Eram quase 10h da manhã daquele 12 de abril de 1961 quando a patriótica canção russa Широка страна моя родная (na tradução para o português: “Quão espaçosa é minha
após o seu célebre bordão, “Atenção, Moscou fala!”, o radialista Yuri Borisovich Levitan anunciou:
A primeira nave-satélite “Vostok” [Oriente] com um ser humano a bordo foi lançada para a órbita da Terra pela União Soviética. O piloto-cosmonauta da espaçonave satélite “Vostok” é um cidadão da União das Repúblicas Socialista Soviéticas, o major da aeronáutica Yuri Alekseyevich Gagarin (Siddqi, 2000a: 278).
Gagarin foi o primeiro humano a perfazer uma órbita completa ao redor da Terra, em um voo de 108 minutos. A cápsula em que viajou, a Vostok-1, era totalmente automática e controlada do Cosmódromo de Baikanour pelos soviéticos. Ao reentrar na atmosfera terrestre, o cosmonauta foi ejetado da cápsula a 8 mil metros da superfície. Amparado por paraquedas, aterrissou próximo ao vilarejo de Smelova, na região de Saratov, na Rússia.
Mais uma vez a União Soviética surpreendia o planeta. Há 4 anos havia lançado o Sputnik, o pioneiro satélite artificial, e depois colocado em órbita o primeiro ser vivo, a cadela Laika. Após competirem lançando satélites e sondas, o envio de Gagarin ao espaço reorientou a corrida espacial entre URSS e EUA para a competição envolvendo missões tripuladas.
No mês seguinte à proeza de Gagarin, os Estados Unidos mostraram que não queriam perder o prestígio de superpotência tecnológica e desafiaram a si mesmo e aos soviéticos. No início de maio de 1961, o astronauta Alan Shepard efetuou o primeiro voo suborbital do programa espacial dos EUA. No final daquele mês, no famoso discurso proferido durante sessão no Congresso estadunidense, o presidente John Kennedy contra-atacou e lançou a proposta de uma missão tripulada à Lua que, mais tarde, se tornaria o programa Apollo:
(...) eu acredito que esta nação deva se comprometer a alcançar a meta antes do fim dessa década, de colocar um homem na Lua e trazê-lo de volta a salvo. Nenhum projeto espacial nesse período será mais impressionante, importante para a exploração espacial a longo prazo. E nenhum será tão difícil e caro de se realizar (Kennedy, 1961).
Os estadunidenses aguardaram até o final da década para que pudessem assistir o pouso de uma missão tripulada em solo lunar. Em 20 de julho de 1969, os astronautas Neil
Armstrong e Edwin Aldrin, da Apollo 11, deram o “grande passo para a humanidade” sobre a superfície da Lua. Apesar de também terem se preparado e desenvolvido foguetes e cápsulas para a exploração lunar, os soviéticos realizaram somente missões robotizadas no satélite da Terra. A URSS, porém, nunca se sentiu obrigada a reconhecer o fracasso do seu projeto de viagens à Lua, pois o programa nunca fora oficialmente anunciado. Os estadunidenses souberam dele mediante espionagem, por meio de seu satélites, que revelaram a construção de um dos maiores e mais potentes foguetes criados, o N-1.
O fusólogo alemão Wernher von Braun, foi um dos grandes mentores da ocupação do espaço sideral ao se tornar um importante executivo da NASA, diretor do maior centro de pesquisas em propulsão de espaçonaves e foguetes, o Marshall Space Flight Center, no Alabama. Alguns historiadores como Roger Launius e Howard E. McCurdy, defendem que von Braun criou o paradigma orientador da chamada exploração espacial, que teria dado sentido não apenas aos projetos da NASA, mas também ao programa espacial soviético, elaborado pelo engenheiro Sergei Korolev. Eles recuperam a proposta de exploração espacial elaborada por von Braun ainda nos anos 1950, marcada pela forte participação humana na conquista espacial, resumindo-a em cinco passos:
1- Desenvolvimento de foguetes multi-estágios capazes de colocação de satélites, animais e humanos no espaço.
2- Desenvolvimento de uma grande espaçonave alada e reutilizável capaz de carregar humanos e equipamento para a órbita terrestre de modo a criar um acesso rotineiro ao espaço.
3- Construção de uma grande, permanente e ocupada estação espacial para ser usada como plataforma de observação da Terra e da qual seriam lançadas expedições ao espaço profundo.
4- Inauguração dos primeiros voos humanos ao redor da Lua, levando aos primeiros pousos de humanos na Lua, com o propósito de explorar aquele corpo e estabelecer bases lunares permanentes.
5- Montagem e abastecimento de espaçonaves na órbita terrestre com o propósito de enviar humanos a Marte e eventualmente colonizar o planeta (Launius e McCurdy, 2008: 64-65).
Meses depois de Armstrong ter caminhado na Lua em 1969, von Braun e a NASA defenderam como continuidade do programa espacial dos Estados Unidos a imediata
construção de uma estação espacial na órbita terrestre e de uma frota de ônibus espaciais (space shuttles). Após este primeiro passo, queriam uma estação espacial ao redor da Lua, um ônibus espacial nuclear de transporte para a Lua e uma expedição à Marte antes de 1980.
Diante do corte de recursos orçamentários para o programa espacial dos Estados Unidos já no final do Programa Apollo, o então presidente Richard M. Nixon, em 1972, concordou apenas com a construção de ônibus espaciais e de uma estação espacial experimental, a Skylab (Dupas, 2000).1 Enquanto a estação espacial estadunidense esteve
ocupada por no máximo um ano, os ônibus espaciais transportaram astronautas por um período de 30 anos, de 1981 a 2011, quando foram retirados de serviço. Sua construção foi proposta como uma alternativa para a redução de custos, pois se tratavam de veículos recuperáveis, diferentes dos foguetes que serviam apenas para uma única missão. Para não ficarem atrás dos estadunidenses, os soviéticos também desenvolveram um projeto de ônibus espacial recuperável, chamado Buran. Impulsionado pelo foguete Energia, ele voou ao espaço apenas duas vezes, em julho de 1983 e em novembro de 1988, de forma automática. Com o fim da União Soviética, o projeto foi cancelado por falta de recursos.
Abandonado o programa de viagens à Lua, a partir dos anos 1970 os soviéticos deram sequência ao seu programa espacial tripulado investindo na construção de estações espaciais. A decisão tomada no final de 1969 resultou na colocação em órbita da sua primeira estação espacial, a Salyut-1, em 1971. Dois anos depois, em 1973, os estadunidenses lançaram a sua estação orbital, a Skylab. Ao longo de 30 anos, com as estações Salyut e depois a estação
1 Seguindo a tradição estabelecida por Eisenhower quando do estabelecimento da primeira política espacial dos
Estados Unidos, logo após a crise do Sputnik em 1957, estabeleceu-se que cabe ao poder executivo do país elaborar as políticas espaciais tanto para o âmbito civil quanto para o militar. A proposta elaborada pelo Executivo deve ser aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos, a quem também cabe aprovar anualmente as dotações de recursos financeiros previstas pelo orçamento federal do país. A execução da política espacial é realizada pela NASA, que coordena os programa de exploração científica e missões tripuladas, e por várias agências ligadas ao Departamento de Defesa (DoD), ligadas aos programas para comunicações, reconhecimento, mapeamento, navegação e localização, defesa e inteligência, e mísseis. As forças armadas dos EUA também executam a política espacial por meio do Air Force Space Command, do Naval Space Command e do Army Space and Missile Defense Command. Ainda cabe ressaltar, sobre o campo das políticas espaciais, a atuação do Department of Commerce (que opera o GPS voltado para uso civil) e da National Oceanic and Atmospheric Administration (que opera os satélites de sensoriamento remoto como o Landsat).
espacial MIR, os soviéticos e depois russos, mantiveram de maneira quase permanente no espaço ao menos dois cosmonautas. Com o fim da União Soviética, ampliaram-se as relações de cooperação internacional entre a Rússia e outros países. Estas cooperações tiveram início ainda com a União Soviética e tiveram como marco o acoplamento de uma nave Souys a uma nave Apollo em julho de 1975. A partir de 1995, a estação espacial MIR passou a receber tripulações de outros países, principalmente estadunidenses, transportados pelos ônibus espaciais. Esta experiência foi o prenúncio da cooperação tecnológica entre os ex-inimigos que levaria anos depois à construção conjunta da Estação Espacial Internacional, ocorrida entre 1999 e 2011.
No período que vai do lançamento da cadela Laika, em 1957, ao fim das missões à Lua, já na década de 1970, temos um primeiro momento das missões tripuladas de exploração espacial responsável pelo desenvolvimento das condições de habitabilidade das cápsulas ou naves espaciais, sem as quais seria impossível ao ser humano permanecer no espaço. Trata-se de um período de testes à resistência e de experimentações do corpo humano no inóspito ambiente espacial. A cada missão espacial, e à medida que os avanços tecnológicos foram permitindo maior permanência humana no espaço, estadunidenses e soviéticos foram descobrindo mais habilidades que poderiam desempenhar nas missões espaciais. O conjunto destes investimentos permitiu aperfeiçoar a produção do corpo astronauta.
A partir da década de 1970, tem-se um segundo momento das missões tripuladas, no qual verifica-se o aumento do tempo de permanência humana no espaço, sobretudo devido à construção das estações espaciais. As estações foram se tornando cada vez maiores, mais complexas e se transformaram em laboratórios espaciais para a realização de experiências científicas. No lugar da competição entre países, dentro delas passou-se a estimular a convivência tolerante de viajantes espaciais de várias nacionalidades.
Em uma avaliação geral dos mais de 50 anos de ocupação do espaço sideral pelo homem, constata-se que o chamado “paradigma von Braun” foi parcialmente concretizado. O
homem foi à Lua e construiu estações espaciais na órbita terrestre, porém não instalou nenhuma estação permanente na Lua e ninguém pisou no solo de Marte. Apesar da atual ocupação espacial priorizar a exploração robótica, a realização de missões tripuladas nunca foi interrompida e volta e meia as tradicionais potências espaciais (EUA e Rússia) anunciam projetos para a retomada de missões à Lua, de construção de bases no satélite ou para viagens à Marte. Enquanto isso, novas potencias espaciais como a China e a Índia avançam enviando sondas à Lua e a Marte e programam-se para realizar missões tripuladas ao satélite da Terra e construir estações espaciais, como é o caso da China, recusada pelos EUA para integrar o consórcio de construção e gestão da Estação Espacial Internacional2.
A retomada do percurso realizado pelas missões tripuladas ao espaço tem aqui um interesse que vai além da recuperação histórica destes fatos. Por meio das missões tripuladas é possível acompanhar o desenvolvimento de tecnologias de habitabilidade, ou seja, a invenção de aplicações tecnocientíficas que permitiram transformar o ambiente inóspito do espaço em um meio passível de abrigar a vida humana.
Em seu retorno à Terra, estas tecnologias da habitabilidade contribuíram para o estabelecimento de um regime de melhorias sobre o corpo humano, voltado para o aporte de mais qualidade à vida, correlato à emergência das sociedades de controle. Desta forma, das missões tripuladas também derivaram spin-offs políticos orientados para o governo da vida por meio da configuração de mecanismos de regulação que fundiram corpo-máquina e corpo-
2 Em 2007, a China manifestou que gostaria de participar do consórcio responsável pela Estação Espacial
Internacional. O anúncio da intensão chinesa ocorreu quatro anos após o país ter demonstrado sua capacidade de realizar com sucesso uma missão tripulada, a que levou à órbita o primeiro taikonauta. O então diretor da Agência Espacial Europeia (ESA), Jean-Jacques Dordain, declarou em 2010 que a agência proporia aos seus parceiros (EUA, Rússia, Japão e Canadá) a entrada da China no consórcio. 0s Estados Unidos recusaram a proposta alegando preocupações como respeito à transferência de tecnologia aos chineses que poderiam aplicá-la a programas militares. A cooperação entre EUA e China que já era bem limitada foram mais dificultadas com a adoção de legislação nos Estados Unidos que impede a cooperação da NASA com a China ou empresas chinesas. Cf. Rhian, Jason. “Can China enter the international space Family?”. Universe Today. 10/01/2011. Disponível em: http://www.universetoday.com/82368/can-china-enter-the-international-space-family/. Consultado em: 25/04/2014.
espécie em um só corpo a ser governado por meio de adaptações ao meio em que ele estiver inserido, podendo ser uma nave espacial ou o planeta.
tecnologias de habitabilidade
Cientistas e pesquisadores no final dos anos 1950 utilizavam o termo “ecologia de cabine” (cabin ecology) para fazer referência às tecnologias de habitabilidade empregadas para a produção de ambientes tecnologicamente construídos para proteger o corpo humano de condições extremas que ameaçam ou impedem a sua sobrevivência, como é o caso dos veículos espaciais projetados para o envio de humanos ao espaço sideral. A ecologia de cabine não se resumia à construção de cápsulas espaciais. Seu campo de atuação também envolvia desde a construção de abrigos nucleares em quintais de residências estadunidenses na virada dos anos 1950 para os 1960, à concepção de projetos para o estabelecimento de colônias na órbita terrestre, na Lua ou em Marte, criados por volta dos anos 1970, quando se acreditou que não tardaria muito para a humanidade povoar o espaço.3
Os saberes produzidos pela ecologia de cabine sempre tiveram como objetivo reproduzir o meio ambiente encontrado na superfície da Terra, ou seja, o meio ambiente mais adequado à vida humana, em espaços menores, de menores proporções. Eles voltam-se, basicamente, para a elaboração de sistemas de gerenciamento da circulação do ar, água, alimentos e dejetos. Também podem ser descritos como saberes destinados a dotar os confinamentos de capacidade vital, projetando-os para que possam manter a vida humana da forma mais suto-suficiente possível, com o mínimo de dependência do ambiente externo em que estiverem inseridos. Por este motivo, são chamados de sistemas ecológicos fechados.
3 Entre os principais defensores da colonização espacial está o físico estadunidense Gerard K. O’Neill. As
colônias espaciais idealizadas por O’Neill eram mais do que propostas ecológicas que, segundo o físico, permitiriam “limpar” a exaurida Terra da presença humana. Elas eram vistas como uma experiência de auto- organizaçao da sociedade. O’Neill foi pesquisador da NASA e chegou a apresentar os projetos que elaborou sobre colonização do espaço ao Senado dos Estados Unidos. Seu livro mais conhecido, The High Frontier:
Human Colonies in Space, foi publicado em 1976. Nele, O’Neill descreve a construção das posteriormente chamadas Colônias de O’Neill, as grandes estações espaciais construídas em formato cilíndrico para serem instaladas nos pontos específicos ao redor da Terra.
Embora tenha sido amplamente aplicadas para as missões espaciais tripuladas, a ecologia de cabine teve seu desenvolvimento patrocinado pelos militares durante e no pós Segunda Guerra Mundial.
A ecologia de cabine veio responder a mais uma contingência colocada pelos projetos militares, voltadas agora para a produção de confinamentos ambientalmente adequados para a sobrevivência da vida humana. Seus saberes foram aplicados tanto na elaboração de novas tecnologias para a guerra como para a proteção das populações. Eles foram importantes, por exemplo, para a construção de submarinos e abrigos nucleares. Estima-se que em 1958, mais de 200 cientistas do American Institute of Biological Sciences dedicavam-se a projetos de ecologia de cabine para submarinos4. Durante a administração Kennedy, o Office of Civil
Defense distribuiu à população o manual técnico Shelter Design and Analysis, que ensinava a construir abrigos nucleares (Figura 4) subterrâneos a partir dos princípios dos sistemas ecológicos fechados aplicados tanto em submarinos quanto em naves espaciais (Anker, 2005).
Fonte: abcnews.com
4 Embora os submarinos tenham sido utilizados como arma de guerra desde o final do século XIX, foi apenas nos anos
1960, com a propulsão nuclear, que eles se tornaram capazes de ficar submersos por mais de meses. Desde então, tornaram-se prementes as preocupações relacionadas a questões de sobrevivência e de condições de trabalho a bordo destes veículos. Permanências de longo período submerso colocaram, portanto, a necessidade de aprovisionamento de suprimentos necessários para a manutenção da tripulação. Da mesma forma, tornou-se necessário acompanhar a resistência física e mental da tripulação a estas condições extremas de vida (Poupon, 2012).
Figura 4. Modelo de abrigo nuclear para famílias estadunidens nos anos 1960
A produção de saberes sobre ecologia de cabine também recebeu aportes dos estudos sobre a capacidade de resistência do corpo humano ao confinamento e isolamento em ambientes extremos. Experiências sobre a vida em condições extremas passaram a ser realizadas com a implantação de bases permanentes nas regiões polares, sobretudo na Antártida. Por ocasião do Ano Geográfico Internacional (1957-1958) e da assinatura do Tratado da Antártida (1959) o continente foi aberto à exploração científica a mais de 40 estações de pesquisa de vários países.
Com o anúncio do projeto dos Estados Unidos feito por Kennedy, em 1961, de enviar homens à Lua, recursos financeiros foram deslocados para estudos do que se passou a denominar “ecologia espacial”. Nesta mesma época, a Sociedade Ecológica Americana criou sua sessão de Ecologia Espacial com o objetivo de aproximar ecólogos naturais de engenheiros e militares que pesquisavam a exploração espacial. Também com o intuito de apoiar pesquisas nesta área, a NASA e o Office of Naval Research promoveram três conferências sobre “Ecologia Humana no voo espacial”, realizadas na Princenton University, de 1963 a 1965.
Estes encontros contaram com a participação do ecólogo Eugene P. Odum, que durante os anos 1950 foi patrocinado pela Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos para pesquisar contaminação nuclear e elaborou uma abordagem cibernética dos ecossistemas, traduzindo-os em fluxos de energia. Eugene Odum via a construção de cabines espaciais como a separação de uma porção da biosfera por muros que a isolariam do ambiente exterior, mas que não impediriam o fluxo de energia. Ele acreditava ser possível manter humanos no espaço mediante o estabelecimento de um “clímax ecossistema” (estado constante) composto por várias espécies convivendo na cabine espacial que poderiam prover a “capacidade de carga” de poucos astronautas (Calloway, 1966).
Nestas conferências, o principal desafio colocado pela NASA aos ecólogos estava em produzir ecossistemas viáveis para a vida humana no espaço. A sugestão de Eugene Odum era “combinar componentes naturais com atalhos (shortcuts) mecânicos” para o projeto de uma
cabine espacial que dependesse apenas de energia solar e possuísse sistemas de circulação de detritos, do ar, da água e até mesmo permitisse a produção de alimentos para a tripulação. Para o caso de longas missões, a proposta era que os astronautas se alimentassem de algas ou lesmas. Outros ecólogos sugeriram que microorganismos presentes na urina poderiam servir como fonte de nutrição dos astronautas.
Estas conferências reafirmaram que a cabine espacial deveria ser um ecossistema autosuficiente e estável, no qual o astronauta seria mais um dos elementos integrantes deste ecossistema fechado. Como afirma Myers: “o humano vai para o espaço não como um passageiro, mas como uma parte essencial dos instrumentos necessários para uma missão específica” (1967: 409).
Embora a NASA tenha promovido estes encontros para aprimorar a produção de saberes sobre tecnologias da habitabilidade, desde os anos 1940 cientistas, engenheiros, biólogos e médicos vinham se dedicando a pesquisas sobre ecologia de cabine por meio de testes sobre a resistência animal às altas altitudes.
cobaias espaciais: vida e morte em órbita
Assim que os primeiros exemplares de V-2 passaram a ser testados pelos vencedores da Segunda Guerra, nos EUA os cientistas começaram a realizar experimentos com animais inicialmente inseridos em rudimentares cápsulas no interior dos V-2s e depois nos foguetes e mísseis produzidos pelo país, como o Aerobee, entre o final dos anos 1940 e o início dos 1950. Os chamados “foguetes biológicos” foram os primeiros a realizarem voos suborbitais com seres vivos, dentre eles ratos e pequenos macacos, para verificar a reação de seus corpos às altíssimas altitudes. No final de 1949, os Estados Unidos haviam realizado quatro voos com macacos Rhesus (Macaca mulata) embarcados em foguetes V-2, escolhidos para a experiência devido a sua inteligência e sua similaridade fisiológica com humanos. As experiências mostraram que, embora a maior parte dos animais tivesse morrido devido a
falhas mecânicas dos foguetes, eles não sofreram nenhum mal causado pela aceleração ou por sua exposição à microgravidade ou aos raios cósmicos.
Artigos publicados sobre estes testes chegaram ao conhecimento de cientistas soviéticos, especificamente nas mãos de cientistas da equipe do médico Vladmir Yazdovskiy, do Instituto de Medicina de Aviação de Moscou, responsável pela pesquisa biomédica de voos tripulados do programa espacial soviético. Yazdovskiy foi convidado pelo engenheiro