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4. ARAŞTIRMA SONUÇLARI VE TARTIŞMA

4.1. Kuru Koşullarda Yürütülen Araştırmalar

4.1.23. Kuru koşullarda yürütülen araştırmada incelenen özellikler arasındaki ikil

4.1.23.1. Tene verimi ile diğer unsurlar arasındaki ilişkiler

A imagem da unidade é mesmo estranha à obra de Cervantes. Nesta, tudo parece ser matéria reversível porque múltipla e mutável. Por essa via, podemos dizer que o paradoxo encerra as façanhas cambiantes e melancólicas de don Quijote. O velho mundo da cavalaria que lhe pesa sofrimento é, ao mesmo tempo, o que lhe dá “gran satisfacción” quando acredita ter sido fiel aos princípios de sua leitura. Cervantes arruma o seu personagem pondo-lhe peso desde a sua vestidura. Mal podia pôr-se de pé com o peso de sua armadura: “y, queriéndose levantar, jamás pudo: tal embarazo le causaban la lanza, adarga, espuelas y celada, con el peso de las antiguas armas” (DQ, p. 54), como se aí o peso da armadura simbolizasse um fardo muito maior: o do existir, o desvão de uma existência desvitalizada.

Assim, a narrativa vai criando em torno do personagem um quadro de angústia e desolação, um aspecto de intensa tristeza. Embora enfrente com coragem e audácia a loucura da humanidade, a sua trajetória se configura como um descaminho. Perdido no labirinto de si mesmo, seu fiar tece “un camino que en... las encrucijadas”, o que significa caminhos sem direção, por isso, põe-se sujeito à decisão de seu companheiro de jornada, Rocinante. A ele dá o poder de trazer luz a sua obscuridade: “y al cabo de haberlo muy bien pensado solto la rienda a Rocinante, dejando a la voluntad del rocín la suya” (DQ, p. 52). Esses caminhos sem direção apontam para a condição melancólica do personagem, dizem da representação de um sujeito que vive, melancolicamente, à deriva de si próprio e do mundo.

A irracionalidade desafia a encruzilhada da dúvida. Don Quijote é flagrado em sua desrazão, alargando fronteiras de impossibilidades, para coisas possíveis de ser, dialogando, portanto, com a imagem criada em seu cérebro em desatino, a apontar a direção de uma travessia infinda. Desse modo, a narrativa constitui um elo entre o irracional e o delírio, tomando a falta de juízo como elemento desintegrador de racionalidades absolutas, Quijote e Rocinante representam o desequilíbrio da ordem, na medida em que o homem (aparentemente pura lógica racional) é dirigido por seu avesso, o instinto animal (Rocinante). Ao que nos parece nada nessa narrativa toma a racionalidade como subterfúgio de sustentação da

88 existência humana, ou como garantia de uma existência plena. Aqui a fantasia ocupa o ponto mais alto, e, por ela se desenrolam ações que formam atitudes estranhas ao fidalgo.

Tais atitudes são para don Quijote alimentadas na assiduidade de suas leituras que lhe dirão de uma razão possível, e nesse caso é explicada pela não-racionalidade, o que para outros poderia ser apenas loucura. Ao animal é-lhe dado o poder para agenciar aquela situação de indecisão, mas aí é que a fantasia ganha tônica dominante. Ela traça a sorte dos aventureiros, curvados perante o pouco juízo ou articulados com o “diablo” que “le traía a la memoria los cuentos acomodados a sus sucesos” (DQ, p. 56), diz o personagem. A loucura é, cuidadosamente, transformada em adereço por meio da qual Cervantes transforma em ferramenta com a intenção de limpar a mancha de la Mancha ou o seu espanhol mundo. Quijote e Rocinante iam sem saber aonde ir, como se cada passo dado pisasse não o chão firme, mas o chão trêmulo da existência, por isso mesmo estão fadados a um permanente recomeço.

Paradoxalmente, a narrativa faz circular um cavaleiro que é um louco e um herói desacreditado. Cervantes com a obra de don Quijote de la Mancha pode não ter tido o objetivo de resgatar o velho mundo dos cavaleiros andantes, mas revelou indícios de um novo momento que começava ali, a partir das cinzas deixadas pelo velho mundo21. O antigo e o

moderno22 se entrelaçam ao clarear de um novo tempo que inicia das cinzas. Cervantes, com o

don Quijote, ganha “la honra de ser primero en semejantes libros”, deixando que “quédesele enhorabuena la prosa” (DQ, p. 66).

A melancolia movimenta-se em toda a obra do Caballero, dizendo do fim de um tempo para o raiar de um outro. O autor põe em cena um estado melancólico de ser nas suas

21 Como bem observou Antônio José Saraiva, em Para a História da Cultura em Portugal, “Cervantes

ultrapassou a conjuntura pela lucidez intelectual. Está fora de seu tempo, para além, na medida em que o compreendeu” (1961, p. 181). A esse respeito também se referiu Gustavo Martinez ao lembrar que “lo nuevo se apoya en la tradición para legitimarse y lanzarse a ser”, disponível em: http://www.ucm.es/info/especulo/numero30/cverdad.html. Ambos apontam para a idéia de que Cervantes usou a aventura cavalheiresca, já descontextualizada em sua época, como uma simbologia dos primeiros indícios de um indivíduo moderno.

22 Sobre essa questão, Javier García (1997, p. 118), em Cervantes y la Melancolía, ao citar o pensamento de

Georg Lukács discute a narrativa quixotesca, lembrando que o escritor espanhol viveu o tempo histórico de transição do mundo antigo ao mundo moderno, no que é suficientemente sensível para pintar essa paisagem em sua obra: “El Quijote revela, em consecuencia, “la melancolía profunda del curso mismo de la historia, de la fuga del tiempo que muestra así que los contenidos eternos, que las actitudes eternas pierden su sentido cuando han cumplido su tiempo –que el tiempo puede superar a lo eterno”. Constatamos que o Quijote é um documento vivo que tangencia a queda do antigo ao nascimento de um novo momento na história, e o autor, de acordo com Javier (1997, p. 118), “... -de hecho fue él, y no otro, quien cumplió esa tarea- para traducir en el Quijote no solo la desgarradura de esse trance histórico, sino también la gerida permanente que ello porodujo en el alma escindida del hombre moderno. De ahí el alcance universal de la melancolía cervantina, de ahí su riqueza de niveles y significados”.

89 mais diferentes facetas no percurso da narrativa. Nesta, é possível perceber as mazelas sociais de aquele tempo ser denunciadas. Esses momentos apresentam-se como imagens da dor, pois o modo como os acontecimentos são relatados desembocam num estado de grande desencanto da vida. Todavia mostrará que o fim poderá trazer com ele um novo recomeço, instalando-se na fantasia dos personagens, o que faz da ficção de Cervantes um espaço com dimensões utópicas, posto que seja representação de mudanças na ordem instituída daquele contexto.