Ao mesmo tempo em que investiam em satélites espiões, as chamadas superpotências rapidamente se prepararam para implementar projetos de lançar na órbita terrestre artefatos que possibilitassem sistemas de comunicação de voz e imagens para grandes distâncias e garantissem uma operação contínua e instantânea de informações.
Antes mesmo da ocupação da órbita terrestre, as telecomunicações estavam incluídas entre as propostas para aplicação das tecnologias espaciais. Um dos pioneiros a defender este uso para os satélites foi o britânico Arthur Charles Clarke (1917-2008), inventor e autor de obras de ficção e divulgação científica, dentre elas o conto “The Sentinel”, no qual o cineasta Stanley Kubrick se baseou para rodar a clássica obra do cinema de ficção “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Clarke publicou em outubro de 1945, na revista Wireless World, o artigo “Can Rocket Stations Give Worldwide Radio Coverage?”, no qual lançava o conceito de satélite geoestacionário, a ser aplicado para o desenvolvimento das telecomunicações planetárias. Em 1951, o exército dos EUA elaborou um projeto para que a superfície da Lua fosse utilizada para a retransmissão passiva de comunicações transmitidas a partir da Terra.
Os satélites estão intimamente relacionados à emergência da noção de globalização que viria se tornar amplamente conhecida nos anos 1990. O filósofo e teórico da comunicação Marshall McLuhan foi inspirado pela colocação em órbita dos primeiros satélites de comunicação, quando nos anos 1960 elaborou seu conceito de “aldeia global”, um precursor da noção de globalização.
Os Estados Unidos foram os primeiros a investir no campo das comunicações, inclusive contando com a iniciativa privada para o desenvolvimento de satélites. Em 1958, o satélite Score inaugurou as telecomunicações espaciais, mas ele não fazia mais do que transmitir uma mensagem de Natal pré-gravada pelo presidente Eisenhower. Por sua vez, o
satélite Courier, lançado em 1960, podia receber mensagens do solo e, posteriormente, difundi-las. Definitivamente, a simultaneidade não era uma característica destes primeiros satélites. Naquele mesmo ano, a NASA lançou o satélite Echo – na realidade um balão revestido por uma fina camada de alumínio de 30 metros de diâmetro –, utilizado para testes de comunicação passiva, ou seja, um artefato que apenas refletia sinais, funcionando como um espelho, com o inconveniente de diminuir o sinal recebido. Estes três primeiros satélites tinham sido construídos com o objetivo de realizar experimentos envolvendo a comunicação militar via satélite.
Em julho de 2012, completou 50 anos que os Estados Unidos lançaram ao espaço o seu primeiro satélite comercial de comunicação. O Telstar-1, que recebia sinais da Terra e os amplificava antes de reenviá-los, foi desenvolvido dentro do modelo de “projeto”30 (Lamy,
2011): tratava-se de uma parceria entre a NASA e a American Telephone and Telegraph (AT&T) para a construção de um dispositivo orbital destinado a ligações telefônicas de longa distância e transmissão de sinais de televisão ao vivo entre Europa e Estados Unidos.
A era das telecomunicações em tempo real começou com a transmissão de uma conversa telefônica do então presidente da AT&T com o vice-presidente estadunidense Lyndon Johnson, enquanto na mesma data, em 10 de julho de 1962, o país dava sequência a testes de armas nucleares próximo às Ilhas Christmas, no Oceano Pacífico.
O presidente Kennedy, em mensagem ao Congresso estadunidense, disse que o Telstar-1 era a “prova de que o governo e a indústria estão em condições de colaborar num campo de atividades particularmente importante” e que a era das telecomunicações que ali se
30 O sociólogo Jerôme Lamy aponta que a Segunda Guerra Mundial transformou de forma decisiva as práticas
científicas com a “emergência de uma cultura de urgência orientada para objetos precisos, junto com recursos a meios técnicos e organizacionais novos, colocados em ação para fornecer resultados práticos, concretos e rapidamente aplicáveis” (2011:236). Destaca que o setor nuclear e o espacial foram os primeiros domínios da Big Science a inventar novas formas de trabalhar e de orientar as práticas científicas no modelo do projeto. Sobretudo nos Estados Unidos, com a NASA, esta nova forma de fazer ciência e produzir tecnologia rompe com o modelo fordista e vai associar e distribuir competências, gerir os meios técnicos e coordenar o trabalho de variadas instituições públicas e privadas, configurando assim um novo modelo de planificação da ação que visa a maestria e a redução de incertezas.
iniciava tinha “como objetivo obter uma melhor compreensão entre os povos”.31
Treze dias após o lançamento do Telstar-1, Estados Unidos, Canadá e 16 países europeus puderam assistir, simultaneamente, o programa transmitido dos Estados Unidos com uma entrevista do presidente Kennedy, na Casa Branca. Após a entrevista, os habitantes dos Estados Unidos e Canadá puderam ver imagens do Big Bang londrino, do Arco do Triunfo francês e do Coliseu italiano no programa exibido diretamente de vários países europeus. Embora o Telstar-1 permitisse a transmissão por apenas 20 minutos – tempo da passagem que realizava pela estação retransmissora em solo –, sua operação mostrou ser viável a transmissão de TV ao vivo entre continentes.
A partir de 1964, com os satélites Syncom, os primeiros colocados em órbita geoestacionária, na qual a velocidade orbital é a mesma da velocidade de rotação do globo terrestre, as transmissões de TV puderam ser realizadas continuamente por 24 horas. O Syncom-3, colocado em órbita em 1964, permitiu a transmissão dos Jogos Olímpicos de Tóquio para os Estados Unidos. Com o decorrer dos anos a órbita geocêntrica se tornou a mais disputada entre os países, pois permite a cobertura ininterrupta de uma região do planeta por um satélite devido à sincronia de sua velocidade e à do planeta.
Na União Soviética, os primeiros satélites de comunicação também foram destinados para uso militar. Em 1964, os soviéticos lançaram os satélites Strela e, a partir de 1965, os satélites Molnya. Uma característica peculiar destes primeiros satélites de comunicação soviéticos é a de que eles foram colocados em uma órbita elíptica, que passou a ser chamada de Órbita Molnya. Esta órbita é a que mais atendia aos interesses da URSS, já que a maior parte do seu território se encontrava em altas latitudes e as órbitas elípticas são propícias para tais latitudes. Com os satélites Molnya foram realizados os primeiros testes de transmissão de
31 O Estado de S. Paulo. Kennedy ressalta o significado da nova era de comunicações intercontinentais por satélites. 12/07/1962. Disponível em: http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19620712-26753-nac-0001-999-1- not. Consultado em 10/08/2012.
programas de televisão no território da URSS. Em 1967, os soviéticos criaram seu sistema nacional de televisão via satélite, chamado Orbita (Pravda, 2001)32. Os satélites Molniya
foram lançados ao espaço até o início dos anos 1980.
Graças à ocupação da órbita, estabeleceu-se a infraestrutura tecnológica que permitiu a comunicação instantânea, da qual o nosso presente é extremamente dependente, integrando em tempo real lugares distantes e continentes. Embora tivessem como objetivo inicial amplificar as trocas de informações militares, os satélites de telecomunicação logo foram empregados na comunicação civil, a qual também foi estrategicamente utilizada durante a Guerra Fria. Ela alimentava a competição Leste-Oeste tanto do lado capitalista quanto do lado socialista, ao permitir a manutenção das populações continuamente informadas.
A Guerra Fria, com seus satélites, revelou a faceta abertamente política e estratégica da ocupação do espaço sideral e de controle contínuo da comunicação com as populações. A partir de 1962, tornou-se um interesse prioritário dos países criarem consórcios nacionais de telecomunicação via satélite. Não apenas nos países chamados de “Primeiro ou Segundo Mundos”, mas também entre os do Terceiro Mundo, pobres e subdesenvolvidos que não tinham condições econômicas e tecnológicas para dispor de satélites e foguetes.
As telecomunicações via satélite foram as primeiras que declaradamente assumiram o caráter não localizado e abrangente das atividades espaciais. Aliás, o seu negócio era justamente mostrar que os satélites não eram limitados por relevos ou fronteiras. Elas rapidamente procuraram impulsionar a formação de sistemas internacionais de comunicação, claro que sem desrespeitar a divisão bipolar do planeta estabelecida pela Guerra Fria.
O primeiro destes sistemas a ser fundado foi a International Telecommunications
Satellite Organization (na sigla em inglês, Intelsat, que significa Organização Internacional de Satélites de Telecomunicações).
32 PRAVDA. October 1 Russian TV Celebrates 70th Anniversary. 01/10/2001. Disponível em:
http://web.archive.org/web/20041031045047/http://english.pravda.ru/culture/2001/10/01/16678.html. Consultado em 18/07/2012.
Inicialmente, a Intelsat era um consórcio formado por 11 países, criado de forma provisória em 1964, resultante da decisão estadunidense de atender ao pedido dos países europeus de criar conjuntamente uma organização internacional para a prestação de serviço público de telecomunicações via satélite, sem interesse lucrativo. Ela era um organismo supraestatal que reunia empresas nacionais de telefonia que, nesta época, eram todas empresas estatais que dispunham do monopólio dos serviços de telecomunicação em seus países. Portanto, também neste caso, foi o dinheiro público que financiou os sistemas internacionais de comunicação via satélite. Em 1987, a Intelsat reunia 138 países e em 2000 este número chegou a 200 países.
No ano de 1971, a URSS criou a sua versão de um sistema internacional para a prestação de serviços de telecomunicação, a Organização de Telecomunicações Espaciais Interspoutnik. Esta organização visava combater o monopólio estadunidense nas telecomunicações via satélite, o que estava longe de ser apenas uma retórica ideológica. Ela reunia inicialmente apenas os países do bloco soviético. Em 2008, 25 países faziam parte da organização. Desde 1997, a Interspoutnick possui uma joint venture, a Lockheed Martin Interspoutnik (LMI), criada em associação com a empresa Lockheed Martin, uma das principais empresas privadas do setor de telecomunicações via satélite em todo o planeta.
Sob forte pressão estadunidense, o consórcio intragovernamental Intelsat foi privatizado em 2001, formando a empresa Intelsat Ltd. Em 2011, a Intelsat operava um conjunto de 52 satélites de comunicação, o maior conjunto de satélites comerciais do planeta. Além da Intelsat Ltd. e da Lockheed Martin Intersputnik, outras empresas atuam no mercado de telecomunicações via satélite, acompanhando o surgimento de outras companhias com a expansão da telefonia celular, inclusive algumas delas que apostaram na criação de suas próprias constelações de satélites (Iridium, Globalsat, etc.)
International Maritime Satellite Organization, a Inmarsat, voltada para a comunicação a grande distância de navios e estações costeiras, a qual reunia em parceria os Estados Unidos e a União Soviética. A Inmarsart, criada a partir da iniciativa da agência da ONU chamada Organização Marítima Internacional, foi privatizada em 1999.
O período que vai do final da década de 1990 ao começo do século XXI foi marcado pela transposição da administração e da exploração dos satélites de comunicação das mãos de organizações ou empresas estatais e de governos para a iniciativa privada.
Nesta transferência fica explícito como o dispendioso desenvolvimento da alta tecnologia foi historicamente financiado de forma coletiva por meio dos impostos públicos e posteriormente repassados para as mãos de poucos interesses privados que lucraram com a comercialização destes serviços e tecnologias. Este processo não ocorreu apenas com os satélites de comunicação; tentou-se fazer o mesmo com os satélites de sensoriamento remoto, que está atualmente despontando como um importante mercado para as tecnologias espaciais. Mesmo que tenham sido criadas a partir de recursos privados, foram os Estados que arcaram com o caro desenvolvimento desta tecnologia.
Também com as tecnologias espaciais, ocorreu algo semelhante ao que Foucault analisa sobre a medicina na Conferência “Crise da Medicina ou crise da antimedicina”, proferida em 1974, no Rio de Janeiro. De acordo com Foucault (2010), embora os sistemas de saúde nacionais sejam financiados pelos Estados a partir do recolhimento de impostos e sejam responsáveis pelo desenvolvimento do que há de mais avançado, eles acabam sendo repassados para a exploração da iniciativa privada, que se beneficiará dos lucros do que foi coletivamente financiado.