Para compreendermos as diversas vozes que compõem o “Catatau” e, conseqüentemente, sua visão ou ponto de vista, faz-se necessário apresentar algumas questões teóricas a respeito do discurso narrativo, especialmente aquelas pertinentes ao romance. Não pretendemos, porém, fazer uma exposição sistemática e comparativa dos diversos autores e suas respectivas teorias. Estas nos parecem já suficientemente apreciadas por outros pesquisadores, tornando-se bem conhecidas suas terminologias básicas. Nossa bibliografia, relacionada ao final deste estudo, contempla alguns desses trabalhos de síntese.
Apenas a título de exemplificação poderíamos citar, em ordem cronológica, os estudos de Henry James sobre o foco narrativo (fins do século XIX, início do XX); os de Percy Lubbock propondo, entre outros pontos, a distinção entre narrar (“telling”) e mostrar (“showing”), já na década de 20; as categorias da “visão” apresentadas por Jean Pouillon, na década de 40; a sistematização histórica do assunto seguida de uma proposta de classificação elaborada por Norman Friedman, em meados da década de 50; a teoria de Wayne C. Booth a respeito dos conceitos de autor implícito (“implied author”) e de narrador infiel (“unreliable narrator”), nos anos 60 e 70; os trabalhos, dessa mesma época, dos estruturalistas, entre eles Rolland Barthes e Tzvetan Todorov, com ênfase nos estudos lingüísticos; e, mais recentemente, as análises de Umberto Eco, com destaque para a idéia do leitor-modelo. Outros importantes autores poderiam ser lembrados, ao lado de várias teorias adjacentes ao tema, como os
aprofundados estudos da Estética da Recepção relativa à natureza e ao papel do leitor na constituição das obras. Porém, nossa intenção foi apenas balizar um percurso das discussões e não esgotá-las.
Apresentaremos, a seguir, alguns dos conceitos sobre os quais já se formou um razoável consenso e que nos parecem produtivos para a análise que nos propomos desenvolver a respeito do “Catatau”.
Sabemos que todo fato lingüístico se articula a partir de duas dimensões fundamentais: o ato de enunciação, realizado numa determinada situação de discurso, segundo um dado mosaico de circunstâncias (espaciais, temporais e psíquicas, por exemplo); e o produto gerado por essa ação, isto é, o enunciado, apresentado como um conjunto de signos articulados. Tais dimensões evidenciam, considerando os textos narrativos em geral, as diversas vozes ou pessoas do discurso: aquele que fala, aquele a quem se fala e aquele de quem se fala.
Algumas particularidades, todavia, se colocam quando do enunciado narrativo literário, na medida em que este ao instaurar um novo mundo, de características ficcionais, amplia as possibilidades de aparecimento e simulação de vozes, limitadas, então, apenas pelo potencial de criatividade do autor. Neste caso, a “distinção entre enunciação e enunciado” faz com que o sujeito que fala se desdobre em pelo menos dois planos: o extralingüístico, “pessoas reais que participam da comunicação literária (o escritor, o público...)”; e o lingüístico, “pessoas fictícias que parecem comunicar no texto (o narrador, o narratário)” (REUTER, 1996, p. 38).
No primeiro plano, o sujeito já está demarcado pela própria situação de enunciação externa ao texto, ou seja, é aquele que produziu o enunciado literário, o autor. No segundo, levando em
conta o universo fictício criado, passa a existir também outro sujeito da enunciação, paralelo àquele, e que assume a apresentação das ações dos personagens que integram esse novo mundo, constituindo-se, então, na figura imprescindível do narrador. A sua existência, entretanto, obriga a existência de, pelo menos, outras duas entidades, a de um autor implícito (BOOTH, 1980), que lhe dá identidade e voz, e a do narratário, a quem ele se dirige, intermediando-o junto ao leitor empírico. Estamos, portanto, diante de uma multiplicidade de vozes que, ao longo da narrativa, se remetem umas às outras, num processo de mútua influência, como em um jogo de espelhos.
Retomando e avançando um pouco mais em nossa investigação a respeito das vozes da narrativa, podemos identificar, em linhas gerais, o seguinte quadro: um sujeito da enunciação que poderíamos chamar de “primeiro”, localizado no mundo sensível, portanto, extraficcional, reconhecido como o autor de carne e osso. Seria possível, ainda, descolarmos deste sujeito uma instância criadora, especificamente vinculada ao conjunto dos textos e livros, “pois uma das singularidades do discurso literário é precisamente tornar problemática a própria noção de enunciador, dissociar o indivíduo que escreve das representações do autor que a instituição literária permite definir” (MAINGUENEAU, 1996, p.28). Ele se desdobraria, assim, em um
autor-cidadão, habitante deste nosso mundo sensível e num outro, a quem podemos chamar
de autor-criador, “vivendo” no simbólico universo literário. Aquele tem seus dias contados pelo relógio, este pode chegar a se tornar imortal. Aquele, passado o tempo de sua existência vital, se desfaz em pó; este se apresenta pleno, influenciando e sendo influenciado, num diálogo vivo e permanente com a história.
Situados internamente no texto, teríamos um sujeito da enunciação “segundo”, denominado
espécie de ficcionalização do autor-criador ou seu “alter-ego” (BOOTH, 1980), que estabelece e fundamenta o narrador, chamado de autor implícito. De acordo com Ducrot & Todorov (2001, p. 294),
tão logo o narrador é representado no texto, devemos postular a existência de um AUTOR IMPLÍCITO ao texto, aquele que escreve e que não se deve em caso algum confundir com a pessoa do autor, em carne e osso: apenas o primeiro está presente no próprio livro. O autor implícito é aquele que organiza o texto, que é responsável pela presença ou pela ausência de determinada parte da história, aquele cuja instância a crítica psicológica esmaga ao identificá-lo com o “homem”.
Mais à frente, quando da abordagem das vozes narrativas do “Catatau”, discorreremos com mais detalhes a respeito deste último, tendo em vista sua particular natureza e complexa diversidade funcional. Ainda no campo textual, localizaríamos a contraparte do narrador, denominada narratário, destino de suas intervenções.
Finalmente, em correspondência ao sujeito da enunciação “primeiro”, teríamos a presença do
leitor. Assim como aquele, poderíamos desdobrá-lo num leitor-criador (em simetria ao autor-
criador), responsável pela recepção do texto, portanto, também participante do mundo simbólico das letras, (ins)(es)crito nos diversos trabalhos de interpretação (temática, estilística, sociológica, psicológica, estrutural...) como resumos, resenhas, críticas de jornais e revistas, artigos, ensaios, dissertações, traduções, paródias, pastiches, entre outros sistemas de significação; e num leitor-cidadão, de carne e osso, habitando o semelhante espaço vital do autor-cidadão, sujeito a humores e fantasias personalistas, e, como ele, também fadado ao desaparecimento.
A primeira e última pessoa, seres vivos, cidadãos, contrariamente ao que comumente se pensa, não nos ajudam muito na análise específica do texto literário, embora participem
socialmente na composição não só do seu contexto, como na sua institucionalização como arte. Estão por demais entranhadas em suas identidades carnais. A imprevisibilidade da dimensão humana, o absurdo de sua existência, a descontinuidade de sua percepção, a fluidez de seu modo de ser, a variedade de sua conduta, dificultam a elaboração de uma unidade de análise, reclamadas no universo literário. Neste, esses traços, fortemente presentes nos personagens do mundo fictício e, no caso especial do romance moderno, levados ao extremo limite, às raias do paroxismo, se articulam concretamente nos arranjos dos signos, numa determinada lógica de composição, passível, portanto, de localização, organização, exame, caracterização e avaliação. Leminski reconhecia essa situação ambígua em que a atividade simbólica e seus respectivos produtos – interrupções do devir, manifestações cristalizadas da existência, expressões finitas do ser – “vivem”, perduram historicamente, de modo independente ao desaparecimento de seu autor. Dizia:
Existe um paradoxo nos produtos culturais, superiores frutos do trabalho humano: eles sobrevivem ao autor, são uma vingança da vida contra a morte. Por outro lado, só podem fazer isso porque são morte: suspensão do fluxo do tempo, pompas fúnebres, pirâmide do Egito. (2004, p. 392)
Os olhares mais interessados dos estudiosos da literatura estão dirigidos às demais pessoas. As questões referentes ao ponto de vista da narrativa (versão dos fatos), à distância (relativa aos fatos) e à consciência (aspectos moral, intelectual, enfim, existenciais), estão relacionadas ao narrador. O autor-implícito esclarece, entre outros, a ideologia e a poética que informam a obra; o narratário aponta presumíveis balizas para sua compreensão. Autor-criador e leitor- criador estabelecem o universo no qual se dá o processo de construção dos sentidos.
A seguir, mostraremos como algumas dessas instâncias ou vozes se articulam no discurso do “Catatau”.