Em nossa pesquisa, o caráter diretivo foi atribuído à técnica de observar o campo e de nele intervir porque, simultaneamente, às observações e interferências nos fatos e nas situações, esclarecemos aos sujeitos quais as nossas intenções de pesquisa, tomamos notas, escrevemos os fatos e eventos vivenciados e tornamos públicos os dados coletados no momento em que foram verificados.
Então, não procedemos a uma observação participante. Ora, pensamos que sendo parte da organização qualquer observação que eu realizasse já teria um cunho participante. Nesse sentido a observação que nomeamos diretiva tem esse viés participante
e, por isso, foi necessário muito cuidado, muita reflexão, muita troca com os auxiliares de pesquisa para que eu pudesse continuamente me policiar, me ausentar e me colocar o mais distante possível das situações que vivenciei. Logo, sendo eu um participante na organização não procedi a uma observação participante, mas diretiva.
Uma observação participante, nos moldes exigidos pela pesquisa etnográfica, deve ser posta em prática de forma a permitir ao pesquisador e como orienta Geertz (2010) integrar-se no campo investigado e fazer parte do seu cotidiano na perspectiva de um nativo. Ao longo do processo de integração no campo o pesquisador pode fazer uso de um diário de campo que é elaborado a posteriori, isto é, o investigador faz os registros dos fatos, acontecimentos e situações observadas longe dos olhos dos sujeitos da pesquisa.
A autora orienta ainda que o pesquisador ao mesmo tempo em que interage, critica e analisa a realidade na forma de um integrante natural dela, deve afastar-se e estranhar essa realidade. Os atos de desfamiliarizar-se e familiarizar-se para novamente se desfamiliarizar-se devem, segundo Haguete (1987), durante toda e qualquer etapa da observação participante dialogarem entre si, sem desconsiderar uma refamiliarização do pesquisador com a realidade. Nessa direção, o papel do pesquisador é o de revelar, nesse movimento incessante, as ilusões que uma organização/grupo promove e que muitas vezes são vendidas, ao não-nativo, como realidade.
O fato de este pesquisador ser professor na escola se configurou em uma espécie de armadilha ao seu papel de observador e a esse movimento. Habituado que estou ao universo militarizado e com a rotina de monitoramento da ação, tão comum nesse estabelecimento, senti-me à vontade para tomar notas, escrever os fatos e eventos vivenciados e tornar públicos os dados coletados no momento em que foram verificados, fato que se configurou em constrangimento para este pesquisador e, principalmente, para os atores da pesquisa.
Os sujeitos participantes da pesquisa são, como veremos em nossos resultados, intensamente vigiados, por isso considerei que fazer anotações livres, sem a preocupação de que elas pudessem ser vistas por eles seria menos ameaçador do que aquelas que eles, como veremos mais adiante, muitas vezes imaginam que ocorram o tempo inteiro e que na verdade não ocorrem.
Flick (2009), Geertz (2010), Haguete (1987) entre outros orientam ao observador participante agir como se participante fosse, mas em geral ele não é um participante literal. No meu caso eu era e ao agir como tal causei nos meus atores uma
70
reação de afastamento, ou melhor, eu os constrangi e fui constrangido pelo constrangimento deles. No momento em que eu tinha oficialmente a autorização para participar das atividades que envolvem os meus pares, fui interpretado como estando, de um único lado do poder e aí, como veremos em outra seção desse capítulo 2, eles reagiram. As observações diretivas foram realizadas duas vezes por semana, com tempo médio de duração variando entre uma e duas horas e no período de setembro de 2010 a setembro de 2011. No anexo F apresentamos dois relatos.
Estabelecemos como filtro o nosso objetivo de pesquisa: investigar os elementos estruturantes dos movimentos identitários de professores não-militares e militares professores subordinados a um conjunto de normas e regras de orientação da ação que incluem formas de poder peculiares decorridos dos princípios ligados à hierarquia e à disciplina militar aliando esses movimentos aos pressupostos teóricos sobre as micropolíticas do cotidiano, objetivo que, na maioria das vezes, nos ajudou a fechar e ou ampliar o tempo de duração de cada observação.
O material utilizado para anotar as informações recolhidas foram notas de campo no formato de blocos post-it. Cada um dos blocos usados continha: data, local, nome do observador e tempo de duração. Apesar de não haver um roteiro de orientação, fizemos, a título de reconhecimento do ambiente, observações iniciais mais amplas, mas sem perder de vista o objetivo do trabalho e somente depois delas é que fomos fechando o olhar e, portanto, focando, selecionando elementos e situações a serem observados.
No campo, muitas vezes, escrevemos as falas literais dos sujeitos envolvidos em uma ou outra situação, em outras, as falas eram transcritas na forma de texto, em outras ainda apresentamos apenas as ideias principais que eram possíveis de serem colhidas, tivemos em muitas ocasiões que cifrar, desenhar, colocar setas e fotografar o local onde uma ou outra situação se deu ou costumava ocorrer.
Reuníamos ao final de cada atividade um conjunto de notas que era fixado num caderno, que chamamos caderno de campo e, posteriormente, em casa, às vezes de tarde e noutras vezes à noite, fizemos a complementação, preenchendo os vazios dos relatos para que ficassem mais coerentes e precisos. Essas ações foram, na maioria das vezes, realizadas no mesmo dia da observação. Nessa tarefa, a memória foi o item mais requisitado.
Ao proceder às nossas observações, tomamos muito cuidado com o material onde fazíamos as nossas anotações, bem como com o conteúdo. Apesar de nossas
anotações serem públicas, de serem realizadas no momento em que uma ou outra situação era vivenciada/observada e diante dos nossos sujeitos, não queríamos que outras pessoas as acessasse longe da nossa presença. Tivemos o cuidado também de, no caso de citarmos nomes de pessoas em nossas anotações, usarmos nomes fictícios que disfarçassem toda e qualquer pessoa/situação que pudesse ser identificada.
No processo de observação nos caracterizamos como observadores que participamos de forma diretiva das situações. Sentimo-nos mais confortáveis organizando as observações, conforme ensina Flick (2009), em fases: descritiva, fase de focalização e fase seletiva. As fases que elencamos não foram tidas como fixas e, portanto, não foram seguidas com um sequenciamento rígido.