4. ARAŞTIRMA SONUÇLARI VE TARTIŞMA
4.2. Sulu Koşullarda Yürütülen Araştırmalar
4.2.21. Bitki “a*” değeri
No movimento do recordar os fatos ficcionais de sua leitura, don Quijote tem o seu próprio passado jogado aos escombros do esquecimento para dá lugar a outro passado: o dos cavaleiros andantes da ficção, fundindo, portanto, esse passado ao tempo presente de sua existência. Isto torna impossível separar as artimanhas de sua memória cheia de fantasias de seu modo de viver. Sua memória irá trazer o movimentar de ações, o próprio pensar.
O cavaleiro entrega-se as façanhas de sua imaginação, mas esta se faz em um estado melancólico de ser porque retoma parte de uma vivência que pode marcar o início de um novo sofrimento. E nesse ínterim está a força do tempo, pois este pode abrir lapsos nas lembranças, motivando muitas lacunas, mortificando alguns momentos. Nessa conjuntura o homem é posto à deriva das batalhas da existência, onde “saca fuerzas de flaqueza” (DQ, p. 136).
A fantasia conduzirá Quijote à fuga de si mesmo, mas chegará camuflada de loucura. Os moinhos de vento vão mover a imaginação do cavaleiro a girar como “más desaforados gigantes” (DQ, p. 75) de braços compridos. Esse personagem assiste a tudo com os olhos da inventiva, enquanto Sancho segue o olhar da lúcida razão: “... aquellos que allí se parecen no son gigantes, sino molinos de viento, y lo que en ellos parecen brazos son las aspas, que, volteadas del viento, hacen andar la piedra del molino” (DQ, p. 75). Tudo é transformado, reciclado pela inventiva do Caballero, todavia ao escudeiro tudo isso é oculto: “No estás cursado en esto de las aventuras” (DQ, p. 75), diz ele a Sancho.
A memória trabalha toda tessitura rememorável danarrativa quixotesca, de modo que não se é possível um diálogo contínuo e progressivo. Sua construção tem a seqüência que o faiscar das lembranças oferece e aos que se presta a narrar contará seguidamente as variadas histórias descontinuadas pelo trabalho da memória que, às vezes, “punto y término deja pendiente” (DQ, p. 83). Tal pendência lacunar, segundo o cavaleiro andante, “no podia inclinarme a creer que tan gallarda historia hubiese quedado manca y estropeada, y echaba la culpa a la malignidad del tiempo, devorador y consumidor de todas las cosas” (DQ, p. 85), como se o autor aí dissesse que o mundo antigo dos cavaleiros não poderia cair no esquecimento porque é a partir dele que será trilhado o caminho do novo.
96 Cervantes coloca um discurso que se arma em questionamentos para adentrar na razão humana, sendo que cada pessoa (leitor) modelará o seu ponto de vista, pautado em sua própria razão. Quijote provocará buscas constantes nas idéias de cada homem para que as evasivas sejam complementadas por seu olhar, como se mostra no trecho abaixo:
No hace menos el soldado que pone en ejecución lo que su capitán le manda que el mismo capitán que se lo ordena. Quiero decir que los religiosos, con toda paz y sosiego, piden al cielo el bien de la tierra, pero los soldados y caballeros ponemos en ejecución lo que ellos piden, defendiéndola con el valor de nuestros brazos y filos de nestras espadas, no debajo de cubierta, sino al cielo abierto, puestos por blanco de los insufribles rayos del sol en el verano y de los erizados yelos del invierno (DQ, p. 112)
Don Quijote mostra que a vida desocupada acarreta a uma falta melancólica. Ele é enroscado nos novelos de um mundo oculto, somente seu, atraente a sua solidão, e por vezes perigoso e de pouca luz. O personagem, primeiramente, busca vencer a ele próprio, resgatando-se de uma vida sem perspectivas e, depois, derrocar as investidas de um mundo de dores causadas pela desigualdade social. A melancolia cristaliza-se autêntica nessa dualidade, que de acordo com o pensamento de Júlia Kristeva (1994, p. 31), o
estrangeiro exclui, antes mesmo de ser excluído, muito mais do que o excluem... inventando para si próprios um “nós” puramente simbólico que, por falta de solo, enraíza-se no rito até atingir a sua essência, que é o sacrifício.
O mundo sombrio aborrece a alma do fidalgo de tal maneira que ele descarta esse homem e inventa para si próprio um estrangeiro cavaleiro andante, pronto ao sacrifício. Esse novo estilo de vida ou essa identidade outra se perde na fantasia, sendo apenas em Quijote a manifestação em forma de imagem artificiosa, num processo interno, pela ficção, e externo que aflora um louco inveterado.
O escritor espanhol sabia que “el trabajo y diligencia” com que se faz o fazer poético é frente ao empenho “en buscar el fin de esta agradable historia” (DQ, p. 85), nas palavras de um dos personagens quixotesco. Cervantes usou da palavra “pegante”, como disse Riobaldo, para comunicar-se de alguma forma, num estilo particular, primando por esta arma e através dela dizer como Michel Montaigne (apud Auerbach, 2004), “cada homem traz consigo a forma inteira da condição humana”.
A narrativa de Quijote mantém o tom de retomar através da rememoração as façanhas dos personagens que dirão das armadilhas que se espalham pela existência humana,
97 reservando a cada um a parcela que lhe é cabível viverem. De acordo com o romance: “no hay memoria a quien el tiempo no acabe, ni dolor que muerte no le consuma” (DQ, p. 135). O tempo pode sarar a dor, mas também pode tudo destruir.
Nas páginas Del Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha se “encierran en sí las dulcísimas y agradables ciencias de la poesía... escribirse en prosa como en verso” (DQ, p. 492). Pegamo-nos a cada novo desenlace, “escuchando el cuento” com farto olhar e atenção, dando “al alma su refacción” (DQ, p. 515), pois findamos compartilhando todo o sofrer disposto em cada conto vivido pelos personagens do romance. Seria, portanto, a obra desse espanhol, o trabalho de planejamento de um arquiteto que vai com sutileza, dando vida as coisas desvitalizadas. São postos na superfície da narrativa os diferentes dissabores da existência humana.
Don Quijote imaginou realizar muitas façanhas em suas andanças que, se neste estudo só as inscrevesse, esvaziado de razão, talvez se tornasse estas poucas páginas escritas. Compreendemos, então, que na narrativa razão e desrazão dependem do olhar analítico a ela posto. Para usar da expressão de Riobaldo, “mire e veja”, caro leitor, e o bramido da lança de don Quijote em toda sua força avançará a “¡Nuevas proezas!, pero inventa el arte/ un nuevo estilo al nuevo paladino” (DQ, p. 532).
Assim foi lapidada a obra do Caballero, construída para o prazer e para o conhecimento da difícil travessia do homem pela vida. Nesse percurso está a melancolia que, de acordo com Moacyr Scliar (2003, p. 233), “é silenciosa; silenciosa porque não tem ânimo para falar e silenciosa porque a dignidade do silêncio é seu último refúgio”. O autor no Prólogo do Primeiro Livro já indica que nessa narrativa, embora a melancolia ocupe boa parte de suas páginas, também se tem o riso, a alegria de poder viver: “Procurad también que, leyendo vuestra historia, el melancólici se mueva a risa, el risueño la acreciente, el simple no se enfade, el discreto se admire de la invención, el grave no la desprecie, ni el prudente deje de alabarla” (DQ, p. 14), a dizer que sua invenção acrescenta conhecimento e alegria àquele que não despreza a criação.
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