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Quando a disciplina de Estatística II começou, estávamos na estação de chuva em Ji-Paraná, época do ano em que ocorrem precipitações diárias e de grande intensidade.

As chuvas de elevadas intensidades provocam vários danos a vertente por sua potencialidade erosiva, o que interfere na qualidade de vida dos moradores, principalmente no que se refere ao trânsito local nas ruas que não são calçadas. Nestas ruas são criadas grandes valas devido ao processo erosivo, o que potencializa o processo de assoreamento do leito dos igarapés próximos, por causa da matéria lixiviada que é transportada para a calha do rio. Isso faz com que o rio transborde e inunde as casas próximas.

Um grupo composto de dois alunos que moram em uma rua com problemas de erosão pluvial escolheu trabalhar com este assunto.

O objetivo do trabalho elaborado por eles era realizar a análise do movimento de massa na vertente do igarapé Riachuelo.

Utilizando os conhecimentos aprendidos na disciplina de sensoriamento remoto, onde utilizaram o sistema de coordenadas geográficas (SIRGAS - 2000) os alunos confeccionaram a Figura 1 abaixo para mostrar o local onde foi feito o estudo e, em seguida, a foto da rua de onde colheram os dados.

Figura 1: Local de estudo do grupo 1

Fonte: Dados da Pesquisa

A Figura 2 mostra a Rua João Goulart, onde a pesquisa foi realizada.

Figura 2: Rua João Goulart

A vertente estudada é área coletora de água de chuva da microbacia hidrográfica do Igarapé Riachuelo.

O primeiro passo tomado por eles foi procurar formas de quantificar o processo erosivo, assim como calcular o volume da chuva. Procuraram a professora de Hidrologia e ela explicou como confeccionar um pluviômetro para poderem colher os dados da quantidade de chuva.

O pluviômetro consiste em uma fabricação artesanal e empírica, onde se utiliza uma garrafa PET (Politereftalato de etileno), cortada ao meio, em que a parte do gargalo é usada como um funil, preso por fitas com a outra parte da garrafa, como pode ser observado na Figura 3. O pluviômetro é instalado em uma estaca a 1,50 de altura do solo, como na Figura 4.

Figura 3: Recipiente coletor de água pluviométrica, feito artesanalmente

Fonte: Dados da Pesquisa Fonte: Dados da Pesquisa

Utilizando a internet os alunos procuraram artigos da área que tratavam de erosão pluvial e encontraram um livro que descrevia o método: “Geografia - práticas de campo, laboratório e sala de aula” de Jurandyr Roos. Segundo a informação encontrada, os pinos devem ser graduados em medidas iguais e introduzidos no solo por impacto até atingir certa medida, igual para todos. A partir disto, monitora-se ao longo de um tempo pré-estabelecido, (dia, meses, ou ano), verificando-se o quanto a erosão retirou sedimentos, pela maior exposição dos pinos na superfície. Pode-se utilizar também estacas para verificar se houve acúmulo de sedimento,

“fundo de vale por exemplo”, quando os pinos são gradativamente encobertos. Então o rebaixamento ou elevação do terreno são medidos em centímetros.

Foram usadas três estacas de madeira de tamanhos iguais, marcada com 15 cm a partir da parte pontiaguda, como mostrada na Figura 5. As estacas foram introduzidas no solo dentro da erosão com distância de 8,68 metros uma da outra, como observado na Figura 6, Figura 7 e Figura 8.

Fonte: Dados da Pesquisa

Fonte: Dados da Pesquisa

Os assuntos estatísticos abordados no trabalho realizado por este grupo foram: análise de regressão linear, correlação linear, teste t de student e o teste não paramétrico: teste de ajustamento de Kolmogorov-Smirnov, sendo que este último não está na ementa da disciplina. Os alunos, enquanto pesquisavam artigos relacionados com o assunto que eles estavam trabalhando, observaram que para realizar a análise dos resultados era necessário que os dados satisfizessem algumas suposições, entre elas a de normalidade, isto é, os dados deveriam seguir uma distribuição normal. Depois de ler alguns artigos perceberam que os testes

Figura 5: Estacas demarcadas, objeto metodológico para fixação e medição da erosão

mais utilizados eram o teste Qui-Quadrado e o teste Kolmogorov-Smirnov sendo que o teste K-S era o mais citado.

O professor questionou se havia algum motivo específico para os alunos utilizarem o teste K-S ao invés do teste Qui-Quadrado. Após um tempo, eles disseram que realmente o aconselhado para o tipo de dados colhidos por eles era o teste Kolmogorov-Smirnov, já que as variáveis são contínuas e são poucos dados amostrados. Comentaram que esse tipo de explicação - usar um teste em vez de utilizar outro - não são esclarecidas nos artigos, por isso tiveram que procurar em livros ou conteúdos de disciplinas disponibilizados na internet.

Ao realizarem a análise, não encontraram correlação linear entre volume de chuva e erosão, o que causou um estranhamento, já que este resultado fugia do senso comum, isto é, quanto mais chove, maior é a força da água escoando pela rua, maior é a quantidade de sedimentos que é retirado do solo causando mais erosão.

Após discussão entre eles, perceberam que o valor zero, que colocavam para simbolizar que a medição nas estacas, não poderia ocorrer e significava dados perdidos e não falta de erosão.

A solução encontrada por eles foi rever suas planilhas de anotações da coleta de dados e anular as colunas onde estava anotado: medição não feita.

Perceberam que o método de medir erosão utilizado, apesar de ter sido aplicado em um artigo de Ross e referenciado por outros autores da área, quando aplicados por eles não foi tão eficaz. Em seu caso, o local onde foram colocadas as estacas estavam cheios de água e a medição não poderia ser feita, já que a estaca ficava submersa.

Questionados de como fazer para evitar o problema de medição não realizada, eles concluíram que necessitariam de estacas maiores ou deveriam fixar duas estacas fora da vala formada pela erosão ligadas por uma linha e medir a distância entre a linha e o fundo da vala.

Os alunos discutiram sobre o método utilizado pelos autores pesquisados e observaram que, no seu contexto, o método deveria ser adaptado ou não poderia ser utilizado.

Isso desafia a ideologia da certeza, pois os alunos visualizaram um método falho para sua pesquisa, o que questiona a possibilidade de um método infalível, que

deve ser seguido sem restrições, que serve para todos os casos e seu resultado não possa ser questionado.

Percebem também que a Estatística não pode ser tomada como um conhecimento pronto e acabado, mas como um conhecimento vivo, dinâmico que vem sendo construído, e de acordo com necessidades sociais, particulares daquele grupo, novos saberes podem ser concebidos.

Benzer Belgeler