A memória perigosa do Homem de Nazaré e dos seus seguidores e a novidade
perene de sua proposta evidenciam que o seguimento:
• não é uma realidade fragmentada ou ascética, nem uma repetição estática das atitudes, práticas e virtudes de Jesus; é sinônimo de totalidade da vida cristã e,
por sua própria natureza, implica um processo para chegar a realizar em plenitude a existência cristã;1
• não consiste em imitar Jesus, nem mesmo em reproduzir alguns traços históricos de sua existência, porque a sua proposta esta intrinsecamente ligada à concretude da história e pela impossibilidade fatual de fazer exatamente o que ele fez; mas é refazer processualmente a estrutura fundamental de sua vida nas mais variadas situações históricas;2
• não é uma exigência ética que implica no cumprimento formal de leis e na observância de normas; é um espírito e como tal cada pessoa o realiza de modo único e irrepetível, de acordo com os dons pessoais e o próprio estado de vida.3
“Uma vida cristã segundo o seguimento é vida e vida radical. É absoluta obediência à vontade de Deus, sejam quais forem as exigências e as renúncias que comporta, para uma prática salvífica e libertadora, tendo como modelo, última norma normans e não normada por nada, o mesmo Jesus e seu modo de vida e destino. Nisto consiste também hoje o ser cristão.”4
Desta forma, de um tema relegado à teologia espiritual,5
1 SOBRINO, Jon. Espiritualidade da libertação, p. 67.
o seguimento passa a ser:
2
Id., Cristologia a partir da América Latina, p. 151; Seguimiento. In: Conceptos
fundamentales de pastoral, p. 940. 3
Id., Jesus na América Latina, p. 227; Seguimiento. In: Conceptos fundamentales de
pastoral, p. 942.
4 Id., Seguimiento. In: Conceptos fundamentales de pastoral, p. 939. 5
“Na teologia europeia o ‘seguimento de Jesus’ normalmente foi relegado à teologia espiritual e quase não Influiu na cristologia, e quando o fez foi para mostrar a consciência peculiar de Jesus que se mostra na experiência de um seguimento incondicional.” Jon SOBRINO, Ressurreição da verdadeira Igreja, p. 32. Alguns autores referem-se ao seguimento de Jesus, como por exemplo, Dietrich Bonhoefer em sua obra El precio de la
gracia, Salamanca: Sígueme, 1968, p. 37-250 e Hans Urs Balthasar em Ensajos teológicos
II, Sponsa Verbi, Madrid: 1965, p. 97-174. Entretanto, o tema do seguimento de Jesus, na sua verdadeira abrangência para a cristologia e para a existência cristã, esteve ausente em renomadas cristologias sistemáticas como a de Paul Tillich, Teologia sistemática, São
• princípio estruturante e hierarquizador da vida cristã, segundo o qual se podem e se devem organizar as várias dimensões da vida como a pertença a Igreja, a ortodoxia, a liturgia;6
• fórmula breve do cristianismo, porque propõe não só a recuperação do Jesus histórico, mas também o modo de recuperá-lo e sintetiza todas as dimensões do ser cristão;7
• chave para viver a totalidade da vida cristã, porque leva a ser como Jesus, diante do Pai e para os irmãos, na força do seu Espírito;8
• lugar privilegiado para a prática da fé autêntica e concreta em Deus uno e trino;9
• expressão absoluta da existência cristã, pois não há outro modo mais concreto do que o seguimento para expressar a totalidade da fé em Jesus;10
• forma práxica de aceitar a transcendência de Cristo, o Filho de Deus;11
• modo de “ser conforme a imagem do Filho” (Rm 8,29), “tendo os olhos fixos em Jesus, autor e consumador da fé” (Hb 12, l);12
Paulo: Sinodal/Paulinas, 1984 e a de W. Pannenberg, Fundamentos de cristologia, Salamanca: Sígueme, 1974.
6
SOBRINO, Jon. Seguimiento. In: Conceptos fundamentales de pastoral, p. 940.
7 Ibid., p. 937. 8 Ibid., p. 949-942. 9 Ibid., p. 943. 10 Ibid., p. 939. 11
“No seguimento de Jesus já se aceita Cristo. E no seguimento desse Jesus e não de qualquer outro líder ou messias, político ou religioso, mantendo todos os valores enunciados e a tensão histórica entre eles, a história vai dando mais de si, vai se abrindo historicamente para a transcendência e a transcendência vai mostrando sua força histórica. A confissão dessa transcendência divina de Cristo faz-se praxicamente no mesmo ato de manter-se fiel a seu seguimento e encontra até uma verificação histórica sempre ‘maior’ e ‘melhor’, e a isto, em virtude do próprio seguimento de Jesus, nunca se pode pôr limites.” Id., Jesus na América Latina, p. 51.
• princípio de “desmundanização” e de “desalienação” da Igreja, de sua adequada encarnação e missão, de sua identidade e relevância histórica;13
• serviço ao Reino, anunciando sua proximidade e realizando sinais de sua presença;14
• princípio organizativo das diversas teologias: teologia da criação, da cruz e da ressurreição;15
• caminho definitivo que leva a estabelecer uma adequada relação com Cristo e a conhecê-lo por afinidade e conaturalidade;16
• lugar primigênio de toda a epistemologia teológico-cristã,17 e por isso também
lugar para compreender a escatologia;18
• princípio de unificação entre a dimensão transcendente e a dimensão histórica da existência cristã;19
• caminhar para Deus e com Deus na história, praticando a justiça e amando com ternura;20
13
Ibid., p. 937-938.
14 Ibid., p. 939.
15 Em relação às diversas teologias (teologia da criação, da ressurreição, da cruz), “é preciso
buscar um princípio de organização, a partir do qual apareçam todos os elementos, sua diversidade, sua hierarquização e sua complementaridade. Este princípio não é outro senão o seguimento de Jesus”. Id., La teología de la cruz en el Sínodo. Sal Terrae. 4, 1986, p. 265.
16 Id., Jesús de Nazaret. In: Conceptos fundamentales de pastoral, p. 509. 17
Aprofundamos o seguimento como lugar epistemológico neste mesmo capítulo, páginas 99-113.
18
“A tensão pensada entre dom de Deus e tarefa humana dissolve-se a partir do seguimento de Jesus… O que o seguimento de Jesus oferece não é a resposta ao que e a plenitude do Reino e quando este chegará, Oferece o lugar a partir do qual as perguntas podem ser feitas com sentido.” Id., Jesus na América Latina, p. 140-141.
19
Id., Seguimiento. In: Conceptos fundamentales de pastoral, p. 943.
20 “O seguimento, visto antropológica e teologicamente, é caminhar para Deus e caminhar
• lugar autêntico da contemplação do mistério de Deus na sua realidade trinitária.21
“O seguimento é uma prática salvífica e libertadora, que formalmente busca, em primeiro lugar, a salvação de outros; é um ‘imitar’ Jesus no que ele tem de salvador, e desta forma – dito sistematicamente – reproduzir a mesma realidade de Deus, que a partir de Jesus se manifestou inequivocamente como salvífica.”22
O seguimento, portanto, envolve todas as dimensões da realidade do ser humano. Molda, processualmente, o seguidor, em confronto com a esperança, com o realismo e com as contradições deste mundo. Dita atitudes adequadas diante dos desafios da história. Por conseguinte, é importante voltar o olhar para a realidade do seguidor e considerar sua real situação, seus limites e suas potencialidades, que ajudam e dificultam seu processo de seguimento.