Em meados da década de 1970, opondo-se a concepções que entendem a argumentação como externa à linguagem, Oswald Ducrot e Jean- Claude Anscombre iniciaram o desenvolvimento da ANL que, desde esse período inicial de sua formulação, propõe que a argumentação não deriva dos fatos, mas das formas linguísticas apresentadas nos enunciados. Essa
condição constitui a ideia central da teoria, que postula que a argumentação está na língua e que esta é, essencialmente, argumentativa.
Nesse primeiro momento, denominado de forma standard, os autores buscavam propor uma oposição à concepção tradicional que afirma que um discurso contém argumentação se forem satisfeitas três condições. A primeira é de que o discurso deve conter dois segmentos: argumento (A) e conclusão (C). A segunda é a de que A apresenta um fato, verdadeiro ou falso, independentemente de C, e a terceira condição para que haja argumentação é que a conclusão pode ser inferida a partir do fato (F), ou seja, há uma relação de implicação entre o fato e a conclusão.
Ducrot (1990) afirma que nessa perspectiva a língua não teria papel muito importante para a argumentação. Em todas as línguas há frases cujos enunciados designam o mesmo fato, porém as argumentações possíveis, a partir dessas frases, podem ser bastante diferenciadas. O autor utiliza alguns exemplos, relativos às expressões pouco e um pouco, para explicar melhor sua posição. Vejamos:
(1) Pedro trabalhou pouco. (2) Pedro trabalhou um pouco.
As conclusões formuladas a partir dos dois enunciados podem ser completamente distintas apesar de os fatos designados serem, possivelmente, os mesmos. Se tomarmos como parâmetro a ideia de que o trabalho conduz ao êxito, perceberemos 1 conduzindo a uma conclusão negativa, enquanto 2 a uma positiva. Se admitirmos, por outro lado, que o trabalho leva ao fracasso, os mesmos fatos poderão encaminhar a conclusões opostas às anteriores. Ducrot afirma, então, que as possibilidades argumentativas não são determinadas apenas pelos fatos, mas, principalmente, pelas formas linguísticas utilizadas.
Dizer que a argumentação está marcada na língua implica admitir que as frases da língua possuem instruções, tais como busque a conclusão para a qual tende o locutor. As indicações fornecidas pela significação exercem uma certa imposição em relação ao que deve ser a conclusão. A significação das
frases, no entanto, é aberta, indicando como se poderia descobrir a conclusão contida no enunciado, bem como seu sentido. O autor defende a ideia de que há expressões na língua que contêm em si mesmas um valor argumentativo e determinam o valor argumentativo dos enunciados nos quais aparecem. A diferença argumentativa entre duas expressões não pode ser explicada por uma diferença factual.
De maneira geral, é possível observarmos que na forma standard da ANL o potencial argumentativo de um enunciado A é definido pelo conjunto de enunciados que podem constituir conclusões de A. Retomando o exemplo Pedro trabalhou pouco, utilizado acima, poderíamos elencar uma série de enunciados que poderiam servir como sua conclusão, tais como não vai obter êxito, não será promovido. Essa é uma das noções revistas na fase seguinte da teoria, denominada forma recente, que é uma reformulação da forma standard em que o autor transforma algumas ideias e até mesmo abandona outras.
Na segunda forma da teoria (forma recente - 1990), a argumentação não é mais descrita em termos de conclusões, mas com a noção de topos, ou seja, de um princípio argumentativo que faz a passagem entre o argumento e a conclusão. Conforme esse novo modo de olhar, o enunciado contém um ato de argumentação e o locutor se identifica com um enunciador que argumenta.
O ponto de vista do enunciador só é argumentativo se obedece a duas condições: a primeira é que ele deve justificar determinada conclusão, e a segunda é que há um princípio que rege a relação entre argumento e conclusão, o chamado topos. A conclusão pode estar explícita ou implícita no enunciado, pode ser assumida ou não pelo locutor, como veremos mais adiante.
O topos tem três características elementares: é universal, ou seja, compartilhado pelo locutor e por seu(s) interlocutor(es), ou é apresentado como aceito pela comunidade em que locutor e interlocutor estão inseridos; é geral, o que significa dizer que pode ser usado em situações análogas; é gradual, pois põe em relação duas escalas, o antecedente e o consequente do topos. No
exemplo Faz calor, vamos à praia, temos um calor que torna a praia agradável. O topos coloca em correspondência duas escalas, a do bom tempo e a do prazer. Ao argumentar, o enunciador faz duas coisas: escolhe um topos e situa o estado de coisas de que fala em um grau de sua escala antecedente, dando um determinado grau de argumentatividade, fraco ou forte, a seu argumento.
Em outras palavras, no segundo momento da teoria, a frase utilizada pelo argumentador contém, em sua significação, uma instrução que consiste em pedir ao interpretante que busque o topos em que se fundamenta a argumentação. Já não se trata de buscar a conclusão, mas o princípio que leva a entender o que locutor deseja fazer admitir.
Também nessa etapa de desenvolvimento da teoria, Ducrot propõe que o locutor não se expressa diretamente no enunciado, mas o faz por meio de enunciadores, responsáveis por diferentes pontos de vista. Essa ideia está ligada ao conceito de polifonia18, utilizado por Bakhtin na literatura e reformulado por Ducrot em termos linguísticos.
O termo polifonia refere-se, originalmente, a uma classe de composição musical na qual se sobrepõem diferentes vozes e foi utilizado para diferenciar duas formas de literatura. Bakhtin19 chama de ―dogmática‖ a literatura na qual uma voz se sobrepõe às outras e de ―polifônica, popular ou carnavalesca‖, aquela em cujos textos vários personagens se apresentam por si mesmos, como máscaras de carnaval. Nesse tipo de literatura, o sentido global da obra resulta da confrontação dos vários personagens sem que o autor explicite seu ponto de vista.
Ducrot, por sua vez, utiliza o conceito de polifonia, aproximando-o do estudo linguístico. Esse conceito, vale salientar, surge nessa fase da teoria e é retomado na sua terceira forma, a Teoria dos Blocos Semânticos (TBS). Por meio dele, o autor opõe-se à ideia de unicidade do sujeito falante, contrapondo-
18 Abordaremos o desenvolvimento do conceito no terceiro capítulo deste trabalho.
19 Vale lembrar que o conceito de polifonia de Ducrot apenas parte do de Bakhtin. Ambos são bastante
diferentes. Bakhtin será retomado no capítulo 3 para falarmos um pouco mais de seus conceitos tendo em vista a alteridade.
se a correntes teóricas que percebem o enunciado como expressão de um só autor20, afirmando que o autor de um enunciado se expressa colocando em cena diversos personagens, diversas vozes.
Na forma recente, como podemos observar, o sentido de um enunciado surge da confrontação das diferentes vozes que nele aparecem. Essa visão polifônica da enunciação segue central ao longo de todo o desenvolvimento posterior da ANL, assim como a ideia de relação entre dois segmentos (até aqui argumento e conclusão). Essa ideia de relação, baseada na alteridade, como constitutiva do sentido já integrava as primeiras formas da teoria. O sentido já era considerado como advindo da relação entre segmentos, produzida por meio de outra relação – entre locutor e alocutário. Entretanto, podemos dizer que os dois segmentos ainda não eram percebidos como possuindo status semelhante e/ou equivalente, ou seja, a conclusão derivava do argumento, possuindo assim uma dependência em relação a ele. Assim, essa noção teve de ser revista com intuito de efetivamente se compreender os segmentos como interrelacionados. O mesmo ocorreu com a noção de topos que, por fazer alusão a princípios que não eram de ordem linguística foi abandonada já que contrariava a base saussuriana da teoria, de analisar a língua dentro de sua organização enquanto sistema. A fim de priorizar a análise da língua por ela mesma e procurar ser mais fiel à sua epistemologia, é que esses aspectos são revistos na Teoria dos Blocos Semânticos (TBS), forma desenvolvida atualmente por Oswald Ducrot e Marion Carel.
Até a segunda etapa de desenvolvimento da ANL, podemos perceber que os autores ainda estão em busca da construção de uma metodologia de análise do sentido que seja coerente com a epistemologia da teoria. Os conceitos de base não são, e nem poderiam ser, modificados. O que sofre ajustes é o modo de analisar a linguagem no sentido de torná-lo cada vez mais autônomo, ou seja, baseado na linguagem. Observamos já na ANL até esse momento, uma preocupação bastante forte de vincular o entendimento do sentido ao uso da língua e a relação entre segmentos. Só chegamos a ele por
meio de uma relação enunciativa entre locutor e alocutário e entre locutor e diferentes enunciadores convocados. Os elementos são colocados no eixo sintagmático para que se construa seu sentido na relação com os demais. No entanto, essa compreensão ainda conta com princípios externos à linguagem. Assim, para que se entenda a linguagem como um sistema verdadeiramente autônomo é que se desenvolve o terceiro momento da ANL – a Teoria dos Blocos Semânticos.
2.1.2 A Teoria dos Blocos Semânticos – uma semântica sintagmática e