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Os princípios de funcionamento são aqueles previstos nos incisos I a IV do artigo 170, quais sejam: a) soberania nacional; b) propriedade privada; c) função social da propriedade; d) livre concorrência; e) defesa do consumidor; e f) defesa do meio ambiente.

A soberania nacional é um dos fundamentos do Estado, conforme previsto no artigo 1º, inciso I e 170, inciso I da Constituição de 1988. José Afonso da Silva (2006) a define como poder político, supremo (não possui qualquer limitação na ordem jurídica interna) e independente (porque está em pé de igualdade com poderes de outros povos, não estando obrigado a se submeter a outra ordem). Cabe destacar que a independência nacional também é prevista como um dos objetivos do Estado e como base de suas relações internacionais109.

Mas estamos alinhados com a ideia de que a soberania mencionada no artigo 170 da Constituição de 1988 não é a mesma elencada no artigo 1º do referido diploma, mas

106 GRAU, 2010, p. 195-257.

107 FONSECA, João Bosco Leopoldino da. Direito Econômico. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2005, p. 126.

108 BARROSO, 2002.

uma complementação. É o que pensa João Bosco Leopoldino da Fonseca (2005) quando afirma que “[...] as políticas econômicas a serem adotadas devem levar o Estado a firmar sua posição de soberania independente perante os demais Estados [...]”. Para isto, o autor chama atenção para a Resolução nº. 2625 (XXV) da O.N.U., de 24 de outubro de 1970, que garante aos Estados o direito de não ter os seus direcionamentos econômicos interferidos por outros Estados110.

Como se vê, assim como os demais princípios da ordem econômica, a soberania nacional se qualifica em razão dos princípios do artigo 170 que a cercam. É assim que a soberania, aqui direcionada a um desenvolvimento econômico, deverá ter como fundamento a valorização do trabalho humano. Além disso, essa soberania econômica deverá visar atingir acima de tudo o princípio da dignidade da pessoa humana.

Cabe destacar, ainda, que a previsão específica prevista no artigo 170 da Constituição se justifica claramente por motivos históricos. Eros Grau (2010), a esse respeito, explica sobre a necessidade de modernização da economia e da sociedade, e da ruptura da situação de dependência em relação às sociedades mais desenvolvidas, causada pelo capitalismo tardio que produziu, dentre outras consequências, a institucionalização dos agentes econômicos como meros intermediários entre produtores industriais estrangeiros e o mercado. Desta feita, garantir a soberania econômica nacional é produzir políticas públicas direcionadas a possibilitar a participação da sociedade brasileira em condições de igualdade no mercado internacional111.

A propriedade privada e função social da propriedade são princípios que costumam ser analisados em conjunto pela doutrina. É preciso consignar, inicialmente, que a propriedade é um termo que não apresenta apenas uma significação, senão diversa. Nesse sentido, Eros Grau (2010) esclarece que a propriedade pode ser a artística, literária, industrial, do solo, dentre outras112.

Mas é preciso esclarecer que, enquanto a propriedade no artigo 5º é vista sob o aspecto puramente individualista, André Ramos Tavares (2011) entende que a previsão de propriedade contida no artigo 170 demonstra que ela atende as necessidades sociais, sobretudo porque a Constituição consigna, no mesmo capítulo da ordem econômica, que ela está submetida aos ditames da justiça social para garantir a todos uma existência digna113.

Sobre este ponto, parece concordar José Afonso da Silva (2006) ao afirmar que os lados

110 FONSECA, 2005, 127.

111 GRAU, 2010, p. 231-232. 112 GRAU, 2010, p. 241.

conservadores que atuaram na assembleia constituinte “[...] insistiram para que a propriedade privada figurasse como um dos princípios da ordem econômica, sem perceber que, com isso, estavam relativizando o conceito de propriedade, porque submetendo-os aos ditames da justiça social [...]”114.

Assim, da mesma forma como acontece com a soberania nacional, a inserção da propriedade privada como um dos princípios da ordem econômica a adensa com uma conotação distinta da que possui o mesmo princípio em outros dispositivos. No artigo 170, a propriedade privada atende aos objetivos da ordem econômica pois, assim como o mercado, não é um fim em si mesma.

Quanto à função social da propriedade, é importante dizer que esta também sofre as consequências da diferença de abordagem no artigo 5º e no artigo 170. Como sustenta Eros Grau (2010), enquanto direito individual previsto no artigo 5º, não faz o menor sentido falar em função social da propriedade, mas sim função individual da propriedade, ou seja, aquela destinada a garantia da subsistência individual e familiar. Já a propriedade inserida na moderna legislação econômica se trata da propriedade dos bens de produção que se insere no conflito entre propriedade e trabalho. É nesse contexto que se fundamenta a função social da propriedade, a qual irá se embasar nos seus fins, serviços e função115.

O mesmo entende José Afonso da Silva (2006), ao afirmar que, havendo direta implicação com a propriedade dos bens de produção, a propriedade trazida no artigo 170 é aquela atribuída à empresa que realiza o poder econômico. Por esta razão, segundo o referido autor, são mais corretos os conceitos de propriedade dos bens de produção, função social da empresa e função social do poder econômico116.

Daí sintetizar, como bem fez Eros Grau (2010), que a função social limita a propriedade na medida em que a justifica e até legitima.117 Portanto, como se vê, função

social e propriedade são conceitos imbricados no ordenamento jurídico atual, que devem caminhar juntos.

A livre concorrência decorreria de uma possibilidade de condições que permitiria a todos os agentes do mercado promover a compra e venda para alcançar os seus objetivos sem prejudicar as metas dos demais. Nesse sentido, João Bosco Leopoldino da Fonseca (2001) traz o conceito de concorrência perfeita, que é aquela onde todos os integrantes do mercado atuam em condições iguais, sua atuação individual não afeta a

114 SILVA, 2006, p. 814. 115 GRAU, 2010, p. 240-241. 116 SILVA, 2006, p. 814. 117 GRAU, 2010, p. 251.

formação dos preços dos bens, havendo também transparência das informações, fluidez dos mercados e homogeneidade dos produtos, no sentido de possibilidade de sua substituição por outros118.

Já na concorrência imperfeita, os elementos integrantes do modelo acima descrito não correspondem à realidade, havendo a molecularidade, ou seja, focos de concentração do poder. Os produtos não são substituíveis, possibilitando o monopólio de determinado produto e há a eliminação da transparência e da informação leal119.

Assim, surge a tendência monopolista do mercado, que dá origem a uma ordem econômica privada. Por outro lado, o Estado cristaliza um poder chamado poder econômico público, normatizando e regulando a atividade econômica120.

Mas há divergência doutrinária sobre a inclusão do princípio no rol do artigo 170 da Constituição. José Afonso da Silva (2006), sobre o assunto, afirma que não é possível mais se falar em uma economia de mercado, pois a prática de concentração levou ao afastamento por completo da livre concorrência, havendo na atualidade apenas formas oligopolistas. Daí que falar em economia descentralizada seria ignorar que a realidade é outra121.

No mesmo sentido, Eros Grau (2010) afirma que a menção à livre concorrência somente seria cabível em situações nas quais não se manifestasse o poder econômico. Contudo, a própria constituição reconhece o poder econômico no artigo 173, §4º da Constituição de 1988122.

A solução para isto é entender que o segundo dispositivo complementa o primeiro, uma vez que o poder econômico não constitui exceção, mas sim uma regra. Além disso, deve-se entender a livre concorrência como liberdade de concorrência, ou seja, não se trata da pluralidade de agentes e da influência de uns sobre os outros, mas do comportamento competitivo, que protege os direitos do consumidor, garante oportunidades a todos os agentes e gera extratos intermediários entre os grandes e pequenos agentes econômicos123.

Portanto, ainda que se admita que a tendência natural do mercado é haver concentração de poder econômico, é importante que esta centralização não impeça por completo a atuação de outros agentes no mercado, isto é, que esta situação não afaste completamente a competitividade. Por esta razão, o princípio da livre concorrência não é 118 FONSECA, 2001, p. 4-5. 119 Ibidem, p. 4-5. 120 Ibidem, p. 12-13. 121 SILVA, 2006, p. 795-796. 122 GRAU, 2010, p. 210-211. 123 Ibidem, p. 210-211.

violado pela simples existência do poder econômico, até porque, como dito acima, o que a Constituição condena é o abuso do poder econômico (artigo 173, §4º da Constituição) e não o poder econômico em si.

A defesa do consumidor é um princípio que se encontra em harmonia com o princípio acima elencado. Sobre este ponto, Nelson Nazar (2014) esclarece que o consumidor é diretamente beneficiado em um mercado com concorrência, uma vez que obterá tecnologia e eficiência oriundas dos investimentos dos agentes do lucro na atividade econômica. Ademais, isto evita que os consumidores sofram com o abuso do poder econômico124.

João Bosco Leopoldino da Fonseca (2005) demonstra que a proteção ao consumidor possui duas características importantes: a microeconômica e a microjurídica, de modo que o Estado não apenas preserva e garante a livre concorrência, mas também protege o consumidor com a realização de políticas econômicas.125 Nesse vértice, pode-se identificar

que o aumento desenfreado das economias de massa no mundo capitalista e o crescimento da ideia de intervenção nas relações contratuais geraram uma maior preocupação legislativa em proteger o direito dos consumidores126.

Um dos instrumentos desta proteção é, sem dúvida alguma, o Código de Defesa do Consumidor, Lei nº. 8.078 de 1990. Este diploma traz mecanismos de proteção que asseguram ao consumidor as defesas de seus direitos diante de uma realidade onde se relativizam tanto a liberdade de contratar como a liberdade contratual. Assim lembra André Ramos Tavares (2011), ao sustentar que a Lei 8.078 viu-se na obrigação de proibir as práticas abusivas nas relações contratuais, por exemplo, a “imposição” de um contrato “em bloco” ou as “cláusulas abusivas”127.

Júlio Moraes Oliveira ainda afirma que o Código de Defesa do Consumidor é uma lei de função social, a qual contém normas que são de direito privado (muito embora tais normas sejam de ordem pública) e normas de direito público.128 Daí que se verifica que o

Código de Defesa do Consumidor possui uma importância muito maior do que ele aparenta ter, isto é, a simples e pura defesa do consumidor, pois ele consiste em mecanismo de intervenção do próprio Estada para a garantia da estabilidade do mercado e até mesmo da regularidade na relação entre os agentes econômicos.

124 NAZAR, 2014, p. 86.

125 FONSECA, 2005, p. 129.

126 TAVARES, 2011, p. 179.

127 Ibidem, p. 181.

128 OLIVEIRA, Julio Moraes. Direito do Consumidor Completo. Belo Horizonte: Editora D’Plácido, 2014, p.

Por fim, o último princípio de funcionamento é o da defesa do meio ambiente. Este princípio está interligado diretamente ao artigo 225 da Constituição, o qual estabelece que: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.”

A respeito deste princípio, Eros Grau (2010) sustenta que a defesa do meio ambiente é princípio que adensa os do pleno emprego e garantia do desenvolvimento, de modo que tais normas conjugadas garantem uma economia autossustentada, permitindo ao homem encontrar a si próprio e não apenas como um dado econômico129. Fica claro, portanto,

que a exploração dos recursos ambientais necessária para o desenvolvimento econômico deve obter limites no desenvolvimento sustentável, em contraposição à devastação predatória e desmedida130.

O princípio também demonstra, conforme apontado por João Bosco Leopoldino da Fonseca (2005), a aderência do constituinte às preocupações internacionais sobre o meio ambiente131. Esta preocupação fica ainda mais caracterizada ante o fato do Brasil

ter sediado a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1992132.

Não se pode esquecer ainda a análise feita por Paulo Bessa Antunes, no sentido de que existe uma relação entre a pobreza e as condições ambientais, na medida em que os principais problemas ambientais se encontram nas áreas mais pobres, atingindo as pessoas daquelas regiões. Por esta razão, a proteção ao meio ambiente só poderá evoluir diante da melhoria na distribuição de renda na sociedade.133

Portando, estão demonstrados acima os princípios que tratam da limitação da conduta dos particulares dentro do sistema capitalista. Nesse contexto, como alerta Luis Roberto Barroso (2002), como tais princípios são direcionados à iniciativa privada, cabe ao Estado regulamentar o que é necessário, sempre observando o exercício da livre iniciativa134.

3.2.2 Princípios-fins 129 GRAU, 2010, p. 256-257. 130 TAVARES, 2011, p. 186. 131 FONSECA, 2005, p. 131. 132 Ibidem, p. 131.

133 ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental. 12 ed. Rio de janeiro: Lumen Juris, 2010, p. 25.

Benzer Belgeler