFESOLI, 1997, 1998, 2006) e no qual a comunicação é normalmente reduzida à sua dimensão midiática e tecnicista.