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1.2. Toplumsal Cinsiyet ve Roller

1.2.2. Toplum ve Kadın

A peça didática “O Voo sobre o Oceano” - Peça Didática Radiofônica para Rapazes e Moças (Der Ozeanflug – Radiolehrstück für Knaben und Mädchen), escrita entre 1928 e 1929, contou com a colaboração de E. Hauptmann e K. Weill, estreando em 27 de julho de 1929 em Baden-Baden, na “Semana Musical de Baden-Baden”. Os personagens da peça são: o Rádio, os Aviadores, a América (rádio), a Cidade de New York (rádio), o Navio “Imperatriz da Escócia” (rádio), o Nevoeiro, a Nevasca, o Sono, a Europa (rádio) e os Pescadores; ela está dividida em dezessete partes: Apelo Geral; Os jornais americanos celebram a imprudência dos aviadores; Apresentação dos aviadores e sua partida de New York para a Europa; A cidade de New York interroga os navios; Durante quase toda a duração do voo, os aviadores têm que lutar contra o Nevoeiro; Naquela noite caiu uma nevasca; Sono; Ideologia; Água; Durante todo o voo os jornais americanos não cessaram de falar sobre a sorte dos aviadores; Os pensamentos dos homens de sorte; Assim voam eles, escreviam os jornais franceses, por cima das tempestades, ao redor, o mar, e embaixo, a sombra de Nungesser; O diálogo dos aviadores com o motor; Finalmente, perto da Escócia, os aviadores avistam pescadores; Na noite de

representar” e “Pequeno Órganon para o teatro” (BRECHT, Bertolt. Estudos sobre teatro. Apresentação Aderbal Freire-Filho, Tradução Fiama Pais Brandão: textos coletados por Siegfried Unseld. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005c).

21 de maio de 1927, às 22 horas, uma imensa multidão esperava os aviadores americanos no aeroporto “Le Bourget”, perto de Paris; Chegada dos aviadores ao aeroporto “Le Bourget”, perto de Paris e Relatório sobre o que ainda não foi alcançado.

No caderno I dos Versuche (Ensaios) (apud BRECHT, 2004, p. 188), em “Nota sobre O Voo sobre o Oceano”, o autor afirma que esta peça é uma tentativa de utilização pedagógica dos recursos do rádio e que, por meio deste, o texto se torna matéria para os exercícios didáticos. Acrescenta que, apesar de esta não ser a maneira mais importante de utilizar o rádio, o aparelho em questão auxilia no experimento com as peças didáticas. Em “Teoria do rádio”, texto escrito entre 1927 e 1932, Brecht (2005a) discute a descoberta do rádio e suas repercussões; reflete sobre a prática dos diretores artísticos do rádio; sugere formas de aplicação deste aparelho para a arte e vice-versa, desde que estas se subordinem à visão da arte e do rádio em geral e faz comentários sobre a peça didática do voo, finalizando com um discurso sobre a função da radiodifusão. Destacaremos duas partes deste texto, relevantes aos nossos propósitos. A primeira se refere à peça didática “O Voo sobre o Oceano”, em que o autor discute as relações entre o experimento com esta peça e o uso transformado do rádio. Os principais aspectos podem ser reunidos nos seguintes itens: a) A peça “O Voo sobre o oceano” é meio e objeto de aprendizagem, pois o objetivo de aprender propicia o valor artístico à encenação; a parte pedagógica da peça é a do aviador, sendo mais importante a exatidão do que a expressão, a leitura e a fala do texto devem ser realizadas mecanicamente e o exercício pedagógico se estende ao ouvinte, de uma das partes do texto, e ao enunciador, da outra parte; b) Pretende-se transformar o uso existente para o rádio com a peça didática; portanto, a reação do ouvinte e sua reintrodução como produtor são exigidas pelo aumento dos meios mecânicos e a crescente especialização que vem sendo desenvolvida, por isso a recepção e a produção são vistas como processos interdependentes; c) A peça foi utilizada como experimento para o uso transformado do rádio no festival de Baden Baden, em 1929; assim, de um lado estavam os aparelhos/cantores da orquestra do rádio, e do outro os ouvintes, que cantavam as notas sob o acompanhamento dos instrumentos do rádio e liam, como um tipo de exercício, fazendo uma pausa ao final de cada verso, sem identificar seus sentimentos com o conteúdo emocional do texto; d) Os exercícios com a peça didática servirão à disciplina, vista como fundamento da liberdade coletiva e deverão

ser úteis a um Estado que pretende também ser útil a todos; desta forma, a peça alcançará seu valor estético e de reflexão se for organizada por um Estado que almeja este fim. Entretanto, os exercícios com a peça didática na sociedade capitalista a tornam revolucionária porque o Estado não possui o objetivo de organizar estes exercícios; e) A encenação deve ter aplicações adequadas, pois uma aplicação equivocada do concerto musical, na qual é mostrada a figura de um herói público, pode induzir os ouvintes a uma separação do coletivo devido a uma identificação com o herói. Esta forma se caracteriza como uma encenação de concerto musical e deve ser evitada, mas caso ela ocorra, a parte do aviador deve ser cantada por um coro, em primeira pessoa, a fim de que o sentido do todo não seja destruído por completo.

A segunda parte que destacaremos do texto “Teoria do rádio” refere-se ao trecho intitulado “A radiodifusão como meio de comunicação. Discurso sobre a função da radiodifusão”. Nele, Brecht (2005a) afirma que o drama épico e seus recursos, que tornam autônomas a imagem, a palavra e a música, além da atitude didática nele presente trazem para o rádio uma série de sugestões práticas que merecem ser analisadas. Porém, sua utilização puramente estética não produz mais do que um modismo; a questão do uso do rádio deve se relacionar ao desenvolvimento do teatro épico e à representação didático-documental. Desta forma, o rádio poderia concretizar uma forma nova de propaganda do teatro, que se traduziria como uma informação real e indispensável a todos. A radiodifusão se tornaria um aparato da comunicação da vida pública. Esta inovação é vista pelo autor como utópica, pois nas grandes instituições não se concretiza tudo o que elas poderiam realizar ou tudo o que nelas se desejaria fazer; no entanto, a proposição das inovações, mesmo que utópicas, servem para impulsionar a renovação das instituições ideológicas sobre a base da ordem social estabelecida. A intenção por trás desta proposição é a de que se desenvolva uma melhor utilização dos aparatos no interesse da comunidade, abalando a base social destes aparatos e discutindo o seu emprego no interesse dos explorados.

Por meio da exposição destes aspectos, com base no texto “Teoria do rádio”, observamos que a peça didática “O Voo sobre o Oceano” se relaciona em seu conteúdo e em sua composição escrita à análise e reflexão sobre os avanços da humanidade, às inovações para o uso do rádio na sociedade e às possibilidades que este oferece ao desenvolvimento de uma nova forma de propaganda do teatro. O

rádio se situa como um meio de divulgação da peça e como parte integrante desta (objeto e meio). A travessia aérea sobre o oceano propõe a reflexão sobre o embate entre o individual e o coletivo, no qual a máquina – avião - simboliza as descobertas, a ciência, a ingenuidade e as possibilidades do que ainda não foi alcançado pela humanidade. Outro fator que merece ser ressaltado é o apontamento realizado por Brecht (2004) para que se proceda a uma alteração no texto de sua peça, quanto à menção do nome Lindbergh. Assim, é preciso substituir o nome deste aviador pelo termo “Os aviadores” e “Fulano de tal” porque o autor não tencionava manter a referência a um homem que compactuara com os ideais nazistas. Em uma carta à rádio Stuttgart (O Süddeutscher Rundfunk), em resposta ao pedido desta em transmitir a peça “O Voo sobre o Oceano”, Brecht aponta como deveria ser a nova versão de sua peça:

A CARTA

Ao Süddeutscher Rundfunk Prezados Senhores:

Se os senhores tencionam transmitir O Voo de Lindbergh em uma retrospectiva histórica, devo lhes pedir que procedam a transmissão de um prólogo e que façam algumas pequenas modificações no texto. É sabido que Lindbergh manteve estreitas relações com os nazistas; seu relatório entusiástico naquela ocasião sobre a invencibilidade da Força Aérea nazista provocou um efeito paralisante em inúmeros países. Como fascista. L. desempenhou igualmente um papel bastante ambíguo nos Estados Unidos. Por isso, o título da minha peça radiofônica deverá ser modificado para O voo sobre o oceano; é imprescindível transmitir o Prólogo e eliminar, no texto, o nome de Lindbergh. (...) Estas modificações podem alterar ligeiramente o poema, mas a supressão do nome de Lindbergh servirá de lição (BRECHT, 2004, p. 184-185).

Diante da postura assumida por Lindbergh, o autor desenvolve uma nova versão de sua peça para que esta mantivesse seu elemento didático, ou seja, ao suprimir o nome deste aviador seria reforçado o caráter de crítica frente à exploração do homem pelo homem e se evidenciaria o repúdio àqueles que aderiram aos ideais nazistas. Na carta ao Süddeutscher Rundfunk é citado, além das alterações quanto à supressão do nome Lindbergh durante a peça, o acréscimo de um Prólogo que expresse uma posição contrária às ações assumidas por este aviador, e que este acontecimento possibilite um aprendizado a ser desenvolvido.

PRÓLOGO

Prólogo, para ser lido antes da transmissão de O voo sobre o oceano:

Vocês ouvirão

O relato do primeiro voo sobre o oceano, Em maio de 1927. Um jovem

O realizou. Ele triunfou

Sobre a tempestade, o gelo e as águas vorazes. Entretanto, Que seu nome seja apagado; pois

Ele, que se orientou por sobre as águas extraviadoras.

Perdeu-se no pântano de nossas cidades. Tempestade e gelo Não o venceram, mas seu semelhante

O venceu. Uma década de glória e o miserável Ensinou os carrascos de Hitler

A pilotar bombardeios mortíferos. Por isso, Seja apagado seu nome. Mas

Lembrem-se: nem a coragem nem o conhecimento

Dos motores e das cartas náuticas inscrevem o antissocial Na epopeia (BRECHT, 2004, p. 185-186).

A realização da travessia é ressaltada, mas o nome de quem a completou deve ser apagado, pois ele tomou uma posição contrária à coletividade. O homem venceu o homem, não foram as forças da natureza que o subjugaram, mas a glória e a exploração. Nos últimos versos do Prólogo, Brecht (2004) explicita a ideia de que aquilo que impulsiona o homem a avançar (“coragem”) e o desenvolvimento do conhecimento inscrito em seus avanços (“Dos motores e das cartas náuticas”) não devem ser abandonados; contudo a postura e o convívio entre os homens são os responsáveis pelas mazelas da coletividade. Esta ideia se torna o fio condutor da peça e a opção pela substituição do nome Lindbergh por “Os aviadores” se integra aos fins do conjunto da obra. Apesar do termo “Os Aviadores” estar definido no plural, as falas deste personagem estão em primeira pessoa, o que retrata a noção de síntese da coletividade em contraposição a uma visão individualista. Lembramos que este aspecto continua a ser abordado nas demais peças didáticas e que também se faz presente em textos não dramatúrgicos de Brecht, como por exemplo, no poema “Perguntas de um trabalhador que lê”:

Quem construiu a Tebas de sete portas? Nos livros estão os nomes de reis. Arrastaram eles os blocos de pedra? E a Babilônia várias vezes destruída –

Quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas Da Lima dourada moravam os construtores?

Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?

A grande Roma está cheia de arcos do triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem

Triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio

Tinha somente palácios para seus habitantes? Mesmo na lendária Atlântida

Os que se afogavam gritavam por seus escravos Na noite em que o mar a tragou.

O jovem Alexandre conquistou a Índia Sozinho?

César bateu os gauleses

Não levava sequer um cozinheiro?

Filipe da Espanha chorou, quando sua Amada Naufragou. Ninguém mais chorou?

Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos. Quem venceu além dele?

Cada página uma vitória. Quem cozinhava o banquete? A cada dez anos um grande homem. Quem pagava a conta?

Tantas histórias.

Tantas questões (BRECHT, 2000, p. 166).

A glória, a riqueza e a fama são temas discutidos por Brecht, e eles se voltam aos dominantes, aos vultos históricos simbolizados em uma figura individual, enquanto a maioria é excluída e oprimida, não tendo seu nome inscrito na história. Estas ideias percorrem a poética brechtiana e, na peça didática “O Voo sobre o Oceano”, o fato de se apagar o nome do aviador simboliza que ele não deve ser o único lembrado na história ou o único digno de reconhecimento. Para projetar, construir e fazer funcionar o avião foram necessários os serviços dos homens da fábrica Ryan de San Diego; com isso, o voo só foi possível pelo trabalho da coletividade. Os aviadores esclarecem esta questão na peça:

OS AVIADORES - Sete homens em San Diego construíram meu aparelho,

Trabalhando, muitas vezes, 24 horas sem parar, Empregando alguns metros de tubos de aço. O que eles fizeram deve me bastar.

Eles trabalharam, eu

Continuo o trabalho deles. Não estou sozinho, somos Oito voando neste avião (BRECHT, 2004, p. 171).

A coletividade converge na figura daquele que pilota a máquina e todos são convidados a assumir o voo. Logo no início da peça, o Rádio anuncia aos Aviadores que estes receberão da coletividade um aparelho, o qual será o responsável pela

primeira travessia área do oceano. Além disso, relata que muitas pessoas estarão à sua espera na Europa; Os Aviadores aceitam o desafio, sobem no aparelho e, apesar de todos os comentários contrários, eles destacam que o mais relevante naquele momento seria a realização da viagem - a travessia pelo oceano-, e que o seu nome não teria importância.

OS AVIADORES – Meu nome não interessa, (...) Meu aparelho fui eu mesmo que escolhi.

Ele voa a 210 km por hora,

Seu nome é ‘Espírito de São Luís’.

As fábricas de aviões Ryan de San Diego Construíram-no em 60 dias. Eu estive lá 60 dias; e durante 60 dias tracei,

Nas cartas terrestres e marítimas, A rota do meu voo. (...)

3 dias fiquei esperando pelo melhor tempo, Mas os relatórios dos observatórios

Não são bons e vão piorar:

Nevoeiro sobre a costa e tempestade sobre o mar. Mas agora não quero mais esperar.

Agora eu vou embarcar. (...) Agora levanto voo.

Há vinte anos o homem Blériot Foi homenageado porque

Sobrevoou 30 miseráveis quilômetros De água salgada.

Eu atravesso

3000 (BRECHT, 2004, p. 167-169).

Os homens das fábricas de aviões Ryan de San Diego, que construíram o aparelho “Espírito de São Luís”, são mais relevantes do que o nome daquele que o pilotará. Além disso, mesmo que os relatórios dos observatórios apontem que o tempo irá piorar, com nevoeiro invadindo a costa e uma tempestade caindo sobre o mar, a travessia não será cancelada. O trabalho dos sete operários das fábricas ao construírem o avião impulsiona a luta contra os obstáculos a serem enfrentados no trajeto. De acordo com Os Aviadores, “(...) sete homens em San Diego construíram meu aparelho, trabalhando, muitas vezes, 24 horas sem parar (...). Eles trabalharam, eu continuo o trabalho deles. Não estou sozinho, somos oito voando neste avião” (BRECHT, 2004, p. 171). Sobrevoavam, portanto, naquele avião os próprios homens de San Diego juntamente com Os Aviadores, que embarcaram na viagem assumindo todos os possíveis riscos. Os 3000 quilômetros a serem percorridos durante a travessia e a coletividade assumida pelo piloto simbolizam a luta contra o

primitivo, a busca pelo avanço da ciência e o fim da miséria, da ignorância e da exploração humana. Estes elementos se interligam às proposições teóricas de Brecht sobre as relações entre teatro e pedagogia e, por meio desta inter-relação, compreendemos que o conceito de didática, nesta peça e nas demais peças didáticas, precisa ser buscado no texto, na condução e na postura assumida frente ao experimento proposto, o qual se encontra amparado por uma visão histórica e dialética da realidade.

Nesse sentido, encontramos em “Pequeno Organon para o Teatro”, escrito em 1948 (BRECHT, 1967; 2005c), a ideia de que o contexto social é constituído por determinadas formas de organização que definem as condições materiais de existência dos homens e que elas pertencem a um dado momento histórico; portanto, as relações humanas não podem ser vistas como eternas e imutáveis. As épocas anteriores e a atual em que vivem os homens devem ser compreendidas como efêmeras e passíveis de mudanças. Com base nesta concepção, os personagens no teatro devem se movimentar por meio de impulsos de caráter social, os quais variam de acordo com a época a que pertencem. Tanto as peças como os homens são tomados como históricos e a atitude crítica pretendida nas peças didáticas será desenvolvida com base neste aprendizado. A ação no palco possibilita a análise das condições históricas da forma como elas são, mas, sobretudo, como elas poderiam e podem ser. A partir destas ideias, analisamos que na peça “O voo sobre o oceano”, assim como em outras peças didáticas (a exemplo de “A peça didática de Baden-Baden sobre o acordo”), os avanços das ciências são abordados como indicadores que caracterizam o homem da era científica e a sua vida em sociedade; porém, também é apontado que o desenvolvimento das ciências como a base para o domínio sobre a natureza, para as descobertas e para as mudanças trazidas ao cotidiano, seja pela modernização dos veículos, pelos aviões, pelo cinema ou pelas transformações nos meios de comunicação, não se estendeu a todos os homens e não lhes possibilitou uma vida mais digna e igualitária. Desta maneira, a produção industrial em larga escala e o uso da natureza como fontes de renda são apontados como meios, na modernidade, para que o homem adapte a natureza às suas conveniências; entretanto, este desenvolvimento não alcança o espírito humano. O autor se expressa da seguinte forma:

Em todas as direções o homem olhava sobre si mesmo com uma nova visão, para ver como ele podia adaptar para suas conveniências os objetivos naturais. De década para década, seu meio ambiente físico se transformava cada vez mais, depois, de ano para ano, e mais tarde, quase que de dia para dia. Eu próprio estou, neste momento, escrevendo em uma máquina que não era conhecida na época em que nasci. Viajo em novos veículos, com uma rapidez que meu avô não poderia imaginar; nada havia naquele tempo que se movesse tão rapidamente. E além disso, elevo-me no ar, o que seria impossível para meu pai. As novas ciências podem ter possibilitado estas grandes alterações – e sobretudo uma possibilidade de modificação de nosso ambiente – mas ainda não pode ser dito que estamos imbuídos de seu espírito e que este nos condicione. A razão por que a nova forma de pensar e sentir não penetrou ainda as grandes massas humanas é que as ciências devem sua supremacia a uma classe – a burguesia – a qual por sua vez foi levada a esta posição pelas ciências na exploração e domínio da natureza, operando em outros setores ainda não muito claros: os das relações dos homens entre si, na ação de explorar e subjugar a natureza. Esta tarefa, da qual dependem todas as outras, foi realizada sem que os novos métodos de pensamento que a possibilitaram, esclarecessem as relações mútuas existentes entre aqueles que a realizaram. A nova visão da natureza não foi aplicada na sociedade (BRECHT, 1967, p. 189).

O avanço das ciências proporcionou alterações no ambiente social, mas os novos métodos de pensamento que impulsionaram este desenvolvimento não alcançaram as relações entre os homens. A exploração e o domínio sobre a natureza contribuíram para que a classe burguesa detivesse privilégios sociais, concentrasse o desenvolvimento das ciências e a condução dos rumos a serem seguidos nas relações entre os homens. As relações de subjugar, explorar e dominar a natureza foram estendidas ao convívio humano pela divisão das classes sociais, e na sociedade capitalista, quanto maior a produção de bens, maior é a miséria das massas; por sua vez, a minoria colhe os lucros da exploração da natureza e estende esta exploração à maioria dos homens. Brecht nos mostra, tanto em suas proposições teóricas quanto em sua dramaturgia, que nem sempre o progresso é de todos ou para todos, que ele foi reduzido à vantagem de uma minoria sobre a maioria e à criação de meios pelo homem para destruir o próprio homem. O autor relata que em tempos antigos, as catástrofes naturais eram as culpadas pelas desgraças sofridas pelos homens; em contrapartida, nos tempos atuais o progresso científico é o meio responsável por lhes trazer a exploração e a destruição, visto que os benefícios das ciências não são voltados a todos os homens. Ainda assim, os avanços que elas possibilitam não devem ser descartados. Esta concepção sobre o

avanço científico é discutida em “O voo sobre o oceano”, e será na figura dos