As representações no modelo exógeno assumem a intervenção exterior (micróbios, vírus, modo de vida etc.) como principal causa das doenças. Assim sendo, a doença é um elemento estranho ao doente que, proveniente do exterior, vem lhe assolar. Nesse modelo, a doença pode ter sua origem em: a) um agente externo antropomorfizado de má vontade (feiticeiro, espírito, diabo, deus etc.) ou; b) um agente externo nocivo natural proveniente do meio físico, químico e bioquímico.
O pensamento médico ocidental moderno e contemporâneo, tanto erudito quanto popular, apresenta duas direções de interpretação de causalidade das doenças segundo o modelo exógeno: uma química e outra social. O advento da microbiologia permitiu que surgisse uma interpretação da doença focada no impacto de agente invisíveis externos ao organismo sadio. Micróbios e vírus tornam a doença precisa e isolável. Observa-se nessas interpretações que a noção de uma causalidade externa é reforçada por uma representação ontológica, pois essa idéia, como dito anteriormente, tranqüiliza e satisfaz a idéia de que ―eu não me encontro na origem de minha doença (...), quem está doente é um de meus órgãos, acidentalmente afetado por minúsculos seres vindos do meu exterior‖ (CANGUILHEM, Georges: 1991, p. 70). A interpretação de cunho social, por sua vez, atribui a origem de um número muito grande de doenças tanto ao meio social quanto aos hábitos humanos (ou modo de vida). Assim, a doença pode estar vinculada à educação, às más condições de moradia, ao desemprego, à duração da jornada de trabalho, aos hábitos alimentares, à fadiga, à poluição, ao ruído etc. Este tipo de interpretação privilegia a alimentação natural, a vida no campo, o contato com a natureza em contraposição à tudo aquilo que guarda relação com a vida moderna (particularmente, a vida urbana), a qual é tida como patogênica por excelência.
Em suma, nota-se que as representações provenientes desse modelo permitem que o indivíduo enfermo seja encarado como vítima, bom, inocente e não responsável pelo que lhe aconteceu e que a doença pertence ao absolutamente mau que tomou conta
dele e veio habitá-lo contra sua vontade. Independentemente do agente externo a ser considerado (físico, biológico, químico ou social), o indivíduo mantêm uma relação de exterioridade com a doença que, seguindo-se a localização do intruso, permite separar o agressor do agredido, o culpado da vítima, o outro absoluto de si mesmo.
Modelo Endógeno
No modelo endógeno a doença é deslocada para o indivíduo, ela é parte do próprio interior do sujeito e não algo proveniente do meio externo. A fragilidade, o caráter, o temperamento, a hereditariedade genética dentre outros estão compreendidos nesse tipo de representação. Doenças de nutrição, desarranjos do metabolismo, desequilíbrios hormonais, problemas de crescimento são exemplo de doenças que não possuem um agente patogênico externo claramente definido e, desta forma, supõe-se a concepção de uma etiologia endógena, centrípeta.
O modelo endógeno tem suas raízes fincadas na medicina humoral de Hipócrates, que acreditava que a doença não podia ser compreendida independentemente do meio geográfico e climático, mas derivava principalmente de um desequilíbrio interno; em Platão, cujo conceito de equilíbrio está vinculado à união harmoniosa de corpo e alma, e finalmente; em Aristóteles que considerava a patologia como parte da natureza do indivíduo que a produz. Essas idéias de uma etiologia endógena são reforçadas no século XIX com o surgimento do vitalismo5 médico que, contrapondo-se a física médica, considera que ―as causas da doença não são localizáveis e isoláveis, mas provêm de um desequilíbrio geral que deve ser posto em relação com o campo particular de cada indivíduo‖ (LAPLANTINE, François: 1991, p.81).
As abordagens psicológicas, psicanalíticas e psicossomáticas da doença ressaltam a importância do indivíduo, não como participante da doença, mas como responsável pela gênese de seu estado. Laplantine afirma que uma das grandes originalidades da psicanálise foi o interesse pelos conflitos intrapsíquicos relacionados com os fatores externos que podem provocar distúrbios mentais em um indivíduo, ou seja, o interesse pelas próprias instâncias psíquicas do indivíduo e não com as relações
5 O dicionário Merriam-Webster define vitalismo como: a) uma doutrina de que as funções de um
organismo vivo são devidas a um princípio vital distinto das forças físico-químicas; b) uma doutrina de que o processo da vida não é explicável somente pelas leis da física e da química, pois a vida é de alguma forma autodeterminante. Há, com base nessa doutrina, uma insistência na complexidade e na originalidade do ser humano.
desse com o meio. Essas abordagens trazem à tona o conceito de psicogênese das doenças. Aos poucos, se populariza a tese de que toda doença, inclusive as orgânicas, procede de um desequilíbrio da sexualidade. Georg Groddeck, citado por Laplantine, radicaliza ao afirmar que nenhum sintoma, mesmo corporal, é alheio ao desejo do indivíduo. De acordo com Groddeck:
O [ser humano] fabrica suas doenças, ele é a causa delas e não é preciso que busquemos outras. A doença, e em particular a doença física, é sempre a expressão psicológica ou, melhor ainda, a simbolização do que desejamos secretamente (GRODDECK apud LAPLANTINE, François: 1991, p.82).
Embora muitos sejam os trabalhos relacionados ao caráter endógeno de algumas doenças, as representações focadas na exteriorização patogênica permanecem incontestavelmente privilegiadas por nossa cultura. A idéia de que o doente está presente em sua doença, ou melhor, de que ele é sua doença e essa é uma emanação do próprio doente, contrapõe-se de maneira drástica ao modelo exógeno. Por isso não é de se surpreender que na incapacidade de um médico encontrar uma causalidade externa diretamente relacionada com o estado patológico de seu paciente, esse assuma prontamente que não existem conhecimentos cientificamente avançados para diagnosticar tal enfermidade ou, ao considerá-la uma patologia endógena, limite-se ao aspecto da hereditariedade da doença.
Em síntese, o modelo endógeno possui duas variantes significativas: uma genética e uma psicológica. A variante genética baseia suas explicações sobre a doença no destino e na fatalidade (estou doente, mas nada tenho a ver com isso), ou seja, atribui-se a etiologia aos antepassados do doente (hereditariedade). A variante psicológica, por sua vez, se orienta a partir da liberdade e da culpabilidade (estou doente porque eu o quis ou desejei involuntariamente).
I.2.2.1. As relações entre os modelos ontológico/funcional e exógeno/endógeno
Os dois modelos podem se relacionar de diversas maneiras, dito de outra forma, há varias combinações possíveis entre os modelos apresentados até aqui. Não é plausível; entretanto, supor que um dos modelos seja histórica ou logicamente superior aos demais. Desta forma, por exemplo, a variante ontológica do modelo exógeno pode
ser considerada um modelo, ou seja, cada diferente combinação constitui um novo