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Para serem considerados válidos e, conseqüentemente, produzam seus os efeitos jurídicos, nos contratos eletrônicos devem estar presentes os elementos estruturais e funcionais, assim definidos pela doutrina, e também condições previstas no artigo 104 do Código Civil Brasileiro: partes capazes, objeto lícito e forma prescrita ou não defesa em lei.

Os elementos estruturais e funcionais podem ser facilmente verificados nos contratos celebrados eletronicamente. De fato, a formação eletrônica do negócio jurídico jamais ocorreria sem a convergência de duas ou mais vontades e a composição de interesses contrapostos, a fim de constituir, modificar ou extinguir relações jurídicas de natureza patrimonial.

Quanto às condições, ou requisitos supramencionados, convém relembrar a classificação feita pela doutrina, que as distingue em subjetivas, objetivas e formais.

Os requisitos subjetivos se referem à capacidade e legitimação das partes contratantes. Também nos contratos eletrônicos, é mister a existência de duas ou mais pessoas, uma vez que os contratos são bilaterais ou plurilaterais. Obrigatoriamente, as partes devem manifestar, de forma livre e consciente, seu consentimento em efetivar a contratação e, tal quais os contratos tradicionais, há necessidade de possuírem capacidade genérica para os atos da vida civil e aptidão específica para contratar.

Sem dúvida, a capacidade e a legitimação das partes são, das condições de validade dos contratos eletrônicos, as que mais preocupam os juristas, isto porque, no meio eletrônico, a verificação desses requisitos se torna mais difícil pelo fato de as declarações de vontade serem manifestadas sem que as partes estejam uma perante a outra.

No tocante a teoria geral dos contratos, importante é a lição de Orlando Gomes17, que considera os elementos constitutivos dos contratos como

17 GOMES, Orlando. Contratos. Rio Janeiro: Forense, 1990. p.45-46. Para ele, requer o contrato,

para valer, a conjunção de elementos extrínsecos e intrínsecos. A doutrina moderna distingue-os sob os nomes, respectivamente, de pressupostos e requisitos.

Pressupostos são as condições sob as quais se desenvolve e pode desenvolver-se o contrato (FERRARA). Agrupam-se em três categorias, conforme digam respeito: 1º) aos sujeitos; 2º) ao objeto; 3º) à situação dos sujeitos em relação ao objeto. Todo contrato pressupões: a) capacidade das partes; b) idoneidade do objeto; c) legitimação para realizá-lo.

Esses pressupostos devem estar presentes no momento em que o contrato se realiza ou alcança vigor. (BETTI). São, portanto, extrínsecos, embora se integrem posteriormente na relação contratual. Mas, não bastam. A lei exige outras condições para o contrato cumprir sua função econômico-social típica. São requisitos complementares, considerados elementos intrínsecos indispensáveis à validade de qualquer contrato: a) o consentimento; b) a causa; c) o objeto; d) a forma. Porque pressupostos e requisitos se complementam, confundem-se, apesar de serem diverso. Por simplificação, diz-se que são requisitos essenciais à validade do negócio jurídico: a capacidade do agente, a possibilidade do objeto e a forma, esta quando prescrita em lei. Sendo o

verdadeira “força propulsora”, posto que eles permitem aos interessados a condução da intenção de contratar, de modo a permitir ao outro interessado, de interesse contraposto, o conhecimento e a respectiva condução, visando à coincidência entre elas como o nascedouro do contrato. Tratam-se das declarações receptícias de vontade (oferta e aceitação) e ainda da coincidência entre ambas (o consenso).

Presentes os requisitos iniciais, o contrato eletrônico será eficaz parcialmente, já que, faz-se necessário observar ainda, a autenticidade da manifestação de vontade expressada pelos contratantes, no qual deverá apresentar a capacidade e a legitimidade de quem está contratando. Há que se verificar se as partes envolvidas tratam-se delas mesmas, já que tal confirmação se torna difícil, tendo em vista que nesta modalidade contratual os pactuantes não estão presentes fisicamente, sendo que sem a confirmação deste requisito a manifestação da vontade das partes não apresentará validade.

Dentre as maneiras de verificação encontradas pela tecnologia atual, a assinatura eletrônica vem sendo bastante utilizada nos contratos realizados através dos computadores. Esse método de confirmação das partes é realizado através de uma entidade certificadora privada ou estatal que confirma os dados do aceitante e do proponente, afastando desta forma a dúvida quanto às pessoas e ao objeto de pactuação.

A comissão das Nações Unidas para o Direito Comercial Internacional, conhecida pela sigla UNCITRAL, United Nations Commission on International

contrato negócio jurídico bilateral, a vontade dos que o realizam requer exame à parte, por ser particularização que precisa ser acentuada. Assim, o acordo das partes adquire importância especial entre os elementos essenciais dos negócios jurídicos bilaterais. É de resto, sua força propulsora.

Trade Law, considerando a necessidade de um modelo de lei aceitável aos

diversos países, a fim de facilitar o uso de meios eletrônicos de comunicação, contribuindo para o estabelecimento de relações comerciais neste meio, aprovou em 1996, sua Lei Modelo sobre Comércio Eletrônico. A referida lei modelo tem por finalidade oferecer um conjunto de regras internacionalmente aceitáveis, que permitam eliminar obstáculos calcados na incerteza da validade jurídica das comunicações por meios eletrônicos em âmbito de Direito interno.

Ainda no tocante às partes, Newton de Lucca18 chama a atenção para a questão dos agentes intervenientes, que atuam na rede de computadores. Estes, por sua vez, não podem ser considerados parte na celebração eletrônica de um negócio jurídico.

Um exemplo bastante conhecido destes agentes são as provedoras de acesso à internet, empresas responsáveis, em princípio, por organizar e manter o meio físico (cabos, equipamentos etc.) e o logístico (software de comunicação), viabilizando, assim, a comunicação entre o computador do usuário e a Internet. Maurício Matte19 considera a empresa provedora de acesso à Internet uma simples "atravessadora" de informações, que nem sequer tem conhecimento do conteúdo dos textos transmitidos eletronicamente pela rede.

Os requisitos objetivos de validade dos contratos referem-se à idoneidade, licitude e possibilidade jurídica do objeto contratado, devendo este ser certo ou determinável e versar sobre um interesse economicamente apreciável. Mais uma vez, comprova-se que não há óbice para a aceitação dos contratos

18 LUCCA, Newton de; SIMÃO FILHO, Adalberto (Coord.) Direito & internet - aspectos jurídicos

relevantes. São Paulo: EDIPRO, 2000.

eletrônicos, posto que o objeto destes são, comumente, os mesmos dos contratos tradicionais, diferindo apenas no que diz respeito à forma ou meio de entrega.

Por fim, os requisitos formais dizem respeito à forma pela qual o contrato deverá ser expresso. Torna-se claro diante do exposto, que, não fosse a forma peculiar característica dos meios magnéticos, nada haveria de novo nos contratos eletrônicos. Estes inovam justamente no sentido de proporem uma nova forma de contratação, distinta da clássica forma escrita.

A regra geral, como é cediça, é a liberdade de forma para a maioria das contratações. A lei, entretanto, exige que alguns tipos de contrato, como por exemplo, a compra e venda de um bem imóvel, revista-se de uma forma especial, expressamente prevista no dispositivo legal, a exigência da escritura pública.

Cumpre ressaltar que, inexistindo lei que determine uma forma preestabelecida para um determinado contrato, este deverá ser considerado válido se efetivado sob qualquer forma não contrária ao ordenamento jurídico. Tanto é verdade, que doutrina e jurisprudência são pacíficas em aceitar, nos casos em que a lei não exige forma solene, até mesmo a contratação feita oralmente, sem qualquer papel ou escrito que a represente ou prove.

Acerca da validade dos contratos, faz-se oportuno apresentar a posição do Ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Ruy Rosado de Aguiar, no qual afirmou em nota publicada no Jornal do Commercio de 27/09/2000, que a maioria dos contratos firmados via internet não podem ter valor jurídico. A simples impressão do comprovante do negócio pelo consumidor não vale como prova, apenas como indício. Só com o uso da criptografia é possível, segundo ele, controlar a autenticidade e a veracidade de informações contidas nas cláusulas

do documento eletrônico. Do contrário, sempre haverá a possibilidade de desfazer o negócio por falta de prova.

Sobre este tema, Almeida20 comenta o momento em que o pronunciamento do Ministro foi divulgado, e seu efeito no mundo jurídico:

Na última semana, dois fatos atraíram a atenção da opinião pública com relação a contratos eletrônicos e assinatura digital. O primeiro foi a entrada em vigor da lei norte-americana sobre assinatura digital. O segundo foi o pronunciamento de um ministro do STJ afirmando que contratos on-line são inválidos como prova se não forem criptografados. O que ambos têm em que afasta um do outro?

O denominador comum é de que tratam de documentos eletrônicos como meios de prova de contratos realizados via Intemet. Ou seja, a pergunta recorrente: "contrato eletrônico, pode"? Em última análise, aqui falamos da çonfluência entre a segurança de dados e o Direito.

O divisor de águas é que o ministro do STJ não menciona, ou não admite, outras alternativas de prova de contratos eletrônicos que não a criptografia. Com isso, descarta a validade da prova de contratos eletrônicos não criptografados - que ainda constituem a larga maioria do mercado.

Com base nos textos legais pátrios, verifica-se que não existe qualquer vedação legal à celebração de um contrato pela via eletrônica. Destarte, não exigindo o objeto da celebração contratual forma prescrita em lei, os contratos em tela haverão de ser considerados perfeitamente admissíveis, válidos, eficazes e aptos à produção dos efeitos jurídicos visados pelas partes contratantes.

Benzer Belgeler