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Desde as primeiras previsões legais sobre as Stock Options no Brasil, a doutrina tem sido escassa sobre o tema. Entretanto, com a vinda cada vez mais frequente das empresas estrangeiras para o País, tornou-se necessário o enfoque no modelo de bonificação oferecido a profissionais, com a finalidade de tornar o mercado mais atrativo e a dedicação dos empregados e executivos gradativamente efetiva.

Não restaram alternativas aos doutrinadores brasileiros senão a de determinar conceitos e sistemáticas que a lei até então não previa expressamente, sobretudo no que diz respeito às questões trabalhistas, tributárias e previdenciárias.

Algumas das definições estabelecidas convergiram para a natureza contratual dos SOP, enquanto outras deram maior atenção a elementos particulares ao instituto.

O direito civil brasileiro faz distinção entre ato jurídico, fato jurídico e negócio jurídico.

Na legislação vigente, os fatos jurídicos consistem em acontecimentos naturais que, por si sós, podem causar efeitos jurídicos:

São os fatos que entram no mundo jurídico, sem que haja, na composição deles, ato humano, ainda que, antes da entrada deles no mundo jurídico, o tenha havido; e.g., nascimento, morte, idade; [...]49

É o acontecimento, previsto em norma jurídica, em razão do qual nascem, se modificam, subsistem e se extinguem relações jurídicas. [...]

É o que advém, em regra, de fenômeno natural, sem

intervenção da vontade humana, que produz efeito jurídico.50

Por sua vez, atos jurídicos decorrem de vontade devidamente manifestada, mas submetida à lei. Neles não há autonomia para autorregulação da vontade. É vontade simples, limitada à escolha de realizar, com seus efeitos previamente estabelecidos em lei.

“É constituído por suporte fáctico em que são elementos necessários a manifestação de vontade e ato ou omissão do manifestante da vontade.” 51

A Professora Maria Helena Diniz explica:

Onde nenhuma operação de autonomia privada exerce influência, ter-se-á ato jurídico em sentido estrito, cujo efeito, com fundamento numa situação fática, caracterizada e regulada legalmente, se produz ex lege, sem consideração à

vontade do agente.52

Os negócios jurídicos, diferentemente dos atos e fatos jurídicos, têm por característica principal a sua finalidade negocial, consistente em criar, modificar, conservar ou extinguir direitos.

49 PONTES DE MIRANDA. Tratado de direito privado. Parte Geral. Rio de Janeiro: Borsoi,

1954. t. II, p. 187.

50 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro: direito das coisas. 18. ed. atual. de

acordo com o novo Código Civil. São Paulo: Saraiva, 2002. v. 1, p. 330.

51 PONTES DE MIRANDA. Tratado de direito privado. Parte Geral. Rio de Janeiro: Borsoi,

1954. t. II, p. 451.

52 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro: direito das coisas. 18. ed. atual. de

Nestes, portanto, verifica-se uma expressão de vontade qualificada, em que, além da preferência por realizar determinado ato, escolhem-se também os efeitos que este possa vir a produzir. O Professor Pontes de Miranda denomina essa vontade qualificada como “manifestação de vontade”. Para ele, somente por meio dela – que é elemento essencial do suporte fático – tem-se o negócio jurídico.

Os negócios jurídicos são estruturados pelo consentimento, a capacidade das partes, a licitude e idoneidade do objeto e a forma pela qual é realizado, sendo a mais comum a de contrato, não obstante haver outras possíveis, como o testamento (negócio jurídico unilateral).

Diferenciando ato jurídico stricto sensu e negócio jurídico, Pontes de Miranda explica:

A distinção entre negócios jurídicos e atos jurídicos stricto

sensu é assente na boa doutrina. Mas, quando se procura

mostrar em que consiste a diferença, o mesmo engano e hábito, que levaram a definir-se o negócio jurídico pela escolha de efeitos, conduz a caracterizá-la por serem, nos negócios jurídicos, resultantes da vontade os efeitos e, nos atos jurídicos

stricto sensu, da lei. No ato jurídico stricto sensu, a vontade é

sem escolha de categoria jurídica, donde certa relação de antecedente a consequente, em vez de relação de escolha a escolhido. Toda caracterização do negócio jurídico como regulador de relações jurídicas, normativo, perceptivo, ou algo semelhante, deriva de engano, que é o de se crer na edição de normas jurídicas pelas pessoas. Tal não se dá; e o próprio conteúdo-lei dos tratados internacionais, quando o há, e o próprio chamado contrato normativo, não seriam prova de que os negócios jurídicos pudessem estabelecer qualquer regra jurídica.53

De forma clara e objetiva, o Professor Roberto Senise Lisboa54 resume os negócios jurídicos como:

Acordo de vontades que tem por fim a aquisição, a transmissão e a extinção de direito. É a sucessão de atos jurídicos

53 PONTES DE MIRANDA. Tratado de direito privado. Parte Geral. Rio de Janeiro: Borsoi,

1954. t. II, p. 447.

54 LISBOA, Roberto Senise. Manual de direito civil: contratos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2013.

coordenados entre si, que pode decorrer do consensualismo das partes (é o caso dos contratos) ou da aceitação posterior à extinção do sujeito do direito (pessoa física ou jurídica) de ato jurídico por ela praticado (como, por exemplo, a aceitação de herança outorgada por disposição testamentária).

Trata-se o negócio jurídico, pois, de modalidade de relação jurídica da qual o contrato é a principal categoria, ou seja, é o vínculo constituído entre duas partes em função de um objeto (bem da vida), a ser transmitido total ou parcialmente, a título provisório ou definitivo, gratuito ou oneroso, mediante operação adotada.

Acompanhando os conceitos e especificidades que pairam sobre o instituto do negócio jurídico, o Professor Fabio Ulhôa Coelho, ao tratar da natureza das Stock Options, explica:

Trata-se de negócio jurídico, pelo qual a companhia se obriga, a partir de declaração de vontade do executivo beneficiário (exercício da opção) e pagamento por este preço, a entregar- lhe ações de sua emissão, em quantidade e espécie

previamente definidas no instrumento de opção.55

Sendo negócio jurídico, os Stock Options Plans são formalizados por via de contrato56 que, por seu conteúdo e objeto, obtém qualidades de

contrato mercantil, que em nada se relaciona com contrato de trabalho.57