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Urfa’da Müdafaa-i Hukuk Cemiyetinin Kuruluşu ve Çalışmaları

Em prosseguimento ao trabalho e aos conceitos tratados por Guattari, discutiremos agora sobre “territorialização” e “desterritorialização”. Estar territorializado para Guattari é o mesmo que “estar à vontade” em algum lugar, estar em um ambiente que lhe cause conforto. Um fazendeiro, por exemplo, em sua fazenda se sente completamente territorializado, no entanto, se este mesmo fazendeiro é obrigado a ir a uma cidade grande, provavelmente, ele se sentirá desterritorializado por não ser aquele um lugar que o deixe confortável. Nada impede também que alguém que esteja desterritorializado venha a se territorializar, é uma questão de adaptação na maioria dos casos.

Para este trabalho utilizar-se-ão os conceitos de “territorialização” e “desterritorialização” segundo Guattari nos apresenta, ou seja, conceitos ligados ao espaço físico e humano, para falar sobre o prostíbulo de Rosa Cabarcas e também far-se-á uso dos mesmos com uma pequena adaptação, ao invés de falar em espaço, falar-se-á em tempo. A questão temporal a ser levantada é a seguinte: o personagem principal de Memoria

de mis putas tristes de Gabriel García Márquez se desterritorializa por ser

um senhor que aos 90 anos descobre o primeiro amor de sua vida por uma jovem de 14 anos?

Vale à pena destacar aqui um pequeno trecho da obra Micropolítica:

cartografias do desejo (2007:342-343) que trata dos conceitos de

O amor anda impossível?

Que a família implodiu, já sabemos. Isso não é de hoje. Dela restou uma determinada figura de homem, uma determinada figura de mulher. Figura de uma

célula conjugal. Mas esta vem se “desterritorializando” a passos de gigante. O capital inflacionou nosso jeito de amar: estamos inteiramente desfocados. Muitos são os caminhos que se esboçam a partir daí: do apego obsessivo às formas que o capital esvaziou (territórios artificialmente restaurados) à criação de outros territórios de desejo, topamos com inúmeros perigos, por vezes fatais.

Em um dos extremos, é ao medo da desterritorialização que sucumbimos: nos enclausuramos na simbiose, nos intoxicamos de familialismo, nos anestesiamos a toda sensação do mundo, endurecemos. No outro extremo – quando já conseguimos não resistir à desterritorialização e, mergulhados em seu movimento, tornamo-nos pura intensidade, pura emoção de mundo –, um outro perigo nos espreita. Fatal agora pode ser o fascínio que a desterritorialização exerce sobre nós: ao invés de vivê-la como uma dimensão imprescindível da criação de territórios, nós a tomamos como uma finalidade em si mesma. E, inteiramente desprovidos de territórios, nos fragilizamos até desmanchar irremediavelmente. Entre esses dois extremos, ou essas diferentes maneiras de morrer, ensaiam-se desajeitadamente outros jeitos de viver. E todos esses vetores da experimentação coexistem, muitas vezes na vida de uma mesma pessoa.

A partir deste fragmento será possível compreender como um prostíbulo pode, ao mesmo tempo, ser um lugar de desterritorializados e territorializados. Desde tempos remotos homens vão a prostíbulos para satisfazerem seus desejos carnais, desejos estes que não podiam satisfazer em casa já que a relação conjugal estava ligada à procriação. Hoje a situação é bem diferente, a relação conjugal já não se resume a ter filhos, no entanto, a procura por prostíbulos continua grande, os motivos são os mais variados. Um motivo aparente é a vulnerabilidade conjugal, as pessoas estão cada vez mais independentes e por isso os relacionamentos estão cada vez menos sólidos, como alerta o trecho acima: “o capital inflacionou nosso jeito de amar: estamos inteiramente desfocados”(Guattari, 2007: 342). O prostíbulo de Rosa Cabarcas, assim como qualquer outro prostíbulo, aparece como o lugar da desterritorialização, ou seja, é um lugar condenado pela sociedade, posto à margem, entretanto, as pessoas que frequentam essas casas vão ali porque se sentem confortáveis por algum motivo e esse

conforto faz com que elas se sintam territorializadas. A questão dos prostíbulos é um jogo paradoxal porque a sociedade, ao mesmo tempo em que cria uma situação de desterritorialização por condenar aquele ambiente, também cria um ambiente em que as pessoas descriminadas possam se sentir territorializadas.

Para o personagem principal de Memorias de mis putas tristes, a casa de Rosa Cabarcas e outros prostíbulos que frequentou eram ambientes em que ele se sentia totalmente territorializado, e isso é facilmente perceptível em várias passagens da obra como, por exemplo, já citada anteriormente, (2004:19): “Dormía en el Barrio Chino dos o tres veces por semana, y con tan variadas compañías, que dos veces fui coronado como el cliente del año.”. Contudo, o personagem passa por outro tipo de desterritorialização. Tudo começa com um delírio, um desejo de passar seu aniversário de noventa anos com uma jovem virgem, porém os encantos desta jovem o fascinam e isso lhe causa temor, por isso fala da jovem a Rosa Cabarcas com desdém: “su estado es tan deplorable que no se puede contar con ella ni dormida ni despierta: es carne de hospital.” (2004:47).

Aos poucos o personagem principal deixa transparecer, cada vez mais, seu sentimento pela jovem: começa a fantasiá-la em sua casa, apesar de encontrá-la sempre dormindo no prostíbulo; leva enfeites para deixar o quarto mais agradável, até que ele começa, efetivamente, a declarar ao leitor seus sentimentos como nestas duas passagens:

“Hoy sé que no fue una alucinación, sino un milagro más del primer amor de mi vida a los noventa años.” (2004: 62)

“Era tal mi desvarío, que en una manifestación estudantil con piedras y botellas, tuve que sacar fuerzas de flaqueza para no ponerme al frente un letrero que consagrara mi verdad: Estoy loco de amor.” (2004: 66-67)

O personagem já não esconde mais seus sentimentos e isso faz com que ele se reterritorialize, já não se importa em ocultar o que sente. Quando Rosa Cabarcas se vê obrigada a fechar a casa por algum tempo, por causa de um escândalo, e o personagem fica sem ver sua jovem amada, adoece de amor, não tem vontade de sair de casa, de se arrumar, se pentear ou qualquer outra coisa:

Pasé hasta una semana sin quitarme el mameluco del mecánico ni de día ni de noche, sin bañarme, sin afeitarme, sin cepillarme los dientes, porque el amor me enseñó demasiado tarde que uno se arregla para alguien, se viste y se perfuma para alguien, y yo nunca había tenido para quién. (2004: 81)

La secretaria que me había besado la tarde del cumpleaños me preguntó se estaba enfermo. […] Enfermo de amor. (2004: 84-85)

O auge da reterritorialização do personagem principal se dá quando sua velha amiga, Rosa Cabarcas, comenta com ele: “Esa pobre criatura está lela de amor por ti.” (2004:109). Assim termina a obra: “Salí a la calle radiante y por primera vez me reconocí a mí mismo en el horizonte remoto de mi primer siglo. […] Era por fin la vida real, con mi corazón a salvo, y condenado a morir de buen amor en la agonía feliz de cualquier día después de mis cien años.”

Benzer Belgeler