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Seis (p. 124-125)

– Quando saí ontem do cinema me pediram os docu- mentos. Que medo, Rosa. Você não tem medo?

Lia passou a ponta da lín- gua na unha roída. Demorou para responder.

– Perfeito. Amanhã trago uma lâmpada mais forte. E u- ma folhinha sem anúncio de Coca-Cola. De onde veio esta maravilha?

– Não tenho idéia, porra. Aproximando-se da jane-

Le ragazze

Sei (p. 221-222)

– Ieri quando sono uscito dal cinema mi hanno chiesto i documenti. Che paura, Rosa. Tu non hai paura?

Lia passò la punta della lingua sull’unghia rosicchiata. Ci mise un po’ a rispondere. – Perfetto. Domani porte- rò una lampada più forte. E un blocchetto senza la pubblicità della Coca-Cola. Da dove è sal- tata fuori questa meraviglia? – Non ne ho idea, cazzo. Avvicinandosi alla fine-

Ragazze

Sei (p. 128-129)

– Quando sono uscito dal cinema, ieri, mi hanno chiesto i documenti. Che paura, Rosa. Tu non hai paura?

Lia passò la punta della lingua sull’unghia rosicchiata. Ci mise un po’ a rispondere. – Perfetto. Domani porto una lampada più forte. E un fo- glio senza pubblicità della Co- ca-Cola. Da dove arriva questa meraviglia?

– Non ne ho idea, cazzo. Avvicinandosi alla fine-

145 [Mesmo quando nos propomos de ser escrupulosamente fiéis nos deparamos com ter que operar

escolhas difíceis. Se na tradução queremos ressaltar um aspecto do original que nos parece importante, isso pode acontecer somente, àsvezes, sob a condição de deixar em segundo plano ou até mesmo eliminar outros aspectos também presentes. Mas isso é exatamente o que chamamos de interpretar. A tradução, como qualquer interpretação, é uma elucidação enfatizante. Quem traduz deve assumir a responsabilidade de tal enfatização.]

la, a jovem tentou abrir as ve- nezianas mas o fecho estava emperrado. Espiou por um vão maior entre as tábuas carcomi- das.

– Putz, o pátio interno. Você sabe o que tem aí defron- te?

– Uma alfaiataria, falei com o velho quando cheguei. Legal, Rosa. Está vendo aqui embaixo a rede de arame? Em caso de urgência, dá perfeita- mente pra pular e ir andando até a janela do velhinho. – Que é dedo-duro da Oban. A gente enfia a cabeça na janela e ele agarra a gente pelo pescoço, assim – fez ela puxando Pedro pela gola do pulôver.

Atracaram-se aos safa- nões numa luta breve e feroz. Separaram-se rindo. Ele exami- nou a mordida no pulso e ela prendeu na nuca a cabeleira que ele puxara.

– Você tem força, porra! Acho que ia levar uma surra se continuasse – resmungou ele examinando o braço.

– Mas viu, Pedro. Co- nheço uma freirinha que você olha e diz, bom, não tem uma avozinha igual. Precisa ler as cartas anônimas que escreve pra todo mundo. Só espero que não ache o endereço do Dops, está quase cega.

stra, la giovane cercò di aprire le tapparelle ma la maniglia era incastrata. Sbirciò dal vano più grande tra le stecche consumate. – Cavolo, il cortile inter- no. Sai cosa c’è lì davanti? – Una sartoria, ho parlato con il vecchio quando sono ar- rivato. Simpatico, Rosa. Vedi qui sotto la rete di rame? In caso di emergenza, si può tranquil- lamente scavalcarla ed andare fino alla finestra del vecchietto. – Che è delatore della Oban*. Quando stiamo per infi- lare la testa nella finestra lui ci acchiappa per il collo, così – mimò tirando Pedro per il collo del maglione.

Si presero a botte in una lotta breve e feroce. Si mollaro- no ridendo. Lui esaminò il mor- so sul polso e lei raccolse sulla nuca la chioma che lui le aveva strattonato.

– Sei forte, cazzo! Mi sa che mi sarei preso una bella bot- ta se avessimo continuato – si lamentò mentre esaminava il braccio.

– Comunque, Pedro. Co- nosco una suorina che come la guardi, dici: be’, non c’è una nonna più buona di lei. Dovresti leggere le lettere anonime che scrive alla gente. Spero solo che non trovi l’indirizzo del Dops**, è quasi cieca.

* L’Oban (Operação Ban- deirantes), instaurata ufficial- mente nel 1969 per iniziativa dell’esercito nella città di San Paolo, si è trasformata in un luogo di tortura e assassinio della dittatura.

** Il Dops (Delegacia de Or- dem Política e Social) è stato creato per tenere sotto controllo l’azione dei cittadini, special- mente per quanto riguarda la resistenza alla dittatura militare.

stra, la giovane cercò di aprire le persiane ma la maniglia era incastrata. Si mise a guardare attraverso un vano più grande tra le tavolette di legno marcio. – Accidenti, il patio inter- no. Sai cosa c’è lì di fronte? – Una sartoria, ho parlato con il vecchio quando sono ar- rivato. Fico, Rosa. Vedi la rete di rame qui sotto? In caso di urgenza si può benissimo salta- re e camminare fino alla fine- stra del vecchietto.

– Che è un delatore della Oban. Noi infiliamo la testa nella finestra e lui ci prende per il collo, così – fece lei tirando Pedro per il collo del pullover. Si avvinghiarono tirando- si in una lotta breve e feroce. Si separarono ridendo. Lui esami- nò il morso sul polso e lei si legò dietro la nuca i capelli che lui le aveva tirato.

– Tu sei forte, cazzo! Mi sa che mi davi un sacco di bot- te se continuavamo – brontolò lui esaminando il braccio. – Hai visto, Pedro. Cono- sco una suorina che se la guar- di dici, beh, non esiste neanche una nonnina così. Devi leggere le lettere anonime che scrive a tutti quanti. Spero solo che non trovi l’indirizzo degli sbirri del Dops, è quasi cieca.

Não é difícil notar que é quase sempre através da voz de Lia que a narrativa faz repercutir as marcas da ditadura militar. No diálogo entre os dois militantes transparecem duas referências mais declaradas à ditadura: uma à Oban (Operação

Bandeirantes) e outra ao Dops (Delegacia de Ordem Política e Social). A citação de dois órgãos ligados à repressão da ditadura militar é acompanhada do sugestivo ambiente de desconfiança e medo das delações: qualquer um, até a pessoa menos suspeita (como um alfaiate já velhinho), representava uma “ameaça” em potencial.

Nesse sentido, as referências à Oban e ao Dops fortalecem a presença de vestígios do contexto político da época, remetendo a uma cultura “outra”, “estranha” ao leitor estrangeiro. Por essa razão, pareceu-me imprescindível não apenas manter esses referentes da ditadura militar – que ainda hoje marcam a memória coletiva –, mas esclarecê-los ao leitor italiano. Tal solução, entretanto, não coincide com aquela adotada por Pesante, que manteve as duas citações sem incluir quaisquer informações sobre a função desses órgãos no período da ditadura, acrescentando apenas na menção ao Dops a idéia de que se tratava de uma instituição policial (“sbirri del Dops”). Aqui, como no cotejo anterior, observa-se que cada tradução prioriza um diferente aspecto do texto: de um lado, a enfatização sobre o aspecto cultural, de outro, a enfatização sobre o aspecto rítmico do texto. Pode-se afirmar, portanto, que nos três momentos em que a narrativa se refere de forma explícita à ditadura – depoimento de tortura, citação da Oban e do Dops –, as duas traduções divergem quanto às soluções adotadas.

Em determinados pontos desse diálogo entre Lia e Pedro, o elemento lingüístico também representa uma divergência entre as alternativas encontradas pelas traduções. Um exemplo disso é a construção “mas viu, Pedro”, que foi traduzida literalmente por Pesante (“hai visto, Pedro”); diferentemente do tradutor italiano, priorizei o tom coloquial da fala traduzindo-a por uma construção mais ou menos equivalente do italiano (“comunque, Pedro”). Outra discrepância pode ser encontrada na fala de Pedro, quando conta a Lia sobre o velho alfaiate, definindo-o como legal: nesse caso, Pesante opta por um termo típico da gíria juvenil (fico), enfatizando o caráter coloquial do discurso dos dois militantes, enquanto eu adoto um termo um pouco mais neutro (simpatico), não vinculado a modismos, por considerar que ao longo desse capítulo do romance, protagonizado essencialmente por Lia e pelos seus companheiros de militância, há outras ocasiões em que os personagens se utilizam de uma linguagem mais próxima do estilo coloquial ou juvenil, nas quais era possível manter o mesmo tom do discurso em italiano.

Este é o caso, por exemplo, de uma das falas de Lia, em trecho sucessivo: “Padre a fim de trepar não tem vocação, é um equívoco e essa história de equívoco é abominável” (TELLES, 1998, p. 131), a qual segue a resposta de Pedro: “Focalizo também a esquerda mais-ou-menos. Um cagaço que Deus me livre” (Id., ibid.). Nesses

casos, apesar das diferenças lingüísticas, era possível encontrar soluções que preservassem o tom das falas, como demonstra a semelhança entre as escolhas feitas pelos tradutores na primeira frase. Enquanto na tradução de Pesante temos “Un prete che vuole scopare non ha vocazione, è un equivoco e questa storia dell’equivoco è abominevole” (TELLES, 2006, p. 135), em Le ragazze, encontra-se “Preti che vogliono trombare non hanno vocazione, è un equivoco e questa storia di equivoci è esecrabile” (apêndice A, p. 225). No que diz respeito à resposta do rapaz, as escolhas estilísticas são distintas: Pesante opta por “Dico anche della sinistra più-o-meno. Una cacarella, Dio ce ne scampi” (2006, p. 135), eu, diferentemente, opto por “Focalizzo anche la sinistra così così. Una cagata del cazzo” (apêndice A, p. 225).

Freqüentemente, observa-se que apesar de as traduções escolherem palavras diferentes, adotam procedimentos semelhantes. É o que ocorre na tradução dos termos usados com recorrência por Lia e Pedro: putz e porra. No primeiro caso, trata-se de uma expressão que caracteriza a voz de Lia e, como já vimos anteriormente146, ambas traduções adotam uma solução semelhante147, isto é, a escolha de um termo (no meu caso, cavolo; no caso de Pesante, accidenti) que pode ser repetido todas as vezes em que a personagem recorre à expressão. Já no que diz respeito à expressão freqüentemente pronunciada por Pedro ao longo desse capítulo (porra), as duas traduções coincidem tanto na escolha do termo italiano (cazzo) quanto na forma de empregá-lo (repetindo-o cada vez que o personagem recorre à palavra).

Mas se diante de determinados aspectos do texto – como o lingüístico nesse último caso –, ambas traduções convergem para uma mesma alternativa, os caminhos bifurcam quando o romance alude a referentes geográficos e culturais ou a elementos que remetem à natureza, como mostra o cotejo abaixo:

Cotejo 14: Jaraguá, Ogum e Iemanjá

Benzer Belgeler