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3.2. LİTERATÜR

3.2.1. Turizm Gelirleri ve GSYİH/GSMH

(Apud Ateneu, Deipnosofistas 8.335f-336b)

—————————————————————————————————— Λαµιακά (?)314 Εὖ εἰδὼς ὅτι θνητὸς ἔφυς σὸν θυµὸν ἄεξε, τερπόµενος θαλίῃσι· θανόντι τοι οὔτις ὄνησις. καὶ γὰρ ἐγὼ σποδός εἰµι, Νίνου µεγάλης βασιλεύσας. ταῦτ' ἔχω ὅσσ' ἔφαγον καὶ ἐφύβρισα καὶ µετ᾽ ἔρωτος τέρπν' ἔπαθον· τὰ δὲ πολλὰ καὶ ὄλβια κεῖνα λέλειπται. {ἥδε σοφὴ βιότοιο παραίνεσις, οὐδέ ποτ' αὐτῆς λήσοµαι. ἐκτήσθω δ' ὁ θέλων τὸν ἀπείρονα χρυσόν.} Tradução: Lamíacas (?)

Bem ciente de que mortal nasceste, eleva teu ânimo, te deliciando com as festas: ao finado, proveito nenhum. Pois eu também, que fui o grande rei de Nínive, sou pó.

Tenho aquilo que comi, que espicacei, e as coisas que, com desejo gostosas, padeci: mas todas as muitas riquezas estão abandonadas. Este sábio conselho de vida, jamais dele

esqueci. E que o que quer adquira o ilimitado ouro.

Comentário:

Λαµιακά: o poema de Coerilo não traz a palavra λάµια, e foi selecionado para fazer

314 Texto grego inicialmente retirado de Kinkel, 1877 = TLG. Posteriormente, na fase de revisão desta

tese, cotejamos com a edição de Lloyd-Jones & Parsons e decidimos adotar a versão deles, por ser mais recente. Cf. Lloyd-Jones & Parsons, 1983, pp. 154-158. Lloyd-Jones & Parsons numeram o título

Λαµιακά como sendo o fragmento 334 de Coerilo, e os versos aqui apresentados como sendo o

fragmento 335, mas não têm certeza dessa divisão. Kinkel, por sua vez, atribui os versos do epitáfio de Sardanápalo ao título Λαµιακά, mas Lloyd-Jones & Parsons se referem a eles apenas como

Sardanapalli Epitaphium, desfazendo a conexão estabelecida por Kinkel. Resolvemos manter aqui a

opção de Kinkel, apesar de adotarmos a edição de Lloyd-Jones & Parsons, por dois motivos: para traduzir os poucos versos remanescentes de Coerilo, e porque, como os próprios Lloyd-Jones e Parsons não demonstram certeza da possibilidade de o 335 ser um fragmento por si só, preferimos ficar com a possibilidade da tradução maior. De outra forma traduziríamos apenas o título, o que achamos que seria pouco proveitoso.

parte do corpus desa tese por causa de seu título, Λαµιακά, "As coisas de Lâmia", que apenas transliteramos por "Lamíacas". Contudo, não se sabe nem se esse pedaço de poema que chegou até nós era parte do poema que se chamaria Λαµιακά ou fazia parte de um outro poema, um suposto epitáfio composto para um rei assírio de nome

Sardanápalo.315 Ateneu registra duas versões desse epitáfio (336, 530): um contém as

palavras "ἔσθιε, πῖνε, παῖζε· ὡς τἆλλα τούτου οὐκ ἄξια τοῦ ἀποκροτήµατος" - "come, bebe, divirta-se, uma vez que todo o resto não é digno de um estalar de dedos"; o outro termina em "κεῖν' ἔχω ὅσσ' ἔφαγον καὶ ἐφύβρισα καὶ µετ' ἔρωτος τέρπν' ἔπαθον· τὰ δὲ καὶ ὄλβια πάντα λέλυνται" - "eu tenho o que eu comi, e os deliciosos atos de

luxúria e amor que eu pratiquei e sofri, enquanto toda a minha riqueza se perdeu".316

Sobre esse título Lamiaká, John Walsh, em um artigo de 2011, afirma que Coerilo teria escrito um épico cujo título foi dado em homenagem ao que talvez fosse o ápice de uma narrativa sobre a Guerra de Lâmia. O autor esclarece a entrada da

Suda, que confunde Coerilo de Iaso com Coerilo de Samos, dizendo que o segundo

viveu no século V a.C., de modo que não poderia ter escrito um poema sobre eventos que aconteceram quase um século após sua morte (que ele data como sendo anterior a

399 a.C.).317

Em seguida, Walsh defende que o tema da Guerra de Lâmia era um assunto típico para um épico, e que o próprio Coerilo de Samos deixou escrito um épico denominado Περσικά, sobre a guerra entre persas e gregos. Portanto, ο título Λαµιακά dado por Coerilo de Iaso a seu poema não seria nada estranho, ou inadequado, visto o

contexto da poesia épica grega.318

Finalmente Walsh se depara com o problema o qual enfrentamos: qual teria sido o assunto do poema? Como Coerilo teria abordado o assunto da guerra? Com o

315 Aparentemente Coerilo de Iaso era um poeta da corte de Alexandre, que é referido pelas fontes que

falam dele como sendo um poeta muito ruim (cf. Horácio, Epístulas 2.1.232-241, e Arte Poética, 358- 360, entre outras, cf. Lloyd-Jones & Parsons, 1983, p. 154, no 333).

316 Sardanápalo é um rei assírio mítico, que foi identificado com Assurbanibal, entre outros reis e

membros de famílias reais assírias, uma vez que não há nenhum registro histórico de um rei com esse nome na listagem dos reis assírios. Essas listas de reis assírios foram compiladas de achados arqueológicos (tabuinhas de argila em cuneiforme) e de listas feitas posteriormente por autores greco- romanos e árabes. Tradicionalmente, os versos gregos desse epitáfio de Sardanápalo são atribuídos a Coerilo de Iaso. Cf. Lloyd-Jones & Parsons, 1983, pp. 155-158. Há paródias desse poema feitas por Crisipo (id., no. 338, pp. 158-159) e Crates (id., no. 355, p. 167); http://perseus.uchicago.edu/cgi- bin/philologic/getnote.pl?c.97:11:0:-1:24.GreekFeb2011.

317 Walsh, 2011, p. 538-541, onde ele trata da origem da confusão entre os dois poetas, feita pela

entrada da Suda, e esclarece esse erro apontando argumentos muito convincentes. 318

Cf. Walsh, 2011, pp. 541-542, onde ele faz uma lista de casos semelhantes de poetas que escreveram sobre guerras, inclusive sobre guerras que os gregos perderam, como é o caso da Guerra de Lâmia.

patrocínio de quem ele estava trabalhando? Walsh levanta todas as possibilidades para esta última pergunta: primeiro, que o poeta poderia ter se voltado para os atenienses após a morte de Alexandre e o desmantelamento de sua corte imediata, e então o poema poderia enaltecer os feitos gregos durante o cerco aos macedônios na cidade tessália de Lâmia; em segundo lugar, ele levanta a hipótese de que Coerilo tenha permanecido sob o patronato macedônio, ajuntando-se à corte de Antípatro, em Pela, e então o poema enalteceria a vitória dos macedônios. Walsh cita que o próprio Antípatro era um escritor, e também era amigo íntimo de Aristóteles, o que poderia significar que ele fosse adepto da maneira de pensar desse filósofo e por isso valorizasse a literatura e as artes.

Há, ainda, a possibilidade de que esse fosse um poema de simpósio, e que "as riquezas" às quais se refere fossem os prazeres que se pode "devorar" com o corpo: a comida, a bebida e o sexo, que seriam parte do indivíduo para sempre em sua memória. Assim, talvez as "Coisas de Lâmia" fossem essas que se prestam à devoração corporal e depois à devoração temporal: pois o tempo passa, e até mesmo os grandes "devoradores de prazeres", reis poderosos de civilizações imponentes, são consumidos por ele e viram pó. Desse modo, se são prazeres que estão sendo prezados, e como a raiz λαµ- indicaria um sentimento de voracidade, esse poema poderia ser, então, o retrato da voracidade "civilizada" humana. "Civilizada" porque seria aquela voracidade permitida nos banquetes, a voracidade socialmente aceita. Seria um poema transgressor, que ilustraria, em suas imagens, a ideia de voracidade imbuída na raiz de sua palavra-título, Lamíacas ou Coisas de Lâmia. Todavia, não conseguimos encontrar um especialista que defenda essa ideia. Os poucos que escreveram sobre esse poema e que pudemos acessar, tratam-no como um trecho de um épico, como é o caso de Walsh.

Contudo, todas essas conjecturas são muito voláteis, uma vez que não há evidências para suportar nenhuma dessas hipóteses. O que restou e que se tem do poema pode ser o fragmento acima, que não apenas nada revela, como ainda confunde o leitor, pois não fala nada do cerco em Lâmia, nem de macedônios e gregos, e muito menos de banquetes. A única pista útil que nos chegou é mesmo o título, que sugere conexões com os eventos em Lâmia, ou com a voracidade de um ser monstruoso, imbuída na raiz da palavra. Nada mais pode ser afirmado.

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Ἀριστοτέλης - Aristóteles 384-322 a.C.

—————————————————————————————————— ΤΩΝ ΠΕΡΙ ΤΑ ΖΩΙΑ ΙΣΤΟΡΙΩΝ, Ζ.540b.319 Ἔστι δ' ἐν πᾶσι τοῖς σελαχώδεσι µεῖζον τὸ θῆλυ τοῦ ἄρρενος· σχεδὸν δὲ καὶ ἐν τοῖς ἄλλοις ἰχθύσι τὰ θήλεα µείζω τῶν ἀρρένων. Σελάχη δ' ἐστὶ τά τ' εἰρηµένα καὶ βοῦς καὶ λάµια καὶ ἀετὸς καὶ νάρκη καὶ βάτραχος καὶ πάντα τὰ γαλεώδη. Tradução:

As histórias sobre os animais, V.540b.

A fêmea é maior que o macho em todos os cartilaginosos. Em quase todos os outros peixes as fêmeas também são maiores que os machos. Cartilaginosos são os denominados albafar, lâmia, raia-águia, raia-elétrica, peixe-sapo e todos os tubarões menores.

Comentário:

λάµια: essa palavra aparece somente uma vez no trecho acima, exatamente na linha

18. Podemos notar que a lâmia é diferenciada dos outros tubarões, aos quais Aristóteles se refere usando o vocábulo γαλεός, γαλεώδης, que indicaria um tubarão

de menor porte.320 O LSJ fornece possibilidades de espécimes para os outros peixes

aos quais Aristóteles faz referência, mas não oferece nenhuma suposição para a λάµια,

dizendo apenas que se trata de um tubarão feroz.321 A tradutora portuguesa, Maria de

Fátima Sousa e Silva, usa a definição "tubarão-sardo", mas não explica o motivo.322

319 Todos os textos gregos de Aristóteles, História dos Animais, foram retirados de Aristote, 1968 =

TLG.

320 LSJ, 1996, p. 336; Chantrainne, 1968, p. 207. 321 "A fierce shark", cf. LSJ, 1996, pp. 1027 e 1026. 322

Cf. Aristóteles, 2006, p. 206. O tubarão-sardo português é conhecido no Brasil como tubarão-mako ou anequim, cujo nome científico é Isurus oxyrinchus. É o tubarão mais rápido já registrado, podendo alcançar 88km/h, e habita as áreas de águas quentes dos oceanos, em alto-mar. O maior espécime já capturado foi uma fêmea na França, em 1973, que media 4,45m. E o mais pesado foi um espécime na Itália, em 1881, que diziam pesar 1 tonelada (cf. Compagno, Dando & Fowler, 2005, pp. 182-183, e curiosidades na internet, onde se pode achar desde análises filológicas do nome, até relatos de fatos inusitados como capturas fantásticas e pescadores benevolentes, sendo que o sítio chamado fishbase.org fornece todos os dados sobre o peixe em si). O LSJ nomeia duas espécies diferentes para o vocábulo γαλεός: para γ. νεβρίας e γ. ἀστερίας, Scyllium stellare, e para γ. λεῖος, Mustela laevis. Contudo, os nomes das espécies são um pouco diferentes hoje em dia: o Mustela laevis foi descrito

A lâmia é classificada por Aristóteles dentre os peixes cartilaginosos, e por isso sua cópula também é feita do modo como ele descreve neste trecho (Aristóteles está versando sobre a cópula dos peixes cartilaginosos nesse trecho 540b de sua

obra323), com a fêmea subjugada pelo macho, apesar de, normalmente, as fêmeas

serem maiores que os machos nos tubarões.324

Há três vocábulos usados para denominar tubarões mais genericamente pelos autores que tratam de peixes no nosso corpus: karkaréos, kúnes, galeós. O LSJ relaciona com a mesma espécie as palavras κύων e γαλεός: ambas são identificadas com o tubarão-cachorro comum, Squalus acanthias (chamado "dogfish" em inglês),

que seria um pequeno tubarão, não grande como ο tubarão λάµια.325

Cláudio Galeno diz em seu texto, Das propriedades dos alimentos, que tanto γαλεός quanto γαλεώνυµος são palavras usadas para identificar o mesmo tipo de peixe. Owen Powell, que traduziu e editou o texto de Galeno para a Universidade de Cambridge, comenta que D'Arcy Thompson (professor inglês que escreveu um glossário de peixes gregos) diz que tal peixe pode ser uma lampreia (Petromyzon

marinus), e que tanto γαλεός quanto γαλεώνυµος são identificados com o

"dogfish".326 Escolhemos manter a tradução genérica de tubarão para essas duas

últimas palavras, e traduzir κύνες por "cação", que é o nome genérico atribuído aos tubarões de pequeno porte no Brasil — o Squalus acanthias é chamado cação-bagre,

cação-espinho e cação-prego.327

Aristóteles é o primeiro autor a usar o vocábulo λάµια para denominar um tubarão. Refletindo sobre a razão que o levou a fazer isso (como não há outra referência escrita que sugira que outra pessoa já havia usado esse vocábulo para nomear um tubarão, preferimos considerar que Aristóteles foi o primeiro, afinal, ele foi pioneiro nos estudos sobre os animais), nos lembramos muitas vezes das imagens

como Mustelus mustelus e o Scyllium stellaris foi descrito como Scyliorhinus stellaris, de acordo com esse banco de dados virtual de pesquisa sobre peixes xx.fishbase.org., e com o LSJ, 1996, p. 336. 323 Para uma tradução completa do trecho cf. nossa dissertação de mestrado, Mortoza, 2013, pp. 75-77. 324 Cf. nossa dissertação de mestrado, Mortoza, 2013, Anexo II: ilustrações, figuras 7, 8 e 9, pp. 182-

183. 325

Cf. LSJ, 1996, pp. 336 e 1015.

326 Cf. Powell, 2003, p. 183, 727. Duas imagens podem ser verificadas em Mortoza, 2013, no Apêndice

II: ilustrações, explicando as diferenças fenotípicas entre uma lampreia-do-mar e um cação comum, p. 185.

327 Cf. Mortoza, 2013, Galeno, pp. 127-128; parece ser um pouco forçado achar que γαλεός é uma

lampreia, por três razões principais: primeira, o próprio Galeno diz que as duas palavras são usadas para nomear o mesmo tipo de peixe; segunda, Aristóteles, antes de Galeno, usa o termo para se referir especificamente a tubarões (vide Mortoza, 2013, pp. 73-76; v.II, Galeno, pp. 123-134); e terceira, fenotipicamente (aparência externa) falando, não há qualquer semelhança entre lampreias e tubarões que permitisse alguma associação possível entre as duas espécies.

de tubarões ao abocanharem sua presa: eles são a personificação da voracidade alimentar. Eles não são seres imaginados, eles existem no mundo material, podem ser vistos, tocados, pescados, comidos. Eles representam a voracidade da lâmia papona na Natureza. Assim, após refletir de tal modo, consideramos bem fundamentada a atribuição nominal feita pelo estagirita, e resolvemos manter os autores que usam a palavra com esse significado nesta tese.

——————————————————— ΤΩΝ ΠΕΡΙ ΤΑ ΖΩΙΑ ΙΣΤΟΡΙΩΝ, Θ.621a16-20. Συστρέφονται δὲ καὶ αἱ ἀµίαι, ὅταν τι θηρίον328 ἴδωσι, καὶ κύκλῳ αὐτῶν περινέουσιν αἱ µέγισται, κἂν ἅπτηταί τινος, ἀµύνουσιν· ἔχουσι δ' ὀδόντας ἰσχυρούς, καὶ ἤδη ὦπται καὶ ἄλλα καὶ λάµια ἐµπεσοῦσα καὶ καθελκωθεῖσα. Tradução:

As histórias sobre os animais, VIII.621a16-20.

E os bonitos, quando veem algum predador, se ajuntam, e, em volta deles, os maiores nadam em círculo, e se um é atacado, defendem-no: têm dentes fortes, e já foi visto até mesmo uma lâmia que, atacando-os, ficou coberta de feridas.

Comentário:

λάµια: esse trecho mostra como a lâmia é um peixe particularmente feroz e violento,

já que é o padrão de comparação para mostrar quão perigosos os pacíficos bonitos são se estiverem agrupados quando atacados: por trás está a ideologia de que o grupo pode vencer até mesmo os maiores desafios, ou os maiores e mais agressivos predadores. É a constatação de que até mesmo uma lâmia fica ferida quando encara um grupo de bonitos que dá ao interlocutor de Aristóteles a certeza de que os peixes são bem eficazes em sua defesa grupal. Ou seja, a lâmia é o padrão de ferocidade marinha a ser superado. Por esse trecho é possível perceber que ela talvez fosse o grande predador não-imaginário do Mediterrâneo, já que ela é o inimigo a ser vencido

328 θηρίον - Sousa e Silva usou a palavra "predador" para traduzir essa palavra nesse trecho do texto, e

essa opção foi mantida aqui. A primeira acepção da palavra θήρ é "predador" (LSJ, 1996, p. 799, "beast of prey"), sendo que θηρίον é o diminutivo dessa palavra (o sufixo -ίον define diminutivos neutros, Smyth, 1984, p. 45, 197b). Θηρίον aparece usada para indicar qualquer animal, sendo que Aristóteles a utiliza para indicar peixes e Heródoto a utiliza para indicar tubarões, cf. LSJ, 1996, p. 800, Arist. XX.A. 598b1, 552b2, 625b32; Hdt. 6.44.

pelo grupo de bonitos. Esse fato de a lâmia ser obrigada a recuar em seus ataques por um grupo de peixes notadamente pacíficos deveria, ainda, causar comoção nos que o escutavam, por ser um feito extraordinário, e por isso Aristóteles usou a comparação especificamente com ela, e não com outro predador qualquer do mar Mediterrâneo.

Portanto, a importância desse trecho é delimitada a partir do que ele revela nas entrelinhas sobre a ferocidade da lâmia: ela era, muito provavelmente, um predador

de topo de cadeia alimentar do Mediterrâneo.329 A lâmia poderia, desse modo, estar

incluída na tradição do κῆτος grego, e por isso também Aristóteles a chama de θήρ, que pode ser tanto predador quanto monstro, e atribui a esse peixe o nome de um monstro terrestre, conhecido por sua voracidade, conectando os dois seres, um real e um imaginário, por associação com o campo semântico da raiz da palavra λάµια, sob

o signo da violência e da ferocidade.330

θηρίον: Sousa e Silva usou a palavra "predador" para traduzir essa palavra nesse

trecho do texto, e essa opção foi mantida aqui. A primeira acepção da palavra θήρ é

"predador", sendo que θηρίον é o diminutivo dessa palavra.331 Θηρίον aparece usada

para indicar qualquer animal, sendo que Aristóteles a utiliza para indicar peixes e

Heródoto a utiliza para indicar tubarões.332 Contudo, θήρ também é usada para indicar

monstros, como especifica sua terceira acepção no LSJ, "qualquer monstro fabuloso", e é encontrada na literatura remanescente em referência à esfinge, aos centauros e aos

sátiros.333

Assim, nesse vocábulo único, temos mais um ponto de contato entre a lâmia tubarão e a lâmia monstro, que não precisam ser necessariamente aspectos dissociados do vocábulo λάµια: ela pode ser entendida também, como já

329 O predador de topo de cadeia alimentar num ecossistema é aquele predador que não é predado. Tem

menos filhotes, mas domina a cadeia alimentar daquele ecossistema. Os leões, as baleias orcas, os tubarões, os lobos são todos predadores de topo. Em geral, os grandes felinos e grandes canídeos são predadores de topo. As orcas e golfinhos são um caso à parte, já que oferecem uma boa briga ao predador de topo dos ecossistemas marinhos, que é o tubarão de grande porte, como o tubarão branco, o tubarão tigre, o tubarão martelo, que predam até mesmo baleias enormes. Contudo, há inúmeros relatos de lutas devastadoras entre orcas e tubarões brancos, e entre golfinhos e tubarões, pois esses grandes mamíferos que se defendem em grupo, assim como os bonitos aqui nesse trecho de Aristóteles. Cf. Compagno, Dando & Fowler, 2005, pp. 38, 41, 43.

330 Para κῆτος cf. nesta tese Estesícoro, p. 57, n. 185.

331 LSJ, 1996, p. 799, "beast of prey"; o sufxo -ίον define diminutivos neutros, cf. Smyth, 1984, p. 45,

197b.

332 LSJ, 1996, p. 800; Arist. XX.A. 598b1, 552b2, 625b32; Hdt. 6.44. 333 LSJ, 1996, p. 799.

mencionamos, como um monstro marinho, um κῆτος, por excelência.334

—————————————————————————————————— ΗΘΙΚΩΝ ΝΙΚΟΜΑΧΕΙΩΝ 1148b15-24335 Ἐπεὶ δ' ἐστὶν ἔνια µὲν ἡδέα φύσει, καὶ τούτων τὰ µὲν ἁπλῶς τὰ δὲ κατὰ γένη καὶ ζῴων καὶ ἀνθρώπων, τὰ δ' οὐκ ἔστιν, ἀλλὰ τὰ µὲν διὰ πηρώσεις τὰ δὲ δι' ἔθη γίνεται, τὰ δὲ διὰ µοχθηρὰς φύσεις, ἔστι καὶ περὶ τούτων ἕκαστα παραπλησίας ἰδεῖν ἕξεις· λέγω δὲ τὰς θηριώδεις, οἷον τὴν ἄνθρωπον ἣν λέγουσι τὰς κυούσας ἀνασχίζουσαν τὰ παιδία κατεσθίειν, ἢ οἵοις χαίρειν φασὶν ἐνίους τῶν ἀπηγριωµένων περὶ τὸν Πόντον, τοὺς µὲν ὠµοῖς τοὺς δὲ ἀνθρώπων κρέασιν, τοὺς δὲ τὰ παιδία δανείζειν ἀλλήλοις εἰς εὐωχίαν, ἢ τὸ περὶ Φάλαριν λεγόµενον. Tradução: Ética a Nicômaco 1148b15-24

Assim, algumas coisas são prazerosas por natureza, e dessas, umas o são elementarmente, e outras o são segundo a classe, seja dos animais, seja dos homens. Mas há as que não são [prazerosas] e que, entretanto, se tornam, por deficiência ou hábito, e ainda por defeito da índole. E algumas coisas são ruins por natureza. Há disposições semelhantes em cada uma dessas coisas. Digo então que existem coisas ferinas, tal qual a humana que dizem rasgar as grávidas para devorar as crianças, ou tal qual alguns selvagens da região do Ponto, que dizem que se comprazem com as carnes cruas e de humanos, e também que arrendam as crianças uns para os outros

para os banquetes, ou ainda quando conto sobre Faláris336.

Comentário:

Apesar de parecer que esse trecho da Ética a Nicômaco não tem conexão com o tema

334

Para κῆτος cf. LSJ, 1996, pp. 949-950; e também Hopman, 2005, pp. 9, 14, 34-36.

335 Texto grego retirado de Bywater, 1962 = TLG.

336 Segundo Hornblower & Spawforth (cf. 1996, p. 1153), Faláris de Ácragas (ou Agrigento, ca.570-

ca.549 a.C.) foi o primeiro tirano importante da Sicília. Sua enorme crueldade fez com que seu nome

virasse um sinônimo dessa palavra na Antiguidade. Em sua Pítia I 95-98, Píndaro alega que ele cozinhava suas vítimas dentro de um touro de bronze e se refere à sua reputação odiosa: "τὸν δὲ ταύρῳ χαλκέῳ καυτῆρα νηλέα νόον / ἐχθρὰ Φάλαριν κατέχει παντᾷ φάτις, / οὐδέ νιν φόρµιγγες ὑπωρόφιαι κοινανίαν / µαλθακὰν παίδων ὀάροισι δέκονται" - "com um touro de bronze um forno cruel a mente / odiosa de Fálaris retinha a todos, são os rumores / nem ele os fórminxes no salão comunal / com suaves canções de crianças recebem". Texto grego retirado de Maehler, 1971 = TLG.

desta tese, vamos analisá-lo a partir de dois comentários antigos que citam a lâmia em suas linhas. Um dos comentários, o primeiro a ser apresentado, se refere a este trecho da obra de Aristóteles, que está localizado no livro VII, o outro se refere ao livro X da mesma obra. O assunto de ambos é similar, pois são parte de uma discussão acerca dos prazeres.

O primeiro escólio é de autoria anônima, datado de cerca dos séculos XII-

XIII.337 Em seu comentário sobre o trecho acima da Ética, ele diz que

Ele [Aristóteles] continua a respeito das coisas que não são prazerosas por natureza, como a selvageria. Afirma que algumas coisas não são prazerosas por natureza, e diz que o comer crianças não é um prazer natural. Mas ensina que para a Lâmia é um prazer. A Lâmia é uma mulher que vivia na região do Ponto, que, por ter destruído as proprias crias, comia os recém-nascidos das outras mulheres. Esses são prazeres contrários ao que é natural, com os quais se regozijam alguns dos selvagens; são certamente selvagens.338

Podemos perceber claramente que o comentador entendeu que a "a humana que dizem rasgar as grávidas para devorar as crianças" (τὴν ἄνθρωπον ἣν λέγουσι τὰς κυούσας ἀνασχίζουσαν τὰ παιδία κατεσθίειν), à qual Aristóteles se refere, é a lâmia. Chegamos a essa conclusão pois esse comentador faz apontamentos sobre os três casos citados por Aristóteles, na mesma ordem deste último: Aristóteles estabelece a seguinte ordem - humana que come fetos, povos selvagens do Ponto, Faláris; e o comentador anônimo ordena seus apontamentos assim - lâmia, citas, Faláris, respectivamente. Portanto, o comentador da Ética a Nicômaco está identificando, nesse trecho do texto, a humana que come fetos com a lâmia, apesar de Aristóteles não ter nomeado a tal humana que cita (e os povos selvagens do Ponto com os citas, que o autor grego também não nomeia neste trecho). Poderia muito bem ser um ser humano qualquer, mas o comentador deixa claro que é a lâmia. E não qualquer lâmia, mas uma bem específica, a que rasga a barriga de grávidas e come bebês intrauterinos.

Na verdade, é a primeira vez que esse terrível costume da lâmia é relatado. Antes ela perseguia crianças já nascidas, ou matava as recém-nascidas. As que ainda

337 Anônimo foi muito criticado pelos estudiosos modernos, que o consideram incompetente tanto