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3. ARAŞTIRMA BULGULARI

3.3. Toprak

Optamos pela pesquisa qualitativa e quantitativa por entendermos que essas abordagens, associadas, possibilitam o uso de procedimentos que permitem o registro tão rigoroso quanto o possível do modo como as pessoas interpretam os significados do objeto de estudo.

No que se refere às bases históricas do desenvolvimento desses modelos, há diferentes pontos de vista que levam à indecisão quanto ao uso dessas técnicas, cujas especulações vão desde a visão de complementaridade até a de incompatibilidade desses dois paradigmas24. Nessa discussão, afirma Gamboa (2002, p. 84):

[...] Apesar das diversas reações que pretendem desqualificar o debate, por ser considerado um falso conflito (Luana, 1991), ou uma guerra de paradigmas própria da década de 80 (Gage, 1989), ou facilmente superável por meio do „diálogo entre os paradigmas‟ (Guba, 1990), e dos esforços pela despolarização quantidade- qualidade, a controvérsia sobre os chamados paradigmas da pesquisa intensifica-se mais ainda quando a discussão avança no campo da epistemologia e se identifica com o atual debate entre as abordagens teórico-metodológicas que disputam o espaço da pesquisa nas ciências sociais.

Para preservar o rigor e o significado do processo científico, é preciso a reflexão sobre as alternativas da pesquisa que, devem visar, não somente a escolha de técnicas ou métodos, mas os enfoques epistemológicos25 que, como um todo maior, articulam outros elementos constitutivos por meio de uma lógica interna da pesquisa (GAMBOA, 2002, p.89).

Nesse sentido, a articulação dos elementos depende do enfoque epistemológico, pois em cada modelo, as técnicas são usadas de formas diferentes, com intensidade e peso diferenciados. Segundo Gamboa (2002), depende de cada enfoque paradigmático, a escolha por instrumentos de coleta, tratamento e organização dos dados e de informações.

Os chamados positivistas26 (empírico-analíticos), por exemplo, priorizam as técnicas quantitativas e os instrumentos “objetivos” e rejeitam outras formas de coleta e tratamento de dados por entenderem que poderiam comprometer a objetividade do processo. Já os enfoques etnográficos27 ou fenomenológicos defendem a descrição, a recuperação de

24 O conceito de paradigma, apesar da ambigüidade do termo, tem sido usado para caracterizar o estado da

investigação e duas tendências conflitantes em pesquisa, como a modelada nas ciências naturais e baseada em observações empíricas e a que considera uma lógica própria para o estudo dos fenômenos humanos e sociais, procurando as significações dos fatos no contexto concreto em que ocorrem (CHIZZOTTI, 2010, p. 12).

25 “[...] Aqueles que se referem aos critérios de „cientificidade‟, como concepções de ciência, dos requisitos da

prova da validez, da causalidade, etc.” (GAMBOA, 2002, p.71).

26 Sobre o desenvolvimento do positivismo, ler Lima (2001, p.33).

27 A pesquisa etnográfica substitui estudos que utilizam a observação participante. Visa menos à compreensão

74 sentido, baseada nas manifestações do fenômeno e na recuperação dos contextos de interpretação, limitando a importância dos dados quantitativos.

Assim, a investigação científica com base no positivismo baseia-se na objetividade do mundo dos fatos, apostando na quantificação, na mensurabilidade, e nos modelos matemáticos, enquanto as investigações fenomenológicas preferem captar o significado dos acontecimentos e desvelar o sentido oculto das impressões imediatas (LIMA, 2001).

A abordagem acerca da técnica dualista (qualitativa-quantitativa) apresenta dois pontos de vista: a dos que defendem a existência de um único método científico que se afirma na concepção de um único conhecimento válido, o científico e, a dos que aceitam a dualidade de métodos científicos, um utilizado para as ciências exatas e naturais e outro válido para as ciências humanas e sociais (GAMBOA, 2002).

Os aspectos confrontados nas discussões apresentam, de acordo com Gamboa (2002, p.98-100), as seguintes posturas: 1) a crítica no sentido de que as metodologias implicam em concepções de ciência e de conhecimento totalmente diferentes e, existe o conflito nas técnicas, nos procedimentos e na lógica de visão de mundo; 2) Admite-se trabalhar com as duas formas, como uma maneira de complementar e ampliar informações com base em pontos de vista diferentes. Aceita a especificidade dos enfoques, a diferença de procedimentos de análise e interpretação de dados e a possibilidade de conclusões semelhantes e complementares. 3) Admite-se a existência de diversos enfoques que num contínuo polarizam diversos aspectos do processo de produção do conhecimento. Tais polarizações se apresentam entre as categorias da objetividade e da subjetividade, entre quantidade e qualidade e a articulação desses elementos depende da construção lógica que o pesquisador elabora.

No planejamento de um estudo, a possibilidade do diálogo entre os paradigmas pode ocorrer de diversas maneiras: a) integrando-se as duas abordagens num único plano; b) utilizando-as em diferentes fases do processo, “[...] sem concentrar-se necessariamente na redução de uma delas a uma categoria inferior ou em definir a outra como sendo a verdadeira abordagem da pesquisa [...]” (FLICK, 2009, p. 43); c) Na combinação entre os métodos qualitativos e quantitativos.

Neste trabalho de pesquisa, a argumentação na defesa da combinação entre os métodos qualitativos e quantitativos leva em consideração que “[...] as diferentes perspectivas processos sociais de produção desses eventos a partir de uma perspectiva interna ao processo, por meio da participação durante seu desenvolvimento (FLICK, 2009, p.31).

75 metodológicas complementam-se para a análise de um tema, sendo este processo compreendido como a compensação complementar das deficiências e dos pontos obscuros de cada método isolado (FLICK, 2009, p. 43).

Flick (2009) esclarece que os diversos métodos permanecem autônomos, seguem próximos, tendo como ponto de convergência o tema em estudo. Podem ou não ser utilizados simultaneamente, ou empregados um após outro, sendo esse um aspecto menos relevante. E salienta, ainda, que nenhum dos métodos é tomado como sendo superior ou preliminar.

A tese da unidade dos paradigmas contrapõe os que rejeitam essa unicidade em razão do nível dos dados e do nível de inferência. Gamboa (2002, p. 51) explica que:

[...] os dados qualitativos, não sendo a priori altamente falíveis, consistem no fundamento geral da medida qualitativa. Assim, os dados quantitativos „pressupõem‟ os qualitativos. À primeira vista, os dados quantitativos parecem ser uniformemente superiores e apresentar baixa falibilidade; em algumas situações podem apresentar menor falibilidade que os dados qualitativos. É possível também que os dados quantitativos superem os qualitativos, permitindo discriminações mais refinadas e sumários econômicos de dados que facilitem a análise, sendo em certos casos mais eficientes. De outra forma, no nível de inferência, qualquer esquema conceitual, teoria, ou hipótese pressupõem crenças qualitativas substantivas que exerçam um papel essencial na fase das interferências ou conclusões científicas.

A partir dessas considerações, fica claro que, os métodos quantitativo e qualitativo não são incompatíveis, mas estão intimamente imbricados, podendo ser usados pelos pesquisadores, sem que se corra o risco de cair na contradição epistemológica.

De forma particular, nas investigações qualitativas, a pesquisa educacional configura-se como

[...] a possibilidade de o investigador conhecer sua realidade através de um estudo aprofundado, rigoroso e crítico dentro do contexto compreensivo do objeto, onde a construção dos resultados se efetua segundo a expressão dos valores, das relações intersubjetivas entre o pesquisador, seu objeto de estudo e o contexto que o circundam [...] (LIMA, 2001, p.234).

Desse modo, as características basilares da pesquisa são a descrição, “[...] a compreensão reflexiva da realidade contextual e a indagação constante com/sobre e pertinente ao objeto e sua realidade (Lima, 2001, p. 234). Nesse sentido, busca-se estabelecer estratégias e procedimentos que permitam compreender o ponto de vista dos atores, descrever e explicar uma série de determinantes relacionados ao objeto de pesquisa, coletando informações e tomando em consideração as experiências do ponto de vista do informador.

De acordo com Bogdan & Biklen (1994, p.51), “[...] o processo de condução de investigação qualitativa reflete uma espécie de diálogo entre os investigadores e os respectivos sujeitos, dado esses não serem abordados por aqueles de uma forma neutra.”

76 Justifica-se o recurso à entrevista de tipo qualitativo por tratar-se de instrumento que permite dar conta do ponto de vista dos atores, da compreensão dos dilemas e das questões por eles enfrentados, sobretudo, como privilegiado acesso à experiência desses atores, já que ela visa a descrever as dimensões abordadas.

O questionário semi-estruturado pode contribuir para o aporte de novos conhecimentos, com base nas dimensões nele inclusas, pressupondo-se que temos de antemão as categorias delimitadas nas quais se concentrarão as análises.

A abordagem quantitativa, de acordo com Santos Filho (2002, p. 42) “[...] busca explanar as causas das mudanças nos fatos sociais, principalmente por meio de medida objetiva e análise quantitativa [...]”. Por isso, usa-se a forma de explanação chamada indutivo- estatística, que é de natureza probabilística, com o intuito de encontrar regularidades nas respostas, que podem favorecer na análise comparativa.

Do exposto, a retomada das discussões sobre o dualismo quantidade- qualidade se faz necessária para defendermos, de forma particular, a tese da unidade dos paradigmas como técnica da pesquisa científica relevante no processo de produção de conhecimentos, especialmente, por pretender utilizá-la nesta pesquisa.

2.2. A dimensão procedimental da pesquisa

Benzer Belgeler