A montagem do Coral da FACED estava diretamente relacionada ao trabalho que a professora Izaíra Silvino vinha realizando na disciplina de Arte e Educação junto à Faculdade de Educação da UFC, buscando integrar o conhecimento estético ao pedagógico.
O Coral da Faculdade de Educação pra mim era assim, a menina dos olhos do meu trabalho na Faculdade de Educação, porque na disciplina Arte e Educação a gente trabalhava toda essa relação... existe uma ânsia estética das pessoas, todas as pessoas do mundo tem uma ânsia estética. [...] O que é beleza? Como é que se faz beleza na Educação? Como é que a Arte pode trabalhar na Educação? [...] Música eu só podia trabalhar dentro do coro, e eu era música, eu era da música. Eu tinha deixado o Coral da UFC porque tinha sofrido um acidente nas pernas e não podia mais reger o Coral. Eu regia era dançando, eu não sabia mais nem como reger, então eu fui ser musicista de novo no Coral da Faculdade de Educação. E foi importantíssimo o Coral da Faculdade de Educação porque lá a maioria dos alunos eram da Faculdade de Educação, e outras pessoas que gostavam de ser regidos por mim, que estavam fora foram pro Coral da Faculdade de Educação. E nós cantávamos nas escolas de estágio dos alunos da Faculdade de Educação. Eu me lembro que a gente aprendeu a cantar até sentado porque a gente se apresentava pra um bando de meninozinho bem pequenininho e a gente bem grandão, aí a gente se sentava pra cantar pra poder ficar na mesma altura dos meninos, e conversava com eles depois.
A professora Izaíra havia projetado que era necessário inserir o saber estético na FACED “como construção da sensibilidade humana”, já que “nós temos ânsia estética porque
nós somos sensíveis”. Para a professora, essa sensibilidade precisaria ser educada também no sentido de saber o que fazer com ela. “Então a sensibilidade ela precisa ser construída, e o saber artístico é o saber que forma a sensibilidade da gente, que educa a gente pra entender essa ânsia de beleza”. Assumindo tais atitudes na Faculdade de Educação, a professora agia no sentido de despertar os discentes e docentes para o potencial e o caráter formativo humano do saber da Arte.
Essa integração do saber da Arte no cotidiano acadêmico é de fundamental importância para a superação de paradigmas como o da tradição cartesiana, a qual, de acordo com Yus (2002), separou as dimensões humanas mente-emoção, corpo-espírito, e também as hierarquizou favorecendo algumas (mente, corpo) em detrimento de outras por considerá-las primitivas (emoção, sentimento), ou por serem imaginárias ou irracionais (espírito). Em contraposição ao paradigma cartesiano, Matos (2009, p.4) argumenta, baseada em reflexão de Moreno (1998):
É possível juntar “mente e corpo”, valorizando o Ser por completo. “Integrar o que amamos com o que pensamos é trabalhar, de uma só vez, razão e sentimentos; supõe elevar estes últimos à categoria de objetos de conhecimento, dando-lhes existência cognitiva, ampliando assim seu campo de ação”.
Na regência do coro, Izaíra promoveu apresentações nas escolas públicas elaborando um repertório de músicas infantis, manifestando assim o canto como um discurso educativo:
a gente buscava música que pudesse ser cantata pras crianças, mas que tivesse a complexidade de ampliar esses horizontes, que eles olhassem assim. A gente cantava muito nas escolas, mas a gente fez apresentações muito importantes assim, em encontros de estudantes, onde a gente trabalhava, o coral cantava, o discurso do canto era o discurso educativo. E era tão incrível o que fazia na mente que as pessoas queriam perguntar as coisas pra gente depois, então o coral nunca se apresentava sem ter um bocado de gente perguntando coisa pra gente depois. Não acontecia isso nos espetáculos do Coral da UFC, talvez as pessoas queriam poder perguntar, mas bateu palma e foi embora. [...] Era interessante essa qualidade de conversar com as pessoas, de fazer com que as pessoas pensassem na música como educação. [...] o coral ele tinha a função de ser de educação, música e educação. A maestrina ainda realizou com o grupo o espetáculo “Redescobrindo a América”, no qual Izaíra traz a reflexão histórica de que “nós não fomos uma descoberta, nós fomos invadidos, mas nós podíamos nos descobrir agora”. Segundo Matos (2008, p.161), a elaboração e apresentação de tal espetáculo daria continuidade ao processo de formação de novos regentes, sendo uma espécie de continuação e radicalização da proposta de multiplicação de corais que foi iniciada quando a regente esteve à frente do Coral da UFC:
Na redescoberta da América, Izaíra radicalizou a proposta de multiplicação de corais, pois sendo aquele um coral de uma Faculdade de Educação, integrado em sua maioria por alunos do curso de pedagogia, fez a maestrina como que alguns dos coralistas regessem juntamente com ela as récitas do espetáculo que fora concebido
para ser apresentado nas escolas públicas da cidade. [...] Dentre os alunos estava Erwin Schrader que, em pleno século XXI, assumiria a regência do Coral da UFC e levaria adiante a proposta da “comédia-musical-coral-dinâmica” com os espetáculos. Nesse sentido, o Coral da FACED também teria funcionado como uma escola de formação de regentes de coro. Além de Erwin Schrader, outros integrantes do grupo passaram a praticar a regência coral não só em escolas de Fortaleza, mas também em cidades do interior cearense.
Outra experiência boa é que os coralistas regiam, porque eles estavam pra aprender o que era música no processo de educação e como é que regia coro, eles estavam ali pra aprender a fazer coral nas escolas. Então muitos regiam, o Gerardo Júnior fez parte, ele regia muito o coral, a ponto de ele ter sido até o meu regente assistente. Mas teve outras pessoas que regem coral hoje nas escolas que regiam ali. Esse projeto foi super importante pra Icapuí porque muitos professores também aprenderam a reger lá, eu me lembro que tem uma professora que ainda hoje é regente. Eu encontrei com uma outra professora regendo coral de Itapipoca, que disse que aprendeu a reger com o Coral da Faculdade de Educação lá em Icapuí. Então é muito interessante essa proposta do coral, o Coral da Faculdade de Educação foi criado pra que os alunos aprendessem que música é educação e que coral é muito importante pra fazer esse processo e que qualquer pedagogo querendo se apossar dos conhecimentos musicais pode reger o coro, sem necessariamente passar pela escola. Depois ele passa pela escola, porque ele vai necessariamente ter vontade de aprender mais Música pra fazer coro.
A instituição e estruturação da área de Arte-Educação realizada pela maestrina Izaíra Silvino na Faculdade de Educação foi a maneira que a mesma encontrou para suprir a necessidade da atividade artística na UFC ser saber acadêmico e também extensão de algo concreto. Nesse contexto, pode-se dizer que o Coral da FACED era realmente uma atividade de extensão originada de uma unidade acadêmica.