Como já sabemos, em A Letra Escarlate Ester é a vítima que sofre publicamente as punições de Salem uma vez que trazia consigo uma falta visível junto ao seu corpo, não alcançando o perdão diante de tamanho sofrimento de seus concidadãos e dos magistrados. O doutor Chillingworth, consorte a sua postura de vingador, aparece como o médico que apenas quisera realizar os seus intentos e que, de certa forma, gostaria de ter ‗envenenado‘ mais ainda o ministro que, àquela altura já está prestes a perecer. É possível pensar que a covardia e a hipocrisia de Dimmesdale mostra-se banhada por uma espécie de ―masoquismo‖ – o querer sofrer constante – com o qual ele parece ter querido extirpar o pecado da culpa que carregara durante todos os sete anos que durou a sua falta – no momento da cena final, ele abre o peito a fim de que todos possam, ao que parece, lhe impor mais punição e ainda revelar-lhe o mesmo pessimismo com que ele se alimentara durante toda a história. Dimmesdale é incapaz de confortar Ester naquela hora de profundo desconforto. É como se ele quisesse aliviar somente o peso de seu pecado através daquela sua agonia triunfante. Para Ester, talvez, com a morte de Dimmesdale, sobrará mais culpa por ter sido ela recipiente maior do erro, quando verteu sobre o ministro todo aquele sentimento de culpa, ainda que tenha sido essencialmente fora de sua vontade.
De acordo com Rainer C. Patriota, estudioso que escreve juntamente com Ester Vaisman a apresentação do livro de Nicolas Tertulian (2008), alistado em nossa bibliografia, o que fica claro é que, segundo Lukács, toda obra literária revela ―uma experiência viva‖, um determinado modo de ―espírito vital‖. Segundo o estudioso, para Lukács, o romance enquanto gênero significa, antes de mais nada, a possibilidade da resolução ideal do divórcio entre a exterioridade empírica e a interioridade essencial, presente em toda a história. A tensão constante presente no romance é, de certa forma, uma busca em encontrar solução para o problema.
O desenvolvimento do enredo e das personagens de Nathaniel Hawthorne, encontrados em A Letra Escarlate, consolidam o papel desejado por Lukács em uma obra de
arte, portanto. Eles oferecem a condição necessária ao procedimento da consciência diante da realidade histórica ao capturar todas as possíveis determinações essenciais do objeto bem como sua adaptação perpétua ao seu próprio devir que acompanha e contribui para todo o desenvolvimento da História.
É de se notar que as observações de Hawthorne destacam-se em pontos fundamentais, dos quais vamos identificando na medida em que lemos os seus livros. É sempre bom perceber, por exemplo, que suas observações são geralmente a propósito do homem e de sua relação com a sociedade – nunca com a natureza. Em geral, nos seus escritos, encontramos em um lado um individuo afastado e do outro lado desse afastamento uma multidão.
Os textos de Hawthorne formulam perguntas, e raramente encontramos as respostas ao final, quando acabamos de lê-los. Temas como orgulho, inveja e remorso importunam as suas personagens. Nos seus escritos, um único pecado não é perdoável: perder a estima do restante da comunidade.
A leitura atenta da obra de Hawthorne nos induz à conclusão de que nele o amor à arte vinculava-se de maneira indissolúvel às preocupações morais, e também de que a sua filosofia de vida derivava da ideia fundamental da existência de Deus. Mas, o seu Deus diferia radicalmente do deus de seus antepassados, os calvinistas, pois é um Deus de amor, de perdão, de tolerância.
Embora Hawthorne não partilhasse do idealismo otimista, do ingênuo perfeccionismo que em absoluta reação ao determinismo calvinista se espalhou pelo vasto território dos Estados Unidos, ele firmou-se em uma posição de ferrenho antagonismo à crença predileta dos seus avós: a da depravação natural. Neste ponto, o da fé entusiasta na regeneração, Hawthorne uniu-se aos seus contemporâneos românticos. Mas, enquanto esses salientavam principalmente sociedade, como a maior culpada nas calamidades humanas, Hawthorne, mais agudo, apontava também para o coração do homem, a causa mais forte para a dissipação do mal. A base religiosa em Hawthorne também pode se tornar quase imperceptível, mas se somente as considerações éticas tomarem conta dos desfechos. Em tudo isso, fica por demais nítido que o pecado máximo, segundo Hawthorne, é a falta de amor. E é bom lembrar que essa tal falta de amor deriva sempre de leis rígidas impostas por regimes rígidos ou de orgulho intelectual – no caso de Chillingworth.
As personagens de Hawthorne se apresentam como indivíduos que resistem consciente e energicamente a uma realidade que a eles se fecha e, nessa luta, nessa oposição, eles se tornam representações de personagens de romance histórico, pois, ao se revelarem, revelam o mundo sombrio recheado de dogmas em que vivem – o mesmo mundo puritano da Nova
Inglaterra do século XVII e XVII. É de dentro de suas singularidades, que eles trazem à tona questões a respeito das forças e dos pensamentos que formam aquela sociedade de origem inglesa.
Sobre a relativização da existência humana na sociedade moderna e a despersonalização da vida – já presentes na Nova Inglaterra –, Tertulian (2008) registra que:
Lukács se apiedava da perda da autonomia e da soberania do sujeito, decorrente da totalidade das condições objetivas. A vida moderna teria destruído o antigo equilíbrio entre subjetividade e objetividade, deixando ao indivíduo apenas um papel de simples acessório, de peão subalterno entre as forças impessoais que o envolveriam e o ultrapassariam (p.69).
Portanto, em A Letra Escarlate, assim como no gênero Romance em geral, resta seguir com o papel importante de buscar e recompor o tal equilíbrio entre o interior do homem e o mundo exterior, oferecendo à alma do ser humano uma imagem de mundo menos ilusória do que é e que lhe seja mais honesta enquanto realidade, como nos afirma Lukács. Para Trilling, ―espíritos ávidos [...] podem propor remodelar o mundo de acordo com seus sonhos; mas o mal permanece e, enquanto ele se esconder nas regiões secretas do coração, a utopia será apenas a sombra de um sonho‖ (1965, p.23).
No romance de Hawthorne as vozes se destacam à medida que as contradições que abraçam nos revelam aspectos relevantes da comunidade colonial da Salem dos primeiros anos do descobrimento da América do Norte.