C. Geliştirilmesi Gereken Alanlar
5. UYGULAMA VE HİZMET SÜREÇLERİNİN DEĞERLENDİRİLMESİ
Diferentemente do trabalhador que exerce uma atividade legalizada e conta com locais predeterminados para exercê-la, o prostituto constrói territorialidades itinerantes e flexíveis, favorecidas pelo ambiente da cidade moderna, onde imperam o anonimato, a surpresa e o encontro de estranhos (SIMMEL, 2004). Nesse aspecto, ele se assemelha ao flâneur que, com um prazer quase voyeurístico, perambula à procura de inspiração, olhando o espetáculo urbano (BAUDELAIRE, 2001). Como o “homem da multidão” que, aparentemente, anda sem destino, mas guarda o propósito de encontrar algo (POE, 1999), o michê vagueia sob a penumbra, movido pelo desejo de aventura sexual e comercialização do prazer.
Contudo, não se trata de um nomadismo aleatório, desorganizado. Os garotos de programa, ao deixar seus locais de moradia para se lançar às ruas, traçam um roteiro segundo seus objetivos, de maneira que venha a facilitar o encontro, o programa e a renda – mas, também, o prazer, o lazer e a realização do desejo. Como descreveu um dos sujeitos da pesquisa, trata-se de uma “turnê” que tem como meta “batalhar, ganhar dinheiro”, mas cujo resultado final pode ser divertir- se numa boate, caso o ganho tenha sido bom:
[...] Descer, fazer uma turnê, é percorrer as ruas, os locais em geral. A nossa sequência é a seguinte: primeiro vamos para os cines, depois para os bares, em seguida para a rua e, por fim, para as boates. Quando o dia ou a noite estão bons, esse é o trajeto: se ganha no cine, bar e rua e se diverte, já livre do programa, na boate. Quando não está bom, se faz cines, bar e [se] termina na rua. (Pablo).
Nas narrativas dos interlocutores, a expressão “fazer uma turnê” é recorrente; eles a usam para se referir à sua atuação nas ruas, nas andanças pelos espaços por onde circulam os possíveis clientes, ou seja: onde procurar, como abordar, o que fazer etc.
O nomadismo caracteriza-se por um “entre”, por ser um meio que escapa à forma fixadora de conceber o espaço, que é o apanágio do sedentário. (DELEUZE; GUATARRI, 1997). Para esse autor, o espaço é constituído de percursos:
O nômade tem um território, segue trajetos costumeiros, vai de um ponto ao outro, não ignora os pontos (ponto de água, de habitação, de assembléia, etc.). Mas a questão é diferenciar o que é princípio do que é somente conseqüência da vida nômade. Em primeiro lugar, ainda que os pontos determinem trajetos, estão estritamente subordinados aos trajetos que eles determinam, ao contrário do que sucede no caso do sedentário (...). Em segundo lugar, por mais que o trajeto nômade siga pistas ou caminhos costumeiros, não tem a função do caminho sedentário, que consiste em distribuir aos homens um espaço fechado, atribuindo a cada um sua parte, e regulando a comunicação entre as partes. O trajeto nômade faz o contrário, distribui os homens (ou os animais) num espaço aberto, indefinido, não comunicante (1997, p. 50).
A condição de nomadismo indica a vulnerabilidade de quem sobrevive à margem da sociedade capitalista heteronormativa, que ao mesmo tempo segrega os desviantes dessa norma e exclui aqueles que não são considerados aptos para o mercado de trabalho formal. Para lidar com essa situação, os michês associam a busca do prazer à necessidade do ganho financeiro, o que introduz um elemento de cálculo na escolha dos percursos. A incerteza quanto à realização de um programa leva os garotos a procurarem determinados pontos, onde possam ser encontrados pelos homens interessados em seus serviços. Como diz Marley, “eu vario de acordo com o movimento, para onde as coisas mais acontecem, aonde dá mais clientes, como a rua, principalmente a esquina”.
Muitas vezes, o encontro logo acontece e rapidamente “pinta” um cliente. Em certos dias, contudo, a demora em conseguir um programa leva o michê a perambular por todo o circuito:
[...] É tipo assim, a gente vai para um cinemão tentar alguma coisa, mas se não dá, você vai para outro lugar, para rua, para uma boate, bar, porque tem que ganhar. Não tem essa de ficar só num lugar, tem que batalhar. Pode ser na rua, no cinemão. Não gosto de sauna, mas quando eu não consigo nada eu vou e no Centro tem de tudo, para todo gosto. (Marley).
A procura persiste noite adentro, como na música: “De noite eu rondo a cidade a lhe procurar, sem encontrar / Em meio de olhares espio, em todos os bares/ você não está56”. Assim é o cotidiano do michê.
56
Ronda, música de Paulo Vanzolini, gravada em 1978 por Maria Betânia, pela. Polygram/Phillips, Rio de Janeiro.
A viração do garoto de programa, como foi visto, acontece através de espaços nos quais a possibilidade de encontros é potencializada pela existência de equipamentos frequentados por sujeitos homoeróticos: lugares de “pegação” como cinemões, bares, boates etc. Essa movimentação faz parte do modus operandi dos garotos, no qual o nomadismo é uma estratégia para a procura de parceiros sexuais, mormente os que envolvem a prostituição. Esta traz a marca do estigma atribuído ao comportamento e às práticas sexuais transgressoras, mas é justamente da marginalidade que ela tira sua força. As territorialidades marginais ou os territórios de prazeres ilegítimos, que estão amparados pela cumplicidade daqueles que os frequentam, permitem ao homem viver suas fantasias sexuais inconfessáveis e desejos insaciados sem se sentir ameaçado em sua identidade social. Além disso, nesses espaços os eventuais fracassos sexuais são igualmente silenciados.
Tudo gira em torno da efervescência e da agitação dos transeuntes, sobretudo aqueles motorizados, que costumam frequentar cinemas pornôs, bares e boates do centro da cidade. Os frequentadores desses ambientes buscam divertir- se, beber, dançar ou “jogar conversa fora”; mas também são adeptos de práticas sexuais transgressoras, homens que ali vão como a um esconderijo para a realização de suas pulsões, consideradas ilícitas. Parece existir, na história pessoal desses seres noturnos, uma atração pelas margens (de)marcadas pela ideologia dominante. Esta, ao segregá-los, provoca o surgimento de lugares onde os sujeitos discriminados desejam estar. Por parte de ambos os figurantes da prostituição masculina, a intencionalidade funciona como uma bússola, que os orienta e os leva na mesma direção: ao encontro “onde os marginais urdem suas conspirações sadias” (PERLONGHER, 1987a, p. 58).