Diferentemente do que foi visto, a partir da liberdade poética de Guimarães Rosa, em geral, é um familiar do gênero feminino que se apresenta como principal cuidador do sujeito
na loucura. No conto, Sorôco é quem cuida de duas mulheres: sua mãe e sua filha, conduzindo-nos a uma forma interessante e diferenciada de ver os cuidados dentro da família, uma vez que rompe com a configuração usual e nos apresenta um representante do gênero masculino como único responsável por estes cuidados.
Para refletirmos sobre esta questão de gênero, em relação ao cuidador, é necessário resgatar alguns aspectos atrelados ao funcionamento do sistema capitalista, bem como da inserção da família neste sistema.
Dentro do modo de produção capitalista, além da desapropriação dos meios de produção do trabalhador e da conseqüente atomização do processo de produção, estabeleceu-se também a divisão sexual do trabalho, que, na sociedade burguesa, toma vultuosidade e qualidades específicas com justificativas de bases naturais27, justificado pelo “instinto
maternal”. Reduzida à esfera doméstica, a mulher foi mantida às margens das decisões políticas e econômicas. Badinter (1985) esclarece a questão, perfazendo historicamente os caminhos percorridos para que a mulher ocupasse a posição natural de mãe dentro da configuração de família nuclear. A partir da publicação de “Émille ou Da Educação” de Rousseau, no século XVIII, a mulher passa a ser, justificadamente, mantida nas cercanias domésticas, sendo a ela outorgados os cuidados e a educação da criança. Lembrando que a centralidade na infância e na intimidade eram atributos de destaque na dinâmica e formação da família nuclear burguesa, ideologicamente a divisão sexual do trabalho se estabelecia como valioso recurso à sociedade. As amas-de-leite, responsáveis pelos cuidados das crianças na primeira infância, e o tempo da mulher às atividades de lazer, conforme era possível identificar até o século XVII, encerrava-se sob a alegação de que à mulher era conferida a
27 As diferenças fisiológicas e de força física entre os gêneros masculino e feminino foram levadas em consideração desde os primórdios da humanidade em diferentes sentidos. Em algumas circunstâncias, vimos a capacidade reprodutiva privilegiada pois que se necessitava de mão- de-obra para o cultivo da terra. Em outras, a mulher se encarregava da pesca enquanto os homens necessitavam da aprovação da esposa para a compra de adornos de outras tribos (entre os tchambuli da Nova Guiné) e aguardavam a iniciativa sexual da mulher (Mead,1988).
responsabilidade suprema de ser a “rainha de seu lar”, única responsável pelo bem-estar de todos e pela formação moral e física de seus filhos. (BADINTER, 1985).
No Brasil, a família nuclear contemporânea, a partir da modernização da sociedade, atravessou o processo gradual de empobrecimento, engendrado à urbanização e à introdução gradual da mulher no mercado de trabalho. Conforme citado por Rosa (2003) e corroborado por Pegoraro (2006), ainda que as relações de poder entre os homens e as mulheres tenham se transformado, em certa medida, ainda cabe à mulher os principais cuidados dedicados ao sujeito da loucura.
O provedor de cuidados, com freqüência a mulher, tem que ter uma disponibilidade temporal, periódica ou indefinidamente, para exercer o seu papel. Então, para satisfazer as necessidades individuais do portador de transtorno mental [...], a mulher tem seu espaço de vida invadido pelas demandas de provimento de cuidado. Tem seus projetos pessoais obstruídos pelas necessidades de prestar cuidado, ao ter que investir emocional, temporal e economicamente [...]. Assim, a família e a mulher tornam-se temas confluentes, pois é no interior do grupo familiar que o papel feminino é internalizado e requisitado socialmente, e é neste espaço social onde o provimento de cuidado se desenvolve, na tensão entre afirmações e negações de individualidades e do cotidiano como espaço político de relações construídas e reconstruídas (Rosa, 2003, p.193).
Spadini e Souza (2006) corroboram com a reflexão ao identificarem que a figura feminina ainda é a principal cuidadora do sujeito da loucura, acompanhando de perto seu cotidiano. No estudo de caso, presente nesta dissertação, a mãe, “Dona Ana”, cumpre esta função.
Pegoraro e Caldana (2006) sugerem que esta configuração, na qual os cuidados são eminentemente realizados por mulheres - que têm diversas atividades sob suas responsabilidades em seus lares e, em geral, apresentam idade avançada - deveria ser alvo de atenção específica por parte das equipes de saúde com o objetivo de que fossem implementadas ações voltadas às “cuidadoras”.
De acordo com Pereira (2003), a sobrecarga emocional da mulher, em geral a “mãe- cuidadora”, que se encarrega do tratamento, dos cuidados básicos e cotidianos do sujeito da loucura, se intensifica frente à carência de informações, orientações e apoio por parte dos serviços de saúde mental e da comunidade. Em maior ou menor grau, o cuidado prestado e a condição estigmatizante da loucura, conforme veremos no final deste capítulo, parecem restringir o leque de possibilidades de existência destas familiares.
Cabe considerarmos aqui as múltiplas determinações da sobrecarga emocional da mulher/mãe neste contexto: a organização centrada na família nuclear, a precarização das condições de vida, a estigmatização social da loucura, os reduzidos recursos comunitários locais voltados ao bem-estar do sujeito da loucura, a baixa eficácia dos serviços de saúde mental em compreender a demanda e o contexto da família (PEREIRA, 2003) e a prestação de cuidados informais como suporte ao tratamento.
O discurso de mulheres/cuidadoras informais no cotidiano imerso no cuidado e no estigma da loucura foram alvo de estudo realizado por Pegoraro e Caldana (2008). Segundo as autoras, o discurso de tais mulheres-familiares
[...] revelou que elas tinham aquele de quem cuidavam como centro de suas vidas, e dele não conseguiam se perceber separadas (Gonçalves, 1999). Quando falavam a respeito daquele que recebia seu cuidado, falavam sobre si mesmas, numa grande fusão. Outros estudos assinalam que, no geral, embora com queixas de sobrecarga de trabalho pela tarefa de cuidar de um portador de sofrimento mental, a cuidadora apresenta dificuldades em dividir a realização dessa tarefa com outras pessoas, centralizando as ações e dividindo apenas aquelas tarefas consideradas periféricas, como marcar consulta ou buscar medicação (Rosa, 2003; Pegoraro, 2006). No caso das cuidadoras mais velhas, o precário estado de saúde das mesmas deve ser uma das preocupações das equipes de saúde. Além de problemas físicos, os estudos analisados destacaram a presença de sintomas de depressão e uso de ansiolíticos nas cuidadoras. Some-se a isso, a condição financeira desfavorável de boa parte dessas famílias, todas investigadas em serviços públicos do país (PEGORARO; CALDANA, 2008, p.88).
Com base no exposto, faz-se premente que as políticas públicas de saúde mental e o desenho das práticas de atenção em saúde se voltem à família, levando-se em consideração o viés do gênero e suas implicações. Conhecer e reconhecer a família em seu cotidiano inserido
no contexto da loucura equivale a considerar os aspectos fundamentais de sua configuração. O contexto social, econômico e cultural das famílias brasileiras, usuárias dos serviços de saúde mental – suas representações acerca da loucura, onde identificam redes de apoio formal/informal e as formas que encontram para lidar com a loucura – devem constelar estudos para o embasamento de práticas em saúde mental e do delineamento das políticas, promovendo-se, ainda, o espaço de participação social destas famílias e, sobretudo, destas mulheres na elaboração do contexto da saúde mental.