Na história da América Latina, “imagem” de Cristo e sofrimento humano sempre estiveram relacionados de modo evidente.59 Entretanto, a partir da segunda metade do século XX, surpreendentemente, a tradicional “imagem” de Cristo, considerada, durante quase cinco séculos, de forma unilateral, como símbolo do sofrimento com o qual o povo se identificava, começou a ser vista também como símbolo de libertação e de protesto contra a tragédia “de um povo crucificado”.60
Esta nova “imagem” de Cristo é uma realidade e constitui o que podemos chamar de acontecimento maior da cristologia latino-americana, um verdadeiro “sinal dos tempos”, que, embora seja difícil avaliar quantitativamente, não pode ser ignorada pela reflexão cristológica atual.61
Esta nova imagem oferece maior relevância de Cristo para um continente de opressão por ser “libertadora”, e recupera melhor a identidade de Cristo – sem perder sua totalidade – ao voltar ao Jesus de Nazaré.
Apesar de ser relativamente recente, já é possível delinear o perfil desta nova “imagem” de Cristo.
Com inegável sensibilidade pastoral, Jon Sobrino percebe que, na América Latina, a experiência de fé dos cristãos comprometidos na luta por uma sociedade justa e fraterna revela Jesus Cristo como próximo, libertador, presente na história atual e Boa Notícia.
59 Ver AZZI, Riolando. Do Bom Jesus Sofredor ao Cristo libertador. Um aspecto da evolução
da Teologia e da Espiritualidade católica no Brasil. Perspectiva Teológica, 45, p. 215-233.
60
“Na experiência de fé de muitos cristãos da América Latina, Jesus é visto e amado como o libertador.” Leonardo BOFF, Salvação em Jesus e processo de libertação, Concilium 96, 1974. 375.
1.1.3.2.1. Jesus próximo
A “proximidade” é, sem dúvida, uma categoria teológica e cristológica importante. O dogma da encarnação sanciona a absoluta proximidade de Deus em relação ao ser humano, em Cristo.
Jesus esteve próximo da realidade de seu tempo e do fato maior desta realidade: as maiorias pobres, oprimidas, sem dignidade. Fez desta proximidade o critério de sua ação: comoveu-se diante do sofrimento das pessoas, denunciou a opressão, defendeu os pobres, envolveu-se nos conflitos e, consequentemente, foi perseguido e crucificado. “Proximidade” não é, portanto, uma categoria abstrata, mas histórica; é a encarnação de Jesus na realidade opressora do seu tempo, a honrada visão dessa realidade e a misericordiosa reação diante dos oprimidos.
É por causa desta proximidade histórica de Jesus ao seu mundo que, na América Latina, ele é sentido como próximo.
“Os pobres latino-americanos, anulam com toda simplicidade, a distância hermenêutica: um Cristo essencialmente próximo a seu próprio mundo é automaticamente compreendido, aceito e querido pelos pobres do mundo de hoje.”62
No processo de aproximação de Jesus aos pobres de seu tempo, os cristãos da América Latina percebem o modo característico de como Jesus se fez irmão dos pobres, se tornou participante de uma humanidade feita em sua maioria de pobres; por isso os pobres de hoje podem chamá-lo de irmão (cf. Hb 2,11).
1.1.3.2.2. Jesus libertador
Para os cristãos latino-americanos, Jesus é o único “capaz de libertar de todo tipo de escravidão que aflige os pobres do continente”, de direcionar essa libertação e de sustentar os cristãos nesta luta. Esta nova imagem de Cristo é neotestamentária e recupera Jesus de Nazaré “enviado a pregar a boa nova aos pobres e a libertar os cativos” (Lc 4,18). E a partir deste ponto central revaloriza a vida, atuação e destino de
62 Id., Espiritualidade da libertação, p. 202; Seguimento de Cristo e espiritualidade. In: Vida, clamor e esperança, p. 155.
Jesus, de modo que o Cristo libertador, sem ignorar a totalidade do mistério de Cristo, é, antes de tudo, Jesus de Nazaré.63
Jesus liberta o ser humano, no mais profundo do seu coração, da angústia, do individualismo, do desespero; comunica uma força interior que torna os homens livres para amar, para esperar, para se unir e para lutar; conduz a uma prática destinada à transformação de uma sociedade opressora em uma sociedade justa e fraterna.
“Que Jesus morresse crucificado, condenado como blasfemo e subversivo, constitui na América Latina – onde tantos são assassinados também como blasfemos e subversivos – a prova mais fidedigna de que Jesus procurou uma transformação de sua sociedade; de que seu amor não se destinava somente aos pobres ou ricos individuais, mas às maiorias pobres; de que seu amor foi, portanto, também um amor político e libertador.”64
Para os pobres da América Latina, Jesus é visto como aquele que opera uma profunda libertação na própria noção de Deus. Não se trata de estabelecer o problema de Deus puramente a partir de sua existência ou não, mas a partir da alternativa entre o Deus verdadeiro e os ídolos. O verdadeiro Deus é o Deus vivo que quer vida plena para todas as pessoas.
1.1.3.2.3. Jesus presente na história atual
A presença de Cristo é outra categoria teológica fundamental, embora esteja mais presente na espiritualidade do que na cristologia propriamente dita.65
63 “Libertação – em sua formulação como redenção e salvação – é uma nova categoria
teológica fundamental. O que ocorre na América Latina é que ela foi historicizada e compreendida a partir de suas raízes bíblicas, e desta forma, é captada espontaneamente como boa, justa e necessária pelos pobres da América latina.” Id., Espiritualidade da
libertação, p. 203; Seguimento de Cristo e espiritualidade. In: Vida, clamor e esperança, p.
156.
64 Id., Espiritualidade da libertação, p. 203-204; Seguimento de Cristo e espiritualidade. In: Vida, clamor e esperança, p. 157.
65
“Com isto queremos dizer que o presente de Cristo não influiu muito em seu conhecimento, com o risco de limitar as fontes de conhecimento de Cristo a textos do passado, de modo que, para conhecê-lo, seja preciso reformar fundamentalmente ao
“Não se trata, certamente, de ‘inventar’ o Cristo a partir do presente, mas, isto sim, de entrar ‘em contato’ com ele no presente, por mais que se tenha de qualificar cuidadosamente o que significa esse contato.”66
O conhecimento de Cristo não se adquire só a partir do passado, mas também do presente. O Espírito de Cristo, os sinais dos tempos por meio dos quais Cristo se torna presente são sumamente importantes para conhecê-lo.
A presença de Cristo na América Latina é vista na dialética de encontrar Cristo presente e de agir de forma a torná-lo presente. Parte essencial desta presença são os pobres que completam em sua carne o que falta a paixão de Cristo, mas são também corresponsáveis pelo atual senhorio de Cristo, implantadores, na história, dos sinais do Cristo ressuscitado: a esperança que não morre, o serviço desinteressado, a liberdade e o gozo. Desta forma, os cristãos concretizam na história o corpo de Cristo e, a partir dele, vão conhecendo melhor sua cabeça: Cristo.
Cristo está presente, escondido e sem rosto, na dor dos pobres e está também salvificamente presente em todos aqueles que se aproximam dos pobres para libertá- los.
1.1.3.2.4. Jesus como Boa Notícia
Esta característica, de certa forma, resume as anteriores. Através dela descobre- se realmente o Cristo dos Evangelhos, não só historicamente enquanto os Evangelhos são fonte para conhecer a história de Jesus, mas também sistematicamente enquanto Evangelho e boa-nova são sinônimos.
Jesus é portador de um evangelho, de uma boa notícia. Suas palavras e suas obras são boa notícia. Ele disse: O reino de Deus está próximo, Felizes os pobres em
passado. E evidente que isso é necessário (para não cair em ilusões, entre outras coisas). Mas o movimento unilateral para o passado, a fim de conhecer Cristo, tampouco faz plena justiça ao Jesus dos Evangelhos, de quem se diz de diversas formas nos outros escritos do Novo Testamento, que continua presente.” Id., Espiritualidade da libertação, p. 204-205; Seguimento de Cristo e espiritualidade. In: Vida, clamor e esperança, p. 157- 158.
66 Ibid., p. 205; Id., Seguimento de Cristo e espiritualidade. In: Vida, clamor e esperança, p.
espírito, porque deles é o reino dos céus. E quando ensinou a rezar, começou com a
grande noticia: temos um Deus que é pai de todos nós.67
Portador de uma boa notícia, Jesus é ele mesmo visto como boa noticia para os pobres, é o grande dom de Deus a este mundo.
Em consonância com este novo rosto de Cristo próximo, libertador, presente na
história atual e Boa Notícia, surge uma nova forma de viver e testemunhar a fé. Muitos
cristãos se converteram radicalmente e começaram a viver a própria fé de forma existencial e comprometida com a transformação social, testemunhando-a na aceitação do sofrimento cruel e injusto, a ponto de entregar a própria vida.
Esse novo modo de viver a fé é conflitivo. Jesus está a favor de uns: os oprimidos; e contra outros: os opressores. O seguimento de Jesus é por essência conflitivo, porque significa reproduzir a prática de Jesus em favor de uns e contra outros, e isto gera ataques e perseguições.
Esta fé é conflitiva também entre os pobres, pois ainda que todos busquem a salvação, coexistem “imagens” antilibertadoras de Crist o nos movimentos espiritualistas e nas seitas.68
Em seus traços fundamentais, esta nova “imagem” de Cristo foi assumida pela Igreja latino-americana e faz parte de “nossa tradição eclesial” constituída em Medellín, Puebla e Santo Domingo.