Y. Ö.K DOKÜMANTASYON MERKEZİ TEZ VERİ FORMU
2. BÖLÜM
3.3. Az Üretip Çok Tüketmek: Çarpık Görünümler
Na matéria da Zero Hora, “Menina Operada para não crescer”, a notícia da reportagem é a insólita decisão de uma família americana de levar a filha de nove anos, com paralisia cerebral, para uma cirurgia de retirada das mamas e do útero. Uma das justificativas para tal ato é a possibilidade de a criança vir a ser abusada um dia: “havia também o temor de que ela sofresse abuso sexual e engravidasse” (ZH-N 16; 05.01.07). A especialista ouvida pela reportagem teria feito experiências com um grupo de meninos, que jogou futebol depois de assistir a filmes violentos. O resultado é que a partida teria tido mais episódios de discussões e brigas. O caso, segundo a psicóloga, serve como exemplo para mostrar que o mesmo poderia ser feito com as vítimas da violência sexual: “se bem conduzido, este processo pode ajudar no tratamento de pacientes que tenham sofrido abuso sexual e precisem liberar a raiva” (GP-N 52; 29.07.07). O mesmo jornal traz ainda outra matéria citando novidades em relação ao tratamento das vítimas: “Nova droga apaga as más lembranças”. A notícia se refere a pesquisas sobre um medicamento que está sendo usado em conjunto com a psicoterapia para amenizar a memória de pacientes com estresse pós-traumático, dentre estes, “19 vítimas de acidentes ou abuso sexual” (GP-N 49; 03.07.07). Não há qualquer referência ao perfil dos pacientes ou sobre os efeitos deste trauma. Em “Talento para ouvir”, (ZH-N 40; 01.08.07) o abuso sexual é citado como um dos traumas que costuma ser tratado pelo profissional da psicologia.
O abuso também aparece na ZH associado a crimes de grande repercussão. Um deles é o da escola Amish68, na Pensilvânia (EUA) (06.10.06). Segundo a
reportagem, o homem de 32 anos que matou cinco estudantes e depois se suicidou é suspeito de abuso sexual:
Em telefonema para a mulher, Marie, antes de cometer os homicídios Roberts também confessou ter abusado sexualmente de duas meninas de sua família, de três e quatro anos, há vinte anos. No entanto, a polícia do condado Lancaster informou ontem que as vítimas negaram qualquer abuso sexual. (ZH-N 9; 06.10.06)
68 Cristãos de origem franco-suíços conhecidos pela forma com que se vestem (roupas pretas e
Outro é do massacre ocorrido numa universidade de Virgínia, nos Estados Unidos. A reportagem “Mentes doentias” faz um levantamento sobre a vida de outros homicidas. Segundo a reportagem, um dos dois meninos que teriam assassinado quatro estudantes e uma professora da Universidade do Arkansas (EUA), em março de 1998, “sofrera abuso sexual aos seis anos” (ZH-N 32; 22.04.07). Na notícia sobre o caso da menina britânica que desapareceu do quarto onde estava com outros dois irmãos numa praia de Portugal. Um dos suspeitos preso “era procurado por acusações de abuso sexual de menores” (ZH-N 37; 29.06.07).
Uma interpretação possível a partir do grupo de narrativas descritas acima é que o abuso sexual se apresenta como uma violência que de alguma maneira está na agenda dos meios de imprensa. Mesmo não sendo o ator principal da notícia, o fato está presente na descoberta de uma nova droga, a nova experiência psicoterapêutica, a polêmica cirurgia realizada na criança com paralisia cerebral. O que, teoricamente, acaba sendo positivo para dar mais visibilidade a um fenômeno social que é cercado de silêncios. Só que ao não explorar de maneira mais crítica o assunto, as narrativas passam uma idéia difusa de perigo. Como não há uma fala autorizada na matéria que questione a decisão da família americana em extirpar os órgãos da filha em nome de um eventual risco dela ser abusada, o leitor pode ser levado a pensar que o ato não é tão absurdo assim. Associado então a massacres que têm chocado o mundo, o risco do abuso passa a ter outra dimensão. Já não se está falando apenas da violência sexual. O abuso, que pelas abordagens se relaciona a uma doença, pode fazer vítimas em qualquer lugar, contra qualquer pessoa. É esta produção de sentido que faz parecer possível pensar estas narrativas com um olhar na “teoria do risco” (BECK, 1997). O terreno é fértil para discussões sociológicas, e não se pretende aqui abrir demais o escopo sob pena de perder o objeto de análise. O primeiro alerta é não cair na tentação de compreender “risco” como simples sinônimo de ameaça ou perigo. Para S. Costa (2002), o “risco” deve ser entendido de maneira objetiva e subjetiva. Objetivamente, são ameaças geradas pela industrialização, como o da contaminação do ar, da água, de envenenamento associados à produção em massa de alimentos, ou de uma catástrofe nuclear:
No caso extremo, quando se trata de enfrentar as conseqüências de uma catástrofe nuclear, não há mais possibilidade de alguém ser não participante. Inversamente, isto também implica que todos os que estão sob esta ameaça são necessários como participantes e parte
afetada, e podem parecer igualmente auto-responsáveis. (BECK, 1997, p. 22).
Para Beck (1997) na sociedade global as ações cotidianas dos indivíduos têm repercussão global e oferecem riscos indiscriminados a ricos, pobres, ocidentais ou orientais. Daí a auto-responsabilidade. Apesar da “teoria do risco” ser mais utilizada para explicar inseguranças e ameaças que a tecnologia da sociedade industrial gerou no campo ambiental, da saúde e do trabalho, acredita-se que a mesma pode valer também para pensar a violência interpessoal, que tem seu crescimento também associado à vida moderna:
As sociedades modernas tornam-se efetivamente sociedades de risco na medida em que constituem mecanismos de percepção e de decodificação discursiva das ameaças existentes. Nesse momento, a presença dos riscos adquire a força de mecanismo catalisador e liberador da (auto) crítica social, tornando uma auto-evidência os limites das instituições que nascem com a modernidade (a família nuclear, o Estado moderno, a técnica e a ciência em sua forma contemporânea) e a vulnerabilidade dos projetos sociais e pessoais nelas enraizados. (S.COSTA, 2002, p. 75)
A família nuclear tem mudado, e essa mudança repercute no nascimento do discurso da sexualidade. A modernidade, segundo Foucault (1988), colocou a família no centro do discurso sobre a sexualidade. É na dimensão marido e mulher, pais e filhos – que se desenvolveram os principais elementos do dispositivo da sexualidade (o corpo feminino, a precocidade infantil, a especificação dos perversos). O risco é uma ameaça percebida e construída pelos próprios indivíduos. Então mesmo que a violação sexual tenha ocorrido desde sempre, o problema social abuso sexual tem pouco mais de vinte anos (GIDDENS, 2005). E é o poder- conhecimento (médicos, psicólogos, psiquiatras) que vai constituir os mecanismos de percepção e de decodificação discursiva das ameaças existentes. E esta decodificação não produz certezas. Beck (1997) entende que na “sociedade de risco” as auto-ameaças e os efeitos são sistematicamente produzidos, mas estes não se tornam questões públicas, não chegam a ocupar o centro de conflitos políticos. É própria destes tempos a dificuldade em conectar causas e conseqüências, culpados e vítimas dos problemas sociais:
Os riscos contemporâneos são sempre difusos, têm origens múltiplas, e tanto aqueles que os causam como os que sofrem sua ação não podem mais ser adequadamente identificados. (S. COSTA, 2002, p. 79).
Mas na “sociedade reflexiva” (BECK, 1997) os conflitos são escancarados e as falhas e limitações são expostas de forma extenuante. Até instituições como a Igreja, que até então não aparecia ostensivamente como geradora de violência sexual passa a figurar como protagonista. Dentre as 113 notícias analisadas, (casos individualizados + conceituais) pelo menos sete (6%) traziam alguma informação sobre os casos de abuso sexual praticados por religiosos (padres e pastores). O tema foi abordado de maneira semelhante pelos dois jornais com ênfase nas indenizações às vítimas de abuso:
A Igreja católica chegou a um acordo financeiro estimado em 660 milhões de dólares (aproximadamente 1,2 bilhão de reais) com mais de 500 pessoas que alegam ter sido vítimas de abuso sexual por padres em Los Angeles, nos Estados Unidos. (GP-N 50;16.07.07)
Zero Hora chegou a divulgar uma reportagem baseada num documentário da rede britânica BBC denunciando o próprio papa:
Segundo a BBC, Ratzinger era, durante mais de 20 anos, um dos responsáveis por garantir que fossem cumpridos os termos de um documento secreto da Igreja, que dava instruções de como bispos lidariam com acusações de abusos sexuais cometidos por padres em suas paróquias. [...] e ameaça com a excomunhão quem violar um juramento absoluto imposto à vítima, ao acusado e a eventuais testemunhas. (ZH-N 6; 02.10.06)
Ou seja, apesar de escancarar o problema, mostrando até mesmo a suposta omissão do papa, a reportagem, por outro lado, passa a idéia de uma responsabilidade difusa porque não oferece qualquer fala de repercussão sobre o fato. Não foi citada na matéria a possibilidade de responsabilização criminal dos padres, além da responsabilidade civil. E a própria cúpula da Igreja também não parece ter dado muita importância, pois quanto às denúncias de omissão do papa, “o vaticano não comentou as denúncias”. Ou seja, onde estão os culpados? Como compreender os riscos de abuso sexual associados aos religiosos se eles não estão claros?
5.2 A ABORDAGEM ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO E A PRODUÇÃO DE