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Este princípio está interligado diretamente ao artigo 225 da Constituição, o qual estabelece que: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.”

A respeito deste princípio, Eros Grau (2010) sustenta que a defesa do meio ambiente é princípio que adensa os do pleno emprego e garantia do desenvolvimento, de modo que tais normas conjugadas garantem uma economia autossustentada, permitindo ao homem encontrar a si próprio e não apenas como um dado econômico129. Fica claro, portanto,

que a exploração dos recursos ambientais necessária para o desenvolvimento econômico deve obter limites no desenvolvimento sustentável, em contraposição à devastação predatória e desmedida130.

O princípio também demonstra, conforme apontado por João Bosco Leopoldino da Fonseca (2005), a aderência do constituinte às preocupações internacionais sobre o meio ambiente131. Esta preocupação fica ainda mais caracterizada ante o fato do Brasil

ter sediado a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1992132.

Não se pode esquecer ainda a análise feita por Paulo Bessa Antunes, no sentido de que existe uma relação entre a pobreza e as condições ambientais, na medida em que os principais problemas ambientais se encontram nas áreas mais pobres, atingindo as pessoas daquelas regiões. Por esta razão, a proteção ao meio ambiente só poderá evoluir diante da melhoria na distribuição de renda na sociedade.133

Portando, estão demonstrados acima os princípios que tratam da limitação da conduta dos particulares dentro do sistema capitalista. Nesse contexto, como alerta Luis Roberto Barroso (2002), como tais princípios são direcionados à iniciativa privada, cabe ao Estado regulamentar o que é necessário, sempre observando o exercício da livre iniciativa134.

3.2.2 Princípios-fins 129 GRAU, 2010, p. 256-257. 130 TAVARES, 2011, p. 186. 131 FONSECA, 2005, p. 131. 132 Ibidem, p. 131.

133 ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental. 12 ed. Rio de janeiro: Lumen Juris, 2010, p. 25.

Os princípios-fins traçam os objetivos da ordem econômica e estão previstos tanto no caput do artigo 170 da Constituição como nos seus incisos finais135. São eles os

princípios da dignidade da pessoa humana, redução das desigualdades sociais e regionais, busca do pleno emprego e expansão das empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras.

Flávia Piovesan e Renato Stanziola Vieira (2013) entendem ser o princípio da dignidade da pessoa humana princípio fundamental da ordem jurídica. No seu entendimento, este princípio, que fundamenta o ser humano como um fim em si mesmo e não como um meio, se trata de “[...] um superprincípio constitucional, a norma maior a orientar o constitucionalismo contemporâneo, dotando-lhe especial racionalidade, unidade e sentido [...]”136.

Avançando no tema, Vidal Serrano (2009) esclarece que o princípio da dignidade da pessoa humana traz a ideia de autodeterminação, ou seja, resgata o pensamento kantiano, impondo ao Estado que sirva ao ser humano, e não contrário137.

Mas é importante salientar que este princípio não possui apenas uma dimensão negativa, ou seja, a de autodeterminação. O fato da dignidade da pessoa humana se tratar de princípio que valoriza a própria humanidade, não há dúvidas de que a referida norma traz a ideia de um núcleo irredutível, que não pode ser afastado perante outros interesses. Por esta razão, Vidal Serrano Nunes Júnior (2009) defende que o princípio da dignidade da pessoa humana também possui uma dimensão positiva, isto é, os elementos necessários ao núcleo irredutível da vida humana podem (e devem) ser exigidos do Estado e de particulares138.

Em relação à ordem econômica, a dignidade da pessoa humana fundamenta e atribui unidade não apenas aos direitos individuais e sociais, mas também à organização econômica139. Daí se inferir, sem qualquer sombra de dúvida, que a dignidade da pessoa

humana é o fim para o qual se volta a ordem econômica140.

135 BARROSO, 2002.

136 PIOVESAN, Flávia; VIEIRA, Renato Stanziola. A força normativa dos princípios constitucionais

fundamentais: a dignidade da pessoa humana. In: TEMAS de Direitos Humanos. Organização Flavia Piovesan. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2013, p. 499-501.

137 NUNES JÚNIOR, Vidal Serrano. A cidadania social na Constituição de 1988: estratégias de positivação e

exigibilidade judicial dos direitos sociais. São Paulo: Verbatim, 2009, p.112.

138 Ibidem, p.112.

139 GRAU, 2010, p. 197-198.

O princípio da redução das desigualdades regionais e sociais se refere a aquele também mencionado nos artigos 3º, inciso III, 25, §3º; e 43 da CRFB/88141.

Ademais, ao tratar da erradicação da pobreza, da marginalização e da redução das desigualdades sociais e regionais, o constituinte trouxe a grave realidade econômica e social ao texto constitucional. Nesse sentido é o entendimento de Eros Grau (2010) ao sustentar que o princípio expressa o reconhecimento claro de marcas que caracterizam a realidade nacional: pobreza, marginalização e desigualdades, sociais e regionais142.

O caminho para tanto é, além da observância dos princípios de funcionamento acima mencionados, a implementação pelo Estado de incentivos fiscais e políticas públicas. Sobre este ponto, André Ramos Tavares (2011) esclarece que a redução das desigualdades sociais é princípio que se refere a normas tributárias, a exemplo do imposto sobre grandes fortunas, e também a normas relativas a direitos sociais, como o salário-mínimo143.

Mas o referido princípio também possui uma outra faceta, de combater as graves desigualdades regionais que sempre assolaram o país, resultado do desenvolvimento de algumas regiões em detrimento de outras. E, para tanto, como esclarece André Ramos Tavares (2011), deverá o Estado atuar na distribuição da riqueza nacional e na qualidade igualitária dos serviços públicos essenciais, levando investimentos a regiões mais inóspitas e, ao mesmo tempo, gerando incentivos para as áreas menos desenvolvidas. Um exemplo disso é a criação da Zona Franca de Manaus pela Lei nº. 3.173/57, alterada pelo Decreto-Lei nº. 288/67, para auxiliar no desenvolvimento da Amazônia144.

O princípio da busca pelo pleno emprego é aquele que se opõe a políticas que garantam justamente o contrário, isto é, o desemprego. Nessa direção é a lição de José Afonso da Silva (2006), que também afirma que o referido princípio possui o sentido de propiciar trabalho a todas as pessoas que possuam condições de exercer uma capacidade produtiva. Ele ainda se funda na valorização do trabalho humano e demonstra que o trabalho deverá ser a base principal do sistema econômico, e participar do produto da riqueza e da renda145.

Mas é preciso lembrar o comentário feito por André Ramos Tavares (2011), no sentido de que não se pode considerar o direito ao trabalho uma obrigação que o Estado deverá atender imediatamente, tendo em vista que a referida norma possui alto grau de programaticidade. Esta programaticidade, por outro lado, é completamente abandonada 141 NAZAR, 2014, p. 87. 142 GRAU, 2010, p. 220. 143 TAVARES, 2011, p. 202. 144 TAVARES, 2011, p. 201-203. 145 SILVA, 2006, p. 797.

quanto ao desemprego, na medida em que o Estado está vedado, imediatamente, de criar políticas que gerem o desemprego. Um desses mecanismos é o direito ao salário- desemprego146.

Por fim, o último princípio é o do tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no País. Este princípio se destina a garantir o desenvolvimento do mercado por meio do favorecimento de empresas de pequeno porte que possuem maiores dificuldades em competir no mercado com empresas de grande poderio econômico. Nesse sentido, André Ramos Tavares (2011) defende que é uma medida que objetiva assegurar a concorrência em condições justas entre micros e pequenos empresários, mas também para os grandes empresários147.

O princípio ainda se comunica com o dispositivo do artigo 179 da CRFB/88, que afirma que “[...] a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios dispensarão às microempresas e às empresas de pequeno porte, assim definidas em lei, tratamento jurídico diferenciado [...]”. Sobre este ponto, João Bosco Leopoldino da Fonseca (2005) defende que o princípio do tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte é tratado de modo mais amplo no artigo acima148.

Sendo assim, ficam elencados acima os princípios-fins da ordem econômica. Segundo Luís Roberto Barroso (2002), são princípios que representam os objetivos sociais do Estado, de modo que o governo deverá buscar a plena realização destes dispositivos constitucionais149.

Diante da classificação das normas aqui adotada, verifica-se que a dignidade da pessoa humana se trata de um sobreprincípio, o que conforme Humberto Ávila (2011) significa um princípio axiologicamente superior, o qual comanda os demais princípios. A dignidade da pessoa humana, dessa maneira, exerce ainda uma função rearticuladora, não tendo a necessidade de atuar diretamente no caso concreto, mas indiretamente, indicando o caminho a ser seguido pelos demais princípios150.

Por esta razão, toda intervenção do Estado no domínio econômico deverá observar a proteção ao princípio da dignidade da pessoa humana, atentando-se para os princípios de direcionamento e os princípios-fins acima tratados. E como o caminho escolhido

146 TAVARES, op. cit., p. 206-207. 147 Ibidem, p. 211.

148 FONSECA, 2005, p. 131.

149 BARROSO, 2002.

pela Constituição foi o sistema capitalista, observando-se os princípios de direcionamento acima delineados, qualquer intervenção que viole tais princípios deverá ser coibida pelo Estado, seja por mecanismos administrativos, tais como as agências reguladoras, ou pelo próprio Poder Judiciário.

Benzer Belgeler