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A realização das tarefas tradutórias analisadas no presente trabalho foi gravada usando o software Translog© 2006 e o rastreador ocular Tobii T60.

O desenvolvimento do programa Translog© pelos pesquisadores Jakobsen e Shou (1999), da Copenhagen Business School, permitiu avanços importantes nos estudos processuais da tradução, pois ele grava os acionamentos de teclas em tempo real, com a reprodução posterior, conforme evidencia Jakobsen (1999). Desta forma, ele permite identificar aspectos cognitivos do processo tradutório, como a localização e os tempos de pausas, as soluções temporárias e definitivas para problemas de tradução, o dispêndio de tempo em toda a tarefa e em cada uma das fases do processo tradutório (orientação, redação e revisão).

O software Translog© possui duas interfaces diferentes: uma interface chamada Translog User, na qual uma tarefa tradutória é realizada, e a interface Translog Supervisor, que permite a reprodução da tarefa após a conclusão desta. A velocidade dessa reprodução é definida pelo pesquisador, que também pode definir nessa interface se deseja que o texto fonte seja apagado ou não ao término da tradução, se deseja indicar o tempo máximo para concluí- la, dentre outras funcionalidades. Após a conclusão da tarefa e o acionamento do botão de parada do programa na tela do Translog User, é gerado um arquivo .xml, que registra as teclas de produção textual, os movimentos recursivos do sujeito durante a realização da tarefa tradutória, ou seja, as teclas de eliminação, de navegação e os movimentos de mouse, permitindo, desse modo, determinar a quantidade de movimentos recursivos e de teclas de produção textual.

Para a reprodução do processo tradutório e para a geração de uma representação linear, o pesquisador define o intervalo de pausa que utilizará em sua análise, a fim de visualizar uma UT entre duas pausas de valor superior ao que ele tiver definido. Desse modo, a representação linear do Translog© permite identificar o número de pausas e a duração das mesmas, as quais podem ser correlacionadas com o número de microunidades de cada macrounidade, a fim de se identificar se as instâncias de DP e de BPT durante o processo tradutório estão relacionadas a um maior gerenciamento do processo tradutório, conforme Gonçalves (2003) sugere, ao justificar o motivo de os tradutores profissionais terem demorado mais tempo para fazer a tradução de um dos textos utilizados em sua pesquisa.

Jakobsen (1999, p. 32) afirma que a duração da pausa que o pesquisador definirá para a análise é arbitrária e dependerá do objetivo do pesquisador. Para a realização desta pesquisa, em consonância com Jakobsen (2005b), uma UT será considerada como um segmento que ocorre entre duas pausas superiores a 2,4 segundos.

Enquanto o Translog© 2006 grava os acionamentos de teclas em tempo real, o rastreador ocular Tobii T60 permite investigar, dentre outros aspectos, onde e qual é o foco de

atenção do tradutor durante uma tarefa tradutória. Esse rastreador ocular proporciona liberdade de movimento da cabeça do sujeito da pesquisa e um comportamento mais natural e menos invasivo, não gerando desconforto para o sujeito por não ser necessário que ele fique com o queixo preso ao aparelho durante a realização do experimento. Além disso, os dados obtidos usando-se o rastreador ocular permitem conhecer outros dados do processo tradutório em tempo real, como o tempo de fixação e as sacadas, que demonstram as correlações feitas pelo sujeito durante o processo tradutório.

Com o objetivo de se obterem dados qualitativos, os tradutores foram solicitados a pressionar o botão Replay do Translog© quando terminavam a tarefa tradutória para que o processo tradutório fosse reproduzido e eles relatassem livremente sobre seus desempenhos na tarefa tradutória, incluindo os problemas que tiveram e as soluções encontradas. Esse método de coleta é denominado protocolos verbais (ERICSSON e SIMON, 1980; 1984/1993), também conhecido como TAPs, acrônimo para think-aloud protocols em inglês. Esta técnica foi utilizada inicialmente nas ciências sociais e depois incorporada como método de coleta de dados processuais nos estudos da tradução. Os primeiros estudos processuais em tradução adotavam esse método de coleta, qual seja, o relato concomitante, como o principal meio para se saber o que se passava na cabeça dos sujeitos participantes de suas pesquisas durante a realização de uma tarefa tradutória (KRINGS, 1986; KONIGS, 1986; ALVES, 1995).

Nos estudos processuais desenvolvidos por pesquisadores do LETRA, os relatos retrospectivos são mais frequentemente utilizados. Entretanto, dependendo do propósito da pesquisa que se deseja realizar, relatos concomitantes também podem vir a ser usados. Nesse tipo de relato, o sujeito deve verbalizar o que está pensando no momento em que executa a tarefa tradutória. A escolha do relato retrospectivo em vez do relato concomitante deve-se à sobrecarga cognitiva gerada pelo segundo, o que já foi comprovado em pesquisas anteriores, como a Jakobsen (2002, 2003), em que o autor fez coletas utilizando o relato concomitante para saber sobre o processo tradutório de alguns sujeitos e sem utilizá-lo para verificar como esse tipo de relato interferia no processo. Além desse relato retrospectivo espontâneo, os sujeitos responderam a um protocolo guiado. Nesse tipo de protocolo, são feitas perguntas orais ao sujeito, e o tipo de pergunta dependerá do objetivo de pesquisa do pesquisador, podendo ser uma pergunta de compreensão, por exemplo.

Os dados de ambos os protocolos verbais retrospectivos (livre e guiado) foram analisados em conjunto com os dados quantitativos do Translog©, como, por exemplo, fazendo levantamento de estratégias e dos problemas encontrados durante as pausas do

processo tradutório, a fim de investigar padrões prototípicos de segmentação na descompactação e recompactação de unidades de tradução na TD e na TI.

Na pesquisa que desenvolveu buscando investigar a mente do legendista, Kovacic (2000), por exemplo, utilizou os TAPs em conjunto com a entrevista e a análise do texto. A autora justifica a necessidade de uso de diferentes ferramentas, argumentando que “os TAPs não contêm verbalizações completas explícitas dos processos de tomada de decisão. Mas de uma forma indireta [...] podemos pelo menos ver as opções que são consideradas pelo tradutor”18 (KOVACIC, 2000, p. 108). Os TAPs são uma excelente ferramenta para pesquisas do processo tradutório. Entretanto, conforme a autora aponta, ele deve ser usado em conjunto com outras ferramentas que hoje estão disponíveis. O uso dos relatos retrospectivos na pesquisa aqui descrita, em combinação com o Translog© e com o Litterae, permitiu identificar as diferentes opções que o tradutor considerou ao traduzir um texto nos processos de solução de problemas e de tomada de decisão.

As gravações fornecidas pelo rastreador ocular Tobii permitiram verificar os tipos de apoio utilizados pelo sujeito durante as pausas, diante de desempenhos de pico e de segmentos curtos, para uma melhor identificação de padrões prototípicos no gerenciamento do processo tradutório, que se constitui principalmente de processos de solução de problemas e de tomada de decisão. Por meio de heat maps (mapas de calor) e gaze plots (pontos de fixação), esses processos podem ser mais bem mapeados, visto que essas funções do rastreador proporcionam visualizar o esforço cognitivo envolvido nesses processos de solução de problemas e de tomada de decisão por meio dos pontos de fixação e da duração dessas fixações e o que ocorre durante as pausas que precedem instâncias de DP e de BPT.

Os heat maps fornecidos pelo Tobii usam esquemas de cores para indicar a intensidade da atividade visual. As áreas vermelhas indicam onde há muita atividade visual, as áreas amarelas mostram atividade visual moderada e as áreas verdes mostram pouca atividade visual. Desse modo, a presença de uma área vermelha demonstra onde houve uma maior fixação, enquanto uma área verde indica uma menor fixação. As áreas que aparecem em branco nos heat maps indicam áreas em que houve pouca atividade visual e, portanto, não são significativas para o programa de rastreamento ocular, conforme pode ser constatado na Figura 3 a seguir.

18

Minha tradução para “TAPs do not contain explicit complete verbalizations of the decision-making process. But in an indirect way [...] we can at least see which options are considered by the translator.”

Figura 3 − Exemplo de heat map de um processo tradutório

De maneira complementar, os gaze plots mostram a ordem em que o sujeito fixa o olhar em pontos de um texto ou de uma imagem na tela, a duração dessas fixações, podendo esse tempo ser comparado ao tempo de fixação em outros pontos, e o caminho que os olhos do sujeito percorreu durante uma consulta a apoio externo, como na Figura 4 a seguir.

Benzer Belgeler