Este capítulo se desenvolveu a partir do objetivo de verificarmos as construções formuladas no capitulo 3. Examinamos uma amostra de ocorrências de FAZER no gênero jornalístico em um total de 1079 ocorrências.
A análise quantitativa mostrou que a Construção de Especificação de Evento foi a mais frequente, seguida das Construções Passivas e as construções do tipo FAZER discursivo. As construções do tipo Estativo (as construções com FAZER pronominal) tiveram a menor frequência. Esse resultado sugere que FAZER se integra mais a construções esquemáticas.
Ainda no que diz respeito ao resultado quantitativo, tivemos duas construções que não ocorreram. Foi a Construção Transitiva de Objeto Elíptico e a Construção Ditransitiva de Transferência de Beneficiário Indireto. Discutimos brevemente esses resultados, apontando a necessidade de mais estudos relacionados às construções.
Já a análise qualitativa buscou discutir os casos de fronteira. Essa análise demonstrou que a “dificuldade” de classificação de certas ocorrências deve ser considerada como uma “consequência” da nossa proposta de descrição baseada na Gramática de Construções e na Teoria da Mesclagem e, mais do que isso, que a formulação de construções por meio de relações de herança e operações de mesclagem é pertinente.
5 O PONTO DE CHEGADA: UMA POSSÍVEL REDE DE CONSTRUÇÕES PARA O VERBO FAZER
Ao estabelecermos, aqui, um ponto final no nosso percurso sobre o verbo FAZER, o fazemos porque isso se faz necessário. Não foi difícil constatar, desde o primeiro dia de nossa pesquisa, que nosso objeto de estudo propiciaria uma das mais fantásticas, mas também desafiantes “viagens” linguísticas. Em vários momentos, parecia que realmente o nosso trajeto não teria fim. A cada acepção identificada, a cada uso constatado e a cada construção formulada para FAZER, nossa investigação mostrava diferentes possibilidades de desenvolver nosso trabalho. Poderíamos, por exemplo, só investigar e analisar mais detalhadamente a Construção de Especificação de Evento, pois há muito o que se tratar sobre essa construção. Contudo, optamos por uma proposta que buscasse descrever de modo amplo os diversos usos de FAZER. Dessa forma, nosso trabalho se diferenciou de estudos anteriores, já que abordou, por exemplo, as “Expressões Fixas” e as construções com o FAZER pronominal.
Ao apresentarmos as numerosas acepções presentes em dicionários, mas também seus diferentes usos não só no principal corpus utilizado (Linguateca), como em trechos de conversação espontânea transcritos do corpus do GREF, dados de artigos acadêmico-científicos e dados avulsos (jornais, anúncios, entre outros), mostramos a importância de se ter extensos inventários de itens para que se chegue o mais próximo da realidade linguística sem o risco de seleção de evidência. Esse trabalho descritivo de tamanho investimento não só serviu de base para elaboração da tipologia dos usos de FAZER e, consequentemente, para a formulação das construções, mas também buscou contribuir para os estudos descritivos do português do Brasil, um dos objetivos da área de concentração deste programa de pós-graduação, que é a de “Linguística teórica e descritiva”, à qual sou filiada.
Após todo esse trabalho de pesquisa e apresentação das acepções, foi necessário se estabelecer, então, uma tipologia que servisse aos nossos objetivos descritivos. Poderíamos ter utilizado as várias classificações já formuladas para este verbo e que foram, inclusive, apresentadas e avaliadas nesta pesquisa. No entanto, optamos pela formulação de uma tipologia própria, baseada em critérios sintático-semântico mais gerais, para tentar contemplar e, ao mesmo tempo, organizar o máximo possível de acepções e usos de FAZER. A classificação proposta incluiu seis tipos. Cada um dos tipos mereceu um breve estudo ainda no capítulo 2.
Apesar de admitirmos que o trabalho descritivo de FAZER pela perspectiva lexicalista seja essencial, e que os trabalhos anteriores já de cunho funcionalista são de grande valia,
defendemos que a adoção dos modelos cognitivos complementares da Gramática de Construções e da Teoria da Mesclagem seria mais adequada para se descreverem usos com um mesmo verbo que evocam vários significados.
Com base nas relações de herança propostas por Goldberg (1995), formulamos algumas construções às quais o verbo FAZER se integra. Para tanto, consideramos como “construção-mãe” a Construção Transitiva Básica. Tentamos também encontrar nas outras construções básicas postuladas por Goldberg, como a ditransitiva, movimento causado e resultativas, possíveis relações com construções em que FAZER ocorre. Ao constatarmos que alguns usos de FAZER não podiam ser explicitados por construções formuladas somente por relações de herança, por serem construções gramaticais mais complexas, buscamos a Teoria da Mesclagem, nos moldes de Fauconnier e Turner (1996), para propor as configurações das construções dos tipos FAZER- leve e do tipo FAZER causativo. Essas construções resultantes de operações de mesclagem, também tiveram como um dos seus inputs a Construção Transitiva Básica. A partir destes modelos, postulamos um total de 18 construções integradas por FAZER e mais dois tipos de passiva (verbal e adjetiva).
Feito isso, constatamos a necessidade de se atestar a proposta em ocorrências reais da língua. Nosso trabalho com os dados se restringiu, então, a esse propósito, sem grandes pretensões de se chegar a conclusões categóricas. O tipo mais frequente encontrado foi o tipo C – Construção de Especificação de Evento – com 26% do total. As construções passivas (22, 2%) vieram em seguida e depois o tipo E – FAZER discursivo (16,2%). O tipo com menor frequência foi o estativo (0,7%). Ao refletirmos sobre tal resultado, sinalizamos que a hipótese de que o verbo FAZER é um verbo esquemático poderia ser confirmada e que seu caráter “polissêmico” é uma consequência da possibilidade de ele poder se integrar a várias construções.
Em uma breve análise qualitativa, encontramos ocorrências cujas construções não integrariam as construções propostas. Foi o caso de ocorrências na passiva sintética, classificadas como uma construção passiva verbal, mas que a análise qualitativa mostrou necessidade de se postular uma construção específica, já que há diferenças sintáticas e semântico-pragmáticas entre a construção passiva “sintética” e a “analítica”. A outra construção proposta após a análise dos dados foi a Construção Causativa com objeto elíptico ligada à construção Causativa com Infinitivo por relação de herança por subparte.
O estudo qualitativo também serviu para examinarmos casos de fronteira entre uma e outra construção. Analisamos, por exemplo, algumas ocorrências que estariam no limite entre as construções transitivas e as de Especificação de Evento. Vimos que a maioria das Expressões
Fixas, apesar de serem “construções lexicais”, mantêm padrões sintáticos ligados principalmente à transitiva básica. Argumentamos que isso não se torna um problema, já que esses casos parecem confirmar os princípios básicos da Gramática de Construções, de que há uma continuidade básica entre sintaxe e léxico, calcada no uso linguístico, e que a gramática é uma grande rede de construções.
A continuidade entre sintaxe e léxico pode ser traduzida aqui, tendo em vista os seis grandes tipos de FAZER. A partir de todo o nosso estudo, podemos afirmar que há um contínuo que parte de construções mais abertas ou esquemáticas (mais “sintáticas”) até construções mais especificadas (mais “lexicais”) com FAZER. Para os tipos de FAZER teríamos:
Passivas> FAZER discursivo>FAZER leve > FAZER pleno > FAZER causativo> FAZER estativo> Expressões Fixas com FAZER.
No que diz respeito às construções, ousamos apresentar, sob formato de uma rede, as construções integradas por FAZER que conseguimos identificar na nossa pesquisa. A Figura 29 mostra esta “Rede”.
Figura 29 – Rede de Construções para o verbo FAZER
O esquema elaborado aqui reflete as construções e as ligações entre elas. As ligações por herança e por operações de mesclagem explicitadas no capítulo 3 e 4 foram representadas pelas linhas contínuas. Já as linhas pontilhadas representam também relações existentes entre uma e outra construção, considerando apenas o padrão sintático e a compatibilidade entre elas. As construções mais esquemáticas foram colocadas na parte de cima do esquema (Construções Discursivas, de Especificação de Evento e as Passivas). As construções mais especificadas foram colocadas abaixo da Transitiva Básica. A única construção a que FAZER não integra e que foi colocada no esquema é a Construção de Movimento Causado (círculo pontilhado) que, conforme Goldberg (1995), estabelece relações de herança metafóricas com a Construção Resultativa e com a Ditransitiva de Transferência de Posse. Contudo, argumentamos, no capítulo 3, que a Resultativa deriva de operações de mesclagem entre a Construção de Movimento Causado e a Construção Transitiva Básica.
A Construção Transitiva Básica, a partir da qual estabelecemos as outras construções, mantém relações de herança com a Transitiva de Objeto Produzido (herança por polissemia), com a Transitiva de Sujeito Agente Beneficiário (herança por instanciação). Já as Construções Causativas com infinitivo e com subjuntivo e as próprias Resultativas assim como as construções de Especificação de Evento são, segundo nossa proposta, resultantes de operações de mesclagem que têm como um dos seus inputs a Construção Transitiva Básica.
No que diz respeito às Construções Passivas, argumentamos que há uma relação de compatibilidade, ou seja, há algumas construções com FAZER que são compatíveis com a Passiva e outras não. As construções compatíveis seriam as Transitivas, Ditransitivas, as Resultativas com sintagma preposicionado, as de Especificação de Evento e as Discursivas com objeto realizado.
Já as construções discursivas mantêm a configuração sintática das transitivas (SVO) e ao recuperarem objetos pelo contexto podem ter nas suas instanciações SNs que denotam eventos e, por isso, se relacionam com a Construção de Especificação de Evento.
As construções Ditransitivas perfilam um participante a mais do que as Transitivas, estendendo o padrão sintático SVO para SVO (Obl). É sempre bom lembrar que a Construção Ditransitiva com FAZER, cujo sentido, é “intenção de causar-receber” é herdada da Ditransitiva Básica por polissemia.
Defendemos também que o tipo Estativo com FAZER pronominal seria configurado pela Construção Resultativa Intransitiva herdada da construção Resultativa pela relação de subparte. Isso também ocorre com a Construção Resultativa de Objeto Elíptico.
As Expressões Fixas estabelecem relações com diversas construções, já que muitas delas mantêm o padrão sintático das construções que são preenchidos por elementos lexicais “fixos”. Por isso, encontramos Expressões Fixas com padrões transitivos, mas também com o padrão sintático das Construções Causativas com infinitivo e das Construções Resultativas. Na amostra investigada, constatamos que o padrão transitivo é o que mais ocorre nas expressões fixas com FAZER. Discutimos também a posição de Fulgêncio (2008) que considera a construção causativa com subjuntivo uma expressão fixa mista.
Ao mostrar que é possível elaborar uma rede de construções com FAZER ainda que permaneçam muitas questões a serem respondidas e análises a serem aprofundadas, verificamos nossa hipótese, mas também reforçamos o princípio de que a gramática é uma rede de construções. Dessa forma, chegamos ao fim do percurso traçado para esta tese. No entanto, o caminho trilhado é a nossa modesta contribuição para uma possível e necessária “Gramática de Construções do Português do Brasil”.
“Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes ousada. E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu FAZER.”
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