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Para que ocorra a valorização do produto pós-consumo, algumas diretrizes em sua concepção devem ser analisadas, como a matéria-prima a ser usada e o impacto desta no meio ambiente; seu potencial de reciclabilidade e toxicidade; potencial de descaracterização do produto, ou seja, se o produto é fácil de ser desmontado; sua vida útil, entre outros fatores que tornam esse produto menos impactante ao ambiente.

Para tanto, ferramentas como o ecodesign, análise do ciclo de vida, logística reversa e responsabilidade estendida do produtor foram desenvolvidas com o propósito de atender à necessidade de valorização dos produtos após o término da sua vida útil.

Entende-se como ecodesign “o projeto orientado por critérios ambientais, que engloba um conjunto de atividades com o objetivo de enfrentar os problemas ambientais, sendo uma maneira eficaz de se agir preventivamente, na fase de concepção dos produtos, de modo a evitar, ou melhor, limitar os impactos ambientais futuros ao longo de todo o ciclo de vida” (MANZINI; VEZZOLI, 2005).

Rodrigues (2007) apresenta vários termos para projetos orientados por critérios ambientais, entre eles Projeto Verde (Green Design), Projeto Sustentável (Sustainable Design), Projeto do Ciclo de Vida (Life Cycle Design), Engenharia do Ciclo de Vida (Life Cycle Engineering) e Projeto Limpo (Clean Design), todos com um conceito comum: a

fabricação de produtos que visem ao menor impacto possível no meio ambiente. Nesta pesquisa adota-se o termo ecodesign, por ser o mais encontrado na literatura brasileira.

A análise do ciclo de vida está diretamente relacionada com o ecodesign, uma vez que esta ferramenta analisa o produto do “berço-ao-berço”, ou seja, desde a escolha da matéria- prima, passando pelo projeto e finalizando com o destino do produto pós-consumo (tornando-se matéria-prima novamente).

Para Manzini e Vezzoli (2005), a análise do ciclo de vida é uma metodologia usada para avaliação dos impactos ambientais associados a determinado produto ou serviço em todo o seu ciclo de vida, desde a extração da matéria-prima virgem, passando por todos os elos de sua cadeia produtiva, transporte, distribuição, uso, manutenção, reutilização, reciclagem, até a eliminação.

Para que as ferramentas de ecodesign e análise de ciclo de vida sejam realmente eficientes, necessita-se que esse produto, ao final de sua vida útil, tenha um destino adequado. Para tanto, ele deve ser incluído novamente no ciclo produtivo para que obtenha sua valorização. Nesse momento entra a ferramenta logística reversa. Uma definição bem abrangente do que se trata a logística reversa é a expressa por Leite (2003):

A área da logística empresarial que planeja, opera e controla o fluxo e as informações logísticas correspondentes, do retorno dos bens de pós-venda e de pós-consumo ao ciclo de negócios ou ao ciclo produtivo, por meio de canais de distribuição reversos, agregando-lhes valor de diversas naturezas: econômico, ecológico, legal, logístico, de imagem corporativa, entre outros (LEITE, 2003).

Nota-se que no conceito dado por Leite (2003) o retorno dos bens/produtos podem ocorrer de duas formas: pós-venda, que são os produtos devolvidos logo após a venda, por diferentes motivos, como erros no processamento de pedidos, garantia dada pelo fabricante, defeitos ou falhas de funcionamento, avarias no transporte, entre outros. Esses produtos são classificados como sem uso ou com pouco uso, os quais retornam aos diferentes elos da cadeia de distribuição. A segunda forma de retorno dos produtos é denominada de pós-consumo, que corresponde aos produtos descartados pela sociedade em geral, após o término de sua vida útil. Esses produtos de pós-consumo poderão se originar de bens duráveis ou descartáveis e fluir por canais reversos de reuso, desmanche, reciclagem, até a destinação final. A FIG. 3.14 demonstra de maneira sucinta esses fluxos.

Bens de Pós-venda Resíduos Industriais Bens de Pós-consumo Comércio Indústria Garantia / Qualidade Comerciais Substituição de Componentes Em Condições de Uso Fim de Vida Útil Conserto Reforma Estoques Validade de

Produtos Desmanche Reuso

Mercado de Segunda Mão Componentes

Retorno ao

Ciclo de Negócios Reciclagem Remanufatura

Disposição Final Mercado Secundário de Bens Mercado Secundário de Matérias-Prima Mercado Secundário de Componentes

Retorno ao Ciclo Produtivo

Bens de Pós-venda Resíduos Industriais Bens de Pós-consumo

Comércio Indústria Garantia / Qualidade Comerciais Substituição de Componentes Em Condições de Uso Fim de Vida Útil Conserto Reforma Estoques Validade de

Produtos Desmanche Reuso

Mercado de Segunda Mão Componentes

Retorno ao

Ciclo de Negócios Reciclagem Remanufatura

Disposição Final Mercado Secundário de Bens Mercado Secundário de Matérias-Prima Mercado Secundário de Componentes

Retorno ao Ciclo Produtivo

FIGURA 3.14 – Foco de atuação da logística reversa. Fonte: Leite (2003).

A responsabilidade estendida do produtor (REP, Extended Producer Responsibility-EPR) define-se com a idéia de que a cadeia industrial produtora ou o próprio produtor, que de certa forma agridem o meio ambiente, deve se responsabilizar pelo seu produto até a decisão correta do seu destino após o uso original (LEITE, 2003).

O conceito de REP foi definido primeiramente por Thomas Lindhqvist, em 1992, para descrever uma política então emergente na Europa, como a extensão da responsabilidade dos produtores para os impactos ambientais dos seus produtos para todo o ciclo de vida do produto e, especialmente, para a sua garantia de retorno, reciclagem e eliminação (KHETRIWAL et al., 2007).

Atualmente o termo tem sido usado principalmente para descrever a responsabilidade dos produtos “pós-consumo”, ou seja, depois que os produtos tenham sido devolvidos no final da sua vida útil. Como tal, a REP transfere a responsabilidade de materiais descartados que de outra forma seriam geridos pelo governo local e pelos consumidores para a indústria privada, integrando, assim, aos custos do produto a eliminação ou reciclagem do mesmo (KHETRIWAL et al., 2007).

A Diretiva 2002/96/CE considera o EPR como princípio básico de gestão dos REEEs, bem como responsabiliza esses produtores sobre os resíduos órfãos, ou seja, aqueles produzidos no passado ou por empresas que já não estão mais no mercado, definindo no seu item 20 a responsabilidade do produtor:

Os consumidores de EEE do setor eletrodomésticos devem ter a possibilidade de entregar os REEEs pelo menos sem encargos. Os produtores devem, por conseguinte, financiar a coleta nos postos de entrega e o tratamento, valorização e eliminação dos REEEs. A fim de dar ao conceito de responsabilidade dos produtores o maior efeito, cada produtor deve ser responsável pelo financiamento da gestão dos resíduos provenientes dos seus próprios produtos. Os produtores deverão poder optar por cumprir esta obrigação, quer ainda individualmente quer aderindo a um regime coletivo. Cada produtor, ao colocar seu produto no mercado, deverá prestar uma garantia financeira a fim de evitar que os custos da gestão dos REEEs provenientes de produtos órfãos (histórico) recaiam sobre a sociedade ou sobre os produtores remanescentes (PARLAMENTO EUROPEU, 2003b).

3.3 Levantamento da situação internacional

Benzer Belgeler