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Encarar os jovens como sendo apenas receptores de normas sociais e alvos passivos de sistemas de controlo adulto seria uma visão redutora e incompatível com o acima exposto. Os jovens estão activamente integrados na produção do seu mundo e do seu grupo de pares que são fundamentais na construção das suas experiências afectivas e da sua subjectividade. De forma a compreender o papel dos próprios jovens na construção das suas subjectividades, recorre-se aqui ao trabalho de Michel Foucault sobre as práticas de subjectivação (Foucault, 2002a), de produção do sujeito enquanto sujeito moral através de tecnologias do self e à ligação destes elementos com a noção de poder e de governamentalidade na relação do self consigo mesmo e com os outros.

De acordo com Foucault (2002a), existem aquilo a que ele chama de “três modos de [subjectivação] que transformam seres humanos em sujeitos”: os discursos que se enquadram a si mesmos enquanto práticas científicas; as práticas divisivas que

criam dicotomias (normal/anormal, louco/são); as formas como os seres humanos se transformam a si mesmos em sujeitos16.

Dentro deste esquema, as várias visões sobre como se define a juventude constituem práticas do primeiro e do segundo modos: discursos biologizantes sobre o que é adolescência como exemplo do primeiro, e pedagogias sobre infâncias saudáveis ou amadurecimentos feitos ‘com classe’ como exemplo do segundo. Estes modos de subjectivação implicam a criação de determinadas verdades e de critérios de verdade, internamente estabelecidos, sobre como se identifica e constitui discurso verdadeiro dentro de cada um deles. Verdade é aqui entendida como “um sistema de procedimentos ordenados para a produção, regulação, distribuição, circulação e operacionalização de afirmações”, e está envolvida numa “relação circular com sistemas de poder que a produzem e a sustentam” (Foucault, 2002b, p. 132). Por outras palavras, falar uma verdade requer um enquadramento normativo face ao qual uma afirmação é considerada verdadeira, e esse enquadramento normativo implica relações de poder entre sujeitos, entre sujeitos e instituições, e entre o sujeito e si-mesmo.

Essa relação entre o sujeito e si-mesmo é precisamente onde se configura o terceiro modo de subjectivação de que Foucault fala. Esta relação, lida como intrasubjectiva, contém também uma relação de poder e é, por conseguinte, uma relação política (Cruikshank, 1993). Porém, isso não quer dizer que os elementos que intervêm nesta relação têm uma génese imanente: existem forças externas que preparam e cultivam este self (Cruikshank, 1993), integram-se em “modelos que [o sujeito] encontra na sua cultura e que são propostos, sugeridos, impostos pela sua cultura, pela sua sociedade e pelo seu grupo social” (Foucault, 2000d, p. 291). Os saberes que existem em torno do sujeito – e que configuram e permitem determinadas relações de poder – fazem parte integrante e central do horizonte de possibilidades de formas de subjectivação. Assim, não se trata apenas do que o sujeito sabe, mas do que o sujeito se

sabe ser (ou poder ser, ou dever ser).

16Quanto a “subjectivação”, Foucault usa neste texto, originalmente escrito em inglês pelo próprio, o termo “objectification”. Porém, em vários outros textos em francês Foucault utiliza antes “assujettissement”. Esta palavra captura a dualidade linguística pretendida por Foucault: ao mesmo tempo que é “tornar sujeito a”, também é “tornar-se sujeito”; clarifica-se assim a ligação entre identidade/inteligibilidade e poder. De forma a simplificar a redacção do texto, escolheu-se usar também aqui “subjectivação”, bem como no resto da Tese.

As operações levadas a cabo nestes vários modos tomam forma através de diferentes tipos de tecnologias, que operam de forma interligada: tecnologias de produção (que produzem objectos e artefactos físicos), tecnologias de sistemas de signos (uso de símbolos e linguagem), tecnologias de poder (gestão da conduta dos indivíduos e sua objectivação) e, de particular interesse aqui, tecnologias do self (Foucault, 2000c). Estas últimas

“permitem aos indivíduos efectuar, pelos seus próprios meios ou com ajuda de terceiros, um certo número de operações sobre os seus corpos e almas, pensamentos, condutas e modo de ser, de forma a transformarem-se a si mesmos para atingir um determinado estado de felicidade, pureza, sabedoria, perfeição ou imortalidade” (Foucault, 2000c, p. 225).

Ora, se as tecnologias do self existentes num dado momento e cultura são, pelo menos parcialmente, definidos pelo que está disponível nessa mesma cultura, então também os estados que as tecnologias do self permitem atingir são cultural e historicamente variáveis. Enquanto tecnologias associadas a modos de subjectivação, remetem para um discurso de verdade e seus critérios, que envolvem esse mesmo sujeito numa relação moral entre si e si-mesmo. As tecnologias do self são mobilizadas de variadas formas para permitir aquilo que é um trabalho moral, de adequação aos objectivos do sistema de verdade onde surgem determinadas subjectividades.

Essa relação moral, por sua vez, é composta por quatro elementos diferentes, que são caracterizados em diferentes ocasiões por Foucault (1994b, pp. 33–35, 2000a, pp. 263–265): a substância ética é o elemento sobre o qual recai a avaliação e o trabalho ético a ser desempenhado pelo sujeito; o modo de subjectivação é a forma como os indivíduos são incitados a reconhecer as suas obrigações morais (e.g.: questões ligadas à saúde, beleza, pureza, ciência); as práticas de si são os meios pelos quais os indivíduos se trabalham para se tornarem sujeitos éticos, englobando as tecnologias do self; a

teleologia diz respeito ao tipo de ser a que esse sujeito aspira a ser quando atingir esse

mesmo comportamento moral.

De acordo com Foucault, não são os actos sexuais praticados que apontam para a substância ética contemporânea, nem o prazer sentido. É o desejo, aquilo que se sente, que se constitui como a substância ética sobre a qual incide o trabalho do self. É em torno do desejo que se constituem os discursos de verdade contemporâneos, e que são depois articulados no dispositivo de sexualidade (abordado no Capítulo seguinte).

O que isto quer dizer é que, como o autor já tinha exposto (Foucault, 1994a), a sociedade ocidental contemporânea, através de todos os três modos de subjectivação mencionados antes, está focada em encontrar a verdade sobre o sexo e, por conseguinte, o sujeito enquanto sujeito de/a uma sexualidade, deverá então empregar, entre outras coisas, tecnologias do self para descobrir a sua própria ‘verdade’, vista como imanente, e agir de acordo com ela, encontrar o seu desejo verdadeiro. A injunção cultural e institucional para o discurso sobre o sexo, a verdade do sexo e a verdade do desejo criam uma matriz de comportamentos desejáveis, um sistema disciplinar que o sujeito incorpora (Foucault, 2013) e que emprega em si-mesmo e nos outros.

Esta injunção está associada a um contexto macro-cultural em que o “conhecer- se a si mesmo” (gnothi seauton) toma precedência enquanto modo principal de o sujeito se relacionar consigo mesmo (Foucault, 2005) e onde as actuais relações de poder se infundem na vida quotidiana dos sujeitos, marcando-os na sua individualidade (cf. secção 1 deste Capítulo). O poder “impõe uma lei de verdade [no sujeito] que ele tem que reconhecer e que os outros têm que reconhecer nele” (Foucault, 2002a, p. 331).

Então, a noção de proactividade dos jovens na co-definição das suas próprias práticas e agenciamento em relação a si mesmos e no seu grupo de pares, bem como em interacção com outras pessoas, traduz-se aqui no que Foucault chama de governamentalidade, algo que “implica a relação do self consigo mesmo” e que cobre “toda uma série de práticas que constituem, definem, organizam e instrumentalizam as estratégias que os indivíduos, no uso da sua liberdade, podem empregar quando lidam uns com os outros” (Foucault, 2000d, p. 300).

Toma então habitualmente forma um discurso que passa por se encontrar ou libertar a verdade sobre o desejo – uma ideia que Foucault (1994a, 2000a, 2000b, 2000d, 2002b) considera equivocada, uma vez que corresponde ao replicar do discurso disciplinar vigente. A ideia de uma verdade sobre o desejo que, ao ser libertada, cumpre a finalidade do projecto ético do sujeito, vai por essa mesma via garantir a continuação e reforço das relações de poder e de veredicção que criam, normativamente, certos lugares de sujeito e de fala, de inteligibilidade. É neste contexto que os jovens se comprometem a certos e determinados usos de tecnologias do self (onde se incluem os novos media) e também a avaliarem-se, a si mesmos e aos outros, com base num determinado conjunto de princípios, indexados à substância ética do desejo.

A teleologia de se ser um sujeito que integra e conhece plenamente a verdade do seu desejo passa também por modos de subjectivação que tenham em conta o que é ou não ‘próprio’ de se fazer e expressar por parte de membros de uma dada classe social, por exemplo. O actual contexto capitalista neoliberal funciona aqui como outra camada: os jovens ficam também expostos a relações de pode enquanto sujeitos-consumidores (Greenman, 2001). Chloë Taylor (2009) refere isso mesmo quando, reflectindo sobre pornografia, nota como os sites, ao pedirem ao utilizador-consumidor para escolher a categoria ou tipo de material que deseja ver, estão a produzir ontologias sobre o desejo, levando o sujeito a posicionar-se dentro de um sistema taxonómico que o precede. A este respeito, Magnus Ullén (2009) refere uma outra perspectiva: a visualização de pornografia corresponde ao consumo e destruição do sentido através do acto masturbatório, e a pornografia funciona de forma análoga ao discurso publicitário, prometendo a satisfação de uma vontade ou necessidade, através do consumo.

Porque esta não é uma visão ahistórica de subjectividade, é fundamental ter em conta que o aumento da liberdade individual (que, como já visto antes, é também o aumento da obrigação individual a ser livre) é um factor-chave, em Foucault, para a importância das relações ou jogos de poder intersubjectivos. Como o próprio diz: “quanto mais livres as pessoas são em relação umas às outras, mais elas querem controlar a conduta umas das outras. Quanto mais aberto o jogo, mais apelativo e fascinante se torna” (Foucault, 2000d, p. 300) e portanto mais se intensifica a presença e exercício de uma microfísica do poder (Foucault, 2013).

Assim, esta investigação procura entender como é que as novas tecnologias são empregues pelos jovens também enquanto tecnologias do self, e para que tipo de sujeito moral apontam esses usos, bem como os princípios e orientações em que se envolvem no processo de se constituírem sujeitos de uma ética, através da análise dos discursos mobilizados pelos mesmos, reflectindo sobre o seu papel enquanto reprodutores e resistentes da ordem social presente (Cruikshank, 1993).