Memoria de mis putas tristes, começa com a confissão de um desejo:
o narrador expressa que, em seu nonagésimo aniversário, gostaria de se auto-presentear com uma noite de amor louco na companhia de uma jovem virgem. O título e o início da obra fazem com que o leitor comece a lê-la imaginando-a como uma história real, afinal o título nos indica que a obra é escrita a partir de memórias e a pessoa que a narra, o faz em primeira pessoa, o que sugere alguém narrando sua própria história.
Seria possível então classificá-la como uma obra autobiográfica? Como já foi visto anteriormente, não é tão simples assim. Segundo Lejeune, para uma obra ser considerada autobiográfica, ela deve preencher certos parâmetros essenciais. Primeiro a obra deve ser uma narrativa em prosa, segundo, o assunto deve ser a vida, a história de alguém contada numa retrospectiva, terceiro, e talvez o mais importante, deve haver identidade entre autor, narrador e personagem. O primeiro parâmetro é preenchido sem problema algum por Memoria de mis putas tristes, já que esta é uma narrativa em prosa. O segundo também, pois, apesar de a obra não ser totalmente linear, ela tem como assunto a história de alguém e é contada de forma retrospectiva. Com relação ao terceiro parâmetro, nos deparamos com um problema, o nome registrado na capa do livro, Gabriel García Márquez,
renomado escritor colombiano. Em momento algum seu nome aparece no interior do livro, na verdade, nem o seu, nem qualquer outro que possa identificar o personagem principal. Ele simplesmente narra a história, porém não se apresenta de fato ao leitor. As memórias terminam e não se sabe o nome de quem as narra, quem realmente é esta pessoa. O principal parâmetro não é preenchido, não se pode afirmar que exista identidade entre autor, narrador e personagem. Narrador e personagem sim, nós sabemos que é a mesma pessoa, já que a história é narrada em primeira pessoa, existe um “eu” explícito, porém não podemos afirmar que o autor também o seja, pois não há como verificar.
Apesar de não se poder verificar a identidade entre autor, narrador e personagem, pode-se constatar muitas semelhanças entre a vida “fictícia” do narrador-personagem e a vida real do autor, isso é possível, principalmente, tomando como base a obra autobiográfica de García Márquez, Vivir para
contarla (2007). A primeira semelhança entre autor e narrador é o fato de os
dois serem colombianos. Outras são a de os dois serem escritores e de terem começado a carreira jornalística de forma semelhante, escrevendo contos a um jornal. García Márquez informa em Vivir para contarla (2007:268) que seu primeiro conto foi publicado no Suplemento Literário de
El Espectador de Bogotá, que era o jornal mais importante e severo da
época, o que lhe causou grande surpresa. Já os primeiros contos de o narrador de Memoria de mis putas tristes precisaram de uma “forcinha” de sua mãe que pagou pelas publicações, mas que ele próprio só descobriu anos depois, quando sua coluna semanal já voava com asas próprias e não
tinha mais como se envergonhar (2004:18). Além de semelhanças, também existem as divergências entre Gabriel García Márquez e o narrador da obra: a primeira delas é a idade, García Márquez nasceu em 6 de março de 1927, então, em 2004, ano em que escreveu a obra, ele contava com 77 anos e seu personagem, como aparece na primeira linha da obra, completava 90. Outra diferença é com relação ao matrimônio, García Márquez se casa com Mercedes Barcha e tem dois filhos, Rodrigo e Gonzalo, e seu personagem, apesar de sua mãe ter-lhe suplicado em seu leito de morte para que se casasse (2004:37) isso não ocorreu com a desculpa de que a vida libertina não havia lhe deixado tempo para tal (2004:42).
A partir dessas semelhanças e divergências, pode-se descartar a ideia de classificar a obra como autobiográfica, no entanto, obras do tipo de
Memoria de mis putas tristes, que não se pode verificar a identidade entre
autor, narrador e personagem, mas que existe certa semelhança entre a história narrada e a vida do autor, são enquadradas, segundo Lejeune, como “romances autobiográficos”.
O “romance autobiográfico”, como já vimos anteriormente, se insere na categoria do possível, na qual pode haver dúvidas sobre sua verificabilidade26, mas não sobre sua verossimilhança27, diferente da autoficção, por exemplo, que mescla verossimilhança com inverossimilhança28, ou seja, além de suscitar dúvidas sobre sua verificabilidade, também as suscita sobre sua verossimilhança.
26 Aquilo que pode ser empiricamente verificável.
27 Qualidade do que é verossímil, que parece verdadeiro, plausível.
No caso de Memoria de mis putas tristes, a história narrada não repugna a verdade provável, ou seja, ela pode ser perfeitamente admitida como verdadeira, o que descartaria a possibilidade de classificá-la como autoficção, pois, apesar de incitar dúvidas sobre sua verificabilidade, não necessariamente incita dúvidas sobre sua verossimilhança.
Outro fator que deixa lacunas para classificar Memoria de mis putas
tristes como “romance autobiográfico” são os pactos que, segundo Lejeune, devem ser cumpridos. Esta obra, segundo as categorizações de Lejeune, se enquadra em uma rede complexa, pois há total indeterminação. Além de o nome do personagem principal não ser explicitado, o pacto também o é. Não existe qualquer indicação sobre a natureza ficcional no livro e também não há uma afirmação autobiográfica. Sendo assim, segundo afirma Lejeune, cada leitor pode “classificá-la” de acordo com seu humor.
Desta forma, é totalmente possível e coerente pensar em Memoria de
mis putas tristes, de Gabriel García Márquez, como um “romance autobiográfico”.