De acordo com Maria Campos (2011) a diversidade das vozes sociais e os inter- relacionamentos que se depreendem de suas interações contextuais constituem-se nos elementos importantes para a compreensão de um romance. Bakhtin, citado por Campos (2011), deixa claro que o romance é fenômeno multiforme, sendo a sua linguagem a
62 É, exatamente, na concepção humana e moral de seus personagens que Hawthorne conserva a fidelidade
codificação ordenada de suas vozes63. Assim, o romance é basicamente polifônico, podendo ser definido como uma diversidade de falas sociais e uma diversidade de vozes individuais, artisticamente organizadas.
Em Salem, uma dessas vozes pode ser ouvida diretamente de seus moradores. A personagens em A Letra Escarlate encontram-se em meio ao mundo regido por ensinamentos puritanos, mas ainda que elas tendam a se separar deles, elas parecem não ter o direito de importunar seu equilíbrio. A fronteira criada pelos valores que cercam os seus contornos existe em benefício da estabilidade do sistema puritano. Essas fronteiras cercam um mundo aparentemente perfeito e acabado, embora poderes ameaçadores e incompreensíveis se façam sentir além do círculo que os separam. Isso porque, segundo Candido,
Um dos maiores esforços das sociedades, através de sua organização e das ideologias que a justificam, é estabelecer a existência objetiva e o valor real de pares antitéticos, entre os quais é preciso escolher, e que significam lícito ou ilícito, verdadeiro ou falso, moral ou imoral, justo ou injusto, esquerda ou direita política e assim por diante (1993, p.47).
A liberdade em Salem é cerceada por todos os lados na comunidade retratada por Hawthorne. A coerção rege a comunidade em detrimento da consciência natural, a que se devem valer todos os que nela vivem. Em Salem a totalidade é falsamente homogênea em conteúdo, embora sua forma não o seja. ―Quanto mais rígida a sociedade, mais definido cada termo e mais apertada cada opção. Por isso mesmo desenvolvem-se acomodações do tipo casuístico, que fazem da hipocrisia um pilar da civilização‖ (CANDIDO, 1993, p.48).
É somente através de uma conscientização a respeito dessa verdade – ou do próprio impulso animal do homem que o impele a não reprimir os seus desejos e vontades –, que o instituído pode ser ameaçado, trazendo à tona tudo quanto dormita do seu interior, tornando aquela sociedade menos falsa. É nesse espaço histórico-social que Hawthorne nos desafia a compreender o modo de operação e funcionamento daquela comunidade, suas forças do alto e de baixo, refletidas nos valores e nos princípios que estão, ali, cristalizados.
Os motivos que levaram Nathaniel Hawthorne a escrever A Letra Escarlate parecem muitos. Há quem diga que ele estaria pagando uma dívida de seus antepassados puritanos, uma vez que participaram ativamente do famoso episódio da caça às feiticeiras no final do século XVII. Para R. P. Blackmur, da Princeton University, quando escreveu um posfácio
63―Os elementos constitutivos que compõe o texto polifônico e dialógico apresentam-se de maneira determinada,
clara e específica. Destacam-se, fundamentalmente, entre esses elementos, o fechamento da obra, as personagens, os narradores, os leitores, os contextos sociais em que se situam, e a caracterização de consciências independentes que povoam o universo ficcional‖ (CAMPOS, 2011, p.93).
para uma coletânia sobre Nathaniel Hawthorne, quando lemos um texto de Hawthorne, de fato estamos dando vida a alguns de seus ancestrais, trazendo-os não como fantasmas ou criatura assombrosas, mas como agentes ativos de nossa percepção das coisas e do modo como lidamos com o mundo. Também há quem diga que ele escreveu o romance num momento de sua vida em que estava por demais ocioso e, não tendo algo de mais importante para fazer, decidiu escrever sobre um fato que havia acontecido em Salem, há alguns anos atrás. Porém, de uma forma ou de outra, o romance de Hawthorne expõe dados de uma civilização que se construiu dentro de princípios e valores que são, pelo menos, passíveis de questionamentos.
Como já sabemos, trata-se de uma história que nada tem de extraordinário: é a história de um adultério. Mas, o que impressiona é o sentido que ele encerra: os dramas de consciência e a luta íntima das personagens que vivem entre os limites do bem e do mal, temas que perseguiram Hawthorne por toda a sua vida, os quais podemos encontrar em todos os seus escritos.
A teoria puritana em evidência na Salem da Nova Inglaterra assemelhava-se a teoria congregacionalista, que também almejava um governo da igreja, baseando-se em ideias de acordo com os seus pactos. Segundo a visão puritana, a igreja era um grupo de eleitos visíveis que haviam feito um acordo ou pacto sagrado com Deus e entre si para obedecer a vontade divina e criar uma igreja para pregar sua palavra. Os seus membros escolhiam seus ministros e representantes, pessoas que fossem bem qualificadas em caráter e educação para interpretar e aplicar a vontade divina na comunidade.
Nesse contexto as mulheres não eram elegíveis e não podiam participar do clero. A teoria puritana, com base na congregação, traz alguns elementos de democracia, no sentido de que todos os membros participavam do pacto sagrado, da escolha do pastor e da admissão de novos membros. Após eleitos pela comunidade, o ministro, pastor, por exemplo, devia ter sua autoridade respeitada devido às qualificações especiais que tinha para interpretar a vontade de Deus. Mas, também havia, nesse sentido, pelo menos um elemento da monarquia, pois que a vontade de Deus era soberana e, de certo modo, inquestionável. A comunidade puritana tomou sua forma baseando-se na carta régia da fundação de Massachusetts Bay Company64.
Já no primeiro capítulo, seguinte à introdução ―O edifício da Alfândega‖, embora com apenas três parágrafos, nos coloca o conflito que se desenrolará para o resto da história. Segundo o narrador de Hawthorne, o pecado e os rigores da lei parecem ser tão velhos quanto
64Os cidadãos de uma companhia reuniam-se anualmente sob a forma de ‗Corte Geral e Soberana‘, a fim de
deliberar sobre políticas e eleger seus servidores executivos, um governador e uma junta de assistentes, ou magistrados (McMICHAEL, 1966).
ao próprio tempo e tão poderosos quanto à porta que é feita de pesadas tábuas de carvalho, guarnecida de pontas de ferro e marcada pelas manchas e sinais do tempo.
A ferrugem das enormes pontas de ferro do portão de carvalho davam a impressão de serem mais antigas que qualquer outra coisa no novo mundo. Como tudo quanto pertence ao crime, a prisão parece nunca ter conhecido a quadra da juventude. (HAWTHORNE, 1993, p. 51)
[The rust on the ponderous iron-work of its oaken door looked more antique than anything else in the New World. Like all that pertains to crime, it seemed never to have known a youthful era. (HAWTHORNE, 1999, p.41)].
Os puritanos acreditavam que a sua comunidade sagrada fundamentava-se em um pacto implícito com Deus e entre si, e que os magistrados civis derivavam sua autoridade das qualificações especiais que possuíam para interpretar a vontade de Deus para a sociedade. A roseira que brotara ao lado do portão, coberta de delicados botões, e a citação de Ana Hutchinson65 (1590-1643), logo no inicio do capítulo, não nos deixam dúvidas de que a leitura que nós propomos fazer redundará em questionamentos a respeito do comportamento dos habitantes da região de Salem em relação às ordens sociais ali impostas.
Mas, há um lado do portão, quase rente da soleira, crescia uma roseira brava, coberta, neste mês de junho, de dedicados botões que, dir-se-ia, ofereciam seu aroma e frágil beleza ao prisioneiro, quando entrava, e ao criminoso, quando saía para cumprir a sentença em sinal da profunda compaixão que a Natureza sentia por esses infelizes (HAWTHORNE, 1993, p. 51).
[But on one side of the portal, and rooted almost at the threshold, was a wild rose- bush, covered, in this month of June, with its delicate gems, which might be imagined to offer their fragrance and fragile beauty to the prisoner as he went in, and to the condemned criminal as he came forth to his doom, in token that the deep heart of Nature could pity and be kind to him.. (HAWTHORNE, 1999, p.42)].
O lugar onde se passa toda a narrativa nos remete a Boston, a capital de uma província da Nova Inglaterra, e que, parece-nos, estar acostumada a sentenças condenatórias proferidas pelo tribunal citadino composto especialmente por líderes religiosos puritanos. Trata-se de uma vila em que a ordem deve ser seguida – de acordo com os dogmas do cristianismo que dominam aquele lugar.
65 A senhora Ana Hutchinson foi acusada de antinomianismo – ou de negar a força da lei moral da Bíblia – e
exilada para Connecticut. O reverendo Roger Williams, que se tornou ´pregador‘ – ou ministro de doutrina – da
igreja de Salem em 1631, também foi logo removido para Plymouth, banido da Baía de Massachusetts em 1635, pela mesma razão. In HOWARD, Leon. A Literatura Norte-Americana. São Paulo: Editora Cultrix, 1964. p.19. Segundo High (1986), Ana Hutchinson foi perseguida por desejar um ambiente religioso mais leve e mais livre.
Em qualquer hipótese, os espectadores teriam dado mostra da mesma solenidade de atitude; solenidade que convinha a um povo para o qual religião e lei eram quase idênticas e, em cuja maneira de ser, ambas as coisas se mesclavam tão intimamente, que os atos da pública disciplina, os mais brandos como os mais austeros eram, por igual, objeto de respeito e de temor (HAWTHORNE, 1993, p. 53).
[In either case, there was very much the same solemnity of demeanour on the part of the spectators, as befitted a people among whom religion and law were almost identical, and in whose character both were so thoroughly interfused, that the mildest and severest acts of public discipline were alike made venerable and awful. (HAWTHORNE, 1999, p.43)].
As forças estabelecidas no início do romance recebem um reforço quando da referência àquela mesma comunidade dois séculos atrás: uma penalidade que poderia representar tão somente uma irrisória infâmia ou escândalo poderia revestir-se de uma seriedade digna de pena de morte naquele contexto.
Mas, o narrador de Hawthorne nos apresenta a frieza e a aprovação dos moradores da Salem em relação à falta cometida por Ester – tudo parece já pertencer ao imaginário da maioria dos que fazem parte daquela comunidade. Dos expectadores, os ‗condenados‘ não podiam esperar qualquer sentimento de compaixão. ―Escassa e fria era a compaixão que um transgressor poderia esperar de tais expectadores sobre o patíbulo‖ (HAWTHORNE, 1993, p. 53) [Meagre, indeed, and cold, was the sympathy that a transgressor might look for such bystanders at the scaffold (HAWTHORNE, 1999, p.43-44)]. Para Schwarz,
Cristalizando a experiência sensível à volta de categorias fundamentais da sociedade puritana, Hawthorne atinge uma representação muito rica da percepção. Por serem contraditórias as categorias, as contradições aparecem no cerne mesmo da percepção, tornada ambígua em seu fundamento (1981, p.140).
A comunidade puritana era teocrática no sentido em que a vontade de Deus constituía a lei local. O poder real do clero derivava de sua autoridade como intérprete da vontade de Deus, mas no tocante as questões civis, essa função era, em geral, reconhecidamente exercida pelos magistrados que, quando discordavam entre si, apelavam à poderosa autoridade dos pastores e reverendos. Todos acreditavam ser dever do estado apoiar a igreja – e vice-versa – e cobrar o comparecimento aos cultos, de membros e não-membros, por igual, e tudo mais fazer para que aumentasse as possibilidades de salvação de todos os membros da comunidade. Por isso, a falta cometida por Ester chamava tanto a atenção de todos.
A postura de algumas mulheres evidencia o modo de pensar o ir e o vir de cidadãos que pertenciam àquela sociedade historicamente situada. Valores e princípios que estavam
enraizados no coração de seus moradores se expressavam conforme podemos ver na passagem a seguir:
- senhoras, - principiou uma dama de má catadura, já entrada na casa dos cinquenta, - vou dizer-lhes um pouco do que penso. Seria muito vantajoso para o público, se nós mulheres, de idade madura e membros da igreja, que gozamos de boa reputação, tornássemos à nossa conta o julgamento de uma malfeitora como essa Ester Prynne. Que pensam as comadres? Se a rapariga comparecesse em juízo perante nós cinco, que estamos aqui reunidas, a fé do que sou, teria de ouvir uma sentença bem diferente da que as dignas autoridades promulgaram (HAWTHORNE, 1993, p. 54).
[‗Goodwives,‘ said a hard-featured dame of fifty, ‗I‘ll tell ye a piece of my mind. It
would be greatly for the public behoof if we women, being of mature age and churchmembers in good repute, should have the handling of such malefactresses as this Hester Prynne. What think ye, gossips? If the hussy stood up for judgment before us five, that are now here in a knot together, would she come off with such a sentence as the worshipful magistrates have awarded? (HAWTHORNE, 1999, p.44- 45)].
Ao que parece, de acordo com imaginário da coletividade de Salem, os magistrados eram homens tementes a Deus, mas ―compassivos em demasia, disso não há duvidar, - acrescentou uma terceira matrona outonal -, quando menos, deviam ter marcado a ferro em brasa a testa de Ester Prynne‖ (HAWTHORNE, 1993, p. 55) [At the very least, they should have put the brando f a hot iro non Hester Prynne´s forehead (HAWTHORNE, 1999, p. 45)]. A presença de Ester é literalmente provocativa diante da postura conservadora das mulheres de Salem. Na sua apresentação ela traz em um de seus braços uma criança a quem ela deu à luz ainda na prisão. Além de sua beleza, incomum a um ser humano aprisionado há algum tempo, um adorno fantasticamente tecido enfeita suas vestes. Ela chamava atenção de todos, mais agora pela sua beleza que pelo erro que cometera.
Mas o ponto que atraía todos os olhares e que, por assim dizer operava nela uma transformação, de sorte que todos quantos conheciam na intimidade Ester Prynne experimentava agora a impressão de verem pela primeira vez era aquela grande letra escarlate, tão fantasticamente entretecida e iluminada sobre seu seio (HAWTHORNE, 1993, p.56).
[But the point which drew all eyes, and, as it were, transfigured the wearer—so that both men and women who had been familiarly acquainted with Hester Prynne were now impressed as if they beheld her for the first time—was that SCARLET LETTER, so fantastically embroidered and illuminated upon her bosom. (HAWTHORNE, 1999, p.47)].
A reação defensiva de Ester Prynne, pela frieza com que a condenaram e a austeridade com que todos a olhavam implacavelmente concentrados em seu seio, culmina com uma volta ao passado onde ela encontra motivos para se manter viva. De cima do patíbulo e olhando
para aquela multidão abaixo que não lhe tira os olhos ela parece delirar ao ser tomada por imagens de sua terra natal e de seus pais na Inglaterra onde ela passara seus dias de infância.
De pé, naquele estado de ignomínia, ela reviu a aldeia natal, na velha Inglaterra, e a casa paterna, uma casa desmantelada de pedra cinzenta, respirando pobreza, mas atentando por cima da porta um brasão de armas meio obliterado, em sinal de nobreza antiga. Viu o rosto do pai de fronte alta, despido de cabelo, enquadrado na alvura de uma barba respeitável, assente sobre a gola de tufos, segundo os cânones da moda Elizabethana; viu também o rosto de sua genitora, de olhar atento e amoroso, aquele olhar que nunca se apagará no espírito (HAWTHORNE, 1993, p.60).
[Standing on that miserable eminence, she saw again her native village, in Old England, and her paternal home: a decayed house of grey stone, with a povertystricken aspect, but retaining a half obliterated shield of arms over the portal, in token of antique gentility. She saw her father‘s face, with its bold brow, and reverend white beard that flowed over the old-fashioned Elizabethan ruff; her
mother‘s, too, with the look of heedful and anxious love which it always wore in her
remembrance, and which, even since her death, had so often laid the impediment of
a gentle remonstrance in her daughter‘s pathway. (HAWTHORNE, 1999, p.51)].
Isso lhe acudiu o espírito e a fazia fugir por um momento de toda aquela pressão que sofria. A viagem que ela faz ao passado se traduz em um excelente recurso que Hawthorne – enquanto narrador da história – usa, nos oferecendo as biografias de seus personagens. Pelo que nos é descrito, já sabemos que Ester Prynne nascera na Inglaterra e ali passara seus principais dias de infância e, até mesmo, sua adolescência.
Também em meio aos devaneios de Ester Prynne, o narrador nos apresenta um outro de seus personagens principais trazendo o leitor para o centro da trama de sua história, fazendo-o conhecer os motivos que levaram aquela mulher a estar ali. Dessa vez a descrição é de um homem já de uma certa idade, de rosto pálido e de olhos escuros como de alguém que gastou muitas horas nos livros que aparece no meio da multidão. O reconhecimento de Éster é instantâneo e logo será descoberto que aquele é o seu marido. O narrador descreve o motivo da punição de Ester descrevendo o marido dela.
Caro Senhor, aquela mulher estava casada com um certo homem ilustrado, inglês de nascimento, mas que viveu em Amsterdã durante um tempo. Daí, já lá vai alguns bons pares de anos, cuidou de atravessar o Atlântico e de fixar residência entre nós, em Massachusetts. Com esse intuito, mandou à frente a esposa enquanto ele ficou na Europa a fim de regular uns negócios. Durante dois anos, pouco mais ou menos que esta mulher residia aqui, em Boston, não chegaram notícias de Mestre Prynne, que assim se chamava o erudito cavalheiro; e sua esposa, como vê, ficou entregue a seus extravios (HAWTHORNE, 1993, p.62).
[Yonder woman, Sir, you must know, was the wife of a certain learned man, English by birth, but who had long ago dwelt in Amsterdam, whence some good time agone he was minded to cross over and cast in his lot with us of the Massachusetts. To this
purpose he sent his wife before him, remaining himself to look after some necessary affairs. Marry, good Sir, in some two years, or less, that the woman has been a dweller here in Boston, no tidings have come of this learned gentleman, Master Prynne; and his young wife, look you, being left to her own misguidance—‗ (HAWTHORNE, 1999, p.55)].
Todos em Salem sabem o que está acontecendo e como e porque aquela mulher chegou até ao patíbulo da praça. Mas, nessa mesma cena, outra personagem expectadora, apresentando um comportamento ainda mais desumano, reforça:
esta mulher envergonhou a nós, todas, e devia morrer. Não existe uma lei para isso? Existe sim, tanto nas Escrituras como no código. Depois os magistrados, que passaram por cima dela, agradeçam a si mesmos, si suas mulheres e filhos se desencaminharem! (HAWTHORNE, 1993, p.55).
[‗This woman has brought shame upon us all, and ought to die; Is there not law for
it? Truly there is, both in the Scripture and the statutebook. Then let the magistrates, who have made it of no effect, thank themselves if their own wives and daughters go
astray" ‗ (HAWTHORNE, 1999, p.45)].
Não é difícil concordar com Roberto Schwarz a respeito do que ele comenta em relação à postura das matronas na Salem de Nathaniel Hawthorne:
a formulação é extrema. Parece que em Salem sem a pena capital as mulheres perdem-se todas. A função da lei é claramente repressiva. É da natureza das mulheres em Salem perderem a virtude, não fosse o medo de segurá-las. O padrão é mais ou menos o seguinte: a natureza – a carne – é culpada (SCHWARZ, 1981, p.141).
A posição do narrador vai se delineando e o seu objetivo em nos deixar a par do que se trata o seu texto, revela a habilidade de Hawthorne em lidar com a história e os valores existentes em Salem. O seu romance posiciona-se no centro das questões que tomaram conta das vidas de seus antepassados. Na medida em que lemos somos informados de que Ester, a principal personagem, surge como sujeito que põe toda a cidade em crise, porque ela havia desobedecido a uma das leis em Salem e cometido adultério.