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Em 1980, o MEC, com critérios de representatividade regional, constituiu uma Comissão de Especialistas de Ensino Jurídico (alterada em 1981, com a substituição de dois de seus membros)63, com o objetivo de refletir sobre os cursos de direito no Brasil e propor um novo currículo alterando aquele fixado pela Resolução CFE 3/72 em vigor.
É necessário ter presente que
No Brasil e em vários outros países da América Latina, no final da década de 70 e parte dos anos 80, ficaram famosos os movimentos sociais populares articulados por grupos de oposição ao então regime militar, especialmente pelos movimentos de base cristãos, sob a inspiração da Teologia da Libertação. Ao final dos anos 80, e ao longo dos anos 90, o cenário sociopolítico se transformou radicalmente. Inicialmente teve-se um declínio das manifestações nas ruas, que conferiam visibilidade aos movimentos populares nas cidades. Alguns analistas diagnosticaram que eles estavam em crise porque haviam perdido seu alvo e inimigo principal - o regime militar. Na realidade, as causas da desmobilização são várias. O fato inegável é que os movimentos sociais dos anos 70/80 contribuíram decisivamente, via demandas e pressões organizadas, para a conquista de vários direitos sociais novos, que foram inscritos em leis na nova Constituição brasileira de 1988.
63 Segundo Rodrigues (2005, p. 72), “A Comissão foi composta inicialmente pelos professores Alexandre Luiz Madina (Rio de Janeiro), Lourival Vilanova (Pernambuco), Orlando Ferreira de Melo (Santa Catarina) e Rubens Sant‟Anna (Rio Grande do Sul). A partir de 1981, com a impossibilidade de comparecimento dos dois primeiros, a Comissão foi reestruturada, com a inclusão dos professores Adherbal Meira Mattos (Pará), Álvaro Melo Filho (Ceará), Aurélio Wander Bastos (Rio de Janeiro) e Tercio Sampaio Ferraz Junior (São Paulo)”.
É nesse clima que se constituiu a Comissão de Especialistas e, como reconhece e informa o próprio texto legislativo:
É que se tornou assente, naquele curto período de 1972 até 1980, [...] que, por diversos motivos, o currículo até então introduzido não contemplava as necessárias mudanças estruturais que resolvessem os problemas em torno do ensino jurídico, no Brasil, considerado muito “legalista” e “tecnicista”, pouco comprometido com a formação de uma consciência jurídica e do raciocínio jurídico capazes de situar o profissional do direito com desempenhos eficientes perante as situações sociais emergentes (Parecer CNE/CES 211/2004, p. 12).
Assim, a proposta de currículo mínimo para o curso de graduação em Direito, bacharelado, ficou constituída por quatro grupos de matérias, o primeiro sendo pré-requisito para os demais, como se segue:64
1. Matérias Básicas
Introdução à Ciência do Direito Sociologia Geral
Economia
Introdução à Ciência Política Teoria da Administração 2. Matérias de Formação Geral
Teoria Geral do Direito Sociologia Jurídica Filosofia do Direito Hermenêutica Jurídica Teoria Geral do Estado
3. Matérias de Formação Profissional Direito Constitucional Direito Civil Direito Penal Direito Comercial Direito Administrativo Direito Internacional
Direito Financeiro e Tributário Direito do Trabalho e Previdenciário Direito Processual Civil
Direito Processual Penal
4. Matérias direcionadas a Habilitações Específicas
Composto por disciplinas e áreas de conhecimento que atendessem à realidade regional, às possibilidades de cada curso, à capacitação do quadro docente e às aptidões dos alunos. Também se previa a substituição do estágio curricular supervisionado e extracurricular com a implantação do Laboratório Jurídico, com um mínimo de 600 (seiscentas) horas/atividades, a serem cumpridas em até dois anos. Ensejava-se até a eliminação do Exame de Ordem.
Entretanto, o MEC, através do Conselho Federal de Educação jamais deliberou sobre essa proposta que perdurou até 1996. Que está por detrás desse silêncio e quais bases sustentam essa apatia, se o diagnóstico de legalismo e tecnicismo no ensino jurídico já estava patente e documentado? Como explicar a inércia do Conselho Federal de Educação diante da constatação do curso de direito sem comprometimento com a formação de profissionais capazes de enfrentar as novas situações sociais, uma vez formavam bacharéis débeis em consciência e raciocínio jurídicos? A resposta é que, nos anos 1990, o liberalismo,
que já havia adentrado na maior parte da América Latina, implanta-se no Brasil, com toda força, a partir do Governo Collor. O discurso liberal radical, combinado com a abertura da economia e o processo de privatizações inaugura o que poderíamos chamar da “Era Liberal” no Brasil. Até então, apesar da existência de algumas iniciativas nesse sentido, durante o Governo Sarney, e de uma já forte massificação e propaganda dessa doutrina nos meios de comunicação de massa, havia uma forte resistência à mesma, calcada principalmente, na ascensão política, durante toda a década de 1980, dos movimentos sociais e do movimento sindical. A Constituição de 1988, apesar de seus vários equívocos, foi a expressão maior dessa repulsa da sociedade brasileira, por isso mesmo, ela foi alvo privilegiado tanto do Governo Collor quanto do Governo Cardoso, que recolocou, mais tarde, o projeto liberal nos trilhos (FILGUEIRAS, 2000, p. 83-84).
Quanto à proposta da Comissão de Especialistas, a bem da verdade, Rodrigues (2005, p. 73) observa, porém, que apesar de totalmente esquecida,
analisando-se os currículos de cursos de Direito, anteriores à edição da Portaria MEC nº 1.886/1994, nota-se a sua influência efetiva em alguns deles. Também é provável que tenha influenciado a definição dos conteúdos curriculares, na forma constante dessa Portaria.
Há que se registrar que, em 1991, o Conselho Federal da OAB instituiu a Comissão de Ciência e Ensino Jurídico encarregada de “levantar dados e análises e fazer um diagnóstico da situação do ensino do Direito e do mercado de trabalho para advogados, para com base neles efetivar uma proposta concreta de correção das distorções encontradas” (RODRIGUES, 2005, p.74). Os resultados da comissão foram apresentados durante a XIV Conferência Nacional da OAB, em Vitória – ES, no mês de setembro de 199265. Em 1993, foi
organizado um segundo volume: OAB Ensino jurídico: parâmetros para elevação de qualidade e avaliação66, a partir de dados informados pelas próprias instituições de ensino, precisamente, 88 dos 184 existentes (RODRIGUES, 2005, p. 76). Também em 1993, precisamente, em março, o MEC nomeou uma nova Comissão de Especialistas de Ensino de
65 Os resultados foram editados no livro: ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL. Ensino jurídico: diagnóstico, perspectivas e propostas. Brasília: OAB, 1992.
66 ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL. Ensino jurídico: parâmetros para elevação de qualidade e avaliação. Brasília: OAB, 1993.
Direito que com seus trabalhos pautou as normativas da Portaria MEC nº 1.886/199467, que analisaremos a seguir. Na OAB, o grupo responsável pelo ensino do direito passou a ser denominado Comissão de Ensino Jurídico (CEJ) e teve sua composição alterada, mas prosseguiu seu importante trabalhos de crítica ao ensino do direito do Brasil, já nos tempos de nossa próxima etapa de análise.