I. BÖLÜM
4. TOPLUMSAL CİNSİYET KAVRAMININ YENİDEN YORUMLANIŞI:
Considerando que durante este estudo utilizamo-nos de documentos contidos em arquivos privados, dentre eles o Arquivo Pessoal Ubiratan D’Ambrosio (APUA), Arquivo Pessoal Osvaldo Sangiorgi (APOS), Acervo Benedito Castrucci e Arquivo Morto da Escola Politécnica de São Paulo, foram observados alguns cuidados, atentando para os ensinamentos de Prochasson (1998), para quem o pesquisador, ao descrever a história a que se propõe, deve equilibrar as conclusões do arquivo pessoal com as fontes administrativas e estatísticas, e com a história da época, evitando, dessa forma, a segmentação da história e obtendo uma visão mais geral dos fatos.
O pesquisador deve procurar descobrir os segredos que estão por trás de cartas e correspondências, cuidando que, nem sempre tais documentos são reveladores, pois, embora as correspondências pessoais não tenham, a priori, a intenção de divulgação, existe a possibilidade de que estas tenham sido escritas com a intenção de que fossem mais tarde divulgadas (PROCHASSON,1998).
Buscamos ainda, fazer uma leitura crítica dos documentos que se fizeram pertinentes, investigando as razões pelas quais estes documentos foram produzidos, preservados e de que modo interferiram na sociedade em que se encontram inseridos. Neste caso, utilizamos o termo documento no sentido empregado por Le Goff:
O documento não é inócuo. É antes de mais nada o resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história, da época, da sociedade que o produziu, mas também das épocas sucessivas durante as quais continuou a viver, talvez esquecido, durante as quais continuou a ser manipulado, ainda que pelo silêncio. O documento é coisa que fica, que dura, e o testemunho, o ensinamento (para evocar a etimologia) que ele traz devem ser em primeiro lugar analisados desmistificando-lhe o seu significado aparente. O documento é monumento10. Resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro – voluntária ou involuntariamente – determinada imagem de si próprias. (LE GOFF, 1982).
Cabe ao pesquisador analisar as condições de produção dos documentos, desestruturando-os com o auxílio de uma crítica histórica. Para que o documento contribua para uma história total, necessário se faz estudá-lo em conjunto com outros documentos, sem subestimar o ambiente que o produziu, recorrendo a documentos iconográficos, provas, que forneçam dados que permitam a descoberta de fenômenos em situação de modo a transferir o documento do campo de memória para o da ciência histórica (LE GOFF, 1982).
A esse respeito, De Certeau (1982) assinala que ao proceder a uma redistribuição dos objetos, obtemos novos objetos. Pelo simples fato de recopiar, transcrever ou fotografar estes objetos muda-se ao mesmo tempo seu lugar e seu estatuto. Produzem-se novos documentos.
O estabelecimento de fontes é feito por meio da combinação de um lugar (um recrutamento, meio econômico, político, cultural, uma profissão), de um aparelho (arquivos, informações, registros) e de técnicas. Um trabalho é científico, no sentido observado por De Certeau, quando opera uma ação instauradora, por
10 Para Le Goff, a história é a forma científica da memória coletiva. Os materiais da memória apresentam-se
de duas formas principais: o monumento, aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação, por exemplo, os atos escritos; e os documentos, escolha do historiador, que nos dizeres de Febvre: “tudo o que, pertencendo ao homem, depende do homem, serve o homem, exprime o homem, demonstra a presença, a atividade, os gostos e as maneiras de ser do homem.” (LE GOFF, 1982).
meio de técnicas transformadoras. Utiliza, de modo diverso, os recursos conhecidos, iniciando, a partir do modo de utilização das fontes, a escrita de uma nova história. Assim, De Certeau considera que,
... a título de novas pertinências, constitui como documentos, utensílios, composições culinárias, cantos, imagens populares, uma disposição de terrenos, uma topografia urbana, etc. Não se trata apenas de fazer falar estes ‘imensos setores adormecidos da documentação’ e dar voz a um silêncio, ou efetividade a um possível. Significa transformar alguma coisa, que tinha sua posição e seu papel em alguma outra coisa que funciona diferentemente [grifo do autor] (1982, p. 82-83).
Em razão de novas intervenções passam a surgir respostas novas. Ainda assim, adverte De Certeau, prolifera a idéia antiga de que nos arquivos ou aparelhos já se concentram todas as possíveis respostas.
A periodização (1950 a 1980) estabelecida para o desenvolvimento deste estudo, possibilitou contar com fontes orais para esta pesquisa, fossem elas captadas diretamente por esta pesquisadora ou mesmo por meio de depoimentos prestados a outros pesquisadores. Assim, professores dessa época puderam ainda ser entrevistados, permitindo, a partir de suas reminiscências, conhecer o que essas pessoas vivenciaram e experimentaram durante o MMM, o que possibilitou a obtenção de novos dados, diferentes ou confirmadores daqueles revelados por documentos escritos até então disponíveis, evidenciando como as práticas do ensino de Matemática foram efetivadas nas escolas.
A partir dessas considerações, nosso estudo buscou constatar como se processam as práticas do fazer matemático em nossa história cultural, através da reconstrução de trajetórias de matemáticos, os quais tiveram participação no ensino da matemática, reveladas pela análise de suas produções envolvendo o ensino da matemática brasileiro. Neste aspecto, esforçamo-nos no sentido de responder ao seguinte questionamento: que estratégias e táticas estão envolvidas na dinâmica de relacionamento entre as culturas acadêmica e escolar ao tempo do MMM?
C
APÍTULO 2
O NASCIMENTO DA MATEMÁTICA MODERNA
Cesse tudo o que a musa antiga canta. Que outro valor mais alto se alevanta.
Luis Vaz de Camões
Antes mesmo de entrar na essência do Movimento da Matemática Moderna (MMM), assunto que será tratado em capítulo posterior, consideramos conveniente apresentar uma síntese do que ficou conhecido por “Matemática Moderna”, matéria indispensável, a nosso ver, para auxiliar a compreensão da História da Educação Matemática no Brasil, no período de 1950 a 1980, época em que ocorreu o início, consolidação e declínio do MMM em nosso país.
As preocupações, em termos estruturais e axiomáticos, com o desenvolvimento da Matemática serviram de base para implementação do MMM em todo o mundo, sendo possível identificar seus sinais também no Brasil, em meados do século XX. Muito embora tenha laços de dependência com os propósitos norteadores levados a cabo nos países desenvolvidos, o MMM no Brasil assume uma dinâmica específica, e, para compreendê-la necessário se faz discorrer sobre a origem e características da Matemática Moderna, para, posteriormente, buscar analisar como esta foi apropriada pelo campo educacional.
Nesse sentido, valemo-nos especialmente de um estudo realizado por Frédéric Patras em sua obra intitulada “La pensée mathématique contemporaine”, a qual nos remete a reflexões sobre a origem da Matemática Moderna. Nela, o autor realiza uma análise crítica de suas principais características e o modo como estas aparecem nos trabalhos de matemáticos dos séculos XVIII e XIX, fazendo florescer o Movimento da Matemática Moderna no século XX.
Da obra de Patras, interessou-nos especificamente o capítulo III – “As origens da matemática moderna” e o capítulo V – “A corrente estruturalista”, tópicos em que o autor analisa a trajetória do Grupo Bourbaki e o importante papel que este grupo desempenhou no MMM, traçando em seguida, uma análise crítica do Movimento da Matemática Moderna.
Tomamos o estudo de Patras como equivalente a uma estrutura-mãe, fazendo uma analogia à organização teórica matemática, de forma que a narrativa se desenvolva tomando por base seu trabalho como eixo organizador. Há que se explicitar, ainda, que incorporamos a esse eixo obras de outros autores, não menos relevantes, cujas críticas forneceram informações complementares sobre o assunto tratado, com a intenção de que esse capítulo se constitua em um quadro epistemológico para a análise da Matemática Moderna, principal referência para o MMM.