Se o significado de “pornografia” se foi alterando no seu nível de senso comum, também as abordagens académicas ao tema se têm diversificado. Esta secção faz uma recolha, sistematizada na Tabela III.1, de vários estudos que abordam o uso de materiais pornográficos em vários contextos.
Ano País Autores29 Amostra Metodologia Conclusões centrais
1971 EUA Wilson 20 mil, 450, 2500 Quantitativa,
qualitativa
Correlação positiva com: mais jovens, mais educação formal, politicamente activo, menos religiosamente activo, de zona urbana. 85% rapazes, 70% raparigas já viu pornografia aos 18 anos. Correlação negativa com condenação por crimes
sexuais, atitudes sexuais agressivas contra mulheres. 40% diz que levou a procurar mais informação sobre sexo.
2000 Vários Malamuth et
alii Várias Revisão de literatura
Inconclusivo sobre causalidade face a atitudes sexuais agressivas, efeitos de consumo intenso. Efeitos negativos só em homens. Contradições entre resultados. Importância do contexto social e cultural.
2001 Holanda Valkenburg &
Soeters 194, 8-13 anos Quantitativa
Mais raparigas que rapazes preocupadas com pornografia enquanto risco; apenas 4% da amostra aponta pornografia como uma experiência sentida como negativa
2001 Online Boyd 210 Qualitativa
“Pornografia” como termo usado para resistir à ideia de que mulheres apenas conseguem lidar com o “erótico”, “erótico” usado como valoração do trabalho pessoal de criação de fanfiction; preocupações com censura; noção de riscos na
produção de material textual slash fiction
2004 Brasil Guerra et alii 337, 17-52 anos Quantitativa
Maioria da amostra já teve contacto com material pornográfico, apenas ~40% se identifica como utilizador, maioritariamente homens; fantasias e informações sobre sexualidade entre as principais razões; utilizadores com mais
atitudes positivas e menos atitudes negativas
2004 R.U. Buckingham
& Bragg 120, 9-17 anos Qualitativa
Jovens encontram material sexual de formas diversas, não têm uma postura totalmente acrítica, valorizam os media como forma de obter informação, afastam-se proactivamente de conteúdo que não desejam, demonstram cepticismo face aos
media, encontram-se envolvidos em teias de moralidade e ética pessoal face às suas práticas mediáticas e relevam o
contexto das mesmas, sendo a família um dos contextos orientadores primários
2005 EUA Ybarra &
Mitchell
Youth Internet Survey, 10-17 anos (estatisticamente
representativa)
Quantitativa
Dos jovens frequentes utilizadores de internet, 15% viam coluntariamente pornografia; eram geralmente rapazes mais velhos, não-caucasianos, com maior medidas de self-efficacy, com mais marcadores depressivos, com mais problemas
com cuidador primário
2005 Tailândia Lo & Wei 201 alunos de liceu Quantitativa Correlação com atitudes mais permissivas face a sexo; rapazes com maior consumo reportado
2005 EUA, Coreia do Sul Lee & Tamborini 232 Quantitativa
Quem julga existirem mais efeitos negativos apoia mais medidas de restrição de acesso à pornografia; vir de uma sociedade mais comunitarista reduz o efeito de terceira pessoa
29
Referências dos estudos (Albury, 2009; Angelides, 2013; Attwood, 2002; Attwood, Bale, & Barker, 2013; Beyens, Vandenbosch, & Eggermont, 2014; Boyd, 2001; Brown & L’Engle, 2009; Buckingham & Bragg, 2004; Carroll et al., 2008; Chang et al., 2014; Chronaki, 2013; Flood, 2007, 2010; Guerra, Andrade, & Dias, 2004; Gwinn, Lambert, Fincham, & Maner, 2013; Hald, 2008; Hald & Malamuth, 2008; Jorge, 2012; Klaassen & Peter, 2014; Kohut, Baer, & Watts, 2015; Kolbein, 2008; Kuipers, 2006; B. Lee & Tamborini, 2005; Levin, Lillis, & Hayes, 2012; Lo & Wei, 2005; Lopes, 2013; Malamuth & Donnerstein, 2000; McKee, 2007a, 2007b, 2007c; Neutel & Cardoso, 2010; Owens, Behun, Manning, & Reid, 2012; Peter & Valkenburg, 2008, 2010; Price, Patterson, Regnerus, & Walley, 2015; Price et al., 2015; Ramlagun, 2012; C. Smith, 2012; C. Smith, Attwood, & Barker, 2012; Sørensen & Kjørholt, 2008; Štulhofer, Buško, & Schmidt, 2012; Twohig, Crosby, & Cox, 2009; Valkenburg & Soeters, 2001; Wilson, 1971; Wright & Randall, 2014; Ybarra & Mitchell, 2005; Ybarra, Strasburger, & Mitchell, 2014).
2006 Holanda / EUA Kuipers -- Análise documental Na Holanda não existe pânico moral sobre a pornografia, que está normalizada, com jovens e adultos a serem socialmente responsabilizados por informação e prevenção; contraste com expectativa de controlo estatal nos EUA
2007 Austrália Flood 200, 16-17 anos Quantitativa Exposição acidental muito superior a exposição propositada; características do utilizador, abordagem face ao material e tipo de exposição e características do material apontados como factores principais
2007 Austrália McKee 1023, 46 Quantitativa,
qualitativa
O acesso a pornografia antes dos 16 anos cresceu; ausência de correlação com atitudes de género mais conservadoras; consumidores preferem material mainstream e com representações do prazer de todas as pessoas envolvidas; não ignoram
a possibilidade de efeitos negativos (de terceira pessoa); consumo de pornografia normalizado e com vantagens
2008 Holanda Peter &
Valkenburg ~2 mil, 13-20 anos Quantitativa
Correlação com maior incerteza sobre scripts sexuais, maior concordância com exploração sexual sem compromissos; resultados mais expressivos em rapazes que raparigas
2008 EUA Carroll et alii 813, 18-26 anos Quantitativa
Rapazes consideram ver pornografia mais aceitável; neles, correlação entre ver e idade, religiosidade e impulsividade; nelas, correlacionado com religiosidade, estatuto relacional e idade; correlações com consumo de substâncias e com apoio por sexo casual e coabitação antes do casamento; ausência de correlação com diminuição da intenção de constituir família
2008 Dinamarca Hald
688, 18-30 anos (estatisticamente representativa)
Quantitativa
Rapazes vêem mais, mais tempo e começam a ver mais cedo; existem diferenças de género no conteúdo preferencial; rapazes vêem mais sozinhos ou com amigos, raparigas mais com parceiros; maior frequência de masturbação também
correlacionada; realismo percepcionado explica pouca variância
2008 Islândia Kolbein 323, média 16,5 anos Quantitativa
Maioria dos rapazes e das raparigas vêem, mas mais eles; apoio generalizado ao acesso legal a pornografia; acesso acidental mais comum em raparigas; mais rapazes que raparigas acham que a pornografia mostra formas variadas de fazer
sexo; quase toda a amostra acha que a pornografia não é realista; raparigas têm visão mais ambivalente da pornografia
2008 Vários Sørensen & Kjørholt 1776, 12-20 anos Quantitativa
Mais de 90% reportou ver pornografia, especialmente na televisão; 21% reporta exposição involuntária; mais rapazes que raparigas vêem acompanhados; mais de 80% não falou do assunto com pais; existem variações na definição de
“pornográfico” e a pornografia mainstream é a mais vista; ligação a masturbação para rapazes e curiosidade para raparigas; rapazes com atitudes mais positivas face à pornografia
2008 Dinamarca Hald &
Malamuth
688, 18-30 anos (estatisticamente representativa)
Quantitativa
Homens e mulheres fazem mais identificação de benefícios que problemas com pornografia hardcore; correlação entre aumento de uso e aumento de identificação de benefícios, mas não de problemas; homens reportaram mais efeitos
positivos; jovens adultos sentem que pornografia teve um papel modestamente positivo na sua vida
2009 EUA Twohig et alii 84, média de 20,6 anos Quantitativa Correlação entre ver pornografia online e problemas pessoais; sem correlação para quantidade de exposição e agravamento de problemas pessoais
2009 EUA Brown & L’Engle 967, alunos de 7º e 8º Quantitativa
Visualização mais predominante em rapazes, não-caucasianos, mais velhos, de menor ESE, menor nível de escolaridade, maior nível de busca de sensações, atitudes mais permissivas sobre sexualidade, atitudes sobre género menos progressivas e mais violentas; sem variações ao nível do desenvolvimento pubertário dos joven; variâncias explicadas
diferem muito
2010 Holanda Peter &
Valkenburg 959, 13-20 anos
Quantitativa, longitudinal
Correlação com atitudes instrumentais face ao sexo, com maior percepção de realismo nas representações; percepção de realismo como variável mediadora faz perder efeito estatístico da correlação entre ver pornografia e atitudes instrumentais face ao sexo; correlação com avaliação positiva da utilidade da pornografia; correlações mais fortes são com marcadores individuais (género, sensation seeking, satisfação com a vida); todos os efeitos observados são pouco
expressivos
2010 Portugal Neutel &
Cardoso 120, 18-55 anos Quantitativa
Tanto homens como mulheres identificam efeitos positivos e negativos; valoração de atitudes individuais tendencialmente positiva (prazer, informação); valoração de atitudes sociais tendencialmente negativa (vício, crime)
2012 Vários Owens et alii Várias Revisão de literatura
Correlações com comportamentos sexuais de risco em alguns estudos; com agressão sexual em jovens já com marcadores prévios de risco; diferentes correlações com auto-imagem e imagem corporal; correlações com problemas de
desenvolvimento social; resultados gerais mistos
2012 Croácia Štulhofer 544, 18-25 anos Quantitativa Correlação entre género e consumo de pornografia, avaliação do realismo do conteúdo e atitudes face a sexo recreativo; apenas 16% da variância explicada, não se valida a hipótese que a pornografia está a transformar hábitos
2012 EUA Levin et alii 157 universitários Quantitativa Correlação com depressão, ansiedade apenas em jovens com nível elevado de visualização de pornografia e com níveis clínicos de evitação experiencial
2012 África do
Sul Ramlagun
28 raparigas, 16-17
anos Qualitativa
Raparigas sujeitas a tabu social mas ainda assim pornografia como parte ‘normal’ da dieta mediática; papel de aprendizagem sobre prazer e sexualidade; neste contexto, hardcore é sexo vaginal e oral heterossexual
2012 Portugal EU Kids
Online
1000, 9-16 anos (estatisticamente representativa)
Quantitativa Mais jovens acedem a pornografia fora da internet; pouco incómodo e, deste, incómodo maioritariamente passageiro; apenas 3,5% dos pais reportavam que os seus filhos consumiam pornografia
2012 Vários Smith et alii 5490 Quantitativa,
qualitativa
Jovens entre 18-25 anos valorizam pouco pornografia; homens vêem pornografia quando estão excitados, mulheres para o ficar; ideias em torno da importância da fantasia, mas também da comunicação entre parceiros e postura crítica face às representações de sexo; fantasias operam enquanto espelho (introspecção), lupa (amplificação), empório (diversidade),
viagem (entre diferentes práticas) e alteridade (exploração de curiosidades)
2013 EUA Gwinn et alii 74, 291 Quantitativa,
longitudinal
Correlação entre ver pornografia e avaliar mais positivamente outros possíveis parceiros sexuais, cometer infidelidade num momento futuro
2013 Portugal Lopes 91, 18-53 anos Quantitativa
Homens vêem mais vezes e mais quantidade, bem como material mais hardcore; correlação com maior permissividade sexual, enfoque no prazer físico e sexo impessoal e crenças ligadas a violência sexual; porém, correlações também se
mantinham quando a variável era apenas o género
2013 Vários Chronaki 26, 17-22 anos Qualitativa As reflexões que os jovens fazem sobre as suas experiências sexualizadas físicas e mediadas estão cruzadas com binários culturais (natural/artificial, saudável/doentio) através de processos de implicação mútua
2014 Tailândia Chang et alii ~2300 alunos de liceu Quantitativa, longitudinal
Rapazes com maior consumo reportado, voluntário e involuntário; comportamentos de risco online correlacionados com exposição involuntária; exposição correlacionada com situações de vitimização na internet e marcadores psicológicos
negativos de vários tipos
2014 Bélgica Beyens et alii 449, 12-15 anos Quantitativa,
longitudinal
Desenvolvimento pubertário dos rapazes opera como preditor de ter visto pornografia; correlação com diminuição dos resultados académicos; correlação de baixa intensidade
2014 EUA Ybarra et alii 1058, 14-21 anos Quantitativa,
longitudinal
Cerca de metade dos jovens identificam conteúdos sexuais em media não-pornográficos; correlação com início da vida sexual, correlação com situações de violência sexual qauando existem outros marcadores de risco; as correlações não se
aplicavam a material sexual na internet
2014 EUA Wright &
Randall 1058, 14-21 anos (estatisticamente representativa) Quantitativa, longitudinal
Utilização de pornografia opera longitudinalmente como preditor de apoio do casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas não o inverso
2014 Online Klaassen &
Peter -- Análise de media
Vídeos de pornografia amadora com mais marcadores de desigualdade de género, representações de coerção e desumanização que pornografia mainstream
2015 EUA Kohut et alii
General Social Survey (estatisticamente
representativa)
Quantitativa Correlação positiva com atitudes de maior igualdade de género
2015 EUA Price et alii
General Social Survey (estatisticamente
representativa)
Quantitativa, longitudinal
Em 40 anos, houve uma subida da quantidade de pessoas que consome pornografia em cada escalão etário, mas moderada quando tomada como um todo; houve uma manutenção dos níveis de apoio à censura a pornografia
Como é possível notar-se a partir da Tabela III.1, não existe uma total coerência face aos resultados encontrados em diferentes países e contextos culturais. As variáveis mais comuns com as quais se tentam fazer correlações, em estudos quantitativos, são: a idade, género, comportamentos de risco (tanto na internet como fora dela), a orientação sexual, a pertença étnica, a avaliação do realismo da pornografia, entre outros. Bastantes destes estudos têm seguido uma linha conceptual que procura entender os efeitos dos
media, frequentemente de forma linear – no caso da pornografia, os efeitos que se
tentam medir são geralmente negativos, mesmo quando os estudos que procuram por correlações com factores considerados positivos as encontram também, e quando os estudos que procuram por factores negativos nem sempre os verificam.
Além disso, e como teorias como a do efeito da terceira pessoa demonstram, a noção de ‘efeitos dos media’ está longe de ser simples ou linear. É de referir especialmente um estudo laboratorial que defende encontrar uma relação de causalidade directa entre a influência presumida dos media e as atitudes tomadas. Tal-Or et alii (2010) criaram uma situação experimental em que disseram a diferentes pessoas que a pornografia tinha efeitos positivos, negativos ou neutros e vendo depois se havia mudanças no apoio que os participantes davam a medidas de censura à pornografia. Segundo reportam, conseguiram causalmente diminuir o apoio nas medidas à censura da pornografia quando apresentavam aos participantes informações alegadamente científicas que ‘provavam’ que a pornografia tinha efeitos positivos – mas apenas nas mulheres da amostra, e não nos homens.
Mais recentemente, e respondendo a mudanças científicas e às críticas feitas às posições anti-pornografia acima referenciadas, tem-se assistido a uma mudança nos paradigmas de investigação, que será abordado com mais profundidade no Capítulo V. Concomitantemente, boa parte da cultura de investigação em torno dos “efeitos dos
media” (entendidos enquanto lineares, hipodérmicos, directos) – a que pertencem
vários, mas não todos, dos estudos aqui recenseados – recebeu fortes críticas, por presumir determinadas ‘verdades’ sobre o funcionamento de cada medium, a forma de representar actos sexuais e as relações entre representações e realidade (Leong, 1991, p. 94), por isolar a pornografia (cujo uso é quantitativamente pequeno, de acordo com vários estudos, e grande segundo tantos outros) do resto das práticas mediáticas habituais das pessoas na intensidade e centralidade do seu efeito de forma apriorística (Attwood, 2002, p. 100; Pinto et al., 2010, p. 382) e hipodérmica (Buckingham et al.,
2010), aplicando-se o mesmo às suas características pessoais, sociais e contextuais (Weitzer, 2011, p. 673), por polarizar e simplificar a tecnologia e o seu papel (Attwood, 2002, p. 94), desligar a pornografia das produções de saber e poder presentes no quotidiano para além dos media (Attwood, 2002, p. 103), considerar certos media, em particular a internet, como sendo especialmente pornográficos ou sexuais através de dados e elementos que, como demonstrado acima, também se encontram noutros media (Stern & Handel, 2001), por não distinguir entre material ‘sexual’ e ‘sexualizado’ (Buckingham et al., 2010), naturalizar discriminações contra várias práticas sexuais não-genitais (Rubin, 1993) e alimentar uma postura normativa de género heterocentrada/straight (Pinto et al., 2010; Wittig, 1980), alimentar aquilo a que Eve Segdwick chama a “paranoid turn no pensamento crítico” (que apenas descobre nos textos o significado que já se sabia lá estar presente, e se constitui apenas como exercício tautológico) (Albury, 2009, p. 648; Paasonen, 2014b; Sedgwick, 1997), ignorar a polissemia textual que é marca presente em qualquer estudo dos media, utilizar a noção de “sexualidade saudável” para prescrever (ao invés de descrever) determinados tipos de comportamentos como inerentemente melhores ou piores (C. Smith & Attwood, 2011, p. 333) e, acima de tudo, por ignorar ou silenciar os próprios utilizadores dos media em estudo (McKee, 2005).
Note-se, porém, que não é apenas a investigação que olha para os efeitos negativos que é alvo de algumas destas críticas. Uma postura unicamente celebratória das potencialidades eróticas, subjectivas e políticas da internet basear-se-á, na prática, no mesmo sistema de valores que articula o bom ou o mau, o tecnológico ou o natural, reiterando este sistema binário e de tecno-determinismo que apaga as diferenças, os contextos e as nuances necessárias para perceber o devir pornográfico e suas consequências.
Uma das críticas mais fortes, porque focada num aspecto que transcende a investigação e passa para o campo da saúde e da regulação médica, é a de David Ley, Nicole Prause e Peter Fin (2014) – de acordo com estes autores, a visão da pornografia como algo passível de criar vício é totalmente errada, em particular quando o que se pretende falar é de uso excessivo ou prejudicial. Segundo Ley et alii, não existe um modelo teórico falsificável de como o vício da pornografia funcionaria, nem existem quaisquer dados sobre alterações neurológicas e bioquímicas de longo prazo associadas ao consumo continuado de pornografia que validariam um modelo médico de vício, ao
passo que existem várias outras explicações (e.g.: sensation seeking, regulação emocional, ganhos secundários) para quem sinta que ver pornografia é algo que não consegue facilmente deixar de fazer. Outros trabalhos têm exposto de forma igualmente fundamentada o carácter primariamente moralizante e não-empírico de alegações pretensamente médicas de “vício” (Attwood, Bale, & Barker, 2013; Clarkson & Kopaczewski, 2013).
É para colmatar este vazio que algumas investigações têm começado a inquirir sobre quais as atitudes e opiniões dos participantes de forma quantitativa, ou recorrendo também a metodologias qualitativas para, em profundidade, procurar perceber a construção de sentido destas experiências mediáticas. Destaca-se aqui o trabalho de Buckingham & Bragg (2004), de McKee, Albury & Lumby (2008) e o de Smith, Attwood & Barker (2012). Como qualquer estudo, também estes possuem limitações próprias das metodologias utilizadas, mas recebem aqui destaque por criticamente desafiarem muitos dos pressupostos e problemas de enquadramento ideológico identificados anteriormente, servindo assim para fazer avançar a investigação participativa e práticas académicas mais eticamente fundamentadas e que, ainda que indirectamente, incorporem em si alguns dos pressupostos epistemológicos feministas usados em investigação, fazendo-o tanto com jovens como com adultos. É também um contexto de investigação que retira o foco de uma dinâmica de causas e efeitos e procura relocalizá-la dentro da dinâmica das competências, capacidades e literacias (mediáticas) dos jovens (McKee, 2007c).
Este tipo de trabalhos vem abrir as narrativas de investigação a outro tipo de experiências: o papel da fantasia, o papel do auto-conhecimento do corpo, a afirmação dos jovens como capazes de articular discursos críticos sobre pornografia e que definições e percepções do que é pornográfico estão dependentes no contexto cultural e familiar em que se encontram inseridas (Tsaliki, Chronaki, & Ólafsson, 2014), ou a capacidade de estudar como as reflexões sobre as vidas sexuais físicas e mediadas dos jovens se entrecruzam com binarismos culturalmente definidos (e.g.: natural/artificial, saudável/doentio) a orientar ambas as narrativas, mostrando assim que não é possível compreender uma destas facetas sem apelar à outra (Chronaki, 2013).
E muito embora existam diferenças nos usos reportados entre géneros, ou entre diferentes orientações sexuais, alguns dos resultados mais salientes têm que ver com a forma como esses diferentes grupos sociais se relacionam com material pornográfico, o
papel que tem nas suas vidas e como é integrado nas suas narrativas de vida e sexuais. Existe, no geral, uma larga base empírica que parece negar a ideia de que a pornografia está necessariamente ligada a maiores níveis de violência de género, ou que os jovens ficam viciados perante esse conteúdo.
Surgem aqui vários elementos que servem para reflectir sobre os usos que os jovens fazem da pornografia e das novas tecnologias. Como usam os jovens os media para aceder (voluntariamente ou não) a conteúdos sexuais ou sexualizados, e como é que esses mesmos conteúdos intersectam as suas vidas? Que visões e opiniões têm sobre o papel dessas suas actividades? Que análise fazem do seu próprio papel enquanto consumidores activos e críticos? Que visões têm sobre as razões que os movem, como comparam aquilo que vêem, lêem e ouvem com o seu quotidiano interpessoal? Que papel tem este tipo de utilização dos media junto dos seus grupos de pares, junto das suas relações íntimas interpessoais e junto da sua própria relação com o seu corpo? Ao mesmo tempo, que diferentes funções sociais e interpessoais se podem encontrar nos usos que os jovens fazem destas tecnologias e plataformas?