Ao pensarmos este trabalho tínhamos em mente investigar como se estruturam os movimentos identitários de professores que estão subordinados a um conjunto de normas e regras de orientação da ação que incluem formas de poder decorrentes dos princípios ligados à hierarquia e à disciplina militar.
Contudo, ao iniciarmos a pesquisa, inseridos no campo como professor e pesquisador, reunimos um conjunto de referenciais teóricos que se ligavam às questões da identidade pessoal, da social e da profissional. Esse material relacionava as questões de identidade aos contextos em que os sujeitos se inserem, bem como as questões ligadas ao poder e suas influências sobre essas questões. Embora tenhamos encontrado nesse referencial importantes discussões, percebemos que elas sozinhas não nos ajudariam a atingir o objetivo do trabalho.
Portanto, procuramos referenciais teóricos que não aquele específico ao processo de construção das identidades, mas que nos dissessem mais sobre as organizações, em especial, as organizações escolares e as práticas de poder que nelas ocorrem. Ao acessarmos esse material, entramos em contato com discussões que apontavam para o entendimento das organizações, inclusive as escolares, como sendo estabelecimentos que não se constituem apenas em função do quadro normativo, de um conjunto de regras e dispositivos orientadores da ação, que são, em grande medida, elaborados à revelia dos professores.
Esse referencial nos informou que uma escola é o que os professores dizem dela, isto é, ela se constitui pela análise, interpretação e crítica que os docentes elaboram a partir da prática da estrutura formal que lhes é atribuída. Essa compreensão apontou para a existência de conflitos diversos no edifício escolar, uma vez que a prática da norma e da regra pelo professor não ocorre num quadro de fidelidade absoluta. Os interesses e necessidades de professores e escolas nem sempre se alinham.
Assim, notamos que precisávamos ampliar aquele objetivo de tal forma que passasse a incluir referenciais teóricos ligados às micropolíticas do cotidiano. Essa busca ocorreu influenciada pelo fato de os professores do CMCG, em suas reflexões sobre a estrutura escolar, reconhecerem elementos que os remeteram a um passado em que a escola e o professor eram centros criadores e reprodutores de saberes diversos, de comportamentos sociais, de valores e crenças as quais a comunidade situada em seu entorno e os alunos reconheciam e valorizavam. Tal reconhecimento e valorização, sendo, como afirmam os docentes, uma realidade no CMCG, os conduzem a uma cultura profissional ligada a um trabalho de excelência e a expressarem orgulho de serem professores.
Uma vez acessado esse referencial, estabelecemos o diálogo deles com os dados da pesquisa e percebemos que, na apresentação dos resultados, antes de qualquer
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discussão sobre as influências das práticas de poder decorrentes da hierarquia e da disciplina militar sobre os movimentos identitários profissionais de docentes seria preciso discutir a identidade da organização na qual os nossos atores estavam inseridos.
No entanto, não se tratou de apenas apresentar o contexto, mas de aprofundar- se nele e investigar que conteúdo - normas e regras - o contexto reivindica ser endossado pelo professor, como esse conteúdo é atribuído, como prevê a divisão das atividades e como organiza o pessoal subordinador e os subordinados. Nesse aprofundar-se, foi preciso ter claro se há e de que forma são atribuídos a esses docentes elementos simbólicos e culturais que se configurassem influenciadores da identidade da organização.
Assim, identificamos, na organização, um modelo tríptico de gestão da ação. Tal identificação ocorreu quando olhamos para o CMCG seguindo duas perspectivas: uma que considerou a estrutura, e outra que entendeu que a estrutura, ao ser atribuída aos professores, movimenta as suas pertenças construídas já que os indivíduos, ao praticarem as diretrizes atribuídas, as analisam, as interpretam e as praticam reinterpretativamente. Essa “nova prática” sinaliza um conjunto de ações organizadas pelos trabalhadores, individual e coletivamente, visando ter seus interesses atendidos. Logo, almejando alcançar interesses próprios, os professores buscam a todo custo o diálogo da estrutura com a ação. Vimos o diálogo entre a estrutura e a ação como revelador da existência, no colégio militarizado, de um sistema em ação constante.
Esse diálogo num campo militarizado encerra práticas de poder mando/obedeça e relacional-reflexivas. Tais práticas, somadas às interpretações que os professores fazem delas e a forma como eles reagem a elas, são elementos que movimentam as suas pertenças e que interferem, portanto, sobre a busca por uma maior congruência entre o que é atribuído com o que é reivindicado e, essa busca, apontou o caráter relativizado e vigiado da autonomia do professor na escola. Além do mais, a busca por maior congruência da estrutura com a ação influencia as pertenças profissionais dos professores de tal forma que lhes possibilita um movimento em que constroem as identidades profissionais de excelência, compartilhada, estratégica e compósita.
Isto porque o sujeito e a organização, ao negociarem de forma mais estreita as suas necessidades, de forma a compor os anseios de um (da organização) com os desejos do outro (dos sujeitos), nos dizem que o campo de trabalho é o local privilegiado da socialização profissional, já que nesse ambiente as identificações construídas pelos sujeitos - sejam elas pessoais, sociais ou profissionais - e a identidade da organização devem ser
constantemente revistas, de modo que o conteúdo objetivo atribuído que serve como meio para a afirmação pelo sujeito da identificação do si-mesmo para o outro, sirva também de recurso reflexivo que leve esse mesmo sujeito ao questionamento das identidades de si por si mesmo construídas e que são pelo outro (a organização) interrogadas.
É em função disso, que concluímos que o movimento de construção da identidade profissional de professores se faz, não só pela negociação entre dois elementos (atribuição/pertença) e no interior dos quais se forjam as identidades reais, mas também por meio de negociações e ações organizadas.
Negociações e ações organizadas, formalmente orientadas ou não, são dispositivos postos em ação pelos diferentes níveis que compõem a escola, representantes da estrutura (gestores) com professores, gestores com gestores, professores com professores e têm impactos variáveis no plano da ação e no movimento de identificação dos sujeitos, isto é, podem ou não perpetuar, atualizar e até reatualizar as identificações construídas ou em construção.
O fato é que entre o decretado e o praticado há espaço para o diálogo, há caminho para a feitura de acordos. Os acordos expressam o entendimento mútuo dos profissionais quanto a uma determinada problemática. Segundo nossa investigação, os acordos, por sua reciprocidade, têm natureza micropolítica, e esta também é um elemento a influenciar os movimentos identitários profissionais. A política pode gerir as incertezas que os problemas presentes nas interações interdependentes existentes entre os sujeitos.
Por isso, consideramos que, em decorrência da prática do poder em seu duplo sentido (mando/obedeça e relacional/reflexiva), os níveis - (atribuidores/sujeitos mais pacientes) - demarcam incessantemente, em função das tensões que vivenciam práticas de poder que, ao tensionarem os movimentos de identificações dos sujeitos, criam as condições para a compreensão da forma de os sujeitos se socializarem profissionalmente no CMCG.
Deduzimos que a identidade profissional de excelência, a identidade profissional compartilhada, a identidade profissional compósita, a identidade profissional estratégica, a prática da inversão de condutas e a construção de uma cultura profissional de excelência é, para nós, uma questão que se efetiva a partir da construção de uma forma de socialização profissional compósita.
Não negamos, em nossas teorizações, quanto à socialização profissional compósita e seus efeitos sobre os movimentos identitários profissionais dos professores,
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que a atribuição-pertença é o arranjo fundamental, mas ele tem caráter de configuração, isto é, não tem caráter linear, tanto que um atribuidor hoje pode ser o sujeito mais paciente amanhã e vice-versa. Os atribuidores também recebem tarefas dos níveis hierárquicos que estão situados mais acima do posto que eles detêm. Nem todos os sujeitos se identificam como atribuidores; também não se identificam como sendo os sujeitos mais pacientes. Essa troca de papéis gera intensos conflitos e nos fez ver as práticas de poder como uma interação muito mais relacional/reflexiva do que de mando/obedeça.
Pelo eixo da atribuição, a relação sujeito/organização é colocada em circulação e, em geral, essa circulação se dá com os detentores estratégicos do poder, pois esses (os atribuidores), por suas ações, põem em jogo as suas identidades narrativas construídas e as identidades narrativas dos sujeitos a quem algo é atribuído; põem em xeque os projetos de vida desses indivíduos. O sujeito atribuidor o é, por exercer uma autoridade formal-legal e, os que seguem a atribuição, os sujeitos mais pacientes, esboçam uma aceitação ao poder, que é estratégica.
Entendemos que, pelo eixo da pertença, é reivindicada a aptidão elaborada pelos indivíduos atribuidores e, principalmente, os seguidores estratégicos da norma para responder, mediante contra-ações, às atribuições que lhes são dadas. A contra-ação manifestada pelo(s) sujeito(s) mais estrategicamente paciente(s) é reciprocamente orientada, pois o sujeito mais paciente devolve aos atribuidores, que são os representantes legais da estrutura., a ação, o poder e a identificação conferida. Isso exigirá, do ponto de vista da estrutura organizacional, representada pelos atribuidores, e num contexto de socialização profissional compósita, a compreensão e análise da vinculação da contra-ação ao rol de suas prescrições e necessidades.
Esse movimento de análise da contra-ação elaborado pelo atribuidor encerra, nesse mesmo contexto de socialização profissional, formas de poder, já que tem como vimos dois caracteres: um primeiro, reforçador do poder da ação do atribuidor que ocorrerá caso o sujeito mais paciente perceba a congruência e a relevância da atribuição com as suas necessidades de trabalho e caso a atribuição seja conferida de forma hábil e cuidadosa.
Nessa situação, será posta em evidência a habilidade política dos indivíduos, por exemplo, a do indivíduo atribuidor de, na medida em que o sujeito mais paciente proceda via contra-ação à negativa à atribuição dada, ser hábil para estruturar uma contrarreação à contra-ação do sujeito mais paciente e assim convencê-lo, pelo exercício relacional/reflexivo do poder, de que a ação atribuída é relevante ao trabalho desenvolvido.
Por essa mesma característica que tem o poder, no movimento de análise recíproca de uma ação e que prevê o seu exercício de forma hábil, o atribuidor praticará a dominação, contudo de forma político-estratégica e não conforme prescreve o segundo caráter do movimento de análise de uma contra-ação elaborado pelo atribuidor, como devendo ser um ato elementar do tipo mando/obedeça.
Isto porque a obediência é conseguida pela habilidade do atribuidor de usar “jeitosamente” a autoridade formal-legal que lhe foi concedida. Isso não significa que o (s) sujeito (s) a quem a contrarreação do atribuidor foi dirigida não possa (m) fazer, caso a orientação não seja bem elaborada, uma contrarreação à contrarreação dos atribuidores.
Em síntese, tem-se que o eixo da pertença, uma vez posto em movimento, será sempre um domínio das interações político-negociatórias entre professores, independente de esse professor ser o atribuidor ou ser o sujeito mais paciente. Mas esse eixo, no caso da organização escolar militarizada, será dependente da capacidade de os agentes interpretarem as normas e de as praticarem reinterpretativamente, visando salvaguardar seus interesses, via composição do que prescreve a estrutura com o que a ação dele reivindica.
O fato é que, numa organização escolar militarizada, seja qual for o grau de abertura e de constrangimento que a interação pode encerrar, ou a que uma organização faz pesar sobre os seus membros, estes se movimentam e transformam o contexto organizacional constantemente por meio de suas condutas sejam elas formais, isto é, apoiadas em elementos estruturais e culturais da organização que integram, sejam elas não- formais, ou seja, resultantes de uma recontextualização da diretriz atribuída. Com essas condutas os sujeitos movem a organização e a si próprios. Ao mover/automover-se, os profissionais reproduzem certas características e certas dimensões do si e do outro (organização).
Sendo assim, o movimento de configuração da identidade profissional dos nossos atores considera os processos de atribuição e pertença como mecanismos inteiramente políticos, já que no processo de construção das suas identificações, os sujeitos buscam fazer a composição entre aquilo que se diz que o indivíduo é (identidade social virtual) com aquilo que o sujeito diz ser (identidade social real). Mesmo quando a composição não é possível e ocorre a cisão entre o que se diz que o sujeito é e aquilo que o sujeito diz ser, a reintegração dessa dualidade, no campo do trabalho, requer do sujeito formas compósitas de reflexão e mobilização das reflexões elaboradas.
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Portanto, o movimento de construção da identidade profissional de professores não-militares e de militares professores se dá, não só pela negociação micropolítica entre um sistema de ação que propõe (atribui) identidades virtuais e o outro relativo às trajetórias vividas (pertenças), mas também por meio de acordos.
Esses movimentos identitários, estabelecidos num quadro de negociação estratégica, circulam nos limites de uma e de outra forma societária e comunitária de socialização profissional, isto é, no interior de uma socialização profissional compósita a qual é mediada por processos micropolíticos. A política é o elemento a gerir as incertezas presentes na organização escolar militarizada; é a mediadora das interdependências que mantêm nossos atores e, no interior das quais eles buscam estratégica e provisoriamente as suas convicções, os seus compromissos, interesses e as identificações.
Por isso, percebemos que, independentemente da forma como os indivíduos se socializam, seja societária, comunitária ou compósita e, ainda, independentemente das identidades profissionais que essas formas possibilitam - estatutária, narrativa, cultural e reflexiva; de excelência, compartilhada, estratégica e compósita - os indivíduos, no interior da organização escolar militarizada, buscam compor seus interesses com os interesses organizacionais, visando ao sucesso no trabalho, à sobrevivência na escola e à estruturação de identidades profissionais mais aceitáveis a esses contextos.