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Toplumsal Dayanışma ve Kardeşlik Kurumu: Musahiplik

I. BÖLÜM

4.5. Toplumsal Dayanışma ve Kardeşlik Kurumu: Musahiplik

Para boa parte da literatura que discute a historiografia econômica brasileira, a década de 1930 representou um marco. Isso porque, até então, as abordagens históricas que buscavam analisar e compreender os aspectos socioeconômicos brasileiros se baseavam, quase que unicamente, em considerações étnico-raciais e, por isso, eram incompletas e insatisfatórias. Como resposta a esta incompletude analítica, passaram a surgir críticas que apontaram para a necessidade de uma História que problematizasse o quadro social, que atentasse para ele como uma totalidade e que apreendesse os movimentos de mudança e evolução das estruturas e instituições.

Seguindo a periodização de Iglésias (1970), as primeiras manifestações da historiografia tomaram primeiramente a forma de obras descritivas (séculos XVI, XVII e XVIII) - “Tratado descritivo do Brasil em 1587” de Gabriel Soares de Sousa, “Diálogo das

grandezas do Brasil” de Ambrósio Fernandes Brandão e “Cultura e opulência do Brasil” de

Antonil - e de obras de “quase” História Econômica (séculos XVIII e XIX) - “Minas e os

quintos de ouro” de Diogo Pereira Ribeiro de Vasconcelos, “Instrução para o governo da Capitania de Minas Gerais” de José João Teixeira Coelho. Já no século XX, nos anos 20, a

História Econômica teria aparecido como objeto específico, adquirindo uma caracterização mais global; representante dessa fase são as obras: “História da formação econômica do

Brasil”, de Vitor Viana e “Pontos de partida para a história econômica do Brasil” de Lemos

Britto. Essas obras, apesar de não serem rigorosamente de História Econômica, valiam como fontes em si mesmas e pelas notícias históricas que forneciam.

Já no final da década de 1930, é publicada a “História Econômica do Brasil” de Roberto Simonsen,180 livro no qual, segundo Gorender (1985), a teoria dos ciclos - com sua dinâmica baseada no principal produto da pauta exportadora, por exemplo, “ciclo do açúcar”,

“ciclo da mineração” e “ciclo do café” - teria atingido seu acabamento final. Contudo,

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Livro que serviu de inspiração para Celso Furtado escrever a Formação Econômica do Brasil, publicada em 1959. Vide Furtado (1985), conforme descrito adiante.

conforme argumenta Iglésias, embora tenha sido importante e demarcatória, à concepção de Simonsen faltaria certo sentido de totalidade, além de lhe ser atribuída uma natureza estanque, perpetuando uma visão compartimentada e, por conseguinte, descontinuada da história.

Diferentemente de Simonsen, Caio Prado Júnior teria encarado o contexto econômico como um processo global (IGLÉSIAS, 1970) e os ciclos como manifestações sequenciais de algo mais profundo, ou de uma realidade permanente (GORENDER, 1985). O sentido da colonização, tal como definido por Prado Júnior (1942), forneceu elementos para a compreensão dos elementos socioeconômicos centrais relacionados à formação e à evolução históricas das colônias. O paradigma Pradiano - ou visão plantacionista – teria se enraizado de tal modo na historiografia brasileira que, segundo Ricupero (2000), sua referência tornou-se algo até redundante.

A abordagem de História Econômica Brasileira colonial, por muito tempo, esteve pautada por essa perspectiva derivada a partir da abordagem de Caio Prado Júnior, cujos principais representantes são o próprio Caio Prado Júnior, Fernando Novais181 e Celso Furtado182. Segundo Prado Júnior (1942), o sentido da colonização explica a natureza e as características da colônia brasileira a partir do intuito comercial da metrópole de gerar um fluxo de bens lucrativo no mercado europeu. Desse conceito, o autor derivou as características definidoras da estrutura produtiva que se desenvolvera na colônia, que apresentava como atividade principal aquela extração ou produção que viabilizasse o fluxo de comércio almejado pela metrópole. Do caráter tropical da terra, dos objetivos dos colonizadores e das condições gerais da nova ordem econômica global inaugurada com a expansão ultramarina, emergiu como resultado a grande exploração rural, célula fundamental da economia agrária brasileira, caracterizada por grande propriedade, monocultura ou extração e trabalho escravo.

No entanto, a colonização acabou realizando algo a mais que um simples contato fortuito dos europeus com o meio a ser explorado. Paralelamente à grande atividade extrativo- monocultora, desenvolveram-se atividades de subsistência, subsidiárias daquela que constituía o núcleo e fim produtivo da colônia, destinados unicamente a amparar e tornar possível a realização do sentido da colonização. Portanto, o corolário geral do modelo teórico Pradiano é que tudo se dispõe no sentido da colonização, tanto no que se refere à estrutura quanto às atividades desenvolvidas na colônia. Desse modelo de colonização exploradora dos trópicos decorre a concentração extrema de riqueza, o papel de simples fornecedor do comércio internacional e o vácuo imenso entre os extremos da escala social, os senhores e os escravos,

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Novais (1990).

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os únicos elementos organicamente inseridos no sistema sob a perspectiva do modelo Pradiano.

Em suma, esse modelo teórico de Caio Prado Júnior derivado a partir do sentido da colonização configura uma perspectiva externalista, ou pautada quase que exclusivamente em fatores externos. Esse modelo teórico seria aplicável para todas as fases da colônia brasileira. Os fatores não contemplados por seu modelo, sob sua perspectiva teórica, não seriam fundamentais para entender o essencial do evolver do período colonial brasileiro. Esses fatores, como a grande população que não era nem proprietária, nem cativa, eram classificados como inorgânicos, ou seja, no limite, a sua ausência não faria diferença para a explicação do todo. 183

Especialmente desde os anos 70 do século XX, quando emergiram as primeiras críticas teóricas184 e as primeiras evidências empíricas185 que se contrapuseram ao paradigma, diversos trabalhos têm revisto a interpretação Pradiana. Em geral, as implicações do sentido da colonização que se veem questionadas são a suposta preponderância do capital mercantil metropolitano, a insignificância de um mercado interno na colônia, a configuração de uma sociedade polarizada (senhores e escravos) e a irrelevância relativa dos processos de acumulação endógena.

Com base em novas evidências empíricas, alguns estudiosos questionaram a generalidade e a eficácia explicativa do paradigma Pradiano norteado por uma perspectiva primordialmente externalista. As críticas, em geral, jogaram luz sobre a importância dos fatores internos para explicar a dinâmica das economias coloniais e se dirigiam: à existência e importância de mercado interno constituído - e, por conseguinte, da relevância dinâmica dos mecanismos de acumulação endógena;186 à propriedade escravista ou sobre a representatividade da grande propriedade; 187 e, à necessidade de se levar em conta aspectos

183

Embora Caio Prado Júnior não seja foco de discussão dessa tese, importante ponderar e ressaltar que não se quer dizer que o autor não tenha se debruçado de maneira suficientemente profunda sobre a investigação dos fatores internos. Muito pelo contrário, a obra de Caio Prado Júnior é uma fonte bastante rica de informações relativas a essas questões. No entanto, para a composição de seu modelo teórico da dinâmica colonial brasileira, em termos de relevância analítica, no sentido de ser causa causans – assim como se referira Keynes (1937, p. 178) ao papel do investimento -, o autor concede maior importância explicativa aos fatores externos, na medida em que seriam os responsáveis pelas perturbações e flutuações e, por conseguinte, englobariam a maior parte da significância explicativa da dinâmica observada na colônia.

184

Essas críticas se referem especialmente às interpretações centradas no caráter extrovertido da economia colonial. Por exemplo, vide: Gorender (1985), para o qual a perspectiva analítica do paradigma Pradiano estaria equivocada; Castro (1984), para o qual o sentido da colonização estaria fora de foco; e Cardoso (1979), que realiza críticas ao que denomina de circulacionismo.

185

Novas evidências empíricas foram trazidas à tona por meio da descoberta e investigação de fontes primárias de dados. Vide, por exemplo, Costa & Nozoe (1989) e Costa (1992).

186

Por exemplo, vide Fragoso e Florentino (2001) e Costa (1995).

187

internos às colônias - ou de desenvolver o processo analítico de “dentro para fora” -, o que se contrapunha ao método do paradigma Pradiano - “de fora para dentro”.

Sinteticamente, a concepção externalista do paradigma Pradiano pode conduzir a uma análise que concede, demasiadamente, um papel coadjuvante, e totalmente passivo, às colônias, o que remete à busca de explicações para os problemas e contradições apenas à sua própria condição de colônias, desprovidas, em qualquer medida, de vontade própria. Jogar luz sobre a importância dos fatores internos às colônias, de outra forma, retiraria essa carga extrema de vitimização, colocando-as também como corresponsáveis no processo socioeconômico contraditório e problemático que enfrentaram, especialmente após sua independência, principalmente no que diz respeito à questão do desenvolvimento econômico e da sua sustentabilidade.

De maneira geral, uma perspectiva pautada em fatores externos, e tão delimitada como o modelo teórico Pradiano, não contempla a riqueza de fatores internos que são imprescindíveis para a compreensão do processo histórico que levou à formação econômica e social pois, sob essa perspectiva, não seriam necessários para a explicação do seu objeto. Por outro lado, uma perspectiva que só leve em consideração fatores internos ignora o contexto mais global relacionado à estrutura e dinâmica do sistema econômico-político mundial - ou seja, as restrições externas -, o que pode levar a uma caracterização inadequada, porque insuficiente, da realidade. Por exemplo, o Brasil-colônia possuir uma dinâmica interna relativamente autônoma não elimina o fato de ser ele uma colônia e, por conseguinte, de cumprir um papel específico na divisão internacional do trabalho e estar, desse modo, sujeito a restrições externas específicas ao seu contexto.

Retomando discussão realizada na seção anterior, na direção da construção de um tratamento teórico da História mais compatível com a Abordagem da Complexidade, far-se- iam necessárias as seguintes considerações: a causalidade bidirecional dos fatores externos e dos fatores internos e, portanto, de que todos esses fatores são potencialmente interessantes do ponto de vista analítico; as nações periféricas possuem estruturas socioeconômicas internas cuja dinâmica não se reduz exclusivamente ao impacto de sua ligação com o mercado mundial; a existência de responsabilidade dos grupos que compõe a nação, principalmente as elites que influenciam as decisões políticas, nas escolhas realizadas, mesmo que restritas, em alguma medida, pelo contexto internacional; e, por fim, e como decorrência das questões anteriormente citadas, o próprio caráter cumulativo do evolver histórico.

Para algumas mudanças de perspectiva da historiografia econômica brasileira, contribuíram os trabalhos críticos já referidos ao paradigma Pradiano, na medida em que

permitiram ampliar a compreensão da complexidade de fatores internos que compunham o sistema colonial brasileiro, importantes para compreender a nossa formação econômica e social. O que não quer dizer, por outro lado, que superaram ou prescindem das importantes conclusões e conceitos desenvolvidos a partir da perspectiva Pradiana.

Dessa forma, do ponto de vista da compreensão do objeto, parece mais profícuo adotar a perspectiva de complementariedade das perspectivas - viesadas mais ou menos por fatores internos ou externos, macro ou microeconômicos - ao invés da superação ou total negação de qualquer uma delas. Pois, quando se fala em superação, é como se a perspectiva abandonada estivesse completamente errada, ou não servisse, em nenhuma medida, como fonte explicativa. Por outro lado, quando se fala apenas em reforço, pode-se formar a impressão de que houve apenas uma sofisticação da abordagem, mas sem implicar mudanças fundamentais de perspectiva, o que não é o caso das críticas que emergem tanto das evidências empíricas quanto de embates teóricos que acabaram por contradizer algumas definições do paradigma Pradiano. 188

Em alguma medida, embora passível de diversas ponderações, parte da obra de Celso Furtado se insere na perspectiva geral do paradigma Pradiano. A influência de Caio Prado Júnior talvez seja mais facilmente verificável nos livros nos quais Furtado realiza uma discussão detalhada do período colonial brasileiro, tais como A Economia Brasileira, de 1954 e a Formação Econômica do Brasil, de 1959. Nesses livros o período colonial é explicado, primordialmente, a partir da dinâmica ensejada pelo setor externo. Então, assim como em Caio Prado Júnior, os impulsos dinâmicos da economia colonial são fundamentalmente externos. Para Furtado, o deslocamento do centro dinâmico para o mercado interno só ocorreu na década de 1930.

Conforme discutido adiante, essa delimitação cronológica coincidiria com uma mudança de abordagem do autor, que passa a incorporar e considerar, de maneira crescente, a importância dos fatores internos, o que afasta a análise Furtadiana do paradigma Pradiano e a aproxima de uma perspectiva do processo histórico mais condizente com a Abordagem da Complexidade, ou seja, que leva em consideração as relações de retroalimentação entre os fatores internos e entre os fatores externos. Aventa-se, portanto, que a mudança de método no enfoque da literatura de História Econômica brasileira, de uma baseada primordialmente em fatores externos para aquela que progressivamente joga luz à centralidade dos fatores internos,

188

A partir desse embate teórico, parece ser mais interessante falar em um novo paradigma para o pensamento historiográfico brasileiro, mas aqui, conforme argumentado, com uma delimitação distinta daquela realizada por Kuhn (1972), que necessariamente implica superação - ou o estabelecimento de um novo paradigma.

seria identificável no próprio evolver da obra de Furtado.

Apenas para ilustrar essa discussão sobre a perspectiva Furtadiana e adiantando discussões a serem desenvolvidas na próxima seção, vale destacar, em diferentes momentos do tempo, definições do próprio Celso Furtado sobre o método do qual se valia. Por exemplo, Furtado (1985) faz um relato sobre como concebeu a ideia de escrever a Formação

Econômica do Brasil. O autor descreve que, um pouco antes - meados da década de 1950 -,

adquirira uma versão mais recente de História Econômica do Brasil de Roberto Simonsen, o qual já havia lido cerca de uma década antes. Ao folhear novamente o livro, lhe ocorreu a ideia de elaborar um modelo da economia do açúcar em meados do século XVII. O trecho selecionado explicita a preocupação do autor em pautar seu método pela combinação da análise econômica com a investigação histórica. Nas palavras do autor:

Foi dessa ideia que surgiu a Formação Econômica do Brasil, redigida entre novembro de 1957 e

fevereiro de 1958 nas “sobras de tempo” que ia furtando ao festival do debate teórico. O método

era o mesmo que utilizara em trabalhos anteriores: aproximar a História (visão global) da análise econômica; extrair desta perguntas precisas e obter respostas para as mesmas na História. (FURTADO, 1985, p. 205).

Novamente a respeito de seu método, discorrera Furtado, na introdução ao seu livro

Análise do Modelo Brasileiro, de 1972. O trecho abaixo reproduzido destaca a importância da

consideração do fator tempo - e, novamente, da trajetória histórica -, bem como da interação dos fatores internos e externos. Nas palavras do autor:

Os dois ensaios reunidos no presente volume estão concebidos segundo o método que o Autor vem utilizando há dois decênios: a partir de uma globalização histórica, identificam-se os elementos estruturais que permitem, num corte temporal, reduzir a realidade social a um sistema a que se podem aplicar os instrumentos da análise econômica. O corte temporal torna-se necessário, a fim de que certos elementos ganhem suficiente invariância para que possamos considerá-los

estruturais. A globalização histórica, por sua vez, permite continuar a observar tais elementos

como variáveis, que mudam de significação quando se passa de um a outro corte temporal [...] A partir do momento em que o captamos [o quadro estrutural], o comportamento das variáveis endógenas deve encontrar explicação no sistema e nas leis que presidem as relações deste com suas fronteiras internas e externas. É a partir deste ponto que a análise econômica adquire maior precisão, dando-nos os instrumentos com que identificar tendências e descortinar o horizonte de opções com que se confrontam os agentes responsáveis pelas decisões mais significativas. (Id., 1972, p. 3-4).

Realizada essa pequena introdução sobre o que poderia ser denominado de complexo método Furtadiano, passemos à investigação e discussão de sua obra de historiografia econômica brasileira, iniciando no período colonial e encerrando com a crise da década de 1980, que demarca o fim da fase desenvolvimentista brasileira.