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Um estudo que se propõe a analisar as mais diferentes concepções sobre saúde/doença de diversos grupos religiosos brasileiros pode parecer, à primeira vista, uma aspiração infundada, pretensiosa. Porém, se considerarmos que esses grupos não estão totalmente isolados, ou seja, estão em constante troca e compartilham uma linguagem, uma forma de entender o mundo, que orienta suas ações, a tarefa perde sua

aura hercúlea. Enquanto grupos culturais distintos, as diversas religiões aqui abordadas não deixam de prestar serviços a uma coletividade que compartilha das idéias que elas divulgam mesmo para aqueles que alegam pertença a um único e exclusivo grupo. Assim, a teoria das Representações Sociais constitui forte embasamento teórico para esse estudo no intuito de identificar as representações da doença privilegiadas pelo discurso dos grupos religiosos analisados e, adicionalmente, permitir a compreensão de algumas ações de indivíduos religiosos confrontados pelos fenômenos mórbidos.

Não ignoro, todavia, as críticas feitas à esta teoria. Embora muitas dessas críticas tenham implicações metodológicas, é inegável que o principal foco das críticas sejam os aspectos teóricos, principalmente, no que se refere a questão de falta de clareza de conceitos. Este é o caso, por exemplo, conforme nos relata Alda Mazzotti, das críticas feitas por Rom Harré7. Segundo Harré o termo social possui uma tríplice ambigüidade, ou seja, "é usado para indicar que a representação é de um objeto social, ou que ela própria, enquanto entidade, é algo social ou, ainda, que a representação é social por ser partilhada por um grupo" (MAZZOTTI, Alda: 1994, p. 69). Para Harré, o último conceito somente seria aplicável a grupos sociais reais que se intercomunicam, possuem papéis específicos e relações de compromisso. Entretanto, Rom Harré acredita que a maioria das pesquisas trabalha com o que ele denominou de "grupos taxionômicos, criados pelo pesquisador e constituídos por um agregado de pessoas ligadas pela simples semelhança de suas crenças" (HARRÉ, Rom apud MAZZOTTI, Alda: 1994, p. 69). Respondendo a essa crítica Moscovici, em trabalhos posteriores, afirmou que não se pode negar que esse grupos taxionômicos existam, nem tampouco se pode negar que exista um certo grau de associação entre seus membros. Cada indivíduo se apropria, atualiza e expressa os valores culturais dos grupos em que está inserido, sendo, portanto, válido captar tais interpretações nas falas e condutas individuais.

Assim, pode-se afirmar que a escolha de um grupo ou de outro dependerá do tipo de questão em que está interessado/a o/a pesquisador/a. Por exemplo, quanto aos estudos preocupados com o imaginário social, ou seja, que partem da premissa de que exista "um quadro cultural que matricia a produção imaginativa [de um determinado] grupo" (TEVES apud MAZZOTTI, Alda: 1994, p. 69) através da veiculação de significados, valores e aspirações sem que haja interação entre os membros, parece ser legítimo a investigação a respeito do processo de apropriação dessa matriz

7 Ver HARRÉ, R. Some reflections on the concept of social representation. Social Research, n.51, p.927-

representacional por indivíduos que partilham uma condição comum (social, política, religiosa, econômica etc.).

Segundo Mazzotti, Potter e Litton8, apresentaram uma crítica mais difícil de ser contestada. O trabalho desses autores chamou a atenção para o fato de que, uma vez que os agentes sociais podem pertencer a diversos e distintos grupos sociais, nada garante que um indivíduo se identifique com aquele grupo especificado pelo/a pesquisador/a. O questionamento feito por esses autores destaca a necessidade do estabelecimento de critérios analíticos na escolha dos grupos em estudo e a necessidade de obtenção de informações detalhadas sobre os sujeitos envolvidos, utilizando-as na análise dos dados. No estudo de religiões brasileiras, por exemplo, essa crítica ganha significativa importância, porque muitas vezes a religião declarada não é capaz de evidenciar todas as crenças e práticas de um indivíduo acostumado com o sincretismo religioso. Ainda se referindo a questão da constituição dos grupos, os autores citados por Mazzotti no início desse parágrafo, acreditam que o tamanho dos grupos e o nível de consenso necessário para a constatação da existência de uma representação social são pontos que não foram suficientemente elucidados. A pesquisa empírica de Moscovici fez uso de um grande número de sujeitos (2.265); porém, trabalhos posteriores e de outros autores baseados em sua teoria utilizaram números muito mais modestos (menos de uma dezena). Como não é propósito desse trabalho discutir mais a fundo as implicações metodológicas dessa última crítica, encerro a questão com o argumento de Denise Jodelet, referida por Mazzotti, que salienta que

as conotações sociais do pensamento não se devem tanto a sua distribuição entre muitos indivíduos e sim ao fato de que o pensamento de cada um deles é, de várias maneiras, marcado pelo fato de que outros também pensam da mesma forma (MAZZOTTI, Alda: 1994, p.70).

Tais discussões mostram que a teoria das Representações Sociais não está de todo consolidada e essas questões a serem respondidas expõem o fato de que tal teoria ainda encontra-se em processo de construção. A definição de procedimentos metodológicos, por exemplo, ainda carece de um arcabouço e elementos que norteiem os estudos nesse campo. A grande variedade de abordagens nos estudos de representações sociais é devedora da multidisciplinaridade típica dessa teoria, ou seja, os estudos podem ser conduzidos em diferentes área científicas e sob diferentes

8 Ver POTTER, J., LITTON, I. Some problems underlyng the theory of social representations. Bristish

tradições de pesquisa, mas também deve-se em parte a inexistência de um arcabouço metodológico predefinido. A despeito da variedade, os trabalhos não devem perder o foco e deixar de responder às questões que esta linha de investigação se propõe a responder: como o social interfere na elaboração psicológica (representação) e como esta representação interfere no social.

CAPÍTULO II

RELIGIÕES BRASILEIRAS

INTRODUÇÃO

A população brasileira é majoritariamente cristã (89% da população de acordo com o censo de 2000), sendo sua maior parte católica. Todavia, essa aparente unidade religiosa é marcada por forte sincretismo religioso9, o que torna o Brasil um país

religiosamente diverso, com certa dose de tolerância e muita mobilidade entre as religiões.

O catolicismo apostólico romano foi introduzido no Brasil pelos missionários que acompanhavam os colonizadores portugueses. Coube a esses missionários a educação e evangelização (de indígenas) nos colégios das mais diversas ordens religiosas. Os séculos XVI e XVII foram marcados pelos conflitos entre congregações religiosas e colonos em decorrência da escravização de indígenas e o Estado funcionou como intermediador desses conflitos. Até meados do século XVIII, o Estado ainda mantinha o controle da atividade eclesiástica no Brasil e somente com a declaração da república, em 1890, é que o catolicismo deixou de ser a religião oficial do país. Não obstante, a igreja católica continua a exercer grande influência nos aspectos sociais, políticos e culturais dos brasileiros. O Brasil é considerado o maior país católico no

9 Quando o assunto é a religiosidade brasileira, além da evidente diversidade e da relativa oposição, pode-

se perceber pontes, relações e transferência de sentidos entre as religiões. Para alguns autores, esse processo é visto de forma otimista por promover a confraternização de valores e sentimentos, enquanto para outros é um processo que meramente privilegia aspectos de uma religião em detrimento da essência "pura" de outra, ou seja, esses autores o interpretam mais como um processo que envolve a assimilação hierárquica e neutralizadora da diferença do que como uma confraternização propriamente dita, pois sincretismo e tolerância não são sinônimos.

A relação sincrética brasileira mais evidente aparece no catolicismo e nas religiões afro-brasileiras, em decorrência de um processo histórico que motivou a assimilação de valores e símbolos do primeiro por essas últimas. Porém, esse processo não se limita à essas religiões. As crenças indígenas e as idéias do espiritismo também permeiam o imaginário majoritariamente cristão dos brasileiros.

Adicionalmente, alguns autores julgam que a contraface desse fenômeno de hibridação de crenças e rejeição da necessidade de uma exclusividade religiosa é o crescimento de grupos religiosos que defendem a ortodoxia. Esses grupos religiosos, no geral, desencadeiam uma batalha (confrontação e acusações explícitas) contra outras religiões e, especialmente, contra a bricolagem religiosa, a qual passa a ser interpretada como um descomprometimento com a fé. Essa afirmação é ilustrada pela intolerância neopentecostal em relação às religiões afro-brasileiras. O comportamento neopentecostal, por sua vez, é justificado pela situação de exclusão das camadas mais podres da sociedade brasileira, ou seja, o pluralismo religioso e a exclusão socioeconômica (baseada na classe social e/ou na raça) motivam mais a competição pelo reconhecimento social do que a união dos grupos religiosos minoritários.

Essa nota sintetiza algumas idéias do artigo de Roberta Campos (2008) a respeito das interpretações do sincretismo e anti-sincretismo na/da cultura brasileira, o qual fora publicado na revista BIB no. 65 da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS).

mundo, pois aproximadamente 74% (ou quase 126 milhões) dos habitantes se declaram católicos.

Essas enormes cifras escondem, porém, o fato de que o catolicismo brasileiro não é um bloco rígido e unitário como parece. A fraqueza doutrinária aliada a pouco controle permitiu aos católicos brasileiros a assimilação e aceitação das mais diversas crenças, bem como lhes diminuiu o interesse pelas formas tradicionais de religiosidade. A conjunção desses fatores culminou em dados estatísticos surpreendentes: 40% dos indivíduos que responderam ser católicos no último censo demográfico (2000) do IBGE alegam ser "não-praticantes". Assim, de uma forma geral, o catolicismo brasileiro se distancia em muito das determinações da Santa Sé em Roma. Por isso é possível identificar, atualmente, quatro versões de catolicismo no Brasil: o tradicionalista, mais conservador e defensor da ortodoxia; os remanescentes da Teologia da Libertação, com forte engajamento político e social; o popular, marcado por forte devoção aos santos e; finalmente, as comunidades carismáticas, movimentos religiosos recentes caracterizados pela exaltação do Espírito Santo. Os dois últimos possuem funções terapêuticas gritantes e são, comumente, palco para a realização de milagres. Na batalha contra as doenças, fortemente influenciado pela Bíblia e sua noção de troca, o catolicismo popular sela uma aliança com os santos, seres divinos com atribuições relacionadas às necessidades e aos problemas corriqueiros humanos, além de abarcar as mais diversas crenças e superstições. As comunidades carismáticas, por sua vez, embora possuam a tendência de uma moral mais conservadora, assemelham-se em certos aspectos às igrejas pentecostais, como no uso dos dons do Espírito Santo para superação das moléstias corporais.

A queda no contingente de católicos contribuiu, não proporcionalmente, para o aumento do número de evangélicos, bem como daqueles que declaram não ter religião, os quais representam cerca de 8% da população brasileira de acordo com o censo de 2000. Nas últimas décadas a religião protestante tem crescido bastante em número de adeptos, alcançando parcela bastante significativa da população (cerca de 15% de acordo com o último censo). Assim como o catolicismo, os evangélicos também não constituem um grupo homogêneo de indivíduos que professam o mesmo credo. A maioria dos autores que tratam dessa religião procuram classificá-la, para fins didáticos, em três grandes grupos: os protestantes históricos, os protestantes pentecostais e os neopentecostais. As funções terapêuticas são mais acentuadas nos dois últimos, onde os dons do Espírito Santo são manifestados e o eterno combate entre o "bem" e o "mal" se

processa na vida e nos corpos dos seres humanos. O uso intensivo dos meios midiáticos: TV, rádio, jornais e revistas, ajudam a atrair grandes multidões aos templos e eventos desses grupos religiosos. Apoiados na teologia da prosperidade, essas pessoas buscam a solução de seus problemas financeiros, amorosos, familiares e, sobretudo, de saúde.

Embora o contingente dos adeptos das religiões afro-brasileiras (umbanda e candomblé) e do espiritismo seja minúsculo em comparação com o grupo das religiões cristãs, não se deve subestimar a influência que o sistema de crenças desses grupos exerce sobre os brasileiros declarados cristãos.

A mão-de-obra escrava, oriunda da África, trouxe suas próprias práticas religiosas, que sobreviveram à opressão dos colonizadores mediante um processo de camuflagem das suas deidades. As divindades de origem africana foram associadas aos santos católicos e, a despeito de toda opressão e opinião pública contrária, algumas tradições foram conservadas e assimiladas pela população brasileira. Baseados na crença de que cada indivíduo é "governado" por uma entidade divina – o orixá – as idéias de equilíbrio e a necessidade de se respeitar as características da personalidade e as preferências dos orixás permeiam as interpretações sobre as doenças desses grupos religiosos e as práticas terapêuticas se tornaram uma parte relevante dos cultos, em consonância com o cunho assistencial da maioria dos terreiros e "centros espíritas" existentes atualmente.

O espiritismo, por sua vez, começou a ser divulgado na segunda metade do século XIX e, hoje, o Brasil concentra o maior número de espíritas do mundo. Embora não fosse o propósito de Allan Kardec, o aspecto religioso de suas idéias foi o que acabou se tornando hegemônico no Brasil. O Brasil contou com uma figura importantíssima para a assimilação e disseminação das idéias espíritas: o médium Chico Xavier, cuja obra literária e personalidade carismática (com pitadas de santidade) promoveu a difusão e aceitação de muitos conceitos espíritas pelo povo brasileiro, notadamente, pelas classes populares que encontravam nos seus livros uma linguagem que não primava pelo rebuscamento excessivo das palavras, diferentemente da forma como, em geral, os livros sagrados religiosos são apresentados. A postura e a adoção da moral cristã por Chico Xavier, além da debilidade doutrinária do catolicismo, fez com que grande parcela dos indivíduos declarados católicos reproduzissem em seus discursos idéias de cunho espírita. A natureza tipicamente assistencialista dos "centros espíritas" acabou incorporando funções terapêuticas de vital importância para a manutenção e crescimento desse segmento religioso.

No capítulo que se segue serão apresentadas descrições mais detalhadas das "principais" correntes religiosas brasileiras citadas nos parágrafos pretéritos, ordenadas pela porcentagem de integrantes de acordo com o recenseamento demográfico do IBGE em 2000. Além da relevância em termos de representatividade populacional, é importante destacar que essas religiões, em certa medida, fomentam os comportamentos religiosos que me motivaram a fazer indagações e a realizar essa pesquisa. A função terapêutica dessas religiões é bastante evidente, embora o grau de sua importância e a abordagem dos problemas de saúde varie muito dentro dos diversos grupos existentes nas rubricas mais gerais utilizadas pelo IBGE. Ressalto, nesse momento, que esse capítulo é apenas uma passagem rápida sobre essas religiões, não há aqui a pretensão de um aprofundamento das nuances e detalhes específicos (principalmente rituais) dessas religiões. Esse capítulo, todavia, é de vital importância para a aplicação da teoria das representações sociais, visto que as representações devem sempre ser referidas às condições de sua produção. Confesso que me julgo inapto para sintetizar toda a complexidade do quadro religioso brasileiro, tanto pela restrição de tempo e espaço quanto pela limitação de meus conhecimentos. Não obstante, julgo que as poucas informações que consegui reunir e apresentarei a seguir serão valiosas para a compreensão das religiões no Brasil no início do século XXI.

Benzer Belgeler