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A idéia de uma terra nova, repleta de possibilidades, também esteve presente no clássico de Capistrano de Abreu, Capítulos de História Colonial. Discorrendo sobre a ação de integrantes de uma armada que penetrou pelo Rio da Prata em 1513,
“...seiscentas a setecentas léguas de terras novas...”, Abreu dá um exemplo interessante de que, desde longa data na historiografia, o termo terra nova não estava diretamente associado a fatores de ordem demográfica. Ora, se Abreu segue dizendo que os atores desse episódio encontraram “diversos objetos metálicos”, “um machado
de prata” e até mesmo tiveram notícia “...de serras nevadas ao Ocidente”,71 seria um engano pensar que o autor entendia como terras novas um espaço livre das ações humanas. Por outro lado, ao longo de seu texto fica evidente que o termo faz referência a um espaço ainda não inserido dentro da lógica de exploração, do interesse econômico há muito em voga entre os povos tidos como civilizados. Assim como fez mais tarde
71 ABREU, João Capistrano de. Capítulos de História Colonial (1500-1800). Belo Horizonte: Itatiaia, 2000, p. 39.
Caio Prado Júnior, Capistrano de Abreu valeu-se desse modelo de terras novas para
“descrever o processo de avanço da ocupação portuguesa”.72
Já a idéia de sertão em Abreu tinha como referência uma área que fica além da fronteira de ocupação. Em vários momentos, menciona o sertão como um lugar distante da civilização73 litorânea. Embora o autor reconheça a presença indígena, como já assinalado, nenhuma dinâmica é dada ao espaço do sertão, salvo as escaramuças entre índios e agentes colonizadores. O trabalho desse historiador omitiu, e a historiografia brasileira continuou omitindo durante muito tempo, a interferência indígena como componente fundamental no processo transformador da natureza.
O historiador cearense descreveu a paisagem colonial e o sertão como uma paisagem natural, virgem, destituída de sinais de interferências humanas, regiões desertas, onde quando muito perambulavam índios. Simultaneamente, contudo, em várias passagens mostrou encontrar-se esse espaço ocupado por grupos indígenas. Indicou a existência de trilhas, de roças, de aldeias, de sociedades se comunicando. 74
O certo é que, após a chegada do europeu, as transformações do cenário então existente adquiriram um ritmo antes nunca visto.75
No que diz respeito à administração colonial e sua interferência em áreas que se distanciavam do litoral, Abreu fala da postura das câmaras do interior cearense e da maneira como concordavam com suas análogas no litoral. Ainda segundo Abreu:
“Nada confirma a onipotência das câmaras municipais descoberta por João Francisco Lisboa, e repetida à porfia por quem não se deu ao trabalho de recorrer às fontes”.76
72
CORRÊA, Dora Shellard. Historiadores e cronistas e a paisagem da colônia Brasil. Revista Brasileira de História, v. 26, p. 63-87, 2006.
73 De acordo com Espindola: “Civilização e uma categoria fundamental por enquadrar um conjunto de
diferenciações decisivas para caracterizar a paisagem do sertão nos campos da religiosidade, urbanidade, costumes etc., permitindo contrapor civilização/barbárie, religião/superstição, entre outras.” ESPINDOLA, Haruf Salmen. Sertão do Rio Doce. Co-edição com a Editora Univale e Instituto Terra. Bauru, São Paulo: 2005, p. 77.
74 CORRÊA, Dora Shellard, op.cit.
75 Ver: DEAN, Warren. A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. Trad. Cid Knipel Moreira. Revisão técnica José Augusto Drummond. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 76
ABREU, João Capistrano de. Capítulos de História Colonial (1500-1800). Belo Horizonte: Itatiaia, 2000, p. 141. João Francisco Lisboa foi um renomado jornalista e historiador maranhense. Ver: LISBOA, João Francisco, obras de João Francisco Lisboa - precedidas de uma noticia biográphica... Editores e
Para Ivan de Andrade Velasco, “... o lugar da violência e da barbárie é o
sertão; contraposto a ele, a justiça”. Assim o autor diferenciou o sertão do universo civilizado ao analisar um documento a respeito de uma agressão, no qual a testemunha acautelava os réus dizendo-lhes que “... não estavam no sertão para praticarem uma
violência tão bárbara e desumana à face da justiça”.77 Contudo, com a consolidação dos núcleos de povoamento, a “justiça”, ou melhor, a força legal de um aparelho de governo que se afirmava passou a ganhar terreno.
Ao que tudo indica, a liberdade experimentada pelos colonos norte-americanos descrita por Turner em sua Tese da Fronteira não havia ocorrido, mais de um século antes, com a mesma intensidade na América Portuguesa. Vejamos o que dizia Manoel Martins do Couto Reys em 1785. Na época, o militar refletia sobre a população dos Campos dos Goitacases, e afirmava que a liberdade propiciada pela vida no sertão, longe do aparato da justiça, acabou por gerar um tipo de indivíduo insubordinado, amante da liberdade, confirmando a visão a respeito da relativa impunidade vivenciada por aqueles que se embrenhavam nos sertões. No entanto, de maneira distinta daquela fronteira desenhada pelos historiadores norte-americanos anteriormente mencionados, onde a referida liberdade era fundamental como elemento emancipador de toda criatividade norte-americana; no caso em questão, a administração colonial preocupou- se – em locais onde lhe era mais conveniente é certo – em sossegar os ânimos dos seus colonos. Algumas regiões despertavam maior interesse econômico e, por conseguinte, atraíam aparatos de controle da ordem e de cunho fiscal, como os quartéis e registros que também tinham como função alargar a fronteira. De acordo com Manoel Martins:
“A creação das Troppas Auxiliares, foi o mais poderozo freyo, para se reprimirem as revoluções agitadas pelas qualidades referidas”.78
O termo fronteira, muito recorrente em Abreu, não alude a um espaço de contato e transformação. Muito menos traz à baila as dimensões étnico-sociais, tão bem apreciadas por Sérgio Buarque de Holanda. Em Capítulos de História Colonial, Capistrano de Abreu refere-se ao termo fronteira simplesmente como uma linha divisória que decompõe um dado espaço físico. Seu trabalho é desprovido de uma
revisores, Luiz Carlos Pereira de Castro e o Dr. Henriques Leal. 2a edição acrescida de apêndice de Sotero dos Reis, 2 vols, Lisboa, 1902.
77 VELASCO, Ivan de Andrade. As seduções da ordem: violência, criminalidade e administração da
justiça, Minas Gerais, século XIX. EDUSC. Bauru – São Paulo: 2004, p. 189. “grifo nosso”.
78 REYS, Manoel Martinz do Couto. Manuscritos de Manoel Martinz do Couto Reys (1785). Rio de Janeiro: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 1997, p. 53.
análise que contempla a fronteira como um espaço cuja variedade de ocupação pode propiciar a averiguação dos mais interessantes arranjos sociais. Dentre esses, a resistência e associação entre povos indígenas e os neobrasileiros.
A apresentação de uma Tese da Fronteira no Brasil em sua dimensão indígena só foi problematizada com Sérgio Buarque de Holanda. A partir de então, o estudo das fronteiras brasileiras adquiriu novas perspectivas.