Não é possível procurar fazer sentido dos usos que os jovens fazem das novas tecnologias para fins sexualizados17 sem antes caracterizar algumas das tendências contemporâneas ocidentais, ou sem analisar as dinâmicas de poder que constituem a própria possibilidade de se falar em “sexualidade”. Uma das contribuições de base para esse mesmo trabalho é a “História da Sexualidade”, de Michel Foucault, através da sua análise histórica do dispositivo de sexualidade. Foucault traça o surgimento da “sexualidade” enquanto conceito social e historicamente construído. Essa mesma construção constitui, através do dispositivo de sexualidade, determinados sujeitos envoltos em relações de poder específicas (embora mutáveis), e determinados discursos e práticas (bem como interdições e silenciamentos) que conferem inteligibilidade a uns sujeitos, e a negam ou problematizam a outros.
Apesar da relevância que tem na obra de Michel Foucault, a definição de dispositivo parece ser múltipla e flutuante. Procurando sistematizar o significado e origem de dispositivo, António Fernando Cascais encontra numa entrevista do autor uma versão resumida do que constitui este conceito. Diz Foucault:
“Aquilo que tento abranger sob este nome é, em primeiro lugar, um conjunto resolutamente heterogéneo que comporta discursos, instituições, arranjos arquitectónicos, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas, em suma: o dito, bem assim como o não dito […]. O próprio dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre estes elementos. Em segundo lugar, aquilo que eu queria incluir no dispositivo é justamente a natureza do laço que pode existir entre esses elementos heterogéneos. […] Em terceiro lugar, por dispositivo, entendo uma espécie – digamos – de formação, que, num dado momento histórico, teve por função maior responder a uma urgência. O dispositivo tem pois uma função estratégica dominante” (Foucault, 1994).18
Também Agamben olhou para esta definição como forma de compreender o alcance deste conceito central de Foucault. A sua visão de dispositivo abarca “qualquer coisa que tenha de algum modo a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres viventes”, acrescentando que “todo o dispositivo implica, com
17 Usa-se aqui “sexualizados” ao invés de “sexuais” de forma propositada. O uso da expressão “sexualizados” aponta para um investimento cognitivo, conceptual, social, e para um agenciamento (se algo é sexualizado, foi-o por algo ou alguém); pelo contrário, “sexuais” aponta para uma imanência ontológica que este trabalho pretende questionar.
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efeito, um processo de subjectivação, sem o qual o dispositivo não pode funcionar como dispositivo de governo, mas se reduz a um mero exercício de violência” e que “Foucault […] mostrou como, em uma sociedade disciplinar, os dispositivos visam através de uma série de práticas e de discursos, de saberes e de exercícios, a criação de corpos dóceis, mas livres, que assumem a sua identidade e a sua ‘liberdade’ enquanto sujeitos no processo mesmo do seu assujeitamento” (Agamben, 2005, pp. 13–15).
O dito e o não-dito, as relações constituídas entre esses elementos e uma estratégia dominante são assim os elementos de base de um dispositivo. Assim, e de acordo com Foucault, o dispositivo de sexualidade
“funciona segundo técnicas móveis, polimorfas e conjunturais de poder […], gera uma extensão permanente dos domínios e das formas de controlo […], está relacionado com a economia por numerosos e subtis pontos de ligação, o principal dos quais é o corpo” (Foucault, 1994, pp. 109, 110).
Ao criar subjectividades e discursos, o dispositivo de sexualidade opera também como elemento hermenêutico (Foucault, 1994, p. 71) num processo duplo e interligado: “pedimos-lhe que diga a verdade […] e pedimos-lhe que nos diga a nossa verdade, ou antes, pedimos-lhe que diga a verdade profundamente penetrada por esta verdade de nós próprios que julgamos possuir em consciência imediata” (Foucault, 1994, p. 73,74). A
sexualidade não existe e é descoberta a partir do momento em que a medicina e a
psicanálise se começam a debruçar sobre ela, a sexualidade é criada por estes discursos e abre a possibilidade de se configurarem novas áreas, dentro das quais passa a ser possível dizer verdades até então inexistentes: “[é] isto o dispositivo: estratégias de relações de forças que sustentam tipos de saber e que são por eles sustentadas” (Foucault, 1994)19 e portanto se criam novas posições de sujeito, entre as quais se constituem as relações de poder, e onde se enquadra a ideia de que o desejo sexual é algo de natural e que abre a porta, portanto, para uma hermenêutica não apenas do sexo em si, mas do desejo que é posto a dizer algo sobre o sujeito desejante.
Do ponto de vista histórico, o dispositivo de sexualidade começa a ganhar forma e intensidade a partir do século XVII, mas é no século XVIII que começam a distinguir- se “quatro grandes conjuntos estratégicos, que desenvolvem a propósito do sexo dispositivos específicos de saber e de poder” (Foucault, 1994, p. 107), e que se focam sobre a gestão (anátomo-política) do corpo das mulheres, das crianças, dos
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comportamentos associados à procriação e do “prazer perverso” (Foucault, 1994, p. 108). O surgimento do dispositivo de sexualidade está portanto ligado intimamente com o surgimento de uma sociedade e sensibilidade burguesas, onde surgem como problemáticas a figura da criança masturbadora ou da mulher nervosa e histérica; só mais tarde as camadas populares foram progressivamente e lentamente sendo penetradas pelas operações deste dispositivo (Foucault, 1994, p. 124).
O sexo (enquanto característica individual, e enquanto sexualidade) não pode ser encontrado, para Foucault, enquanto datum físico inquestionável e auto-evidente, mas sim como “figura histórica muito real” (Foucault, 1994, p. 159). É através disto que a questão da inteligibilidade do sujeito entra em jogo e é posta em causa: “a sexualidade […] torna-se a cifra da individualidade, aquilo que permite analisá-la e, ao mesmo tempo, o que torna possível fazer o seu levantamento” (1994, p. 148).
Neste contexto, a figura da Criança adquire especial importância, ao abrir o funcionamento do dispositivo de sexualidade a um controlo que abrange toda a vida. E tal como o conceito sociológico geral de Criança é visto como um momento de passagem, ou o de adolescência como estando ligado à liminaridade, também a Criança é, no contexto do dispositivo de sexualidade, um ser sexual liminar, “aquém do sexo e já nele, numa perigosa linha de partida”, que legitima as acções dos “pais, [d]as famílias, [d]os educadores, [d]os médicos, mais tarde [d]os psicólogos, [que] devem tomar a seu cargo, de forma contínua, este germe sexual preciso e arriscado, perigoso e em perigo” (Foucault, 1994, p. 107). O jovem ocupa então um lugar duplo, que ajuda a construir o próprio papel da sexualidade: “[na] sexualização da infância, elabora-se a ideia de um sexo que está presente (por virtude da anatomia) e ausente (do ponto de vista da fisiologia)”; é esta ideia de presença e ausência simultâneas como características basilares da sexualidade que se transmite: “ao sexualizar-se a infância, constitui-se a ideia de um sexo marcado pelo mecanismo essencial da presença e da ausência, do oculto e do manifesto” (1994, p. 155).
Esta implementação múltipla e progressiva do dispositivo de sexualidade tem duas implicações mais gerais: em primeiro lugar, a história do dispositivo liga-se à história da sociedade moderna e suas características, interpenetrando-se e modificando- se ambas; em segundo lugar, há uma componente classista (ou, pelo menos, de estratificação social e socioeconómica entendida enquanto estrutura de privilégio) nas
se aplica a diferentes sujeitos. Embora se possam aqui fazer paralelismos com a teoria dos scripts sexuais, que também implica uma posição de construccionismo social (W. Simon & Gagnon, 2003), considera-se que a abordagem do dispositivo de sexualidade se foca mais na forma como a relação entre indivíduos e contextos sociais é dialógica e revestida de poder – dessa forma, os scripts não existem para serem assimilados, antes são co-construídos no momento em que se assume que essa assimilação ocorre.
Na medida em que o contexto desta investigação se foca num presente oscilante entre características modernas, de modernidade tardia e pós-modernas, é preciso interrogar que transformações têm tido lugar, no campo das sexualidades e das intimidades. Este tema tem sido explorado por vários autores, que apontam diferenças fundamentais que surgem na segunda metade do século XX e se vão alargando no virar de século. Anthony Giddens (1993) aponta, por exemplo, como se tem vindo a assistir ao surgimento da “relação pura”, ou seja:
“uma situação onde se entra numa relação social tendo como objectivo a relação em si, aquilo que pode ser retirado por cada pessoa da associação continuada com outra; essa situação só se mantém enquanto ambas os indivíduos consideram que daí retiram satisfação suficiente para nela se manterem. […] Faz parte de uma reestruturação genérica da intimidade”(Giddens, 1993, p. 58).
Ulrich Beck e Beck-Gernsheim assinalam vários elementos fundamentais para compreender as transformações nas relações de intimidade e sexualidade das sociedades ocidentais contemporâneas. Em primeiro lugar está, para os autores, o desaparecimento da família (e sua substituição pela família pós-familiar) – ou seja, o contexto em que a ideia de família (nuclear, monogâmica e heterossexual, estável) era pensado desde o princípio da modernidade (por entre as classes privilegiadas) já desapareceu. Em segundo lugar, o surgimento do homo optionis (fruto de uma injunção inescapável a que cada pessoa é sujeita, e que a leva a ter que escolher, a cada momento da sua vida, o que irá fazer), dentro de um discurso de auto-melhoramento típico da narrativa neo-liberal que aponta para uma auto-instrumentalização psicologizada (Rose, 1998) (cf. Capítulo I.1) envolve os sujeitos ainda mais profundamente num projecto de constante reconstrução das suas configurações afectivas. Para além disso, as mudanças dos papéis de género alimentam de forma progressiva a transformação das dinâmicas de intimidade e sexualidade em categorias cada vez mais transitórias (Beck & Beck-Gernsheim, 2001, 2003), “líquidas” (Bauman, 2003). Esta transitoriedade cria a necessidade e abre espaço para o surgimento de novas micro-narrativas da intimidade, que respondem, até certo ponto, à falência das grandes macro-narrativas ocidentais: Plummer (1994) fala do
surgimento de um novo componente da cidadania, a cidadania íntima, com as concomitantes questões políticas e sociais.
Fazendo uma análise que expande mais longamente algumas das referências apresentadas acima, Gunter Schmidt (1998) identifica o acto da negociação como a base para um novo código moral característico da modernidade tardia; “o que conta é que os participantes tenham negociado previamente [a questão] e chegado a acordo [sobre o que fazer]” (Schmidt, 1998, p. 225). O mesmo autor afirma (contra Foucault, dir-se-ia) que “as perversões se evaporam”, transformando-se em apenas mais um estilo de vida. Porém, num aparente paradoxo, Schmidt recorre a Baudrillard para argumentar que o sexo que nos envolve opera, na verdade, para dessensibilizar: “qualquer pessoa que absorva a torrente de imagens oferecidas em público ou privado acabará por se tornar sexualmente inacessível e dormente” (Schmidt, 1998, p. 232), sendo que um dos principais motivos seria a pornografia actualmente existente.
Este efeito de dessensibilização que Schmidt defende liga-se com a massificação de representações (principalmente visuais) que são habitualmente conotadas com “pornografia”, mas também com “produtos e serviços [que] se estão a tornar mais acessíveis a um grupo mais abrangente de consumidores” (Attwood, 2006, p. 82).
Indo além desta visão negativa, a “pornograficação do mainstream” de que fala Brian McNair (1996, p. 23) tem, para o autor, uma série de conotações positivas, que têm que ver com a democratização do desejo (McNair, 2002), e sua “ remoção do quasi- monopólio masculino heterossexista sobre a produção e consumo das representações sexuais em todas as suas formas” (McNair, 1996, p. 170).
A democratização do desejo não é, no entanto, apenas política (ou somato- política). É necessário articulá-la com a dicotomia público/privado e com a cultura consumista e capitalista. Como expressão da ideia de que “o pessoal é político”, a mercantilização generalizada do sexo nas suas várias expressões representa “a entrega de algum do seu [da esfera pública] espaço discursivo aos interesses humanos das pessoas” (McNair, 2002, p. 81). Esta entrada no espaço discursivo é marcada não tanto por uma suposta presença ubíqua da pornografia tout court, mas antes “a representação da pornografia na arte e cultura não-pornográficas; o pastiche, paródia, homenagem e investigação da porno; a transformação pós-moderna da porno em artefacto cultural
mainstream” (McNair, 2002, p. 61, itálico do autor). De acordo com Feona Attwood, a
desenvolvimentos nas representações sexuais e sugerem como estas se ligam a mudanças culturais mais latas que estão a ocorrer nas sociedades capitalistas ocidentais” (Attwood, 2006, p. 82). Por outro lado a autora é crítica do que considera ser uma análise demasiado celebratória que ignora “as formas como [as representações] também fazem com que as nossas práticas e identidades sexuais [estejam] mais disponíveis para regulação” (Attwood, 2006, p. 82). Esta regulação pode revestir-se de várias formas, duas das quais se destacam aqui pela sua ligação: uma continuação das separações sociais em função das posses económicas (em que, para ‘ter prazer’, é primeiro preciso ter dinheiro) e o enquadrar do sexismo enquanto libertação.
Uma exploração desta reapresentação problemática encontra-se no trabalho de McRobbie (2008b) sobre pós-feminismo: a ideia de que a conquista da igualdade formal de direitos legais entre géneros resultou no fim da necessidade do feminismo ou de lutas pela igualdade de género abre a porta a uma recuperação do discurso patriarcal sob a capa de uma igualdade inexistente; a série O Sexo e a Cidade pode considerar-se como um exemplo da cultura popular que sintetiza estas duas regulações (Attwood, 2006, p. 85), ao conter um grupo de mulheres que estão supostamente libertas e em controlo das suas próprias vidas (sexuais e não só), mas tão-somente na medida em que dispõem de poder económico e que continuma a buscar um homem ‘perfeito’. Angela McRobbie fala de como, no contexto de uma sociedade pornograficada, se assistem a três permutações que são preocupantes: “a deslocação da indústria pornográfica para o
mainstream enquanto entretenimento do sexo, […] a participação activa das mulheres
como consumidoras deste material […] [e] a incorporação no reportório do marketing de uma falsa linguagem feminista de empowerment” (McRobbie, 2008a, pp. 225, 226).
Falar de “classe” introduz também um outro elemento, para Attwood – “ter classe” (ou seja, ser de uma determinada classe) implica saber consumir com classe. O consumo dentro do contexto da sociedade pornograficada precisa de ser legitimado como demonstrador de estilo, apreciação estética e contendo um potencial de auto- realização e melhoria (Attwood, 2006, p. 85) que se articula com “discursos que regulam o sujeito através de uma internalização dos regimes de poder disciplinar” (Evans, Riley, & Shankar, 2010, p. 116). Há, portanto, um consumo de sexualidade que pode ser sexy e ‘de bom gosto’, oposto a um consumo ‘foleiro’. Isto tem o potencial de conduzir a uma homogeneização das representações, onde nem todas as mulheres (ou todos os corpos) têm igual espaço dentro do processo de pornograficação da cultura
(Evans et al., 2010, p. 117), “destacando a interseccionalidade entre discursos genderizados, classistas, raciais e sexualizados” (Evans et al., 2010, p. 115).
O resultante pode parecer uma contradição: libertação, visibilidade para minorias e alargamento do espectro das possibilidades discursivas de um lado, consumismo, controlo tecno-político introjectado (em que o ter sexo e o querer sexo são imperativos), dessensibilização e normalização de outro. Esta aparente contradição está em linha de coerência com as supra-citadas análises de Giddens ou com o que Beck e Beck-Gernsheim dizem sobre o homo optionis o ser por precisamente não ter escolha senão escolher. Esta leitura encaixa também com a de Nikolas Rose (1998) sobre a psicologização da sociedade ocidental contemporânea: conforme o sujeito se começa a ler cada vez mais como indivíduo dotado de uma psique sobre a qual pode intervir, os discursos que operacionalizam essa mesma intervenção ganham mais relevância e saber-poder; o sujeito psicologizado é o sujeito criado por e criador de uma teia de relações de poder das ciências psicológicas.
Attwood resume o papel da sexualidade numa sociedade moderna:
“a sexualidade adquire um conjunto muito específico de características, ao assumir um papel central mas nebuloso na articulação dos nossos corpos e desejos e nas nossas reivindicações de individualidade com um self para si-mesmo, com o nosso estatuto no mundo, com a nossa corporeidade perante os outros e com o sexo em si mesmo. […] Somos postos perante a tarefa de gerir a nossa sexualidade, ao mesmo tempo que somos incitados a abandonarmo-nos a ela” (Attwood, 2006, p. 89).
Isto liga-se com a ideia do dispositivo de sexualidade como envolvendo “processos que disseminam [o sexo] à superfície das coisas e dos corpos, que o excitam, o manifestam e o fazem falar, o implantam no real e lhe prescrevem que diga a verdade” (Foucault, 1994, p. 76). Essa gestão da sexualidade não se limita a um trabalho de reflexão ou construção dos nossos desejos: passa também por consumir da forma correcta, tanto informação como produtos que garantam uma produção correcta de um sujeito desejado e de desejo adequado. A noção de “tecnologias de sexiness” (Evans et
al., 2010) faz a linha de cruzamento entre estes pontos, através do pós-feminismo: há
uma política de classe sobre o tipo de sexualidade correcta que se pode demonstrar e de como a mulher, em particular, tem que ser sexy ao invés de sexual, através do consumo e reprodução de códigos previamente vigentes e mediaticamente disseminados, que cruzam subjectividade, consumo e cultura dos media.
A marca de uma sexualidade pós-moderna é, então, a valorização do sexo e da sexualidade enquanto uma experiência de expressão e formulação de subjectividade que
constitui um fim em si mesma (Attwood, 2006; Schmidt, 1998), mas não só: é a forma como acaba a configurar-se enquanto discurso libertador ou intrinsecamente emancipatório. Foucault (1994) critica esta abordagem como alimentando e operando dentro da lógica do dispositivo de sexualidade (Foucault, 2000b). Como será abordado mais adiante, neste processo são absolutamente fundamentais as transformações nas tecnologias e usos dos media, que se alimentaram desta dinâmica, perturbando as definições de sexo, sexualidade e as possibilidades de separar corpo, representação, acto sexual e público/privado.
Outros autores preferem reapropriar a noção de pornograficação (por vezes vertida como “pornificação” ou “sexualização”) como um termo que descreve algo de intrinsecamente negativo, no sentido oposto à utilização que McNair faz, originalmente, do termo (para uma lista de exemplos, vide Smith (2010)). Para estes autores, a correlação com pornografia funciona como marcador de algo que se corrompe ou se leva ao exagero, conduzindo a uma perda profunda e significativa no que a sexualidade (e o sexo) pode ter. Estas visões tratam o sexo como um excedente que, por contágio, infiltra todas as camadas de representação e sociabilidade (Hawkes & Dune, 2013).
Como já abordado (cf. Capítulo I.5), a sexualização envolve uma preocupação adulto-cêntrica, mas também heteronormativa, reprodutiva, classista e racializada, preocupada em encontrar ou resgatar uma sexualidade ‘pura’, ‘saudável’ e humanista, da influência do consumismo e da auto-objectificação. O sujeito precisaria, nesta perspectiva, ou de adquirir as competências pessoais (de literacia) para superar a influência, ou de validar o exercício de controlos sociais sobre os media em geral para eliminar a sexualização da sociedade – numa postura de tensão entre o ontológico e o ético (Angelides, 2004); preso numa dicotomia entre estar sujeito ao poder ou estar livre da influência do poder (Duschinsky & Barker, 2013).
Clarissa Smith devolve a esta visão as mesmas perguntas que, historicamente, têm sido colocadas à pornografia em si mesma, ao erótico, ao sensual: “quais são as fronteiras do termo, o que está incluído e excluído e porquê, como é que essas fronteiras são mantidas” (C. Smith, 2010, p. 105). Segundo a autora, o conceito “pornograficação” pode já ter ultrapassado a sua própria utilidade por uma sucessão de constantes reenquadramentos que elidem efeitos e fenómenos mediáticos e sociais:
“Uma das minhas preocupações centrais é que a pornograficação é um termo que, da maneira como é empregue hoje em dia, não tem utilidade intelectual e que, embora afirme traçar padrões, processos e trajectórias, o que faz na verdade é obscurecê-los
para daí fazer asserções discursivas sobre efeitos e consequências que têm de ser encaradas como sendo «óbvias» […]. [A pornograficação] é um meio de garantir que comportamentos, práticas e acções possam ser classificadas e avaliadas como problemáticas sem ser preciso analisar os temas específicos relacionados com a sua história, produção e consumo […]” (C. Smith, 2010, pp. 105, 106).
Neste trabalho, e para os propósitos da investigação presente, mais importante do que tomar uma posição definitiva sobre se “pornograficação” é ou não um termo esvaziado de sentido, é importante recuperar as perguntas que estão por detrás do conceito, e as variáveis a que se ligam, procurando abrir o horizonte interpretativo e prestando atenção a “mudanças reais que estão a verificar-se no uso dos media e da tecnologia, na organização dos lares, do trabalho, dos tempos livres, do crescer e nas relações mutáveis entre comércio e intimidade” (C. Smith & Attwood, 2011, p. 330).
É fundamental não confundir preocupações éticas e morais prescritivas sobre como é que os media deveriam organizar, com elaborações teóricas sobre que sistemas organizam a experiência social. A pornograficação, como o dispositivo de sexualidade, é um constructo teórico que organiza experiências diferentes e lhes confere uma