Dada à intensa pressão em termos de ocupação do solo das zonas costeiras, associado há anos de mau planejamento urbanístico e construções ilegais nas áreas de perfil ativo de praia, verifica-se que existem situações de risco para valores naturais e patrimoniais, devido à vulnerabilidade aos problemas ambientais, sociais e econômicos, como por exemplo, a erosão costeira.
Os fenômenos de erosão costeira têm sido encarados cada vez com mais preocupação, devido à sua severidade e aumento dos riscos para a população, não só em escala nacional, mas também mundial, proliferando as notícias sobre galgamentos, desaparecimento de praias e destruição de infraestruturas ao longo da linha de costa, sendo necessário proceder às intervenções de proteção, recorrendo, a estruturas de defesa costeira, muitas vezes medidas de carácter urgente, de modo a diminuir a insegurança existente ao longo da linha de costa.
No Brasil, a situação das praias em relação à erosão costeira não é diferente da maioria dos países, havendo praias onde o processo é bastante severo e requer medidas emergenciais de contenção e/ou recuperação. Entretanto, são ainda embrionárias as políticas de gestão integrada das zonas costeiras no Brasil, em relação ao problema e às suas causas, seja no que tange ao planejamento territorial, às obras de contenção/proteção costeira (estruturais ou não), ao financiamento de projetos ou a estudos de cenários que possam orientar investimentos (SOUZA, 2009). Da mesma forma, as políticas de planejamento e ordenamento territorial pouco têm incorporado os conhecimentos científicos disponíveis sobre o tema, resultando, muitas vezes, no desperdício de recursos públicos com obras de engenharia costeira que acabam não cumprindo seu papel, mas acelerando a erosão e aumentando as situações de risco e a vulnerabilidade de pessoas e bens ao processo.
Este panorama traçado por Souza (2009) é ainda mais comum quando se trata de obras de caráter improvisado, ou seja, uma ação pontual, na maioria das vezes efetivadas por proprietários de infraestruturas em risco de ação de processos erosivos, ou obras emergenciais.
Para Gallo (2009), todos os empreendimentos na zona costeira, independentemente dos impactos destes, são imprescindíveis que sejam em consonância com Estudos de Impacto Ambiental (EIA).
A Constituição Federal de 1988, no seu artigo 225, §1°, IV, dispõe que incumbe ao Poder Público exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental (PEREZ, et al., 2008).
A Lei Federal nº 7.661 de 1988, que institui o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro, por sua vez, recepcionada pela Constituição Federal de 1988, dispõe que no licenciamento para parcelamento e remembramento do solo, construção, instalação, funcionamento e ampliação de atividades, com alterações das características naturais da zona costeira, o órgão competente solicitará ao responsável pela atividade, a elaboração do estudo de impacto ambiental e a apresentação do respectivo Relatório de Impacto Ambiental – RIMA (BRASIL, 1988).
Assim, o §2°, do art. 6°, da referida Lei 7661/1988, expressamente faz referência à elaboração do estudo de impacto ambiental e a apresentação do respectivo Relatório de Impacto Ambiental – RIMA (DEBONI, 2009).
A Resolução CONAMA nº 001, de 23 de janeiro de 1986, considerando a necessidade de se estabelecerem as definições, as responsabilidades, os critérios básicos e as diretrizes gerais para uso e implementação da Avaliação de Impacto Ambiental, como um dos instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente, traz a definição de impacto ambiental como qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetam a saúde, a segurança e o bem-estar da população; as atividades sociais e econômicas; a biota; as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente e a qualidade dos recursos ambientais (BRASIL, 1986).
Assim, o EIA deve contemplar todas as alternativas tecnológicas e de localização de projeto, confrontando-as com a hipótese de não execução do projeto; identificar e avaliar sistematicamente os impactos ambientais gerados nas fases de implantação e operação da atividade; definir os limites da área geográfica a ser direta ou indiretamente afetada pelos impactos e considerar os planos e programas governamentais, propostos e em implantação na área de influência do projeto e sua compatibilidade.
Assim, o estudo de impacto ambiental desenvolverá, no mínimo, as seguintes atividades técnicas, nos termos do seu art. 6°: diagnóstico ambiental da área de influência do
projeto, com a completa descrição e análise dos recursos ambientais e suas interações, tal como existem, de modo a caracterizar a situação ambiental da área, antes da implantação do projeto; análise dos impactos ambientais do projeto e de suas alternativas, através de identificação, previsão da magnitude e interpretação da importância dos prováveis impactos relevantes; definição das medidas mitigadoras dos impactos negativos e elaboração do programa de acompanhamento e monitoramento (DEBONI, 2009).
Como se vê, o estudo de impacto ambiental se reveste de importância enquanto instrumento preventivo de danos ao meio ambiente, ao permitir uma melhor avaliação das consequências do resultado da atividade humana sobre o meio ambiente e servir de eficaz instrumento de planejamento e subsídio à tomada de decisões políticas na implantação das obras e atividades utilizadoras de recursos ambientais.
Porém, quando uma praia enfrenta severos processos erosivos, sendo decretado estado de calamidade pública, é necessária uma solução imediata, muitas vezes recorrendo a obras de defesa costeira de caráter emergencial. Visto que estudos de impacto ambiental, pela sua complexidade, necessitam de tempo para sua realização, às obras emergenciais de defesa costeira antecipam-se aos EIA/RIMA, já que são medidas de extrema urgência. As obras emergenciais possuem a função de proteger a costa de forma imediata e provisória, enquanto estudos mais detalhados (EIA/RIMA), que apontem uma obra definitiva sejam concluídos (VIEIRA, 2012).
Porém, o que se observa é que após a implantação dessas obras emergenciais, não ocorre o processo indicativo da intervenção mais adequada para a área, tornando as obras emergenciais a única defesa costeira implantada no local. O fato de que obras costeiras possuem orçamentos muito elevados, também acabam por contribuir com a incerteza que outras intervenções virão a ser implantadas na praia, já que vários municípios não dispõem do orçamento exigido para proteção definitiva (Souza, 2009).
O sucesso de obras costeiras é um fator que depende de uma série de condicionantes por tratar-se de um ambiente dinâmico. Portanto, quando se trata de obras emergenciais, ou seja, sem análise prévia de impacto ambiental, a insegurança desse sucesso é ainda maior.