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Nas pesquisas qualitativas a análise de dados tem contornos práticos que são diferentes de outros tipos de pesquisas. Gibbs (2009, p. 18), a esse respeito, afirma que:

A pesquisa qualitativa se diferencia [...] porque não há separação entre conjunto de dados e análise de dados. A análise pode e deve começar em campo. À medida que coleta seus dados, por meio de entrevistas, notas de campo, aquisição de documentos e assim por diante, é possível iniciar sua análise.

Assim, na medida em que os dados foram coletados, procedeu-se análises sobre seus conteúdos mantendo perspectiva teórica e crítica sobre o que estava sendo obtido de modo a desenvolver estruturas nos/a partir dos dados, tais como tipologias e padrões. Atento também para a possibilidade de surgimento de elementos que suscitassem novos encaminhamentos investigativos tais como a modificação ou ampliação de questões e perguntas para a pesquisa. Seguindo orientação procedimental proposta por Moraes (2003) e Moraes & Galiazzi (2007), as análises seguiram a abordagem teórico-metodológico da Análise Textual Discursiva. Ela transita entre a Análise de Conteúdo e a Análise do Discurso e se apoia em um ciclo procedimental de três etapas:

 A desmontagem dos textos, que consiste, após sua atenta leitura e significação, em fragmentá-los em unidades de análise buscando perceber os sentidos neles presentes em função dos propósitos estabelecidos para a investigação.

 O estabelecimento de relações, que envolve o processo de categorização das unidades de análise previamente identificadas. A categorização, segundo explica Moraes (2003), é o processo de agrupamento das unidades de análise em conjuntos de elementos de significação próximos. A categorização a ser realizada considerará duas possibilidades. A primeira delas é a categorização a priori, ou seja, buscarei construir conjuntos de elementos em função de categorias previamente estabelecidas em conformidade com o escopo da investigação. A segunda é a categorização emergente, que consiste em ficar atento a categorias que poderão surgir no processo de análise das unidades e que não foram previamente pensadas ou estabelecidas.

A captação do novo emergente, que consiste na expressão das compreensões atingidas num texto constituído de descrições, interpretações, sentidos e significados que promovam a compreensão e teorização do fenômeno investigado.

Em termos procedimentais, na Análise Textual Discursiva das entrevistas buscou-se a codificação dos dados de forma aberta, isto é, tendo por base tanto seus conteúdos quanto os elementos da do referencial teórico. As codificações aberta e conceitual não são excludentes entre si e é comum que pesquisadores transitem entre as duas formas durante a análise (GIBBS, 2009). A ideia foi buscar nos próprios dados das entrevistas estrutura de códigos de tal modo que se pôde estabelecer dimensões comparativas que permitiram encontrar pontos em comum entre as várias entrevistas. Além de olhar para os dados considerando os temas que emergiram dos objetivos da própria investigação, que são:

 Ser professor na universidade;  Ensinar na universidade;

 Relação entre experiências profissionais docentes e não docentes;

 Influências reciprocas das experiências profissionais docentes e não docentes;

Todavia, no processo de análise dos dados não houve rigidez na procura de elementos que representem exclusivamente os temas emergentes da investigação. Como trata-se de

investigação qualitativa cujo percurso metodológico é mais flexível (GIBBS, 2009) e ajustável em função de seu próprio desenvolvimento ao longo do tempo, foi fundamental manter postura e olhar sobre os dados de forma menos restritiva. Em outras palavras, significou permanecer aberto e atento quanto ao olhar sobre e para os dados de modo encontrar neles próprios códigos temáticos emergentes e relevantes em termos de possibilidade de comparação e generalização interna.

Partindo dessa perspectiva de análise, foi possível formar agrupamentos segundo as codificações temáticas e buscar combinações específicas de características comuns que permitiram generalizações internas. A codificação permitiu, portanto, estruturar os dados em termos de ideias temáticas de modo a possibilitar o exame de forma ordenada e organizada.

Mas o que foi codificado? Tomando por base proposta de Gibbs (2009), a codificação buscou:

Quadro12: exemplos do que poderá ser codificado no contexto dos dados da investigação

O QUE FOI CODIFICADO DESCRIÇÃO

Atividades O que os professores investigados realizam em relação ao ensino, pesquisa, extensão e funções administrativas na universidade. O que realizam em relação a outras atividades não docentes.

Estados

Condições gerais vivenciadas pelos professores investigados (satisfação, insatisfação, realização profissional, decepção, estímulo, desestímulo, status, segurança, insegurança, motivação, desmotivação, dentre outros) sobre ser professor e ensinar na universidade.

Sentidos

Interpretações, significados, sentidos e conceitos que os professores investigados atribuem para o que orienta suas ações, isto é, que usam para entender e agir em seu mundo profissional docente e não docente. Que conceitos lançam mão para entender seu mundo profissional docente e não docente? Que sentidos/significados atribuem para suas atividades profissionais docentes e não docentes?

Participação/Interações

Envolvimento dos professores investigados com o novo contexto institucional – universidade – e a adaptação a ele. Níveis de participação e envolvimento com questões de organização e gestão da vida universitária.

Contexto O contexto atual e anterior presente na estrutura discursiva dos professores investigados: as faculdades isoladas, a universidade recém formada, suas atividades, processos, regulamentações. Condições ou limitações Elementos precursores ou causadores de eventos ou ações. Elementos que limitaram comportamentos ou ações. Fonte: síntese realizada a partir de Gibbs (2009)

Faz-se oportuno mencionar que o contexto institucional recém-modificado no qual se encontram os investigados é elemento importante para o processo de análise dos dados. As

trajetórias institucionais dos professores, primeiro nas faculdades e depois na universidade – ainda que nem todos os investigados tenham vivenciado ambos contextos – foi tomado em consideração nas análises dos dados, que ficariam menos ricas se essa característica contextual fosse minimizada ou mesmo negligenciada. As trajetórias docentes dos investigados cujas experiências foram construídas tanto nas faculdades como na universidade carregam em si potencialidades informativas ricas para apreender mais sobre o fenômeno estudado. Mesmo porque aspectos históricos e culturais estão muito presentes na universidade que, como já mencionado, formou-se a partir da junção jurídico-administrativa das faculdades.

Ainda do ponto de vista procedimental, à medida em que as entrevistas eram realizadas, suas transcrições também eram providenciadas, tendo também início o processo de análise de seus conteúdos. Para garantir privacidade aos entrevistados e de modo a respeitar aspectos éticos, foi adotado critério de anonimização, em que o máximo de informações que pudessem identifica-los foi descaracterizada. Desse modo, seus nomes foram ocultados e suas respectivas identificações no processo de análise foram codificadas como P1 para Professor 1, P2 para Professor 2 e assim respectivamente, até o Professor 12.

O tratamento dos dados das entrevistas, à medida em que eram realizadas e transcritas, teve apoio no software webQDA (www.webqda.com) de suporte à análise de dados qualitativos e que opera em ambiente web. Os textos decorrentes das transcrições foram transferidos para o software, que dispõe de recursos e ferramentas auxiliares ao processo de organização e análise dos dados. Nele foram organizadas as codificações em relatórios que serviram de base para a construção das análises.