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O IEPHA, por meio da Deliberação do CONEP nº 001/2009, exige um histórico do bem, que deve conter antecedentes (origem da manifestação/atividade: de onde surgiu, quando surgiu), assim como a evolução histórica cultural (quando chegou ao município) e as transformações da atividade cultural. Mostraremos como a FUNARBE procurou atender a essa demanda, e intencionamos inserir nossas próprias reflexões, as nossas inferências sobre a forma como o congado foi historicizado, considerando os estudos de outros autores e o contexto que propiciou a produção deste material.

Devemos pensar o motivo, por parte do dossiê de registro, de se historicizar a manifestação. Em primeiro lugar, sendo um bem cultural (material ou imaterial), já partimos do pressuposto de que ele está inserido na história local, influenciando-a e dela recebendo influências. Em seguida, é interessante verificarmos como os agentes dessa manifestação têm se posicionado na cidade: uma realidade social, para os congadeiros e para a cidade, foi aos poucos sendo construída, com base nos sentimentos, anseios e na visão de mundo dos participantes. Uma produção histórica que estuda uma prática cultural deve compreender as formas e os motivos que, à revelia dos sujeitos sociais, traduzem as suas posições e interesses confrontados e que, paralelamente, descrevem a sociedade tal como pensam ou como gostariam que ela fosse.

Já sabemos que o congado é um sistema religioso, que se fundamenta em origens míticas. Neste caso, as representações simbólicas construídas pelos congadeiros, a priori, são funções que permitem a apreensão da realidade por meio dos signos linguísticos das figuras mitológicas e da religiosidade, sincrética, combinando elementos africanos e da religião católica.

Percebemos conexões entre os objetivos da abordagem histórica cultural e os da análise de performance, considerando que ambas, através de metodologias diferentes, pretendem captar e analisar as representações simbólicas de um determinado objeto, e a transmissão desses símbolos pelas sucessivas gerações. No primeiro caso, entretanto, quando se historiciza o bem, é preciso usar fontes que remetem ao seu passado, para compreender sua trajetória e o simbolismo atual. São considerados parte dessas fontes arquivos e depoimentos orais. No segundo caso, recorre-se ao repertório que a manifestação traz consigo, no tempo presente.

Então, visamos a analisar o histórico da celebração, no registro, observando se também houve uma tentativa em compreender as representações simbólicas expressas na prática da celebração, e quais os arquivos e repertórios foram consultados.

O dossiê inicia o histórico do Reinado explicando o que é o congado e citando a formação das irmandades no período colonial, inclusive pelos negros. Em Betim, é assinalada a existência de registros escritos datados a partir de 1814, referindo-se à existência da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e da construção de sua capela:

Sobre a Festa de N. Sra. do Rosário de Betim propriamente dita, registros escritos são raros e fazemos uso da memória social através de fontes orais. Sabe-se, por

exemplo, que, até 1927, os congadeiros betinenses praticavam a “Contradança”,

antiga tradição popular afro-luso-brasileira. Eram formados 12 pares de homens, sendo que, em cada par, um se vestia de mulher. Há uma referência, nesta festa, aos 12 Pares de França, o que reforça as primitivas ligações entre o Reinado e as festas

representativas do embate entre cristãos e mouros, a exemplo das cavalhadas. A festa ocorria nos dias 15 e 16 de junho e sua culminância se dava no pátio da Igreja do Rosário (FONSECA, 1975)89. É provável que a Festa de N. Sra. do Rosário tenha atravessado o século XIX e enfraquecido bastante na primeira metade do século XX. É em meados desse século que emerge o patriarca dos congadeiros betinenses, Joaquim Nicolau (FUNARBE; MIGUILIM; PREFEITURA DE BETIM, 2009, p. 47).

Houve a consulta de arquivos oficiais (no caso dos registros sobre a irmandade) e de fontes orais, aludindo-se a uma prática ritualística (contradança). Também é citada a aparição do Senhor Joaquim Nicolau, considerado pela localidade como uma grande liderança das festividades religiosas de caráter afro-brasileiro em Vianópolis (regional administrativa de Betim).

Vimos no estudo sobre os congados que as irmandades, organizadas em torno do culto a um santo padroeiro, existiram em toda a América Portuguesa e, pela abordagem historicista, foram elas que introduziram os Reinados no Brasil. Em Betim, conforme a documentação referenciada pelas autoras do dossiê, a presença de uma irmandade para tomar a frente da construção da capela e do início dos festejos foi crucial. Situação que permanece até a atualidade, pois a celebração do Reinado no município continua a ser praticada sob a égide da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, e parte dos ritos ainda ocorre naquele templo. Entretanto, possivelmente por falta de fontes, o dossiê não aponta a trajetória histórica daquela entidade, e não percebemos se há uma continuidade administrativa desta com a antiga Irmandade dos Homens Pretos.

Em vários momentos, os autores citam que recorreram principalmente a fontes orais, porque há poucos registros escritos sobre a manifestação. Cabe então lembrarmos que o congado se fundamenta e se perpetua através da oralidade, tendo em vista a sua origem luso- afro-brasileira, cuja religiosidade é oral e baseada nos conceitos de ancestralidade.

Apesar dos depoimentos serem cruciais, também podem apresentar suas próprias falhas: no caso do Reinado, eles podem remeter-se aos mitos e às histórias contadas pelos mais idosos, mas esquecer de alguns fatos; podem colocar suas impressões pessoais, dando maior relevância aos próprios desejos e contradições; podem sofrer influências externas, inculcadas por regras sociais e de conduta (hegemônicas ou não).

Em seguida, o dossiê apresenta uma breve biografia do Senhor Joaquim Nicolau. É também mencionada a escritura de doação do terreno, por parte do Senhor Joaquim para a capela, no dia 05 de outubro de 193890.

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FONSECA, Geraldo. Op. Cit.

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O documento, conforme o Funarbe; Miguilim; Prefeitura de Betim (2009), encontra-se no Livro de Chancelaria da Paróquia de Nossa Senhora do Carmo, Arquivo da Cúria Metropolitana de Belo Horizonte.

Os autores do dossiê salientam o pioneirismo do Senhor Joaquim Nicolau, que também montou duas guardas em Vianópolis, uma de congo e outra de moçambique, para garantir a celebração do Reinado no local. Ele é lembrado como uma liderança firme e exigente nas tradições; uma delas era a organização das guardas em filas, e no centro podiam ficar apenas os capitães.

Vemos aqui uma tentativa do dossiê de, através de memórias orais, buscar uma comportamento performático, idealizado pelo líder maior e acatado pela comunidade congadeira. Consta que a festa durava dois dias, no sábado e no domingo, e apresentamos aqui dois depoimentos citados no dossiê:

De casa, no Teixeirinha, a guarda ia batendo até a igreja para levantar a bandeira. Voltava batendo até a casa, onde o vô dava café à turma. Então, ia de novo batendo, até a capela, para as matinas [...]

Hoje em dia, o pessoal não sabe que a festa do Rosário é de rua. Todo mundo só quer andar de carro (2009, p. 49).

São assinaladas lembranças de hábitos que permanecem (o levantar a bandeira, o café) e de costumes que estão se perdendo (com o andar de carro). São tentativas de se reconstituir um passado e verificar as mudanças desde então, que se mostram fragmentadas. Recorrer-se à memória apresenta essas dificuldades, pois as pessoas não guardam todas as lembranças, conseguem rememorar alguma coisa que as marca; e a falta de documentos escritos, o que também reflete o caráter oral da celebração, colabora para dificultar essa reconstituição histórica, principalmente do repertório desses grupos. Os arquivos mais passíveis de consulta são o próprio repertório das manifestações.

O dossiê registra uma tradição familiar, de transmissão dos conhecimentos ritualísticos, típica das religiões africanas e orais. Assinala-se a permanência do líder até a sua morte, também como um indício da tradição, pois isso mostra a devoção do Senhor Joaquim pela celebração, e inferimos que ele era mesmo bastante respeitado pelos seus pares, para manter sua liderança até o seu falecimento. Para o respeito dispensado ao líder, este tem que ser endossado, ter atitudes consideradas coerentes com sua função, que primem pela ética e pelo zelo com os membros da sua comunidade.

O papel do Senhor Joaquim, como iniciador da manifestação e mestre no ensinamento das tradições performáticas da celebração, pode, sob a nossa percepção, ser comparado à

função desempenhada pelo “narrador”, que para Benjamin (1980) figura entre os mestres e os

sábios, elos de transmissão dos saberes. Assim, consideramos a iniciativa da FUNARBE muito profícua, em buscar compreender a biografia de Joaquim Nicolau e relacionar a sua trajetória com a história da manifestação.

O histórico mostra algumas informações contraditórias e descontínuas. Depois de ter afirmado a desativação, na década de 1950, retoma uma fala da capitã-regente do Reinado e vice-presidente da irmandade, sobre a celebração nos anos de 1970 e 1980. A festa parecia ocorrer, conforme o dossiê, espaçadamente, e foi retomada na década de 1970 com a iniciativa de um frei que, juntamente com outras lideranças, reforçaram o andamento do festejo. Eram duas guardas: uma de congo; e outra de Moçambique91.

Esse dado pode nos remeter às divergências nas rememorações dos entrevistados. Alguns deles podem lembrar-se de histórias e outros não: por questões afetivas, por melhor capacidade de memorização, por um envolvimento pessoal, com menção a experiências, tensões, satisfações e decepções. Neste caso, alguns congadeiros podem ter esquecido períodos ou atuações do Reinado, ou por simples desconhecimento deste; outros, por uma ligação mais estreita, se lembraram com mais facilidade. Huyssen (2000) confirma que a memória é sempre transitória, notoriamente não confiável e passível de esquecimento, ou seja, é humana e social. Como está sujeita a mudanças, não pode ser armazenada para sempre, em monumento.

Podemos considerar que a memória também não pode ser armazenada em arquivos? O entrevistador, de certo modo, ao elaborar as perguntas, gravar e transcrever as respostas, tenta transformar essas memórias em arquivos. Esses arquivos, entretanto, podem ser desconexos, pela própria característica humana da memória ou por inabilidade do entrevistador. Elaborar um histórico com base nessas memórias também demanda uma capacidade de conciliá-las com o contexto, de promover ao leitor uma visualização do objeto, o que nos mostra um comportamento também performático.

Contudo, vimos no referencial teórico sobre o registro a importância da escrita para a preservação da memória, ainda que esse método apresente as suas próprias falhas. A tradição oral é flexível, fluída e dinâmica, e transportá-la para um suporte fixo possibilita sua maior perenidade.

Os autores do dossiê apontaram que o Reinado teve continuidade, após a morte do Senhor Joaquim Nicolau, por meio de seu filho, que deu prosseguimento à guarda de moçambique, durante oito anos. Logo em seguida, ficou sob o comando de outras lideranças. A equipe da FUNARBE mostrou a evolução das guardas do congado da cidade, apontando a origem das mais novas por meio das antigas, o que sinaliza a transmissão do repertório e do conhecimento performático, em relações familiares e/ou de compadrinhagem. A estrutura do

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Os nomes foram mesmo registrados de modo informal, pois as pessoas entrevistadas não se recordam dos nomes completos, e é usual elas remeterem umas às outras por meio de apelidos.

dossiê exige que se discrimine e explique a transmissão do conhecimento para gerações futuras, e as mudanças ocorridas, exatamente pelo fato de o bem imaterial em si, qualquer que seja a categoria em que ele esteja inserido, ter uma natureza dinâmica e sujeita a mudanças.

Taylor (2003), sobre a transmissão do repertório, explica que as performances também se replicam através de suas próprias estruturas e códigos. O processo de memorização, de seleção, ou de internalização, assim como a transmissão, ocorrem no interior de sistemas específicos de re-apresentação. Múltiplas formas de atos incorporados estão sempre presentes, embora em um constante estado de inovação. Esses atos se reconstituem e se transmitem através de memórias comuns, histórias e valores de um grupo/geração para a seguinte. São atos consagrados, que geram, gravam e transmitem conhecimentos.

Essa transmissão pode ser passada também por meio de narrativas. Segundo Ong (1998), as narrativas são importantes em culturas orais primárias, que abrigam uma grande parte do saber em formas sólidas extensas, razoavelmente duradouras, que significam formas passíveis de repetição. Essa repetição, por via da oralidade, segue modelos que, segundo o autor, se dá em padrões rítmicos, equilibrados, em repetições ou antíteses, aliterações e assonâncias; ou seja, em conjuntos temáticos padronizados, assim como em provérbios, sempre ouvidos e repetidos, para facilitar a assimilação das informações relativas àquelas narrativas.

Para o surgimento de novas guardas em Betim, e continuidade das mesmas, como se

trata de grupos que se manifestavam via oralidade, eles precisaram recorrer a tais “técnicas”.

Resta-nos saber como o dossiê registrou essa transmissão.

Pelo que observamos, os autores fizeram isso de uma forma mais descritiva, apontando a formação das guardas, mas dando ênfase ao nome de suas lideranças. A equipe da FUNARBE ressalta uma disputa entre os líderes, que surgiu e se mantém em alguns momentos, na criação dos ternos. Esse é um aspecto sempre enfatizado pelos elaboradores do dossiê por, conforme os próprios, dificultar a sociabilidade entre os grupos do Reinado de Betim.

É também mencionada a transmissão da função da liderança conceitual e ritual da celebração – também conhecida como função de pé-da-coroa ou guardião da coroa do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Betim – desde Joaquim Nicolau até o líder atual. Os produtores do dossiê ressaltaram que presença deste líder atual, na função, não é uma unanimidade na Irmandade, mas ele é respeitado por todos, pelo seu domínio dos saberes rituais e seriedade na condução dos assuntos relativos ao Reinado. O dossiê aponta que a

transmissão da liderança é ritual e bastante significativa para a coesão do grupo. Atualmente, Betim conta com doze guardas, conforme está discriminado no Anexo VIII.

Nessa apresentação da multiplicação das guardas, verificamos uma importância dada pelos autores do dossiê em citar os nomes das principais lideranças e, em alguns casos, como elas assumiram tais posições: por herança paterna; por mérito em decorrência da atuação, desde a ocupação de postos mais baixos; por conflito com as lideranças, e tais divergências levaram os dissidentes dos grupos anteriores a criarem grupos novos. A apresentação dos nomes é uma exigência do IEPHA, e, no caso deste bem cultural, sabemos que os capitães têm realmente um papel de destaque e autoridade nas guardas.

Notamos também uma tentativa de explicar como essas lideranças se inseriram no congado e como elas apreenderam os conhecimentos. Entretanto, deparamo-nos com menções breves a relações de descendência africana e aprendizado de rituais.

Conforme apresentamos nos capítulos sobre congado e registro, os ternos de congado apresentam uma estruturação hierárquica, desde os reis e rainhas, passando pelos capitães e agentes das irmandades, até chegar aos dançantes. Cada um deles possui uma função a cumprir, mas veremos que os autores do dossiê do registro do Reinado de Betim se ativeram, preponderantemente, aos papéis desempenhados pelas lideranças do séquito real e dos ternos. Consideramos essa atenção relevante, por procurar mostrar as vivências das direções no Reinado e o simbolismo desempenhado pelas suas performances, na celebração.

Outro ponto que podemos destacar é a relação entre os congadeiros e a Igreja Católica, que pareceu se mostrar de modo conflituoso em algumas guardas, mas harmônico em outras. Mencionamos, também no capítulo sobre o congado, a existência de uma discriminação religiosa, o que tem dificultado a compreensão de leigos a respeito das práticas e valores espirituais da manifestação.

Os autores do dossiê mostraram também a criação de um terno para mudar a cultura local, no sentido de se minimizar a violência da região, tendo como alvo as crianças e adolescentes.

Para este histórico, seria interessante apontar os métodos de transmissão do repertório, durante o tempo da existência da celebração: identificar as formas de memorização dos comportamentos, o processo de aprendizagem, a incorporação de elementos ritualísticos e performáticos que se tornaram característicos na manifestação. No entanto, priorizou-se a relação dos nomes dos ternos e seus respectivos líderes, mas houve breves alusões à origem africana de alguns deles.