3.2. Destinasyon Seçimini Etkileyen Faktörler 39
3.2.1. Turizm Potansiyeli 40
Retomando o momento histórico anterior à reforma psiquiátrica, escolhemos as vias da literatura de Guimarães Rosa para desenvolvermos nossa reflexão. Assim como o conceito social da loucura pode ser identificado a partir de fontes históricas oficiais, a partir de documentos, relatórios, produção acadêmica, dentre outras fontes, a literatura também nos fornece interessante subsídio à reflexão da mentalidade em relação à loucura em um dado momento histórico. Conforme abordado no capítulo primeiro, o teatro e a literatura apresentaram a figura do louco em consonância com a representação ideológica de cada época. Similarmente, a produção cinematográfica “Estamira”, discutida no mesmo capítulo, apresentou-se como uma via possível de discussão da relação da família com a representação da loucura e com a rede de atenção em saúde mental na atualidade.
De acordo com Cândido (p. 25, 2006, grifo nosso), a literatura define-se por um
[...] sistema de obras ligadas por denominadores comuns, que permitem reconhecer as notas dominantes duma fase. Estes denominadores são, além das características internas (língua, temas, imagens), certos elementos de natureza social e psíquica, embora literariamente organizados, que se manifestam historicamente e fazem da literatura aspecto orgânico da civilização. Entre eles se distinguem: a existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos conscientes do seu papel; um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive; um mecanismo transmissor (de modo geral, uma linguagem traduzida em estilos), que liga uns a outros. O conjunto dos três elementos dá lugar a um tipo de comunicação inter-humana, a literatura, que aparece sob este ângulo como sistema simbólico, por meio do qual as veleidades mais profundas do indivíduo se transformam em elementos de contacto entre os homens, e de interpretação das diferentes esferas da realidade.
Isto posto, recorremos mais uma vez a este caminho possível, discutindo o conto “Sorôco, sua mãe, sua filha”26, escrito por Guimarães Rosa (1962/1988). Sorôco é um fictício
familiar da loucura, nascido da sensibilidade literária e humana de Guimarães Rosa – escritor, médico, militar e embaixador, que residiu por algum tempo em Barbacena. Através deste conto, o autor resgata o cenário da saúde mental em um momento histórico prévio à reforma psiquiátrica.
A narrativa apresenta o personagem central, Sorôco, que, recorrendo ao modo de lidar com a loucura em sua época, qual seja, a internação em hospícios, sem previsão de alta, se apronta para embarcar sua mãe e sua filha em um trem rumo ao Hospital Psiquiátrico de Barbacena: “O carro lembrava um canoão no seco, navio. [...] Para onde ia, no levar as
mulheres, era um lugar chamado Barbacena, longe. Para o pobre, os lugares são mais longe” (ROSA, p.18, 1962/1988).
O Trem de Doidos, a exemplo da Nau dos Insensatos, citada por Foucault (1972/2004), tinha o papel reservado de desinfectar o ambiente social, ordenar, sistematizar e normatizar. Aos loucos: a casa dos loucos. Reproduzindo a lógica manicomial, único tratamento
conhecido no período prévio à reforma, Sorôco toma sua decisão contando com o apoio da comunidade (ROSA, 1962/1988, p.19-20)
“O que os outros se diziam: que Sorôco tinha tido muita paciência. Sendo que não ia sentir falta dessas transtornadas pobrezinhas, era até um alívio. Isso não tinha cura, elas não iam voltar, nunca mais. De antes, Sorôco agüentara de repassar tantas desgraças, de morar com as duas, pelejava. Daí, com os anos, elas pioraram, ele não dava mais conta, teve de chamar ajuda, que foi preciso. Tiveram que olhar em socorro dele, determinar de dar as providências de mercê. Quem pagava tudo era o Governo, que tinha mandado o carro. Por forma que, por força disso, agora iam remir com as duas, em hospícios. O se seguir”.
O governo manda a “solução eficaz” sobre os trilhos. É nesta aparição sumária e ameaçadora, sob a forma do trem, que a intervenção estatal aparece. Metáfora do status quo, daquilo que se mantém sempre firme em seus trilhos e regras, aquilo que levará embora “e
para sempre as duas”, que a despeito de toda a carga emocional e da significação do ato,
carrega com hora marcada e destino definido coisas e pessoas. O trecho representa a política de saúde mental de lógica higienista.
Conforme registrado historicamente, a internação no Hospício de Barbacena representava a pena de prisão perpétua que nunca esteve oficialmente presente na legislação brasileira. De fato, sabemos que os internos perdiam o vínculo com sua família, muitos chegavam sem registros que os identificassem e, portanto, tratava-se de uma ruptura definitiva dos laços familiares (ROSA, 1962/1988, p.19)
“A mãe de Sorôco era de idade, com para mais de uns setenta. A filha, ele só tinha aquela. Sorôco era viúvo. Afora essas, não se conhecia dele o parente nenhum. (...) Sorôco estava dando o braço a elas, uma de cada lado. Em mentira, parecia entrada em igreja, num casório. Era uma tristeza. Parecia enterro”.
A partir do momento em que as duas mulheres finalmente embarcam no trem, a comunidade reflete o alívio da decisão tomada: “...de repente, todos gostavam demais de
Sorôco”. Esta súbita identificação com Sorôco parece estar baseada no senso de
diferente. Mas, a partir do momento em que acata a exigência tácita do grupo (livrar-se das duas figuras remetidas à loucura), o discurso alienado e alienante sobre o mundo naturalizado sela o acordo silencioso entre as partes.
A liberdade poética e criativa de Guimarães Rosa permitiu, ainda, uma inversão: não foi o grupo familiar que enviou seu único ente – o elemento depositário, o paciente identificado – à internação. Neste conto, toda a família de Sorôco (mãe e filha) é encaminhada à internação, restando somente ele confinado ao mundo da suposta normalidade. O autor encerra o conto com Sorôco cantando a “canção de desatino” que sua família cantava. Anteriormente, causa de estranhamento na comunidade, a canção, neste trecho final, passa a ser cantada também pelos presentes. Diversas leituras seriam possíveis para este fechamento: o canto geral representaria a loucura de todos devolvida à comunidade uma vez que as “transtornadas
pobrezinhas” haviam partido? Seria uma prova de afeição e empatia em relação a Sorôco que
acabara de encaminhar a loucura ao seu devido destino? O canto de desatino o conduzirá também ao Trem de Doidos? Ele reencontrará na loucura o caminho de volta ao cotidiano vivido ao lado da mãe e da filha?
A incerteza em relação ao destino de Sorôco encerra o conto. Só. Só oco – “no sofrer o
assim das coisas, ele, oco sem beiras” – se asila, também, sem a sua família. Mas, é possível
considerar que a qualquer momento, se necessário viesse a ser, Sorôco teria naquela comunidade uma família: para embarcá-lo, de boa vontade, para um rumo longe. Para sempre.