Para Cunha (2007), com o esgotamento da exploração do ouro, a força de trabalho sai das minas e é dirigida às atividades agrícolas, pecuárias e artesanais.
O terceiro período de expansão foi marcado por grandes acontecimentos políticos e sociais no Brasil, a saber, a queda do Império Português, com a independência do Brasil (1822), a abolição da escravatura (1888) por meio da Lei Áurea, a Proclamação da República (1889) e a Revolução de 1930. Esses foram marcos importantes para o nascimento de um novo país. Sobre o que adveio desses acontecimentos, Sampaio (1991, p.7) comenta:
Com a abolição da escravidão (1888), a queda do Império e a proclamação da República (1889), o Brasil entra em um período de grandes mudanças sociais, que a educação acabou por acompanhar. A Constituição da República descentraliza o ensino superior, que era privativo do poder central, aos governos estaduais, e permite a criação de instituições privadas, o que teve como efeito imediato a ampliação e a diversificação do sistema, Entre 1889 e 1918, 56 novas escolas de ensino superior, na sua maioria privadas, são criadas no país.
Para Cunha (2007), da Proclamação da República até a Revolução de 1930, as mudanças ocorridas na educação se constituíram do surgimento de escolas superiores livres, desvinculadas do Estado, pelas novas determinações técnico-econômicas que necessitavam aumentar a força de trabalho com formação de profissionais qualificados e com um nível mais alto de escolaridade. O novo regime federativo, as novas modificações na construção de um novo Estado impunham a criação e o aumento de oferta de novos cargos, principalmente para bacharéis de Direito e engenheiros.
Com o advento da República, foi promulgada uma nova constituição que instituía o sistema federativo e reconhecia a autonomia dos estados da federação para estabelecer suas leis sobre a educação no grau primário e no profissionalizante de ensino. À União cabia o ensino superior e secundário.
Quanto ao ensino superior, Cunha (2007, p. 150, 151) comenta:
As transformações do ensino superior nas primeiras décadas da República foram marcadas pela facilitação do acesso ao ensino superior, resultado, por sua vez, das mudanças nas condições de admissão e da multiplicação das faculdades.
33 De acordo com Cunha (2007), em 1891, foram publicados dois decretos (em plena vigência do governo provisório de Deodoro da Fonseca), que dispunham sobre o regramento da educação. O primeiro, o decreto 1.232-G1, criava o Conselho de Instrução Superior para
aprovar os programas de ensino das escolas federais, assim como os a elas equiparadas, e dispunha sobre a regulamentação para as faculdades livres e criação de novos estabelecimentos de ensino, entre outras disposições. O segundo, o decreto 1.232-H2,
determinava o regulamento para as faculdades de Direito de São Paulo e Pernambuco, e autorizava a criação de escolas de Direito pelos governos estaduais e também por particulares.
Como resultado do movimento expansionista, conforme Cunha (2007, p. 157), o ensino superior escapou da tutela da União, o que trouxe alteração quanto à qualidade e quantidade na oferta. Em novembro de 1890, foi promulgado o decreto 981 que dispunha sobre modificações nos exames admissionais que passou a permitir que todos os alunos das escolas particulares, cujo currículo fosse semelhante ao do Ginásio Nacional, pudessem prestar exame de madureza em escolas oficiais e, assim, ingressar no ensino superior sem prestar mais nenhum exame. Anteriormente, essa forma de ingresso era para os alunos das escolas públicas e foi estendida às escolas particulares. Essa forma de acesso, atualmente, se pratica com o Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM).
No entanto, Cunha (2007, p. 156-157) registra:
Apesar desse movimento geral de expansão do ensino superior, as condições de equiparação dos cursos não atendiam às esperanças de todos pelas exigências existentes. Isto fez que algumas escolas superiores particulares criadas nessa época não pretendessem a equiparação, ou, então, tentassem “driblar” a fiscalização ministerial por ato do Congresso. Assim fizeram pelo menos duas escolas superiores.
Para Cunha (2007), o movimento expansionista produziu um efeito qualitativo e quantitativo no ensino superior. Quantitativo no crescimento de estabelecimentos particulares e qualitativo no sentido em que não havia uma subordinação nem na esfera estadual, nem na nacional. Não havia uma uniformidade administrativa nem didática.
Dessa forma, para Cunha (2007, p. 158-159), de 1891 a 1910 foram criadas 27 escolas públicas de ensino superior. Dessas, 22 nas capitais e cinco no interior, são
1 DECRETO N. 1232 G - DE 2 DE JANEIRO DE 1891 Crêa um Conselho de Instrucção Superior na Capital Federal.
2 DECRETO N. 1232 H - DE 2 DE JANEIRO DE 1891 Approva o regulamento das Instituições de Ensino Juridico, dependentes do Ministerio da Instrucção Publica.
34 distribuídas por cinco áreas de conhecimento, sendo 9 de Medicina, Obstetrícia, Odontologia e Farmácia; 8 de Direito; 4 de Engenharia; 3 de Economia e 3 de Agronomia, como mostra o Quadro 4, a seguir:
Quadro 4 - Faculdades e escolas livres criadas no Brasil de 1889 a 1910
Ano Faculdades e escolas livres
1889 Faculdade de Medicina e Farmácia de Porto Alegre
1891
Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro
Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro Faculdade Livre de Direito da Bahia
Faculdade Livre de Direito de Goiás
1893 Faculdade Livre de Direito do Estado de Minas Gerais (Ouro Preto) 1896 Escola de Engenharia de Porto Alegre
Escola Politécnica da Bahia
1898 Faculdade de Odontologia de Porto Alegre 1900 Escola Politécnica de São Paulo
Escola superior de Agricultura de Piracicaba 1902 Faculdade de Farmácia de Pernambuco 1903 Faculdade Livre de Direito do Pará
Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre 1904 Escola de Farmácia do Pará
Faculdade de Farmácia e Odontologia de Juiz de Fora
1905
Escola Livre de Odontologia do Rio de Janeiro
Escola de Farmácia, Odontologia e Obstetrícia de São Paulo Escola de Farmácia e Odontologia do Instituto Granbery (Juiz de Fora)
Escola Livre de Engenharia de Pernambuco
Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas do Rio de Janeiro Faculdade de Ciências Econômicas da Bahia
1907 Faculdade Livre de Direito de Fortaleza 1908 Faculdade de Odontologia de Minas Gerais
Escola superior de Agricultura de Lavras (Minas Gerais) 1910
Escola Nacional de Agronomia (Rio de Janeiro)
Faculdade de Ciências Econômicas do Rio Grande do Sul Fonte: adaptado de Cunha (2007 p.158- 159).
De 1981 a 1910, o interior do Brasil tinha 2 Faculdades, a de Ouro Preto e a de Juiz de Fora, e 3 Escolas Livres, em regiões ricas e desenvolvidas de Minas Gerais e de São Paulo: Faculdade Livre de Direito do Estado de Minas Gerais (Ouro Preto); Faculdade de
35 Farmácia e Odontologia de Juiz de Fora; Escola de Farmácia e Odontologia do Instituto Granbery (Juiz de Fora); Escola Superior de Agricultura de Lavras (Minas Gerais) e Escola Superior de Agricultura de Piracicaba.
O Gráfico 1 apresenta percentualmente os dados mencionados acima:
Gráfico 1 – Faculdades e escolas livres criadas no Brasil de 1889 a 1910
Fonte: adaptado de Cunha (2007).
Conforme o Gráfico 1, o interior do país tinha 19% da quantidade de instituições de ensino superior e as capitais 81%.
Em resumo, no período do Brasil Colônia, embora o país ansiasse, não obteve da Metrópole anuência para criar uma universidade. Com a família real no Brasil, ocorreu a criação de cursos de Medicina e Cirurgia e a fundação da Academia Militar; no período Regencial, foram criados cursos jurídicos, a Academia Militar foi transformada em Escola de Engenharia e foi criada a Escola de Minas. No Império, criam-se as escolas de Agronomia e, com a República, o ensino livre e escolas superiores particulares e estaduais.