De todos os países afetados pelos regimes totalitários implantados na Europa no início do século XX, a Itália foi o que recebeu as maiores influências na modulação das suas relações sindicais, não apenas durante o período corporativo, mas também no que lhe sucedeu278. Na vigência daquele modelo, o sindicato era um organismo de direito público, fator característico do corporativismo, e a disciplina normativa era estabelecida pela lei 563, de 03/04/1926, que adotava um padrão de completa regulação da criação e da atividade sindicais279. Na sequência, a lei 163, de 1934 instituiu as corporações, que eram “entes de direito público (...) e, sob a direção e controle do governo, promoviam uma regulamentação da atividade econômica através da emanação de ordenanças corporativas”280. Naturalmente, esse formato interditava o exercício apropriado da liberdade sindical, o que só foi recuperado em 1943, com a abolição das corporações281. No ano seguinte, as organizações sindicais fascistas foram extintas e seu patrimônio foi liquidado, sendo o saldo obtido após o pagamento aos credores depositado sob guarda judicial282.
No entanto, a organização sindical italiana ainda padecia de uma regulamentação específica após o abandono do modelo corporativo, o que, a rigor, nem era uma demanda consensual dentro do movimento sindical. Com efeito, a par das influências teóricas de cada segmento, o sindicalismo italiano sempre foi demarcado por duas tendências muito nítidas. De um lado, há os adeptos do chamado sindicato-movimento, que tem como características fundamentais a valorização da autonomia de base e a espontaneidade do movimento. Tem sinais claros de proximidade com o pensamento anarquista, com o que valoriza sobremaneira o papel da militância e a participação direta nas decisões, sobretudo por intermédio das assembleias. Essa tendência “é geralmente contrária à efetivação das regras do jogo, enfatizando a necessidade de definir as ações com base na avaliação de interesses e oportunidades ditadas pelas circunstâncias do momento”283. Nesse
278 Na realidade, a Itália foi a primeira das nações europeias que vivenciou a experiência corporativa, iniciada em 1926,
e que foi sendo disseminada nos anos seguintes por países como Alemanha, Portugal, Espanha e Grécia.
279 O texto, na realidade, reconhecia formalmente a liberdade sindical, pois permitia a constituição de mais sindicatos,
mas conferia ao governo a prerrogativa de atribuir personalidade jurídica a determinada entidade que cumprisse as determinações preestabelecidas, como número mínimo de integrantes da categoria e a definição prévia desse conceito.
280 SANTORO-PASSARELLI, Giuseppe. Diritto Sindacale. 2ª. ed. Roma: Laterza, 2009. p. 12. 281 Decreto Legislativo 721, de 09/08/1943.
282 Decreto Legislativo 369, de 23/11/1944.
contexto, repele completamente a estipulação de limites de ação, mesmo negociados ou contratados, como se dá, p.ex., na fixação de cláusulas de paz social. Da mesma forma, não se vê em tais entidades nenhum interesse na definição de procedimentos vinculados ou estruturas representativas, como as comissões de fábrica, porque claramente estipulam uma condição prévia que eles não pretendem assumir. Por fim, e naturalmente, esse modelo preconiza a plenitude da autonomia sindical, repelindo completamente a intervenção normativa do Estado no plano da atividade dos sindicatos.
No outro polo, se encontram aquelas entidades que adotam a perspectiva do chamado
sindicato-instituição, cuja constituição favorece elementos de consolidação associativa e prioriza a
adesão formal às organizações, inclusive internacionais de trabalhadores. Nesse sentido, e justamente por se tratar de uma ação sindical mais dirigida e regrada, sua tendência é a de permitir a participação somente de associados nos processos decisórios atinentes à classe representada. Os não-associados têm uma participação limitada, restringindo-se, praticamente, à obtenção do resultado na negociação coletiva, mediante o pagamento da taxa negocial. Ao contrário do modelo antes definido, esse padrão valoriza a definição formal das regras de atuação sindical, sobretudo por meio de fixação de diretrizes estatutárias e de contratos coletivos de trabalho. Assim, as entidades associadas a essa tendência preconizam a estipulação de regras bem definidas a respeito de procedimentos eleitorais, procedimentos para a composição dos conflitos coletivos, para a convocação e deflagração de greves e, de forma intensa, respeitam profundamente as cláusulas de paz social firmadas em contratos coletivos de trabalho284. Da mesma sorte, esse modelo preconiza a relevância do trato legislativo dos temas de interesse sindical especialmente quando a legislação decorre de ajuste prévio com as entidades sindicais, modalizando o preceito da autonomia sindical em favor da segurança jurídica.
Os fluxos e contrafluxos do movimento, e as tensões naturais que pontos de vista tão antagônicos são capazes de construir, resultaram na formulação de um conceito de unidade sindical fomentador de modificações substancias no sistema italiano do pós-Guerra. Nesse contexto, e reverberando a libertação do domínio fascista na organização sindical, as três principais correntes ideológicas que se opunham a esse sistema se organizaram e formaram a Confederazione Generale
284 Idem, ibidem.
Italiana del Lavoro - CGIL, entidade unitária de representação sindical livre dos trabalhadores285. A despeito das variações ideológicas, esses movimentos contribuíram para o surgimento de uma nova
fattispecie sindacale, que causou profundas transformações no modelo sindical italiano. Assim, o
sistema sindical construído depois da 2ª. Guerra procurou superar completamente as soluções publicistas, para consolidar um modelo privatista, que rejeita completamente a interferência estatal nas relações sindicais. Por isso, diz Giancarlo Perone:
Quando, em 1944, vem abaixo o ordenamento corporativo que sacrificou profundamente a liberdade sindical, as organizações sindicais italianas não ficaram a esperar que a constituição instituísse tal princípio, mas o puseram em prática sem necessidade de uma prévia regulamentação. E a liberdade sindical acompanhou a história destes sessenta anos de vida democrática286.
Apesar disso, a Constituição Republicana de 1948 pretendeu estabelecer um paradigma de tratamento da atividade sindical, adotando integralmente o conceito que viria, naquele mesmo ano, a ser objeto da Convenção 87 da OIT. Em seu art. 39, parágrafos 1º. a 3º., foi estipulada a liberdade de organização sindical, consignando-se que aos sindicatos não se pode exigir outra obrigação senão a de ser registrado em órgão local ou central, conforme estipulado por lei, o que lhes conferirá a personalidade jurídica. De outro lado, aponta que é condição para o registro sindical que seus estatutos tenham uma base democrática e que, em se tratando de sindicato registrado, dotado de personalidade jurídica, terá a prerrogativa de estipular contratos coletivos de trabalho com incidência obrigatória a todos os membros da categoria por ele representado287. Por fim, e no mesmo contexto, reconhece o exercício do direito de greve (art. 40)288. Trata-se de um conceito extremamente econômico, mas que, nos dizeres de Ghezzi e Romagnoli, “diz pouco e ao mesmo
285 Isso se deu pelo Pacto de Roma, de 1944, lavrado por socialistas, comunistas e integrantes da democracia cristã.
Apesar de preservar a representação unitária, como ocorrera no período corporativo, nesse caso não havia imposição estatal, senão consenso entre os próprios interessados na manutenção da unidade de ação. No início da década de 1950, no entanto, as divergências ideológicas se acentuaram, fomentadas pela Guerra Fria, de sorte que a CGIL dividiu-se em outras duas Confederações: a CISL (Confederazione Italiana Sindacati Lavorari), abrigando a democracia-cristã e os católicos em geral; e a UIL (Unione Italiana del Lavoro), de conformação socialdemocrata, permanecendo as demais correntes na confederação original.
286 PERONE, Giancarlo. Sindicatos Nacionais e disciplina comunitária coletiva de trabalho. In Revista do
Departamento de Direito do Trabalho e da Seguridade Social. São Paulo: Universidade de São Paulo, Volume 3,
número 05. p. 12, jan. a jul. 2008.
287 Art. 39 da Constituição Italiana: “L'organizzazione sindacale è libera. Ai sindacati non può essere imposto altro
obbligo se non la loro registrazione presso uffici locali o centrali, secondo le norme di legge. È condizione per la registrazione che gli statuti dei sindacati sanciscano um ordinamento interno a base democratica. I sindacati registrati hanno personalità giuridica. Possono, rappresentati unitariamente in proporzione dei loro iscritti, stipulare contratti collettivi di lavoro con efficacia obbligatoria per tutti gli appartenenti alle categorie alle quali il contratto si riferisce”.
tempo diz muitíssimo, isto é, declara o essencial: na liberdade sindical não se toca (art. 39) e as pessoas que trabalham têm o direito de fazer greve (art. 40)”289.
O texto desvela uma franca preocupação com a herança corporativa, afastada do plano legislativo mais ainda presente na percepção dos italianos. Esse quadro, ainda que de forma inconsciente, provocou profunda desconfiança dos atores sociais da intromissão do Estado nas relações sindicais e o próprio Estado – portador de naturais traumas advindos da experiência anterior – acabou por renunciar à cooptação sindical e regulação do exercício da liberdade sindical. De outra parte, a proposta de regulação da atividade sindical constituía resquício da perspectiva positivista-liberal que ainda produzia resíduos naquele momento histórico, mas restava já em fase de superação. Dessa maneira, o afastamento do modelo legal
É uma concepção que supera o positivismo liberal porque se baseia na constatação que, antes do Estado de direito, existe a sociedade dos cidadãos politicamente ativos, titulares originários da soberania política e capazes de expressar ordenamentos e instituições particulares290.
Ao mesmo tempo, no entanto, o texto constitucional apresentava, “em grande parte, caráter programático”, porquanto “os princípios nele expostos não podem ter valor imediato”291. Basta observar que não se oferece sequer nenhuma noção de sindicalidade, ou seja, de quais seriam os atributos que poderiam ser qualificados a fim de tornar aptos àqueles que pretendam se organizar em sindicatos. Da mesma sorte, não esclarece se as organizações empresariais poderiam estar ou não inseridas nesse conceito. Por fim, apesar de exigir o registro formal da existência do sindicato, remetia expressamente à legislação a disciplina desse registro, o que, inclusive, afetaria a capacidade de representação no plano da negociação, dado que, como dito, somente o sindicato registrado poderia negociar em favor da totalidade da categoria292.
289 GHEZZI, Giorgio; ROMAGNOLI, Umberto. Il Diritto Sindacale. 4ª. ed. Bologna: Zanichelli, s/d. p. 40.
290 MARTONE, Michel. Alle origine del fenomeno sindacale l`ordine liberale e l´agire collettivo. In Argomenti di
Diritto del Lavoro. Milano: CEDAM, 2006. p. 517. Tradução livre.
291 MAZZONI, Giuliano. Relações Coletivas de Trabalho. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1972. p. 34.
292 Como explica Tulio Massoni, “A Constituição italiana não foi regulamentada na parte que prevê um sistema de
contratação coletiva com eficácia geral para todos os integrantes da categoria a que se refere o contrato coletivo de trabalho (art. 39, c. 2 e ss)”. (MASSONI, Tulio de Oliveira. Representatividade sindical. São Paulo: LTr, 2007. p. 135).
Em que pese o sentido afirmativo do art. 39 da Constituição, esse resquício publicista configurou um grande entrave para que se pudesse assimilar por completo o modelo estatuído pelo novo texto constitucional, sobretudo porque jamais foi efetivamente regulamentado293. Assim,
Uma parte da doutrina firma na vontade de perseguir o valor constitucional da liberdade e, consciente do dever de superação da problemática civilística da eficácia de um contrato coletivo de direito comum, reconhece a existência de uma nova espécie constituída de associação sindical, dotada de subjetividade jurídica autônoma e distinta daquela que se inscreve no ordenamento como tendo competência para individuar o interesse coletivo (...)294.
Dessa maneira, por razões de cunho histórico, as relações coletivas de trabalho formadas na Itália no pós-Guerra foram construídas sobre um modelo extralegal, fundado na práxis social, evidenciando uma nítida inefetividade do modelo normativo-constitucional. Como explica Martone, “a ação sindical assume características de efetividade à margem da disciplina legislativa”295. No mesmo sentido:
O Direito sindical se desenvolveu e continuou a se desenvolver pela via extralegal e extraconstitucional sobre a base de um conceito de representatividade sociologicamente compreendida, sustentada ideologicamente e atualmente determinada na classe ou não do movimento operário296.
Foi dessa maneira que os sindicatos italianos, repelindo o modelo constitucional em vigor, se organizaram juridicamente em associações não-reconhecidas, cuja regulação se encontra nos artigos 36 a 38 do Código Civil. Essa prática consagra a visão privatista da organização sindical, rejeitando por completo as práticas intervencionistas vistas no Estado corporativo e que apresentava
293 É certo que o Statuto dei Lavoratori, de 1970, menciona a liberdade sindical dentre os tópicos que pretende regular.
No entanto, os dispositivos relacionados (artigos 14 a 18) estipulam, na realidade, as garantias decorrentes do exercício da atividade sindical, silenciando a respeito da normatização referida na Constituição. Nesse sentido: “enquanto a norma do primeiro inciso é uma norma aplicável imediatamente, os incisos posteriores são normas programáveis que há anos esperam, em vão, ser traduzidas em lei”. (BARBATO, Maria Rosaria. Pluralismo sindical na Itália. In MELO FILHO, Hugo Cavalcanti; AZEVEDO NETO, Platon Teixeira (orgs.). Temas de Direito Coletivo do Trabalho. São Paulo: LTr, 2010. p. 212).
294 PESSI, Annalisa. Tra constituzione formale e materiale l´indissolubile matrimonio dell´ordinamento italiano: libertà
e unità sindacale. In Argomenti di Diritto del Lavoro. Milano: CEDAM, 06/2007. p. 1270. Tradução livre do autor do texto.
295 MARTONE, Michel. Alle origine del fenomeno sindacale l`ordine liberale e l´agire collettivo. In Argomenti di
Diritto del Lavoro . Milano: CEDAM, 2006. p. 514. Tradução livre.
296 PESSI, Annalisa. Tra constituzione formale e materiale l´indissolubile matrimonio dell´ordinamento italiano: libertà
e unità sindacale. In Argomenti di Diritto del Lavoro Outro livro?? Quem é o autor??. Milano: CEDAM, 06/2007. p. 1272. Tradução livre do autor do texto.
possíveis resquícios no modelo concebido pela Constituição de 1948297. As associações não- reconhecidas são fenômenos organizativos de diversos tipos, abrangendo uma infinidade de instituições, que não estão regulados de modo específico pela lei civil italiana. Assim, podem ser associações não-reconhecidas os centros recreativos e culturais, os organismos complexos, e tantos outros que têm como característica essencial o fato de que não são reconhecidas como pessoas jurídicas298.
Essas associações têm algumas características bastante peculiares. Como dito, em primeiro lugar, não são reconhecidas como pessoas jurídicas, não tendo personalidade jurídica própria. Todavia, são reconhecidas como possuidoras de subjetividade própria, ou seja, constituem centros autônomos de imputação jurídica. Isso significa que são consideradas de forma distinta de seus dirigentes ou associados, tendo capacidade para firmar compromissos e contratos, de forma independente. Seriam universalidades de fato às quais o direito italiano conferiu determinadas prerrogativas. Para tanto, a representação jurídica e processual dessas entidades se dará pelo seu presidente ou diretor, a quem os estatutos confiram essa incumbência299. Nesse mesmo sentido, o Código Civil confere amplos poderes aos membros de uma associação não-reconhecida para regular completamente para fixar os seus estatutos e a sua própria administração, renunciando o Estado a formular qualquer tipo de mecanismo regulatório300. A única obrigação legal atinente a tais associações é a constituição de um fundo social, formado pelas contribuições dos associados e dos bens por eles adquiridos301. Esse fundo representa uma unidade que transcende os indivíduos que pertencem à associação, de modo que ele permanece independente da vontade do sócio de se manter associado. Em outras palavras, o sócio retirante não pode requerer o recebimento de suas cotas do
297 Como explica Barbato, “as razões históricas dessa não atuação são inúmeras e devem ser buscadas sob o temor de
ingerências estaduais, na recusa sistemática dos sindicatos de contar seus próprios inscritos (o que implicaria a passagem de uma situação de aparente paridade para uma de verificada maioria).” (BARBATO, Maria Rosaria. Pluralismo sindical na Itália. In MELO FILHO, Hugo Cavalcanti; AZEVEDO NETO, Platon Teixeira (orgs.). Temas de
Direito Coletivo do Trabalho. São Paulo: LTr, 2010. p. 212).
298 Tais entidades surgiram, historicamente, como atributo do reconhecimento da unidade na somatória dos indivíduos,
em franca superação do individualismo liberal e decorrem do direito geral de associação. Tratando-se de entidades que não têm regulação específica, o legislador italiano houve por bem classificá-las de maneira genérica, permitindo que diversas organizações pudessem se albergar sob sua condição.
299 Conforme art. 36, 2, do CC – “Le dette associazioni possono stare in giudizio nella persona di coloro ai quali,
secondo questi accordi, e conferita la presidenza o la direzione (Cod. Proc. Civ. 75, 78)”.
300 Art. 36 do CC – “L'ordinamento interno e l'amministrazione delle associazioni non riconosciute come persone
giuridiche sono regolati dagli accordi degli associati”.
301 Art. 37 do CC – “I contributi degli associati e i beni acquistati con questi contributi costituiscono il fondo comune
dell'associazione. Finche questa dura, i singoli associati non possono chiedere la divisione del fondo comune, né pretendere la quota in caso di recesso”.
fundo, que se incorporam ao patrimônio da associação302. Instituiu-se, dessa forma, um equilíbrio entre uma prática intervencionista – rechaçada pelo meio sindical – e a sua total imunidade – que seria nefasta nas relações internas e externas dessas entidades. Com isso, a jurisprudência italiana fixou que, para as questões internas das associações não-reconhecidas, incide o disposto no art. 36 do CC, que permite a autorregulação por parte dos próprios interessados. Já para as questões externas, aplicam-se as diretrizes das associações reconhecidas e disposições específicas.
Esse fator é um dos que nos permite qualificar o modelo de organização sindical italiano como peculiar. A Constituição adota nitidamente um formato que pressupõe o controle da existência sindical, mas ele é repelido pela ausência de sua regulamentação que, por seu turno, não é sequer demandada – senão rejeitada – pelo movimento sindical. Disso resulta que o sindicalismo italiano adotou um formato próprio, baseado em regra do Direito Civil, e que se configura exatamente por ter uma intervenção estatal mínima. Por certo que, no plano teórico, isso também não uma solução pacificamente aceita, como explica Luisa Galantino:
A prevalente doutrina expressa opinião negativa a respeito. De fato, de um lado, destaca-se que a Constituição prevê um procedimento particular para a atribuição da personalidade jurídica ao sindicato. De outro, se observa que o reconhecimento jurídico ordinário implica um controle de mérito da autoridade governamental sobre a associação que, no que diz respeito aos sindicatos, aparece excluído do princípio constitucional de liberdade sindical o que, pelo menos, antecipa a solução de um quesito reservado ao futuro legislador303.
Ainda no plano organizacional, cabe destacar que, por força do comando conferido pela Constituição, resta evidente que há amplo espaço para a pluralidade de organizações, pois é conferida aos trabalhadores a prerrogativa de poder constituir quantos sindicatos desejarem, ainda
302 O fundo, na realidade, só se extingue com a extinção da associação, mas ele também tem como finalidade assegurar
a responsabilidade patrimonial da associação, como determina o art. 38, do Código Civil: “Per le obbligazioni assunte
dalle persone che rappresentano l'associazione i terzi possono far valere i loro diritti sul fondo comune. Delle obbligazioni stesse rispondono anche personalmente e solidalmente le persone che hanno agito in nome e per conto dell'associazione (Cod. Proc. Civ. 19)”. Nesse sentido, o texto legal aponta que tanto os associados como terceiros
podem exigir a responsabilização da entidade, valendo-se do fundo social, sendo certo que o código assume, ainda, uma posição intermediária com relação à responsabilidade dos dirigentes associativos. Com isso, determina a responsabilidade conjunta e solidária ao fundo social daqueles que agiram em nome e por conta da associação. Sua responsabilidade pessoal é supletiva em face do fundo social, mas tem caráter pessoal. Embora conceitualmente sejam distintas, as associações não-reconhecidas têm uma grande identidade estrutural com as associações reconhecidas, reguladas pelos artigos 14 a 35 do Código Civil. Não por outro motivo, o código determina que, à exceção das diretrizes relacionadas ao reconhecimento da personalidade jurídica, aplicam-se todas as demais normas das associações reconhecidas para as não-reconhecidas.
303 GALANTINO, Luisa. Diritto Sindacale. 16ª. ed. Torino: G. Giappichelli Editore, 2009. pp. 13-14. Tradução livre
que em uma mesma categoria, já que ao sindicato não deve ser imposta uma categoria para representar. Pelo contrário. É o sindicato que escolhe “a favor de quem desenvolverá suas atividades, de modo que a categoria profissional não é um elemento que condiciona sua ação, mas é definida como fruto das estratégias de atuação e representação escolhidas livremente pelos sindicatos”304. É o próprio sindicato que vai determinar o seu âmbito de atuação, com critérios totalmente subjetivos e sem nenhuma determinação apriorística305. Isso equivale a dizer os grupos profissionais não têm uma “relevância jurídica em si, isto é, não constituem ’categorias’ ontológicas prioritárias relativas às suas organizações. Ao contrário, eles adquirem existência jurídica no