4. ARAŞTIRMA SONUÇLARI VE TARTIŞMA
4.2. Sulu Koşullarda Yürütülen Araştırmalar
4.2.23. Sulu koşullarda yürütülen araştırmada incelenen özellikler arasındaki ikil
E o miôlo mal do sertão residia ali, era um sol em vazios (GSV, p. 49)
Esto todo será que yo prosiga mi viaje no con aquel contento con que le comencé, sino con toda melancolía y tristeza (DQ, p. 444)
Cervantes e Rosa moldam a história do homem fadado ao sofrimento, à dor do existir. Grande Sertão: Veredas e Don Quijote de la Mancha apresentam uma narrativa tendo como personagens principais “Cavaleiros andantes”. Don Quijote, el Caballero de la Triste Figura, “se daba a leer libros de caballerías, con tanta afición y gusto” (DQ, p. 28) que chegou a deixar de lado os afazeres de sua responsabilidade, para tão somente tornar-se leitor assíduo desses livros, de maneira tal que fato e ficção se confundem em cada travessia sua, como se aquilo que vai apreendendo do mundo de cavalaria fosse igualmente a apreensão de si mesmo, mas tudo pelo avesso. Ao que nos parece tanto Riobaldo quanto don Quijote transgridem a razão consensual, como se “inventassem” um mundo fora do alcance da razão cartesiana: Riobaldo revela a especificidade de seu caráter, sugerindo o contraponto de sua identidade com outras identidades em face de verdades tidas como absolutas: “eu tôda a minha vida pensei por mim, fôrro, sou nascido diferente” (GSV, p. 16).
Em Don Quijote, esse “desvio” da razão consensual e da verdade absoluta também vai apresentando-se no interior da narrativa: “Por estas razones que dijo acabaron de enterarse los caminantes que era don Quijote falto de juicio y del gênero de locura que lo señoreaba...” (Grifo nosso, DQ, p. 112). A loucura do personagem vem reforçar tal idéia de anormalidade, de modo que vemos os males sociais daquela época ser ocultado nela. O autor molda, assim, sua criatura para também falar das atrocidades da humanidade de seu tempo.
A vida do cavaleiro toma rumo novo quando corporifica os heróis da ficção. Entretanto, por mais que procurasse imitar a ficção, sua presença foi marcada pelo semblante
100 desfigurado e entristecido de um louco exaltado. Com o pensamento de acabar com as injustiças praticadas contra os menos favorecidos e indefesos, don Quijote segue a caminho de seu objetivo, escrevendo uma história de luta constante contra uma vida que quer se fazer melancólica.
No que se refere à narrativa de Rosa, vê-se como Riobaldo tem o seu caminho traçado “em fôlhas de papel, com capricho”, aonde ele mesmo chegou a traçar “bonitos mapas” (GSV, p. 16), trilhando sua longa travessia num sertão-mundo tão grande de jagunços. Sendo que neste mundo, diz o jagunço, Deus chega e “espalha, no meio, um pingado de pimenta...” (GSV, p. 18) para que o homem sinta o “auxiliar” do milagre naquelas “veredazinhas”, onde “viver é muito perigoso” (GSV, p.18). O jagunço-narrador segue “pelo mundo, tomando dinheiro dos que têm, e objetos e as vantagens, de tôda valia... sossegar quando cada um já estiver farto, e já tiver recebido uma duas ou três mulheres, môças sacudidas, p‟ra o renovame de sua cama ou rêde!...” (GSV, p. 420), como declara Urutu-Branco, uma dentre outras nomeações dadas ao cavaleiro rosiano, a cumprir o destino de sua identidade.
Semelhante a Quijote, Riobaldo traz à superfície da narrativa experiências calcadas em sentimentos e anseios comuns à humanidade. Sua vida segue o percurso de um imenso labirinto, tendo as incertezas, os questionamentos evasivos como amigos muito próximos, nada de “pelejar por exato”.
Don Quijote e Riobaldo viveram momentos que “se gasteja” (GSV, p. 18) a alma. São eles esmigalhados pela dor que maltrata o corpo e lhe consome a alma. Como se suas vivências se tornassem em “uma existência desvitalizada”, de acordo com o pensamento de Kristeva (1989, p. 11) que, “embora às vezes exaltada pelo esforço... para continuá-la”, ela tende a desequilibrar e a fragilizar pela sombria tristeza. Tanto o cavaleiro de Cervantes como o de Rosa provaram da melancolia. Entretanto, conheceram-na em graus e razões diferentes. Ambos os personagens tiveram suas vidas jogadas a um “abismo de tristeza” ou a uma “dor incomunicável” (KRISTEVA), capaz até de naquele momento de dor, arrancar-lhes o chão, absorvê-los quase completamente até fazer “calar qualquer palavra” (GSV, p. 542), inibir qualquer gesto porque “já não presenciava nada, nem escutava possuído” (GSV, p. 167), “por lo que yo padezco” (DQ, p. 113); sua dor silenciava o próprio gosto pela vida, a “andar por el mundo, como en aprobación” (DQ, p. 193), na fala de Quijote, “esquecido de tudo, de quem eu era, de meu nome” (GSV, p. 565), expressando-se como o narrador do Grande Sertão.
101 O jagunço sofreu no sertão “movimentado todo-tempo” (GSV, p. 486) em sua travessia. Riobaldo renegava a melancolia, gerada por toda espécie de dor extrema, numa luta constante, para evitar sucumbir totalmente em sua existência dorida. Ele é filho do Sertão, cujo nascimento se revela oculto. O que nos faz pensar que no sertão se produz filhos bastardos porque o homem muda de mulher como muda de lugar e o personagem rosiano não é diferente, também gostava de mudanças: “Eu gosto muito de mudar...” (GSV, p. 41), diz o jagunço. Atravessa aquele mundo-sertão como se estivesse em mudança constante, aprendendo com Rosa‟uarda “as primeiras bandalheiras, e as completas, que juntos fizemos, no fundo do quintal, num esconso, fiz com muito anseio e deleite” (GSV, p. 110), confessa Riobaldo.
Sua vida é sempre mesclada de variadas alegrias: “comer, beber, apreciar mulher, brigar...” (GSV, p. 55). Isto tudo celebrava alegrias na alma do jagunço, de maneira que trilhava seu caminho se agarrando a pequenas coisas capazes de lhe emitir ânimo. Por isso mesmo não se deixava ficar “esmaecido” por muito tempo com as cruéis peças que a vida lhe pregava no meio daquele triste lugar sertão.
O igual e o rotineiro em seus dias não se fizeram cotidianamente num tom de monotonia. O igual faz-se diferente nos sentimentos do jagunço. Este não se cansa em sua rotina de escassa ociosidade, mas vivia em festa, mesmo em “distâncias marcadas” para ter sua vida ceifada. “A cavalaria de jagunços galopando”, diz a narrativa, “abriam festa de bomba-real e foguetório, quando entravam numa cidade. Mandavam tocar o sino da igreja” (GSV, p. 108), tudo se fazia em alegria festiva e a dor arredava da alma naquele instante.
Todavia, em don Quijote a mente inativa provoca-lhe um pensar melancolicamente. Os dias se seguem sempre com as mesmas atividades desmotivadoras de ânimo para o fidalgo, exceto seu exercício freqüente das leituras que lhe trarão não uma reflexão, mas uma febril imitação. O personagem tem o tempo preenchido em tais histórias cavalheirescas e passa a viver nelas, enlouquecido pela la Mancha de sua existência, a ressoar a angústia de perdas e derrotas, de desesperança e desengano, tudo tecido a partir da decepção. Desses sentimentos resultará a dificuldade em lidar com a realidade que traz em si, como disse Freud (1969, p. 160), “a fonte de todo sofrimento”.
A realidade vigente nas duas obras, contextualizando aí as especificidades de seus contextos, respectivamente, século XVII e XX, é trabalhada diferentemente. Em Rosa, ela é dura e real, em Cervantes é crueldade adornada com “encantamento”, desvario da razão
102 consensual. Nesta, os personagens Grisóstomo, Anselmo e o próprio Caballero findam presos aos caminhos da melancolia, sugados por ela e suas vidas guardadas no triste jazigo final de todo ser humano, o túmulo da morte.
Ambos os escritores deram uma roupagem de elevada posição social aos seus personagens. Don Quijote e Riobaldo fizeram-se em seus destinos. Não foi este um jagunço qualquer e nem aquele um fidalgo qualquer, mas eles foram aqueles que representaram o homem em toda a sua dor. Foram loucos, mas uma “Loucura”, pues, sin duda, pero “loucura” fundante, a partir de la cual se puede ser” (MARTINEZ, 2005, p. 03).