Y. Ö.K DOKÜMANTASYON MERKEZİ TEZ VERİ FORMU
2. BÖLÜM
2.3. Ticari Televizyon ve Tüketim Kültürü
No período pesquisado (onze meses), o jornal gaúcho Zero Hora publicou apenas dois casos em que o abusador é pai, ou parente da vítima. Um deles está relacionado ao assassinato de uma menina de 10 anos. Outro, já citado na apresentação do presente trabalho, refere-se a um pai acusado de ter abusado da filha, filmado o ato e distribuído pela internet. Nos dois, a violência doméstica não é problematizada no contexto da descrição do sujeito abusador. O homem acusado de assassinar a enteada depois de tê-la estuprado é papeleiro, descrito, segundo a matéria como “mais um homicida” a causar medo na vila onde o mesmo morava com a família:
O papeleiro é o primeiro dos dois homens que teriam atemorizado a Vila Chocolatão no ano passado. Entre junho e julho, três crianças, entre elas Cristielen (a enteada) – apareceram mortas nas imediações da vila. (ZH-N 23; 26.02.07)
Além do nome e idade do agressor, 31 anos, a identidade dele não é explorada. Se tinha mais filhos, família, se apresentava antecedentes de violência. E o perfil sócio-econômico também é subentendido a partir das informações de que o abusador morava numa área invadida, no centro de Porto Alegre, e que trabalhava como papeleiro: “Silva chegou a ser interrogado em novembro do ano passado pela polícia, que pediu à Justiça sua prisão preventiva”. Pelas palavras do policial ouvido na matéria, a percepção é de que se trata de um homem perturbado: “Os depoimentos dele foram muito contraditórios. Em alguns momentos, assumia o crime, em outros negava – lembra Fagundes”.
A outra notícia relacionada a incesto no jornal Zero Hora é sobre um caso ocorrido em São Paulo de um pai ser preso depois de ter sido flagrado pela Polícia Federal transmitindo pela internet cenas de abuso sexual cometido contra a própria
filha. Também neste caso, as informações sobre o sujeito abusador não dão chance de se compreender um pouco mais sobre a identidade deste pai:
O microempresário, hoje com 32 anos, é acusado de ter praticado o crime em casa e ter transmitido a partir de uma webcam por um programa de bate-papo on-line. Nas buscas da casa foram achadas as roupas que ele e a filha usavam no vídeo. (ZH-N 41; 23.08.07)
É como se o silêncio, instituto que alimenta o crime de abuso sexual fosse reproduzido também nas narrativas. Almeida (1999) entende que abordar o tema da violência doméstica passa por enfrentar o mito da casa como “violência inocente”. E que este, como todo mito, “tem a capacidade de abolir a complexidade e incoerência dos atos humanos, oferecendo em troca a eternidade e a simplicidade das essências” (ALMEIDA, 1999, p. 276).
Indício desta resistência em reconhecer que há riscos no espaço tido como de sagrada proteção à criança é a não utilização do termo incesto nas narrativas que abordam este tipo de violência. A palavra não é citada nas seis reportagens que tratam destes casos (GP e ZH). Para Cromberg (2002, p. 29) enfrentar o incesto representa uma dificuldade universal, trata-se do impronunciável: “O incesto mesmo, ou o simples fato de dever falar dele provocam tal desgosto a alguns, que, por vezes, como na China e Indonésia, não se pode pronunciar a palavra”.
Silêncios são também identificados num caso ocorrido na Espanha, sobre um crime de abuso divulgado pela internet, publicado no formato de nota pela Gazeta do Povo. O que se fica sabendo sobre o sujeito abusador é a idade: ”um homem de 35 anos acusado de abusar sexualmente de uma menina de 10, filha de sua mulher, e de gravar a violência em vídeo, e divulgá-la na internet”. (GP-N 57; 02.09.07). Assim também é no caso do homem acusado de engravidar a filha (GP-N 54; 04.08.07). São as informações judiciais que sustentam a matéria, no caso, por exemplo, do idoso acusado de molestar a neta:
o homem tinha uma sentença e uma ordem de prisão decretada pela Justiça desde 2006, mas estava foragido. Naquele ano ele foi julgado e condenado em primeiro grau a cumprir como o fato de haver uma ordem de prisão decretada contra ele por já ter sido condenado por atentado violento ao pudor. (GP-N 58; 13.09.07)
A citação acima mostra que o sujeito já tinha um histórico de protagonizar violência sexual. Mas ele só foi preso, de acordo com a reportagem, por causa do programa Linha Direta da Rede Globo, que estaria produzindo um episódio sobre o caso. Diz a matéria:
Uma equipe da produção do programa teria entrado em contato com a promotoria e informou que o condenado ainda não havia sido preso. Com a informação, a PIC (Promotoria de Investigação Criminal) se deslocou até a casa do acusado e o prendeu. (GP-N 58; 13.09.07)
Apesar de o caso representar um exemplo de impunidade – foi necessário que o programa da Rede Globo se interessasse pelo fato para que o avô fosse preso – a questão não foi problematizada. Por que o sujeito não havia sido preso antes? Quais são as instituições responsáveis por esta omissão? Será que há relação com o fato de se tratar de uma violência doméstica? A notícia silencia.
Detalhamento um pouco mais significativo é registrado no caso que envolve incesto e homicídio, relacionado ao homem acusado de matar a filha e a enteada depois de estuprá-las. A narrativa dá voz ao abusador: “tinha tomado umas cervejinhas”, e “perdi minha liberdade” (GP-N 21; 05.01.07). Outra diferença é que nesta matéria há referência ao ambiente familiar:
Rodrigues não soube explicar o que teria motivado o duplo homicídio, mas deu pistas de que durante uma briga com a mulher, teria dito que levaria as crianças embora: ‘Ela disse que no dia 20 iria voltar para a Bahia. Falou que ia levar as crianças porque não estavam no meu nome’, revela. (GP-N 21; 05.01.07)
O fato das crianças estarem sendo utilizadas pela mãe para ameaçar o pai (argumento usado pelo agressor) ou o pai se utilizar deste argumento para explicar o crime revela – mesmo que de maneira bastante frágil – que o conflito já existia. A matéria se detém mais na violência sofrida pelas vítimas: “Ele contou que estrangulou a enteada e estava violentando ela quando a filha de sete anos entrou. Estrangulou-a também”. Este tratamento, que não foi identificado nas demais narrativas analisadas, é criticado pela Andi. A organização entende que “a descrição da violência sensacionaliza o tema”, (ANDI, 2003, p. 39) e dá ao caso uma dimensão
individualizada em oposição à abordagem do fato como fenômeno social61. A
sugestão da Andi é que os jornalistas utilizem expressões associadas com a tipificação penal do crime.
Na matéria “Preso pai acusado de engravidar a própria filha” é possível identificar outros elementos que colaboraram para a cena de abuso, como a coerção:
Tavares (delegado) informou que os estupros aconteciam entre ameaças que o pai fazia com uma faca. ‘Ela relatou para a polícia que o pai a mataria caso ela contasse algo para alguém. Com medo, a menina ficou por muito tempo calada, sem saber o que fazer. O pai só foi descoberto porque a adolescente apareceu grávida’, informou. (GP-N 54; 04.08.07)
A cena construída na narrativa retrata o que as estatísticas revelam sobre o tempo que a violência do abuso incestuoso pode levar até vir à tona. O levantamento do MP/RS mostra que, dos processos analisados (2004-2007), 62,8% informavam a duração da violência. Por estes, constatou-se que em 32,2% dos casos, a violação durou entre um e 11 meses. Mas na maioria, 67,8%, o abuso se perpetuou por até nove anos.(Apêndice 3)
As notícias “Preso o homem que divulgou vídeo de abuso” (GP-N 57; 02.09.07) e “Idoso é preso por abusar da neta” (GP-N 58; 13.09.07) não trouxeram elementos que permitissem construir a cena de abuso. Ausência também registrada nos dois casos publicados pelo Jornal ZH. No caso do homem que abusou e depois matou a enteada, o fato de o crime ter se dado no âmbito da casa só é referido indiretamente, a partir da expressão “padrasto”, utilizada para descrever o suspeito: “Foi durante uma operação de rotina que o padrasto da menina foi abordado por policiais que decidiram consultar sua ficha pelo rádio da viatura” (ZH-N 23; 26.02.07). Nenhuma outra informação sobre a relação familiar foi referida. Assim também é no caso do pai acusado de ter filmado o abuso da filha e de ter transmitido o crime pela internet, em que não há referência à relação incestuosa presente no caso. O que há é uma descrição física da casa, que parece corresponder mais a uma necessidade da polícia de evidenciar as provas que serviram para realizar a prisão:
Nas buscas na casa, foram achadas as roupas que ele e a filha usavam no vídeo. Detalhes, como a mesa usada na cena e a comparação das lajotas da casa e da mão do pai com as imagens, embasam a denúncia. (ZH-N 41; 23.08.07)
Os dois jornais trouxeram também pouco sobre as vítimas no período pesquisado. As informações se reduzem à idade e o sexo das crianças. Na reportagem sobre o padrasto que abusou e assassinou a enteada não se fica sabendo sobre a mãe da menina, se o Conselho Tutelar ou qualquer outra área da rede de proteção chegou a prestar atendimento à criança. A violência é narrada em tom de ocorrência policial: “o corpo da criança foi encontrado no dia 1º de junho passado, com as mãos amarradas para trás de um fio de lã e com indícios de abuso sexual”. (ZH-N 23; 26.02.07)
A condição de vulnerabilidade do sujeito vítima ganha um pouco mais de destaque na notícia sobre o homem preso por engravidar a filha, publicada na GP. A narrativa sugere fatores que possam ter facilitado que a adolescente fosse subjugada pelo abusador:
A história de vida da vítima é trágica. Ela teria sido abandonada pela mãe aos três meses de vida. ‘Quando aconteceu o abandono, a menina foi morar com a avó paterna. Aos 9 anos, a avó faleceu. Então, a menina que já era estuprada pelo pai quando ia visitá-lo, foi morar na mesma casa que ele’, conta. (GP-N 54; 04.08.07)
Ou seja, a idéia de que a relação incestuosa vai sendo tecida fica um pouco mais evidente a partir da citação acima. Nas relações de abuso entre pais e filhas os signos de ameaça vão sendo incorporados e acomodados nos espaços da casa. Bandeira e Almeida (1999 p. 171) entendem que um dos aspectos da complexidade da moral incestuosa consiste não em destruir os códigos, mas desconfigurá-los e desviá-los: “trata-se de uma relação de violência elaborada nas sutilezas e nos vínculos cotidianos (...)”. Ou seja, as filhas convivem com sentimentos de amor e ódio, se sentem seduzidas e pecadoras e em alguns casos acabam por viver maritalmente com seus pais. O que – como foi citado no capítulo 2 – levou uma corrente de psiquiatras nos Estados Unidos a dividir incesto de abuso sexual incestuoso62.
62 No Brasil, pesquisadores utilizam a expressão vítima de incesto para reforçar a violência implícita