T- kesitler ve Çift Köşebentler
I- Kesitler, U-Kesitler ve Kutular
3. ÇELİK ÇERÇEVELERİN BOYUTLANDIRILMASINDA YÖNETMELİKLERDEKİ SİSMİK ŞARTLAR
3.1 UBC-ASD97’ye göre Sismik Şartlar
As expressões sobre a família na lembrança dos índios idosos Kaiwá entrevistados é intensa, no que diz respeito principalmente às modificações ocorridas no sistema familiar, o casamento, os cuidados com os filhos, as modificações que refletem no modo do índio idoso entrevistado pensar na família hoje.
A organização da família, na cultura indígena Kaiwá, era estruturada, como visto anteriormente, ainda no início do século XX, por um número grande de pessoas que viviam juntas e formavam uma família extensa, chamada de Te’yi. Residiam em casas abertas e grandes denominadas de Ogajekutu ou Ogaguas.
As aldeias eram constituídas da junção de várias famílias extensas. Os filhos casavam- se, a gosto dos pais, aproximando ainda mais as famílias. A busca por relatos individuais resgata a história comum destes índios idosos, no que diz respeito à formação cultural e traz particularidades especiais, de quem sempre viveu com a família e de quem teve percalços maiores no decorrer de suas fases de infância, de juventude e de adulto jovem no tocante ao convívio familiar, como á o caso do depoente a seguir.
Bom, segundo a minha conta, minhas tias, meus avós é que meu pai eu não conheci, mas a minha mãe conheci com mais idade. Depois que eu nasci lá e fui abandonado. É uma história longa... Então a minha mãe me abandonou na beira do “corgo” lá no Bororó. Esse tempo a Aldeia era só mato mesmo... Aqui só tinha onça. Ela me jogou na estrada... Eu, como criança, comecei a chorar. Assim que conta as minhas tias, elas que pegaram quando estava abandonado... Era numa época de festa, né, contam elas... O povo antigo gostava de festar chicha. Então, eram nossos costumes mesmo. Me abandonou por causa de outro homem. Não
mudou nada, hoje em dia muitas criança são abandonada, mas hoje, a mãe que faz isso é castigada. (M-01)
Ao ser questionado sobre família, este entrevistado se mostrou emotivo e saudosista ao relatar fato de grande importância e intensamente doloroso ocorrido consigo em sua infância que representa um fato considerado, segundo o próprio, comum à época, há setenta anos, na cultura indígena Kaiwá. Reforça também este depoimento, a influência da cultura não indígena quando comenta sobre a legislação vigente e a interferência nos costumes indígenas pela sociedade urbana, como no caso da punição legal para abandono de menores.
A família, considerada base de sustentação da cultura e do bem-estar dos idosos é para muitos, esteio de vida, ou seja, o principal motivo para continuar vivendo e buscando preservar sentimentos e costumes sociais da sua etnia ou de sua sociedade de convívio. Muitas vezes, implícito em depoimentos a figura da família representa o alicerce, a sustentação da estrutura humana social e cultural.
Família é ter com quem conversar, é trocar comida, idéia, tomar tereré... cantar e dançar de noite... Eu não tenho mais família. Tinha família bonita, grande, mas tudo morreu...
(pausa longa) o pai, a mãe, meus irmãos, todos morreram. Dos meus filhos, ficou um, só esse (apontando para o filho que estava ao lado), meu companheiro. Ele fica comigo. É minha
família agora. Tem meu neto aí também (apontando para a casa próxima), mas ele tem a família dele, três filhos e mulher. (M-02)
Este idoso vive com o filho sob uma lona pequena erguida medindo aproximadamente dois metros quadrados, onde cabe apenas uma cama, uma rede e algumas caixas com alimentos, vestimentas e instrumentos culturais como o chocalho. Ele fez questão de demonstrar a dança e a utilização dos instrumentos da sua cultura durante a entrevista.
Ao questionar sobre o casamento, as lembranças dos idosos entrevistados se reportaram também às modificações culturais vividas e ao modo como hoje o casamento é visto pelos filhos e patrícios – como se referem aos seus vizinhos que pertencem à etnia Kaiwá.
Eles tinham que ser um rapaz trabalhador, ela também, a mãe exigia e não tinha namoro. Se os pais gostavam levavam a moça até o pai do rapaz e fazia o casamento. Se for comparar com os dias de hoje, com a civilização, tem muita diferença. A mulher índia hoje não aceita qualquer marido, ela quer conhecer, quer namorar. Tão muito namoradeira. Antes nem conhecia... às vezes. (M-01)
A colocação deste idoso foi reforçada pela lembrança do abandono sofrido pelo mesmo na infância em função da troca de companheiro pela mãe, conforme relato a seguir.
O povo antigo era como de hoje, casa hoje e, depois de uns tempos achava uma pessoa e largava o companheiro dela ou companheira, e, no meu caso foi assim, me abandonou por causa que não queria que eu fosse com ela, né, e me abandonou. (M-01)
Os entrevistados lembraram-se do casamento de antigamente como um momento de alegria e muita festa, e da cultura da união, onde cada membro da aldeia trazia parte dos alimentos e bebidas consumidas durante os dias de celebração.
O casamento era ‘festado’ até três dias. Tudo era bonito, usava conta na cabeça e no pescoço. A mulher era pintada e usava vestimenta nova, o homem era enfeitado e era tudo muito bonito. Todos irmãos iam na festa, cada um levava uma coisa pra comer ou pra beber. Tomava muita chicha... (pausa longa)... Era bonito... (F-02)
Quando tinha casamento, a festa durava uns três dias. Era muito bom, todo mundo ia. A mulher era apresentada como parte da família do marido a aí começava tudo de novo, vinha os
filhos e a família aumentava muito. Nem todos tinham muitos filhos. Minha mãe teve cinco, só e só eu de mulher. (F-01)
Ao comentar sobre a quantidade de irmãos se referindo a quatro como um número pequeno, demonstra a relação entre o número de filhos e a força ou poder maior das famílias maiores.
As mudanças no casamento atualmente constituem em regras antes não necessárias como a oficialização da união pela Fundação Nacional do Índio – Funai e também pela liberdade de escolha do companheiro ou companheira à partir da primeira união.
Casavam em casa antigamente, hoje não, tem que ir no Posto da Funai pra fazer o casamento, e fazia danças pra se alegrar. Na cultura indígena mudou bastante coisa na parte do casamento. (M-01)
As mulheres não podiam escolher o primeiro marido, por isso dava bastante apartamento (separação) de casal. Elas procuravam outros homens pra viver, aquele não prestava mais... Acho que algumas nem gostavam deles quando casou... Eu gostava do meu marido... Eu queria ele. Ele era meu amigo de festa e de brincar na aldeia, buscar ‘guavira’
(fruta guariroba) perto do córrego... Mas ele morreu. (F-02)
O relato sobre a aceitação ou ao fato de gostar do esposo ou da esposa, mesmo sem ter escolhido oficialmente mostra a adaptação ao sistema cultural determinante da época e também ao conhecimento das regras do mesmo. Não era possível namorar e escolher com total autonomia, mas era possível dar a dica aos pais sobre quem interessou a princípio, lembrando que deveria pertencer à mesma etnia e ao círculo familiar ou de amizade próximo da família.
Escolhi minha mulher e falei pro meu pai, pode ser ela... Ele disse que pode, aí casei...
Casei gostando da minha mulher, ela era muito bonita, índia bela, de cabelo negro, longo... Ela morreu bem ali (apontando para perto de casa). (M-02)
As lembranças de como os filhos modificaram o comportamento, a questão do respeito e do comando familiar, foram citados por todos os índios idosos em seus depoimentos, relacionando as mudanças à diversidade cultural pela maior interação e convivência com as outras etnias e culturas.
Mas as crianças tudo obedeciam os pais, obedeciam mesmo, se falavam pra fazer uma coisa, eles faziam, tanto filha como filho, e eu vivia assim né, vivia com meus parentes né. Depois que vieram os brancos pra cá... eu lembro quando meu tio falou que tudo tava ficando diferente, que os netos não ouviam mais os avós para fazer as coisas, que tavam teimosos... Ele falava pra mim tomar cuidado, pra não deixar os filho tomar conta. (M-01)
Esta forma de criação, de obediência era necessária e importante para a boa convivência, pois como refere a entrevistada citada abaixo, o número de crianças em cada família era representativo de poder e de saúde.
Filhos era bom quando tinha bastante... Era sinal de saúde, de ser forte. Mulher parideira era melhor pra família. A família crescia e ficava importante... Nem todas eram assim... Hoje, os filhos nem ficam morando com a família. Vão pra cidade, muitos nem voltam mais. (F-01)
Ao lembrar-se dos filhos, os idosos associavam as lembranças às perdas dos próprios ou dos de vizinhos e patrícios, que saíram para trabalhar na usina e não voltaram mais para a aldeia devido à violência.
A família, modificada, com outra formação e estrutura, continua sendo um laço importante de preservação da cultura Guarani-Kaiwá. A verbalização dos entrevistados sobre a
ausência da família, dos pais e dos irmãos e sobre como era a infância fez com que revivessem momentos felizes de outrora e sofressem com a ausência atual, reportando-se também às modificações ocorridas na estrutura familiar e na cultura.
5.1.1. A família desfeita: reflexo da solidão
Ao mesmo tempo em que emoções positivas surgiam pelas lembranças da família, brotavam lágrimas ou silêncio quando as lembranças os faziam reviver as perdas sofridas.
Na minha família eu fui a única mulher. Tinha irmãos homens. Minha mãe tomava remédio de chá pra não ter mais filhos. Ela tinha cinco filhos. Naquele tempo era pouco. Mas ela não queria mais, sofria muito pra ganhar. Tudo em casa, não é que nem hoje que vai pro hospital... Hoje tô sozinha de novo, meus quatro irmãos já morreram. O Lourenço, o Cassiano, o Cícero e o outro eu não lembro. (F-01)
Ao relatar a história da família ou fatos da infância e da juventude, os idosos valorizaram os tempos de união em que passaram juntos, avós, pais e filhos no mesmo espaço físico com liberdade para viver na aldeia. E ao relatar estas lembranças, brotava a saudade e o sentimento de solidão pela perda de pessoas queridas e da estrutura familiar, falta dos irmãos e dos pais atualmente em suas vidas.
Irmãos eram quatro. Nos anos de moço morreram tudo aí, na aldeia. Morreram tudo aí mesmo... (pausa longa)... eu fiquei sozinho. Morreram de doenças, eram novos, tudo moço ainda. (M-03)
As lembranças, às vezes, fortes e emotivas e outras vagas e distantes, quando referentes à família refletiram a solidão e a incerteza no olhar do idoso entrevistado.
Tenho lembranças e lembro sim dos meus pais. Minha mãe chamava Rosana e meu pai chamava Pedro... (F-02)
É sim. O meu pai morreram tudo. Eles moravam junto. O meu pai morreu lá no Panambi (outra aldeia em cidade próxima da região). Faz muito tempo... (pausa longa e
lágrimas). Ele foi procurá lugar pra morá com a mãe e nós. (F-01)
A solidão causada pela ausência dos pais e dos irmãos está integrada às situações vivenciadas na infância e adolescência e às mudanças de hábitos antes comuns e hoje cada vez mais raros pela própria configuração diferente do espaço físico da aldeia, como caçar, comer frutas diretamente do pé, andar por caminhos abertos na mata, hoje estradas largas para passagem de carros.
A realidade atual de desmembramento das famílias, causada, principalmente pela busca de novos horizontes por parte dos filhos, pelas mudanças físicas no espaço geográfico da aldeia e pelas mudanças sociais de convivência entre os índios traz os contrastes entre o passado e o presente na vida destes idosos. Os encontros no final do dia e os momentos de união tornaram- se cada vez mais raros e são relatados pelos idosos como sendo de difícil retorno.